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10 de março de 2025

Sonho realizado antes de morrer

Aristides entrou na saleta disfarçando o tremor nas mãos e o gelo que lhe contraía a espinha. Trazia biscoitos, requeijão, batatas chips, ketchup e coca-cola. Era o pedido para o lanche da tarde.

Deixou a bandeja e não esperou agradecimento, pois sabia que nunca o ouviria do presidente.

- Que que é? Vai ficar plantado aí? – disse o chefe, sem levantar a cabeça – Já fez seu serviço, agora chispa, que eu tô com muita coisa aqui.

Aristides puxou a arma que ganhara de presente do filho do chefe e apontou para a testa.

- “Filho da puta!”

Foi só o tempo de o chefe erguer a cabeça e receber o único tiro. Aristides apertou as pálpebras, soltou uma gargalhada e o homem tombou sobre a mesa.

- Tamo livre.

Abriu os olhos estatelados, porém parecia sorrir. Não estava consciente; ainda assim sorria um riso de alegria de criança travessa. O enfermeiro sentiu sua agitação que, apesar da respiração sôfrega, até poucos minutos dormia profundamente, sedado que estava.

Conferiu os aparelhos, tocou-lhe o ombro, fitou-o com pesar.

- Andou sonhando, seu Aristides... – disse, com carinho – Está tudo bem, não se agite.

Aristides cerrou os olhos. Os lábios mantiveram um sorriso de lado. O enfermeiro juntou suas mãos com a do paciente e rezou um Pai Nosso.

A ausência da mulher na literatura

Estávamos a uma semana do Dia Internacional da Mulher, quando fui convidada para dar uma palestra a estudantes de magistério sobre a presença da mulher na literatura. Nenhum material pronto; nada arquivado. Priorizei a tarefa e mergulhei em pesquisa sobre o assunto. Seriam poucos dias para levantar dados históricos, informações atualizadas, situar o tema e roteirizar o discurso. Mal comecei a busca e dei de cara com uma pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília, que definiu o tom da minha conversa com as alunas – não falaria da presença, mas da ausência da mulher na literatura.

A pesquisa, iniciada em 2003 pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília, coordenada por Dalcastagnè, concluiu que o perfil do autor de romances no país, publicados pelas grandes editoras (Record, Companhia das Letras e Rocco), manteve-se o mesmo por mais de quarenta anos: esse autor é homem, branco, de classe média, nascido no eixo Rio-São Paulo. Os narradores também estão no mesmo lugar que seus autores, sejam protagonistas ou coadjuvantes: na maioria são homens, brancos, de classe média, heterossexuais e moradores de grandes cidades.

Os resultados da primeira etapa da pesquisa foram divulgados em 2005 e os da segunda etapa em 2018. Foram analisados 692 romances escritos por 383 autores, nos períodos de 1965 a 1979, de 1990 a 2004 e de 2005 a 2014. Os percentuais não surpreendem, no entanto chocam, por se tratar de um registro documental de uma realidade ainda difícil de ser mudada e, pior, negada inclusive por editores.

De 1965 a 1979 foram 82,6% de autores homens contra 17,4% de autoras mulheres; de 1990 a 2004 a maioria masculina baixa para 72,7% contra 27,3% de autoras mulheres; e de 2005 a 2014 livros publicados por homens ficaram em 70,6% e de mulheres em 29,4%. Entre as protagonistas, mulheres também são minoria, e mulheres negras, tanto na posição de autoras como na de personagens protagonistas aparecem abaixo de 10%. Personagens negros, principalmente mulheres, ainda aparecem como serviçais. Os autores são majoritariamente do Rio de Janeiro (33%), São Paulo (27%) e Rio Grande do Sul (9%). O que até então poderia ter sido chamado de “achismo feminista” se revelou uma ausência gritante documentada em pesquisa acadêmica.

Não coincidentemente, à mesma época descobri o projeto “Leia Mulheres”, criado em 2014 pela escritora Joanna Walsh e já consolidado no país, com tendência a crescer cada vez mais, pois estimula braços em todos os municípios. O projeto consistia basicamente em conclamar a todos e todas a lerem mais escritoras, já que no restrito mercado editorial mulheres não tinham (e ainda não têm) tanta visibilidade. A partir de 2015, Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques levaram o Leia Mulheres para espaços físicos, como livrarias e casas de cultura. Hoje, homens e mulheres leem mulheres em cerca de 150 municípios de todos os estados brasileiros e, ainda, na Alemanha, Portugal e Suíça. Uma campanha que circulou na Internet nos convidava a contar “Quantas mulheres você tem na estante” e foi o mote escolhido para não só estimular o hábito da leitura nas alunas de magistério, como conclamá-las a valorizar a produção de escritoras, inclusive com o reforço do “você também pode”. Afinal, mulheres ainda estão ausentes na literatura e em muitos outros segmentos por falta de “autorização” do machismo estrutural que se esforça para mantê-las distantes do desenvolvimento intelectual e do mercado produtivo, em qualquer área.

Registros como o da professora Dalcastagnè existem para que mulheres que escrevem – e também as que leem – tenham conhecimento do lugar que (não) ocupam e saibam que necessitam lutar bravamente para garantir no mínimo o que lhes é de direito: o de poder publicar sua(s) obra(s). Muitas não alcançam uma editora pelo simples fato de serem mulheres – sim, acontece! Em 2015, por exemplo, a escritora Catherine Nichols, depois de ser rejeitada por quase uma dezena de editoras, experimentou enviar seu manuscrito sob o pseudônimo de George. Recebeu oito respostas positivas. Nas festas literárias com grande cobertura da imprensa nacional, quando uma mulher é o foco, quase nunca é pela qualidade do seu trabalho e, sim, pelos atributos físicos. Torna-se musa do evento e ganha fotos de seu rosto e corpo nos jornais, ao invés das capas de seus livros. Milhares de mulheres têm dificuldade de escrever/publicar por causa das jornadas domésticas. Livros escritos por mulheres ainda são considerados literatura feminina, no sentido de romântico, desinteressante para o mercado, sem qualidade literária que assegure sucesso de vendas.

Pela mesma constatação da ausência da mulher na literatura, foi fundado no Brasil, em 2017, o Movimento Feminista Literário Mulherio das Letras, que atualmente conta com mais de sete mil integrantes, todas escritoras, profissionais de Letras ou que fazem parte da produção de livros, como capistas, designers, diagramadoras, ilustradoras, editoras, etc. O Movimento foi fundado por um grupo de escritoras, reunidas em Paraty durante a Festa Literária Internacional (Flip) de 2016, convictas de que não só as autoras eram menos contempladas no mercado literário, como tinham menor visibilidade e não havia equilíbrio de gênero nos convites para os grandes eventos, até hoje dominados e ocupados por homens. Já no ano seguinte o movimento reuniu mais de quinhentas escritoras em um primeiro encontro nacional, em João Pessoa/PB e não parou mais. Teve encontro em 2018, em Guarujá/SP e, em 2019, em Natal/RN. Em 2020, a pandemia obrigou-as a realizar o encontro on line [1].

A mentora intelectual do Mulherio das Letras é a escritora santista Maria Valéria Rezende, autora de cinco romances, três livros de contos e nove infantis/juvenis, premiada com Jabuti, São Paulo de Literatura e Casa de Las Americas, entre outros. Freira e educadora popular, viajou o mundo e conheceu a pobreza extrema por todos os cantos. Com a vasta experiência adquirida em suas andanças, conhece a fundo a realidade das populações mais afastadas de nossos olhos urbanos. Poucos fazem ideia de como vivem essas pessoas. Tudo o que aprendeu, sentiu e viveu transporta para suas obras, com delicadeza e sensibilidade, numa literatura que vai do humor à realidade mais dura dos brasileiros esquecidos nas comunidades periféricas. “Eu respirei o mundo inteiro, e isso entrou pelos meus cinco sentidos. Há uma variedade de lembranças, sensações, impressões... e é com isso que eu construo a minha literatura” – ela diz. Há mais de quarenta anos mora na Paraíba, conhece muito bem a realidade do povo nordestino e transporta essa realidade para sua ficção.

À Maria Valéria Rezende juntam-se centenas de outras romancistas, contistas, cronistas, poetas, acadêmicas, entre as quais posso citar algumas, com certeza deixando muitas de fora: na categoria romance/conto temos Cinthia Kriemler, Deborah Dornellas (Prêmio Casa de Las Americas), Maria José Silveira, Patrícia Melo, Eliana Alves Cruz, Marilia Passos, Natália Borges Polesso, Conceição Evaristo (também contista, poeta e ensaísta), Henriette Effenberger, Lindevânia Martins; na poesia, Divanize Carbonieri (também contista e romancista), Marilia Kubota, Jeanne Araújo (também romancista e cronista), Diana Pilatti, Nic Cardeal, Dalila Telles Veras, Liria Porto (Prêmio Jabuti), Lia Sena; na pesquisa acadêmica, Eurídice Fiqueiredo, Regina Dalcastagnè, Lilian Schwarcz, Ana Elisa Ribeiro, Luciana Hidalgo, Candice Azevedo, Djamila Ribeiro. A lista é enorme e só cresce.

Encerro este texto convidando você, leitora(or) a passar os olhos pelas prateleiras de suas estantes e verificar quantas mulheres há nelas. Caso constate que há poucas em relação aos homens ou, na pior hipótese, que as autoras estão ausentes, a relação acima pode ser um ótimo começo para uma grande mudança (sem falar nas autoras consagradas e celebradas no Brasil e mundo afora). Fica aqui, portanto, o convite para que possamos contar com sua colaboração no processo de extinção da desigualdade de gênero na produção editorial brasileira.



[1] Em 2021 não houve encontro. Em 2022 foi realizado novamente em João Pessoa/PB; em 2023, no Rio de Janeiro; em 2024 em Belém/PA.

(Texto originalmente publicado na Revista Arigó, Volta Redonda, 2022)

Drusa de Ametista

As residentes da casa de repouso quase nunca experimentavam um dia diferente, uma novidade que escapasse dos cuidados diários repetitivos e das minguadas visitas. Eram poucas internas na pequena morada para mulheres, em que viviam de seus próprios silêncios e lembranças. Quando muito, faziam suas refeições na mesa da sala ou tomavam sol no jardim.

Celina chegou radiante com sua caixa de livros – iria ler para as idosas. Em contatos com colaboradoras da instituição, a jovem estudante universitária coletara preferências e escolhera os títulos. Embora nem todas aceitassem recebê-la duas vezes na semana, para ouvi-la narrar histórias, Celina ficou satisfeita com a aceitação inicial.

Às portas dos noventa anos, tia Dedé foi quem surpreendeu, ao aceder de bom grado as visitas de Celina. Com as articulações inflamadas e doloridas pela síndrome que lhe invadiu o corpo a partir dos sessenta, não lhe agradavam os afagos e docilidades; não gostava de falação e não tinha trava na língua. Sem família e amigos, optou pelo recolhimento na casa de repouso, para escapar das penas do mundo e seria a primeira vez que deixaria de lado a rabugice, para se abrir a alguém de fora. Sempre fora solitária, mesmo rodeada de gente, porém a improdutividade a empurrou para a reclusão total e a distância de tudo o que lhe reportasse sentimento e sensibilidade. Apesar da retração no comportamento, curtiu a perspectiva de apreciar boa leitura, quem sabe com alguém que lhe levasse uma centelha de ânimo. Culta, inteligente e sagaz, supôs que poderia ser, no mínimo, divertido.

É com tia Dedé que se estabelece uma relação estreita, a partir do momento em que Celina apresenta a obra selecionada – Drusa de Ametista, de Maria Zelda Castanheiro, autora que conhecera recentemente. Celina apostou que o denso romance filosófico, publicado na década de setenta, suscitaria à mente de tia Dedé ao menos um bom papo, de acordo com a diminuta lista de interesses apontados por ela. Esquiva no primeiro dia, não demorou a criar com Celina uma amizade delicada, singela, fortalecida por um respeito amoroso.

– Você tem olhos de bola de gude, garota – dizia tia Dedé a uma Celina atenta, durante as longas conversas que ficaram comuns.

Tia Dedé não apenas se divertiu, como participou ativamente das sessões de leitura: fazia perguntas, propunha discussão, falava mal de personagens, pedia à Celina que tomasse nota do que debatiam sobre os dramas e reflexões do casal protagonista.

– Diabo de diálogo extenso e patético! Nada produtivo o que diz Ivan à Lúcia, não acrescenta nada. Tem excesso de divagação sobre a ametista, sem utilidade prática na história. O que você acha, Celina? Quero saber o que sai dessa cabecinha verde.

– O parágrafo anterior pede esse diálogo, tia Dedé, vamos retomar pra conferir.

– Anote, menina, anote...

A estimativa de uma hora e meia, no máximo duas horas para cada encontro, não foi cumprida. As tardes com tia Dedé não tinham teto para acabar. A velha senhora, arredia e aborrecida, mostrou-se envolvente e sedutora. Ocupou-se de alimentar o entusiasmo de Celina e provocar-lhe a curiosidade, promovendo verdadeiros colóquios literários, repletos de indagações, controvérsias, devaneios e a leitura das quinhentas e tantas páginas se estendeu por tempo maior que o previsto.

Celina tentou emendar outro livro, mas tia Dedé, sob pretexto de que precisaria decantar o volume de informação, despediu a moça com um ríspido “Depois...”. A dama da ranzinzice retornara ao seu lugar e deixou na jovem estudante uma semente em brotação. Celina mergulhou em mais créditos na universidade, as horas ficaram escassas e as visitas às idosas foram rareando. O trabalho voluntário também ficaria para depois.

A universidade e os sonhos de juventude estavam adormecidos lá atrás, naquele canto da memória em que se guardam imagens desfiguradas e nebulosas. Celina leciona e mora em outra cidade, trabalha em três turnos, precisa pagar contas e sobreviver do próprio trabalho. Ao chegar à sala de professores, encontrou um envelope no seu escaninho, remetido pela casa de repouso. “Como isso veio parar aqui?”. As mãos trêmulas e úmidas que rasgaram o papel, encontraram as notas do livro que ela leu para tia Dedé, em inúmeras folhas manuscritas. No fundo do envelope havia um pendrive, em que constava um arquivo de áudio. Era uma gravação de tia Dedé, pedindo que Celina lançasse uma nova edição de seu livro, Drusa de Ametista, revista e atualizada, agora depois de sua morte, com as devidas alterações anotadas e exaustivamente discutidas. A dedicatória exclusiva seria para Celina Ambrósio, “a menina dos olhos de bola de gude provou à Maria Zelda que é possível renascer na velhice”.

Subversiva

Na saída do banheiro do hospital passaram-lhe um folheto, com informações sobre direitos não assegurados; o que o governo escondia e a imprensa não podia noticiar; e quem denunciava era preso e desaparecido. Sabia algo a respeito, porque ouvira do irmão, antes do sumiço. Por onde andaria? A pergunta veio à mente junto com um arrepio e o ato instintivo que levou o papel dobrado para dentro do sutiã.

O contato foi inusitado para Eulália, que nunca experimentava nada diferente em sua jornada de trabalho: acordava às 4h30, despertava Joana, aprontava tudo para que a filha chamasse e cuidasse dos irmãos menores e fossem para a escola. Limpava e tornava a limpar enfermarias e banheiros e só os veria à noite, quando precisava dar conta de atenção, carinho, colo, em meio ao preparo do almoço do dia seguinte e montagem das marmitas. Colocava todo mundo para dormir e ia para a cama.

O sentido da vida era garantir o sustento e os estudos das crianças. Tinha pouca instrução – o bastante para ocupar vaga de servente – e não alcançava o entendimento da parte que deveria lhe caber, porém se indignava com as faltas na sua mesa e as sobras nas mesas de tantos outros. Nas missas da igreja da vila, o padre citava o Evangelho de Jesus Cristo, pregando o amor ao próximo, a igualdade, a justiça, mas na prática não era assim e Eulália sabia que aquilo não estava certo: o dinheiro não dava para o mês, sofria com assédio no emprego, não havia como reclamar.

Mostrou o folheto ao marido e queimou-o. Silenciaram. Mais uma vez, calaram.

– Meus filhos! Joana! Meus filhos! O que estão fazendo com a gente?!

As lágrimas colaram no rosto o tecido do capuz justo que trazia à cabeça, enquanto escutava os ruídos de carros que arrancavam com fúria. Interrompeu os soluços, diante de ameaças contra suas crianças, caso não se calasse. Chorou em silêncio durante o demorado trajeto, o tempo que durou o estupro de Joana, logo que a mãe foi arrancada de casa. Jamais teria notícias da família.

Eulália teve os cabelos cortados rente ao couro cabeludo, raspado em alguns pontos da cabeça. Não quer notícia do seu irmãozinho? Os seios queimados por cigarros. Quero nomes, fala! Mamilos torcidos com alicate. Já lhe contaram que não vai sair daqui viva? Choque na vagina, no ventre, no ouvido. Vou trazer surpresinha, até você abrir a boca! Cadeira do dragão, nua e molhada. Olha, olha... está se mijando feito um bebê! Estupros. Baratas no corpo ferido. O rosto desfigurado por espancamento. Vaca imunda!

O carro se deslocava devagar, desacelerava, avançava de novo. Deu várias voltas e freou bruscamente. Duas portas se abriram e Eulália foi puxada para o chão. Duas portas bateram com violência e o carro arrancou. Sumiu como se não tivesse existido. Sem forças para levantar, Eulália se deixou ficar, sentindo a terra sob as mãos e o cheiro de mato molhado depois da chuva. Puxou o capuz, hesitante. Observou a escuridão úmida, celebrada pelas vozes dos grilos e sapos, sentiu o frio que é frio de verdade, o vazio do breu. O abandono e a solidão que seriam sua companhia para sempre.

 

Velhos são gente, não anjos

As tradições familiares, por afeto ou pressão histórico-cultural ou por influência religiosa, generalizam incoerências. Uma delas é afirmar que todo idoso é sábio, que se deve valorizar e respeitar a sabedoria dos mais velhos, que se deve ouvi-los porque são referência, seguir seus conselhos, aprender com eles. Só que idosos são seres humanos, têm limitações, falhas, têm bom ou mau caráter, têm seus lados sombrios. O avanço da idade não promove automaticamente uma mudança de índole.

Não é porque tem cabelo branco e 60+, 70+, 80+ e tantos que se torna sábio de repente. Sabedoria, no sentido atribuído aos idosos em geral, requer um bocado de desprendimento, mais uma boa dose de equilíbrio, entendimento das mazelas do mundo, aceitação das diferenças, serenidade, honestidade consigo e com os outros, preocupação e ocupação com as necessidades alheias, não com o que os outros fazem de suas vidas. Mesmo sem estudo formal, aquele que carrega a sabedoria consigo possui no coração e na alma predicados que o torna uma boa referência, pela sensatez, lealdade ao praticar o que prega, simplicidade e objetividade finas, que sempre surpreendem a quem tem o dom de complicar. Sabedoria é para poucos.

Sem esforço de memória reconheço ao menos meia dúzia de velhos e velhas canalhas, que só enxergam o próprio umbigo e querem que o resto do planeta de exploda – os que podem, já colaboram para que o planeta se exploda mesmo. Gente que não pensa duas vezes ao apontar a “bichinha” e fazer chacota ou dizer que a pessoa de pele negra “nasceu depois das 18h”. Gente que se dedica a olhar e criticar o gordo, o feio, o velho assanhado, a velha desavergonhada, enquanto suas próprias escolhas são sempre perfeitas e de acordo com regras “da boa educação e do bom comportamento e da moral e blá-blá-blá”. São frequentadores fiéis dos templos religiosos, de qualquer denominação, fazem questão de dar esmolas, mas não querem pobre e preto por perto, preto é sempre bandido, população de rua só emporcalha a cidade e atravanca o caminho. São idosos maus, maledicentes, rancorosos, preconceituosos, racistas, egoístas, que vivem de alimentar ódio. Sim, canalhas também envelhecem, né?

Há vovozinhos fofinhos estuprando netas e netos. Há vovozinhas lindinhas e educadas que não “dão a mão a preto”. Há senhorinhas muito queridinhas que não permitem que suas diaristas usem seu banheiro ou que comam sua comida. Há senhoras “de respeito na sociedade” que literalmente escravizam pessoas. Há senhorzinhos passando a mão em bunda de mulher dentro dos ônibus. Há senhores que alcançam poder, fazem fortuna, constroem patrimônio, família, redes de amigos, ganham prestígio, mas se constituíram no crime e no crime permanecem. Há velhinhos e velhinhas com cara de coitadinhos que tornaram as vidas de suas famílias um inferno, porque são tirânicos. Há velhinhos e velhinhas a arruinar psicologicamente filhos e netos, do alto de suas cadeiras de rodas.

Sabedoria dos mais velhos é uma expressão que não cabe na realidade. Velhos são gente, não anjos. Há os gente boa e os que não são. E os calhordas estão por aí, aos montes, se esbarrando uns nos outros. Basta olhar em volta para vê-los se exibindo, descaradamente, inclusive carregando a responsabilidade de milhares de mortes nas costas. Quantos você conhece?

(Texto publicado originalmente em 2021)

Narcisismo espiritual

Faço três meditações por dia. Passo meia hora olhando dentro de mim. Aprendi a conhecer minha respiração e a respirar cada vez melhor.

Com a prática da meditação e de olhar pro meu interior, adquiri autoconhecimento. Como é bom me conhecer!

Meus chacras estão alinhados e não permito que se desalinhem.

Desenvolvi os bons sentimentos, os bons desejos, mantenho meus pensamentos elevados.

Acendo incensos em todos os cômodos da casa, para que as fragrâncias espantem as consciências negativas que porventura passem por aqui.

Diante dos meus altares, me conecto com energias espirituais e com elas converso, me sinto protegido, seguro.

Estou todo o tempo conectado com o meu divino, meu corpo e meu espírito são cada vez mais leves.

Me vigio permanentemente, tento corrigir os meus erros ou o que penso que sejam os meus erros.

A tudo digo gratidão; a todos desejo luz.

Quando me deito à noite, eu-corpo repouso e eu-espírito viajo e danço em harmonia com o cosmos.

Estou sempre equilibrado, porque busquei minha espiritualidade, busquei profundamente esse encontro com meu eu espiritual.

Estou em paz.

Por isso, o mundo a minha volta não me interessa.

Não quero saber do mundo.

Não quero saber do país.

Não quero saber de política.

Não quero saber.

Se souber dessas coisas, se me der conta de tudo o que acontece ao meu redor, perco a minha paz, perco a minha serenidade e meu equilíbrio espiritual.

Prefiro não saber que há 17 milhões de pessoas passando fome no país.

Prefiro não saber que uma mulher morreu queimada, após tentar cozinhar com álcool, porque não tinha dinheiro pra comprar gás.

Prefiro não saber que existe racismo no Brasil; não quero enfrentar a realidade da população negra, que permanece alvo de assassinatos diários.

Prefiro esquecer que meu país é o que mais mata LGBTQIA+ no mundo.

Prefiro esquecer que a cada seis horas e meia morre uma mulher vítima de feminicídio.

Prefiro esquecer que a cada duas horas ocorre uma denúncia de estupro de uma menina menor de 14 anos.

Assim como não quero nem imaginar que existe um genocídio em curso no meu país, em que setecentas mil pessoas morrerem por descaso; até aproveitei o isolamento da pandemia pra me trancar em casa e orar, mas sem acompanhar as notícias (isso nunca!).

Porque não posso perder a minha paz.

Não preciso saber que a gasolina está mais de 7,00, pois nem tenho carro.

Não preciso saber que há mais de quatorze milhões de desempregados. Já sou aposentado e risco de desemprego não me apavora mais.

Não preciso saber que poderia ajudar de alguma forma, que aqui na minha cidade, bem perto de mim, há vários movimentos pedindo ajuda pra pagar aluguel e dar de comer a muitas famílias que estão na miséria. Já tem bastante gente ajudando, né?

Não posso me aproximar de nada disso, senão minha espiritualidade vai ser abalada, então prefiro ficar aqui quietinho, diante dos meus altares, conectado com meu divino, enquanto o mundo a minha volta pode desabar, enquanto lá fora o país pode afundar, fora de mim, enquanto milhares de pessoas devem estar sofrendo por carências materiais, de saúde, de casa, de comida, de acolhimento.

Não tenho nada a ver com isso. Importante é garantir que meu eu espiritual se mantenha como está.

Trabalhei duro pela minha reforma íntima, cresci espiritualmente, investi minha vida em desenvolvimento pessoal, tantas horas e horas e dias e semanas olhando pra dentro...

Se prestar atenção a tudo o que acontece, desarmonizo meus chacras, posso surtar de preocupações, serei alcançado pelas energias negativas que vêm dessas notícias todas, o que vai ser de mim?

Então, vou ficando por aqui, calminho no meu canto, espiritualizado, leve, quase levitando, em harmonia com o universo. Nada vai tirar a paz que conquistei. Somaisêu.

(Texto publicado originalmente em 2021)

Os meninos vão olhar pra minha bunda?

As redes sociais abriram espaço para a proliferação das denúncias. Movimentos nas redes sociais ampliaram a força e a voz das vítimas. As mulheres botaram a boca no trombone e revelaram abusos e abusadores protegidos há décadas pelo machismo estrutural. Ainda é pouco. Infelizmente, é necessário aumentar o tom da gritaria, juntar mais gargantas, fazer coro também fora da internet, porque a violência sexual não tem freio.

As mulheres deram um passo adiante e encorajaram umas às outras a tornarem públicas suas histórias, ainda que sob o risco de serem culpabilizadas, simplesmente pelo fato de serem o que são, por causa da roupa que vestem, do horário que circulam na rua – comentários que costumam proteger os criminosos. É sempre assim que acontece. No entanto, quantas crianças e idosas são abusadas e estupradas mundo afora? Quantos meninos e meninas, freiras, fiéis das igrejas e religiões várias, atletas?

Dados da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos (ONDH) e do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde são alarmantes:

- 95.200 denúncias em 2020, no Disque 100;

- 368.333 violações, que incluem violência física, psicológica, abuso sexual, abuso sexual físico, estupro e exploração sexual;

- 85% a 95% dos agressores são pessoas conhecidas;

- 30% são pais;

- 72% dos casos de violência contra crianças e adolescentes ocorrem na casa da vítima ou do agressor;

- 69% dos casos são recorrentes;

- 92% das crianças/adolescentes falam a verdade quando relatam os abusos;

- Apenas 10% dos casos são notificados às autoridades;

- A maioria das vítimas é do sexo feminino e mais de 50% na faixa etária entre 1 e 5 anos (!).

Importante repetir informações fundamentais e que não escandalizam ninguém: crianças e adolescentes são estuprados dentro de casa, repetidas vezes, por familiares ou amigos que frequentam o ambiente. São pais, irmãos, padrastos, primos, tios, avôs, maridos das avós, padrinhos, agregados em geral e, ainda, padres, pastores, gurus espirituais, esses escroques que se aproveitam da confiança que a fé cega favorece. Vítimas fáceis, formadas pela credulidade que as entrega de bandeja nas mãos desses pulhas.

Nos EUA, de acordo com estudo coordenado pelo especialista David Lisak, apenas 36% dos estupros são denunciados. No Brasil, os percentuais são muito próximos, segundo estimativa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública – aqui, a notificação é de 35%. Motivo: a certeza de que serão arremessadas para o lugar de culpadas, mentirosas, trapaceiras, ou a certeza de que não vai dar em nada, “porque homem é assim mesmo e homem protege homem, não adianta”, como se ouve muitas vezes.

Na hora do ato em si, a falta de reação é ainda mais comum, primeiro porque as mulheres sentem medo de morrer. Ou podem sofrer um torpor causado pela invasão aos seus corpos, pela brutalidade e selvageria, então emudecem, travam. No caso das crianças, por serem estupradas na maioria das vezes dentro de casa por pessoas de sua convivência, acabam por interagir quase normalmente com os agressores. Especialistas explicam que se trata de um mecanismo de defesa: não são capazes de processar que uma pessoa da família ou amigo íntimo possa atacá-las de forma tão violenta.

Um tempo atrás, uma amiga pediu para conversar comigo. Mal chegou a minha casa e foi logo contando que fora estuprada na infância, pelo próprio pai. Ela, as irmãs e o irmão. Todos submetidos à força e ao poder do pai, machão, agressivo, autoritário. Como a história da minha amiga, outras têm sido reveladas. E são tantas, que chego a me perguntar se alguma de nós passou pela vida sem sofrer abuso de homem. Temo que não. A certeza de que têm direitos e poder sobre o corpo feminino e a necessidade de exercer esse poder é tamanha, que é até difícil imaginar uma mulher que nunca tenha passado por qualquer tipo de abuso.

Uma vez questionei uma conhecida sobre o medo que ela tinha de que a filha de treze anos fosse até à padaria, duas ruas atrás de onde estávamos. Ela me respondeu:

- O marido da minha mãe abusou dela, a estuprou com o dedo e tá solto por aí. Não temos mais sossego depois disso. Não vai sozinha a lugar nenhum.

E não se trata de gente pobre, da periferia, às quais o senso comum e ignorante sempre atribui esse tipo de comportamento. Falo de gente fina, elegante e nem um pouco sincera, estudada e trabalhada no dinheiro que compra casarão no alto do bairro nobre, com garagem do tamanho de um campo de futebol. Atrás dos muros altos dessa gente se escondem, além de piscinas e jardins suntuosos, uma podridão medonha.

E por que isso ocorre?

Porque a maioria de nós permite, silencia, se omite, se esconde, acoberta. Sem contar o persistente discurso que impõe à mulher o papel de objeto, do qual o homem pode e deve dispor quando, como e onde quiser. Vide os comerciais de lingerie para agradar homens; revistas com dicas para sensualizar e conquistar o cara na balada; coach (argh!) ensinando o passo-a-passo para atrair os olhares masculinos; mães que ainda orientam filhas a arrumar homem para casar; mulheres iludidas com tudo isso, enredadas nessa cultura machista acachapante que, mesmo nos dias de hoje, engravidam para garantir um casamento; e muitas etcéteras. A continuar assim, alimentamos esse ciclo histórico de poder e consequente violência. E creio que apenas nós, mulheres, sabemos lutar para mudar essa realidade.

É necessário juntar mais corpos e vozes para engrossar esse movimento. Espero e luto com tudo o que posso e o que aprendo todos os dias para não ver mais uma menina de doze anos experimentar roupa diante do espelho do meu quarto e me perguntar:

- Fala sério, tia, essa calça tá boa mesmo? Jura? Os meninos vão olhar pra minha bunda e querer ficar comigo?

Evidente que rolou uma conversa, mas a menina não é minha filha. O que ela disse foi reprodução do que escuta entre amigas e também em casa, por que não? Quantas vezes ouvi mãe de menina alertando de que “assim nenhum menino vai querer você”! Conheci garota de nove anos que já fazia depilação, porque a mãe exigia que fosse “higiênica desde cedo”. Enquanto o objetivo da roupa, da calcinha, da maquiagem, do sapato, da depilação, for agradar e atrair homem, não estaremos livres da convicção deles de que têm de domínio sobre nós. Transformar essa realidade é um poder que temos e precisamos ter consciência disso e partir para a ação. Denunciar, estimular a denúncia, divulgar nossas campanhas, nosso trabalho no movimento, sermos solidárias com todas as outras em situação de abuso ou violência.

Importante: é urgente reconhecer que a criança precisa aprender na escola o que não aprende em casa. Aula de educação sexual não ensina ninguém a fazer sexo; ensina as diferenças e o respeito a essas diferenças; ensina autoproteção. Milhares de meninas e meninos são rotineiramente estuprados e abusados em casa, sem saber que é errado, que é uma violência. É no ambiente escolar que professores, pedagogos e psicólogos têm condições de detectar que a criança não está bem, perdeu rendimento, está isolada, retraída, chora no banheiro. Se a criança tiver a mínima noção sobre seu corpo e o corpo do outro, muita violência sexual pode ser evitada. Desconfio muito – muitíssimo – dos homens que são contra a educação sexual no âmbito escolar.

Pra terminar: é preciso ficar claro que violência sexual nada tem a ver com sexo.  Estuprar é exercer poder, é subjugação. O homem que não tiver pênis, vai usar o que tiver à mão, vai fazer com cabo de vassoura, de enxada, ferro, sei lá. E vai ser sempre crime.

É isso.

(Texto publicado originalmente em 2021)

Rasgada

As carreiras são mal preparadas pelas mãos trêmulas de Carolina. Divide o conteúdo de um pino em quatro, ali mesmo, no beco, em cima de um carro. Uma cheirada e mais um gole na garrafa de vodca barata que está quase no fim. Gastara boa parte do dinheiro dos serviços da semana num branco mais caro. Não estava a fim de se contentar com o efeito curto de pó vagabundo. Queria sumir de si. Manda as quatro pra dentro, mais um trago na vodca e com dois passos cambaleantes dá com as costas no muro. Emite um gemido abafado, ao mesmo tempo em que passa os braços em torno do tronco, como num abraço a si. Despreparada para a brisa fria da noite, sente o dorso gelar ao contato com a parede alta do colégio. Os membros desnudos arrepiam, Carolina se deixa escorregar, corpo mole. Chão.

Não era esse o efeito esperado. Queria esquecer de novo, mas a euforia não veio. Vê de longe o cara virando a esquina devagar, indo na sua direção; não quer mais. A imagem do moleque atravessa sua retina e à leva de volta a outro tempo, naqueles dias que pareciam jamais ter fim. Ela o olha como naquela fresta. Carolina é tomada por um torpor, enquanto experimenta pontadas na cabeça. Não quero... não, desta vez, não.

Ajoelhada no piso de terra batida, naquele lugar escuro, meio de lado, com uma das mãos apoiada no chão, passa parte dos dias ali, com a cabeça meio tombada, de modo a encaixar o olho no buraco enviesado da madeira velha. O máximo de mundo que vira desde os treze anos era o que depois passou a chamar de “antessala do inferno”: um ambiente com ar de cozinha, uma bancada grande e muito velha no meio, onde Carolina podia ver os pés dele entrando por uma porta estreita logo atrás. Havia sempre vasilhas sujas espalhadas, canecas suspensas que jamais saíam do lugar. Não eram as mesmas em que ele lhe levava água, café, sopa...

O rapaz está ali, mas não avança. Encosta num carro, à distância, acende um cigarro. Carolina olha, pisca para focar a visão. Novamente pela greta ela o vê: está parado próximo a um armário antigo cheio de tralhas: peças de carro, ferramentas, panos rotos, tachos, botinas. A luz é precária, porém já sabe quais serão os próximos movimentos. Está enojada, cansada, esgotada. Ele mastiga algo lentamente e move o pescoço na direção de onde ela está. Carolina se abaixa, se arrasta e se encolhe. Já são sete anos. Sente medo a cada vez que ele aparece. Não sabe mais nada de seus dias de infância, do rosto cândido da mãe, das brincadeiras com os irmãos mais novos, nem da sua última festa de aniversário, quando fez de treze.

Puxa o ar cada vez com mais força, parece não entrar nada nos pulmões, vai dando um aperto no peito. O coração acelera e os pés e as mãos perdem calor. Carolina estremece e vira mais um gole da vodca. A maior parte escorre pelos cantos da boca, que enxuga com o antebraço. Carolina solta o corpo e deixa a bad dominar de vez. A viela em que tantas vezes se entregara às orgias com os moleques estava agora silenciosa. Perdera a conta das madrugadas em que se drogava até perder o juízo e no fundo do beco sem saída era abusada. Desejava ser abusada. Avisava à rapaziada que estaria lá, procurava por eles, esperava, queria, se entregava, depois chorava. Voltava pro cortiço trôpega, suja, deprimida.

O corpo de Carolina parece se mover sozinho, sente pavor, mas não perde o ímpeto, quer se levantar, a mente não para, cai de novo. A consciência falha, pensamentos se sobrepõem uns aos outros, já não tem controle sobre os próprios membros. Não precisa ver pela fresta que ele vem em direção à pesada peça de madeira que fez de porta; sua pisada é lenta, porém firme. As botas batem forte no chão, como a amedrontar Carolina de propósito. A porta é arrastada. Ela se afasta, sentada com as pernas juntas, e se encosta no canto da parede. Os olhos arregalados, os cabelos lhe caem sobre o rosto, diz não.

O rapaz termina o cigarro e segue em frente, para perto de Carolina. Arma um sorriso cínico, abre o casaco, relaxa um braço e com o outro lhe dá um aceno. Ela mal o vê, não lhe reconhece a face, se contorce para tentar levantar e de novo as pernas desobedecem, aperta as costas contra ao muro. A cabeça dói ainda mais, Carolina leva as mãos às têmporas e vira o pescoço de um lado para outro. Diz não repetidas vezes. Ele se aproxima. A mente parece girar em looping, em alta velocidade, o quarto vazio, o medo da solidão, o abandono, o horror, o ódio, as tentativas de fuga, a fuga... Está cada vez mais próximo, não diz nada. Ele se abaixa, toca os cabelos dela.

O cômodo é escuro e ela pode apenas ver seu vulto, sente o cheiro forte da loção, a mesma fragrância de sempre. O asco lhe aperta a garganta. Ele respira já bem perto e ela sente o calor do ar que vem dele. Não, de novo não... O rapaz tira o casaco e joga no chão, desabotoa o fecho da calça lentamente, sem tirar o riso cínico da face. O corpo de Carolina se debate, involuntariamente, não, por favor, está febril, não... eu não quero... O peito infla em movimentos rápidos, num esforço quase inútil de respirar... não faz isso... Não! Para! Por favor, para! Para, pai! Me mata, me mata! Por favor, pai, me mata, mas não faz isso de novo comigo. Me mata.

Convulsão.

Overdose.

9 de março de 2025

Pé-de-não-sei-quê

E o maldito pé de não sei quê enfim pendeu de vez, mortinho. Arqueou o tronco fino lentamente, perdendo sua força; tentou apoiar no muro, mas minha vontade que virasse um molho de folhas secas pareceu vencer o que lhe restava de viço. E ali está: acabado, sem chance de voltar a assombrar minhas lembranças e a se manter como guardião do jardim do amor eterno, como se agora me ameaçasse com sua presença muda. E feia.

Ele caiu. E com ele se foram as últimas lágrimas. As últimas que choraria de raiva, de humilhação. Agora o choro é de foda-se! Desabou o último representante de uma fase sombria.

Dez anos durou aquele arbusto. O mesmo tempo em que dividimos o teto, a cama, a comida, o chão. O mesmo tempo em que nos enganamos ou que eu me enganei. Era pra ser o símbolo da nossa união e da nossa felicidade. Foi o primeiro ser vivo a fazer parte do que seria um lar, em dia especialmente escolhido, com direito a ritual a dois. Recebeu o apelido de pé de não sei quê, pois não sabíamos nada sobre plantas, muito menos que nome teria a arvorezinha que levamos para a casa em obra. Ríamos disso.

O que nunca prevemos é que o mundo é real, com problemas reais e suas consequências. Com as mudanças, mágoas e rancores. Com a maldade pura e fria. Foi uma década de olhos baixos, sorrisos pela metade, concordâncias falsas, cessões por pressão. E, ao final, o transbordamento de tanto desgaste pela via mais torpe: a violência.

Encaro o pé de não sei quê com ódio. O peso de significados que carregava o levou à queda. Eu não resisti, ele também não. Aguentei o que pude, levei a sério o que aprendi com o padre e com meus pais: segurar o casamento, pelo bem dos filhos. Balela. Tornamo-nos todos infelizes - eu, ele e eles - por não sermos capazes de dizer não. Eu não fui capaz de dizer não.

Confesso que dei uma ajudazinha: deixei que se virasse. Se chovesse, teria água; caso contrário, ah, que pena. Era frágil, o pé de não sei quê. Bem parecido comigo lá no início da história. Passei pela manipulação, pela pressão, pelo descaso, pelo abuso. Ele só teve sede e absorveu minhas vibrações negativas para que definhasse sozinho. Finalmente, parou de exalar seu perfume nauseante no fim da tarde.

Por que não o derrubei? Afinal, seria mais rápido me livrar da representação tão marcante dos meus dias de infortúnio. Porque preferi ser cruel. Queria vê-lo se dobrar diante dos meus olhos, vergar o que era altivo e vultoso, beijar o chão. Entregar -se.

Em pouco tempo o caule enrugou, as folhas amarelaram e começaram a cair. Mais uns dias e estava encurvado, até tombar de vez. Morte assistida e comemorada com o que de pior tenho em mim. Imagino que me olha com desprezo, enquanto o encaro com sarcasmo.

Era o que eu queria ter feito, meses atrás, mas não tive tempo, nem jeito. O ódio me faria a arrancar-lhe unha a unha, até ajoelhar e pedir perdão. O ódio que o surpreenderia na madrugada com o quarto em chamas, até sucumbir sufocado. O ódio a mim, por ter me submetido e suportado sem resposta. O ódio por tudo em que se transformou essa existência fracassada. O ódio que me moveu a fazê-lo pagar com a vida, sem sentir nada do que me fez penar.


Corpos Perfeitos

Na mesma semana em que circularam as notícias sobre a morte da influenciadora digital Liliane Amorim, por complicações após procedimento de lipoaspiração, precisei procurar minha amiga e orientadora de pilates, a fisioterapeuta Amanda Leiroz. Tinha urgência de praticar alguns exercícios específicos, em casa, pois minha coluna e as articulações do corpo todo estavam em frangalhos. Conversamos muito sobre movimentos com bola, que já estava comprada, e também sobre a faixa elástica. Ela me adiantou várias dicas de como usar, principalmente para aliviar as dores na fáscia plantar, causadas pelo esporão de calcâneo. No mesmo dia comprei a faixa pela internet e consultei vídeos de pilates no YouTube, que explicavam como utilizá-la em vários movimentos.

Ah, pronto!

Passei a receber um tsunami de postagens patrocinadas no Facebook e no Instagram, oferecendo de tudo para chegar ao “corpo perfeito”. Desde receitas mirabolantes para enfiar goela abaixo, passando por sessões de tortura, até coisas esdrúxulas, como encolher a barriga, puxando a respiração bem profundamente, lá pra dentro, a ponto de a pessoa ficar azul, sem fôlego, tudo isso de manhã cedo, ao acordar, ainda em jejum, para alcançar o abdômen negativo. Liliane Amorim acabara de morrer e esses absurdos passavam diante dos meus olhos a todo momento. Ela queria um “corpo perfeito”, além do “corpo padrão” que já exibia em fotos nas redes sociais. Para olhos saudáveis, aquele corpo não precisava de mais nada. E ela influenciava um monte de outras mulheres e isso faz um estrago danado na cabeça de muita gente...

Tive um câncer de mama doze anos atrás. Após seis sessões de quimioterapia, passei por uma cirurgia chamada TRAM. Para quem não sabe ou não acompanhou comigo na época, minha mama esquerda foi totalmente esvaziada, preservando pele, mamilo e aréola. No mesmo procedimento, o cirurgião plástico abriu meu abdômen, como em uma abdominoplastia, cortou ali meus dois músculos reto abdominais, mergulhou-os por dentro, passando-os por um “túnel” e com meus próprios músculos preencheu minha mama. Hoje meu abdômen é protruso, feito a barriga de uma grávida de seis meses. Nem cinta disfarça, porque é rígido. Minha mama esquerda, após vinte e cinco sessões de radioterapia, deixou de ser uma promessa de mama (quase) normal. As pontas dos músculos sofreram queimadura e fizeram uma esteatonecrose. É dura feito rocha, feia, repuxada, dolorida e está diminuindo de tamanho gradativamente. Haveria uma forma de corrigir, mas para isso teria que perder mais um músculo, desta vez das costas, e não estou a fim. Por ter menopausado aos quarenta anos, por causa da quimioterapia, as consequências da disfunção hormonal apareceram cedo. Além disso tudo, o metabolismo é lerdo, ganhei peso e sou uma mulher de cinquenta e dois anos, viva da silva dentro desse corpo, satisfeita pela oportunidade de ainda estar por aqui, porém sempre com uma ponta de tristeza diante do espelho ou quando precisa comprar roupas ou na hora de escolher roupa pra ir à rua.

São doze anos parando em frente ao espelho contrariada, vendo a mama a cada dia mais feia e menor, a barriga mais apontada para a frente, as cicatrizes salientes, em seguida respirar fundo e sair logo, dizendo “sou uma privilegiada, há coisas mais importantes pra pensar, afinal tô viva”. Confesso que por diversas vezes a depressão me fez acrescentar um “pra quê”, depois de “tô viva”. Enfim, são reações humanas, compreensíveis, perdoáveis.

Dias atrás a publicitária e influenciadora Cris Guerra gravou e postou um vídeo ótimo e útil, em que falou sobre etarismo. Pedia aos humoristas – no caso, Fábio Porchat – que se atualizassem na forma como se referem às pessoas maduras. Num episódio de Porta dos Fundos, a personagem de Porchat teria feito chacota com a mãe, uma mulher de cinquenta e oito anos, lesada, tratada como uma vovozinha demente. Cris discorreu sobre como o mundo mudou para nós, mulheres, que já de bom tempo deixamos de ser velhas a partir dos quarenta, para sermos profissionais de sucesso, livres, independentes, donas de nossos narizes e de nossos corpos. Um discurso excelente, não só a respeito de mulheres, mas de pessoas maduras em geral. Compartilhei com deus e o mundo.

Só que na sequência do vídeo, pude acompanhar algumas postagens da publicitária em que ressalta o poder de escolha das mulheres maduras de, sim, poderem usar o cabelo que bem entenderem, a roupa que bem entenderem. “Minissaia depois dos 50, pode, sim!”. Claro que pode, mas há um porém aí. Pelo menos nas TLs das minhas redes sociais não passam mulheres maduras gordas e barrigudas, de minissaia e vestido tubinho e croped, com o mesmo discurso de Cris Guerra, magérrima, corpinho de uma jovem de vinte anos. Como eu, deve haver muitas mulheres da minha idade, com meu corpo, sem representatividade. Há inúmeros perfis de 50+ nas redes e nenhum de mulheres acima do “peso padrão”, desfilando roupas descoladas, utilizando-se do mesmo discurso das escolhas e etcéteras. Todas são magras, ou seja, é como se mulheres 50+ gordas não existissem.

Tudo bem, posso viver como quiser, ter a cor e o corte de cabelo que preferir e me vestir conforme der na telha. Não tenho a menor vontade de vestir uma minissaia ou um croped. Mas não há referências para mulheres com meu biotipo atual, enquanto mulheres maduras magérrimas não são maioria. Não tem interesse em produzir moda pra nós. As influenciadoras, mesmo as maduras, batalham pra manter seus corpitchos sequinhos e se esforçam para propagandear as maravilhas da idade – pra elas. Quem ousa mostrar um corpo levemente acima do “peso padrão” é execrado por comentários ofensivos. Ou seja, as falas são lindas, pertinentes, necessárias. Aplaudo e colaboro com a difusão de toda e qualquer iniciativa que atualize discursos, quebre preconceitos e paradigmas. Só que na prática ainda não vemos mulheres reais representando mulheres reais. O mercado não permite, a misoginia não permite, até as poucas influenciadoras que se dizem feministas acabam levando caixote nessa onda e seguimos assim.

(Texto publicado originalmente em 2021)

Sobre o direito a uma boa morte

Livro-reportagem "Alguém pra segurar a minha mão" - cuidados paliativos e morte humanizada

Esther* morreu em paz. Serena, reconciliada consigo mesma, com plena compreensão da doença que a acometeu e do fim da sua existência. A família também compreendeu e aceitou para ela o que o destino reserva para todos nós, com a diferença de que para Esther houve a oportunidade de sair da vida com dignidade, cercada de amor, amparada em sua própria cama, com alguém segurando a sua mão.

Essa é uma história real, de uma personagem real. Esther, como muitos outros pacientes que tiveram a chance de serem atendidos por uma equipe multidisciplinar de cuidados paliativos, enquanto se despedia da vida, pode usufruir do direito humano de ter uma boa morte.

Oferecido pelo SUS, o Serviço de Atenção Domiciliar propõe a desospitalização e oferece a doentes terminais um caminho digno até a morte, com qualidade de vida enquanto há vida. Pacientes com metástases de câncer avançadas, por exemplo, que não respondem mais aos tratamentos, podem e têm o direito de serem liberados dos tratamentos fúteis, que apenas os mantêm conectados a aparelhos, sofrendo intervenções desnecessárias e invasivas. Esther esteve entre os 1769 pacientes assistidos pelo SAD de Volta Redonda, em dez anos de atividade.

O atendimento em cuidados paliativos – hoje uma especialidade médica – foi institucionalizado em 1967, por iniciativa da enfermeira Cicely Saunders, que implantou uma conduta considerada exemplar na época. Diferente do tratamento que estabelece intervenções com objetivo de cura, Saunders propunha abordagem integral: que o indivíduo tivesse reconhecimento e controle de sua condição, que pudesse fazer escolhas, tomar decisões, resolver pendências materiais e emocionais.

Da perspectiva psíquica, Elizabeth Kübler-Ross, contemporânea de Cicely Saunders, foi quem detalhou o processo de morrer, descrevendo cada uma das fases emocionais que o paciente terminal atravessa – choque, negação, raiva, negociação, depressão, aceitação e decatexia (algo como frieza ou desinteresse pelo que ocorre consigo mesmo e ao redor). Todo o trabalho de Kübler-Ross está relatado no livro “Sobre a morte e o morrer”, no qual identifica essas etapas e cria métodos para médicos, enfermeiros e familiares acompanharem a ajudarem um paciente próximo do fim da vida. A obra, longe de ser um manual, é resultado de pesquisa que acabou por se tornar uma inovação para a medicina ocidental e uma quebra do tabu sobre a morte: o uso de técnicas suavizadas, de abordagem integral, para que o fim da vida seja mais ameno para os doentes, para os médicos que os atendem e para os familiares que os cercam.

Alguém pra segurar a minha mão

O detalhamento sobre as mortes de Esther e de outros pacientes, bem como entrevistas com familiares e o acompanhamento da equipe do SAD estão no meu livro “Alguém pra segurar a minha mão”, lançado em 2020 pela Editora Literalux. Trata-se de um livro-reportagem, cujo projeto nasceu da compreensão de que pacientes terminais têm direito a morrer em casa, longe da solidão das UTIs. Amiga pessoal do médico paliativista José Antônio Pereira Fernandes, conheci o trabalho do SAD bem de perto, ao participar das visitas domiciliares e testemunhar a equipe em atividade.

Também mergulhei em literatura especializada – livros e artigos produzidos por profissionais em cuidados paliativos, para conhecer tanatologia, entender ortotanásia, saber da origem dos cuidados paliativos e como se espalharam mundo afora. Boas referências, além do já citado “Sobre a morte e o morrer”, da psiquiatra Elizabeth Kübler-Ross, incluem “Em busca da boa morte”, de Rachel Aisengart; “Espiritualidade e finitude”, coleção de artigos organizada por Dulcinéia da Matta Monteiro; “Velai comigo”, da enfermeira Cicely Saunders; e “A morte é um dia que vale a pena viver”, da médica paliativista Ana Cláudia Quintana Arantes, entre outros.

Não pude deixar de dedicar um capítulo à medicina, ao médico levado à condição de Deus e sua dificuldade (poucas vezes revelada) em lidar com o fracasso da perda de seus doentes. Outro grande tabu da nossa sociedade, ao lado do tabu da morte. Médicos são treinados para salvar vidas e trabalham incansáveis com esse objetivo, mesmo quando a morte já é inevitável.

Ao praticamente fazer parte da equipe do médico José Antônio durante a produção da reportagem, estive perto de vários pacientes em seus dias e minutos finais e relato três histórias que exibem a realidade como ela é e como penso que deveria ser para todos. Como digo no livro, “em princípio pensei ser forçoso tentar naturalizar a morte, contudo me dei conta de que não é possível naturalizar o que já é natural”.

“Alguém pra segurar a minha mão” é, ainda, testemunho da luta de profissionais em cuidados paliativos para uma mudança cultural que sacode o maior de todos os tabus da sociedade e ao mesmo tempo a nossa única certeza. É até difícil explicar, quando me perguntam “sobre o que é seu livro?”. É sobre a morte, mas não exatamente sobre a morte; é sobre o conceito de boa morte: que o ser humano possa sair de cena suavemente, em casa, acolhido pelos familiares, sob os cuidados e o carinho de alguém querido ao seu lado.

Morrer sozinho, em qualquer situação, é muito triste. Com a óbvia exceção de outras diversas circunstâncias, se a pessoa cumpre todo seu ciclo de vida e com certeza vai chegar a hora de encerrá-lo, por que não na sua cama, na sua casa, perto de quem ama? É um direito elementar.

(Texto publicado originalmente no Blog Pavio Curto, Volta Redonda/RJ, 2021)

 

 


Desenlace de Família

Aquele rosto me era estranho. Não porque jazesse inerte, dentro do caixão. Não porque, coberto de flores, não pudesse reconhecer-lhe o físico. Não porque cheirasse mal. A tez morena, avermelhada, feito índio; os cabelos brancos encaracolados; os lábios finos, sem curvatura, como se traçados num único risco de dois lápis. Aquele rosto me inspirava desprezo, somente. Não me interessava recordar dele vivo, pois à memória retornaria a expressão de fúria nas lides diárias ou descendo o cacete nas filhas.

Agora a carcaça do brutamontes estava cercada pelo choro das mulheres que subjugou. Não atinava como pessoas tão judiadas fossem capazes lamentar a morte de seu carrasco. Olhei ao redor e não encontrei a caçula, a única das filhas que conversava comigo, a mais doce e cordata. Havia algo que nos unia, um laço entre almas. Não reagia às corretivas do pai, ao contrário, demonstrava afeto por ele, não manifestava revolta pelo tratamento opressivo, não chorava e nem reclamava pelos cantos. Apesar de castigá-la como às outras, Rejane era a única filha que contava com um mínimo de carinho e certo excesso de atenção do “tio” Cadô. As irmãs se ressentiam, enquanto a mãe notava a diferença, mas deduzia como preferência natural – quem não tem seu filho dileto? Compreenderia se qualquer das filhas faltasse ao velório, no entanto foi Rejane que não velou o pai.

E eu? O que estava fazendo naquela sala escura com cheiro de flor e vela, suor e café? Fora arrastada pelo meu irmão, Lucas, sem explicações; disse “morreu” e me tirou de uma festa para o velório. Não tivesse apenas treze anos e igualmente criada abaixo de porrada, teria questionado “E eu com isso?”

Seria a minha primeira vez na quermesse, sem a mãe; a primeira vez de olhos sombreados e batom; a primeira noite com amigas. Combináramos de andar na festa de braços dados, pedir música e mandar mensagens aos rapazes pelo autofalante. Não poderia passar das dez horas, sob a ameaça da varinha de marmelo de papai, que me aguardaria na varanda, a contar os primeiros segundos de atraso. Como “tio” Cadô fazia com Rejane, papai me cobria de mimos exagerados, contudo não me poupava das sovas quando lhe convinha ou se me rebelasse contra seus afagos melosos.

Quis me afastar do caixão, porém meu irmão me segurava, e se mantinha contrito diante do corpo do homem que admirara. Temente a Deus, frequentava a igreja aos domingos, pai exemplar, bom provedor, trabalhador, honesto, corrigia esposa e filhas com precisão, educava com rigor, rude, tosco, grosso, mau, violento, cruel. Na verdade, não era parente nosso; amigo chegado de papai, fora escolhido para apadrinhar Lucas. Embora as duas famílias tenham se constituído praticamente juntas, até então, mamãe tolerava essa amizade em silêncio.

Não assisti ao enterro. Acompanhei o caixão sair no carro funerário, entrei em casa, do outro lado da rua, e emburrei. Sobre a causa da morte, passei muitos anos sem saber. No velório escutara rumores sobre um tombo da marquise e minúcias que não se arranjaram de modo lógico no meu raciocínio. Este mês faz dez anos que “tio” Cadô se foi. Também são dez anos sem ver Rejane, a filha que pagou na cadeia pelo assassinato do pai, com a paulada que o derrubou do beiral da janela, onde emendava um fio. Deve estar prestes a sair da prisão. Agora, se quiser, poderá viver. Eu escolhi fugir.

 

No Jardim do Ogro

Ela pode chocar, mas não surpreende. Não pelo tema. “No Jardim do Ogro” (Tusquets, 2014) é o primeiro romance de Leïla Slimani, embora “Canção de Ninar”, de 2016, tenha sido seu livro de estreia, com boa recepção por leitores brasileiros. Entre os dois, prefiro “Canção de Ninar”.

Para um primeiro romance, dá gosto ver a ousadia de Leïla em tocar de modo tão descarado num grande tabu: a compulsão sexual vivida por uma mulher. Não a compulsão apenas como desejo, em função de uma existência sem graça e sem prazer nenhum ou por causa da rotina com um marido que não faz sexo e quando o faz, é um “sexo quadrado”, quase no sentido geométrico. Trata-se da compulsão como doença emocional/psíquica.

Passei o livro todo entendendo o comportamento de Adèle como uma explosão de emoções represadas, para depois compreender o comportamento doentio, como o de qualquer paciente viciado, dependente.

Sim, claro, vítima do machismo, que a expõe à sexualidade muito cedo; da sociedade que exclui mulheres, principalmente pobres; do casamento por comodidade; da falta de sentido em tudo isso e em todo o resto. Adèle acumula desejos, acumula uma bomba sexual, que nunca explode; se retroalimenta. Não só busca a satisfação do seu apetite, como se machuca e se deixa machucar.

Por outro lado, há o marido, que também carrega uma fragilidade emocional ou uma doença psicossocial qualquer. Não gosta de sexo, jamais se abriu para as diversões sexuais, sequer curte o assunto entre amigos e se casou somente para ter uma família convencional.

A narrativa da Leïla Slimani é primorosa. Frases curtas, secas, diretas, porém não permite desgrudar os olhos. Tem habilidade rara para passar pelos tempos diversos da narrativa, que vai e volta e leva o leitor a conhecer os meandros da história em seus vários aspectos, que influenciam ou irão influenciar os personagens até o desfecho. Em Canção de Ninar, a autora inicia a narrativa pelo fim e retorna no tempo, até a história culminar com a cena descrita na primeira página.

O desfecho de “O Jardim do Ogro” me lançou no rosto uma enorme interrogação, a ponto de voltar uma página e mais outra página, com o sentimento de “acho que perdi alguma coisa” para, em seguida, soltar um suspiro e dizer: “Ah! Isso é Leïla Slimani!”

(Texto publicado originalmente em 2020)

Aroma de Vanilla

O aroma diferente recendeu na cozinha; um perfume conhecido, porém não identificado de pronto. Que cheiro novo é esse? Era adocicado, parecido com fragrância de colônia de vó, trazendo reminiscências de infância pro nosso chá noturno. Bingo! Era do chá novo, uma mistura de camomila, mel e baunilha.

Nunca fui muito fã do sabor de baunilha em alimentos, como doces, bolos e sorvetes, mas o aroma suave emanado da xícara de chá fervendo era de um frescor que nunca tinha sentido antes. Talvez pela mistura com camomila e mel, pensei. E jamais imaginaria, até poucos meses atrás, que a baunilha era uma orquídea – a Vanilla planifolia.

Inebriada pelo vapor perfumado do chá, lembrei de tudo o que aprendi sobre a Orquídea Baunilha nos últimos meses e no tanto de tempo que a cura das vagens demora pra que possamos apreciar essa fragrância, extraída de uma substância chamada vanilina.

Existem mais de 35 mil espécies de orquídeas registradas e a Vanilla planifolia é a única que produz vagens comestíveis. É uma orquídea terrestre trepadeira, cresce melhor se plantada no chão e pode alcançar até dez metros de comprimento – uma exagerada. É nativa do México, no entanto a maior produção está na Indonésia e em Madagascar, onde há mais de oitenta mil produtores cadastrados.

Segundo os orquidófilos, a flor da Baunilha não tem a menor graça: é pequena, de cor verde-amarelada, não tem perfume, além de a planta ser meio desengonçada. Raramente é polinizada de modo natural, porque as abelhinhas responsáveis por esse trabalho não ocorrem fora da América Central, portanto, desde a polinização, o processo é manual e bastante demorado, o que torna a vanilla uma das especiarias mais caras do mundo.

Pra início de conversa, ela só floresce a partir do sétimo ano de cultivo e as flores duram um único dia. Como se dozes horas pra polinizar à mão não fosse dificuldade suficiente, a fertilização das flores só pode ser feita de manhã, logo que elas abrem. Imagina transferir o pólen de uma flor para o estigma da outra, uma a uma, em curto tempo. É preciso quase ter mãos mágicas.

Após a polinização, é sentar e esperar para que nasçam as vagens e amadureçam por um período entre oito e nove meses, até que possam ser colhidas quando atingirem uma cor opaca, quase marrom. Então se inicia o processo de cura, em que as vagens passam por uma secagem, ora ao sol, ora à sombra, em etapas de uma semana cada e, em seguida, um repouso de três meses ao abrigo da luz, tempo para a maturação dos cristais de vanilla e fixação do aroma. Em um processo 100% artesanal, cada vagem é alisada e esticada manualmente, para se tornar a vareta de baunilha que a gente encontra no mercado a preços nada simpáticos. Nos processos mais industrializados, o tempo de cura pode ser mais curto com a ajuda de fornos. Ainda assim, são anos de investimento, do plantio à idade adulta da orquídea, mais a espera de meses pelo amadurecimento das vagens e o período de cura.

Caminho longo para chegar à minha cozinha no aroma do chá e me encantar, a ponto de me levar longe, a construir mentalmente cada passo da produção da baunilha e, detalhe, não fui eu quem tomou o chá. Apenas estava ao lado, em silêncio, desfrutando. Foi quase uma meditação, com perfume e quentura na noite fria.

 

 

 

 

Vitrine

Diante da vitrine ela cristaliza. Estática, vê a beleza estonteante exposta ali, bem à frente dos seus olhos, que se arregalam, ao mesmo tempo em que ganham um brilho ansioso, misto de desejo com uma admiração aniquilantes. Ela não pode, não deve, mas uma atração irresistível a toma por completo. O corpo arrepia, as pernas amolecem, a boca seca. A respiração ofegante avisa do perigo iminente. Já tivera a mesma sensação antes; por vezes, pode resistir, outras - muitas outras - não. E, ao sucumbir, quase sempre levou para casa algo de que se arrependeria mais tarde. No momento em que seus olhos se deparam com uma novidade daquelas, tão diferente, tão exótica, é praticamente impossível dar as costas e retomar o rumo, firmemente, com a plena consciência de que “não preciso disso para viver”. Porém, precisar ou não precisar não importa, não se trata simplesmente de virar as costas. É forte, é um impulso, quase um empurrão pra dentro da loja. Afinal, como ir embora e deixar tudo aquilo para trás? Tão especial que mistura charme, elegância, cor, luz, brilho, um movimento excêntrico, capaz de provocar olhares assaz curiosos, quando não de espanto. Lindo seria pouco para descrever seu objeto de desejo. Passa seriedade e é, ao mesmo tempo, gracioso. Um belíssimo exemplar. E ela pensa, num afã, “que louca não quereria um desse em casa”? Ela não pode, não deve. Poderia argumentar dezenas de motivos para não entrar, poderia listar em segundos quanto lhe custaria possuir algo tão excêntrico, poderia tão somente dizer para si: “Não!”. Mas ela não é capaz, a atração é maior que a resistência, e o suor frio nas mãos geladas lhe dão o sinal que esperava. É hora de decidir. E entra. Analisa-o por todos os lados, confirma que não fora enganada pelo brilho da vitrine. É lindo, excepcional, parece que a encara e diz “fui feito pra você”. O preço, caro. Olha mais uma vez. Volta a cabeça, finge procurar algo que não há por ali. Precisa ganhar tempo. Pensar. Pensar o quê, se já sabe que mais uma vez vai se entregar ao descontrole? “Vou levar!” Nesse momento um calafrio lhe ganha o corpo, quase não consegue puxar o ar. Vai até a porta, ainda está em tempo, pode sair correndo, o rosto está em brasa. E volta, encara-o novamente. Não sabe mais viver sem ele. Passa o cartão, guarda a carteira, prepara os braços. Em instantes está livre de toda a culpa que a consumiu nos minutos passados, fica feliz, excitada, exultante com sua aquisição. “Vai se chamar Caetano”. E sai da loja mais que satisfeita, levando no colo sua iguana.

 

Você tem nojo de quem?

Umas palavrinhas sobre o livro Nojo, lançamento de Divanize Carbonieri pela Carlini&Caniato Editorial

Quando procurei Divanize Carbonieri para pedir seu mais novo livro, após as trocas de informações sobre preço e envio, ela escreveu: “espero q vc não se assuste muito com o Nojo”. Do pouco que já havia lido a respeito, nada se associava a essa fala. Assustar? Espero que não seja terror, pensei. Ou suspense. Histórias de suspense me fazem mal.

O livro chegou e, ao ler a orelha de Malu Jimenez, sem ainda folhear as páginas, mudei de expectativa – isso vai ser soco no estômago. “(... o nojo provém dessa construção estética equivocada que nos diz que o habitual é repulsivo (...) Ler Nojo é se constranger com a própria construção do que significa ter corpo”.

Passei pelo prefácio, confesso, quase sem prestar muita atenção, tamanha a minha curiosidade, e me deparei com o inusitado. Numa única sentada, li Nojo do início ao fim. Impossível parar, pausar, impossível até quase respirar, pois a narrativa simplesmente me arrastou.

O tema é mesmo chocante; é, sim, soco no estômago, porque Divanize escancara em linguagem muito popular os desvarios aos quais nos entregamos ao aceitar a normalização das mais absurdas exigências estéticas. Desvario diante de nossos próprios corpos diante do espelho, desvario nas decisões tomadas para mudar o que a ditadura da estética nos impõe como perfeito, o desvario da palavra, quando a usamos contra todos os corpos, sejam os nossos ou dos outros, todos os outros.

Dos comentários que li sobre o livro de Divanize, um deles se refere “à personagem”. Pois não vi apenas uma personagem. Em Nojo parecem haver meia dúzia de mulheres conversando, falando rápido, animadas ou revoltadas, com raiva ou debochadas, criticando a si próprias e às demais, sempre ácidas e afiadas – e eu à curta distância, assistindo. Pessoas comuns, de vidas comuns, reproduzindo em palavras e expressões o que aprenderam a negar. Sua barriga, seu cabelo, meu dedo, meu nariz, sua celulite, minha roupa amassada, sua maquiagem, vulva rosa, vulva escura, você tá gorda, eu tô magra demais, perna grossa, braço balançando.

Apesar da seriedade da crítica proposta, não pude me furtar a muitas risadas em vários momentos, diante de comparações criadas para os ditos “defeitos”, como dizer que o corpo parece um tigre de tão cheio de estrias, ou afirmações como “quem gosta de curva é burro”, quando uma das personagens enaltece o corpo magro, esguio, seco feito tábua, e garante que tal condição estética é privilégio de intelectuais.

Lembrei de muitas situações vividas, eu mesma, com a mudança do meu corpo depois de um câncer de mama. Lembrei também de situações presenciadas e relatadas, como o caso de uma amiga cuja mãe teimava que sua barriga era grande e feia e que tinha que “fazer alguma coisa pra acabar com isso aí”, até que ela mesma, a mãe, comprou uma dessas cintas elétricas que não dão resultado algum e deu pra filha. Sem consultar a filha, sem ser solicitada. A cinta, jamais usada, se perdeu em meio a tralhas no fundo do armário, até a mãe pedir de volta. “Sei que não tá usando, então me devolve, que vou dar pra Fulana”. Sem também consultar a fulana, claro. Mãe vítima da sociedade vitimando a própria filha.

Também penso em mim mesma, tantas vezes rendida ao péssimo costume de apontar corpos, e agora sigo nessa reforma interna, à medida que me educo e descubro o quanto de desamor há nesse tipo de comportamento. Desamor por mim e pelos outros. Acomodação irrestrita nesse lugar que nos colocam e que a gente aceita feito gado obediente, sem pensar, sem refletir. Apenas reproduzindo os mugidos que chegam aos ouvidos. Em Nojo, Divanize Carbonieri nos convida a sair desse lugar. No meu caso, sair rindo, porque realmente achei bastante engraçado.

(Texto publicado originalmente em 2020)