21 de julho de 2025
Quando deito pra dormir
6 de julho de 2025
A mãe da Fatinha morreu
Saiu para as compras, levando sua bolsinha de mão e dentro dela a lista do que precisaria para o almoço. Desceu a rua que desembocava na porta do mercado, parou pra dar uma olhadinha nas bancas de frutas, verduras e legumes, enfileiradas do lado de fora. Pegaria o que precisasse antes de entrar. Com a calma e simpatia de sempre, cumprimentou um funcionário aqui, uma conhecida ali, passeou pelas gôndolas a encher sua cesta. No balcão do açougue pediu zelo com o corte da carne, bem bonita, vistosa e limpinha. E não esqueceu do Mineirinho que a Fatinha adorava.
Depois de parir cinco filhos homens, Fatinha chegou para ser o dengo da mãe. Mimos, chamegos, trato diário e caprichado nos longos cabelos ruivos. Bateu boca com o marido pra dar nome à criança, nascida menina pela graça de Nossa Senhora de Fátima, a quem tanto pediu tal bênção. Fatinha cresceu diferente, recusou vestidos, gostava de shorts, regata e kichute, os irmãos criticavam, o pai grunhia ao vê-la jogando bola na rua, mas a mãe era só amor. Já a minha mãe não deixava brincar com a Fatinha. “Não é companhia pra você”, dizia, sem explicar o motivo.
Todos os domingos o almoço era o momento único da semana pra juntar a família, comida diferente da rotina, risadas à mesa, assistir ao Qual é a Música no início da tarde com as barrigas estufadas. Para a mãe da Fatinha era um dia pra lá de especial. Sua caçula fazia quinze anos. Preparou a lista para a refeição preferida da filhota: lagarto redondo recheado com linguiça, maionese de legumes, macarrão. Foi o que se espalhou pelo asfalto na frente do mercado, logo que a mãe da Fatinha deu o primeiro passo para atravessar a rua. Ela não viu o carro vindo de trás da caminhonete parada em fila dupla e voou. Voaram as batatas, cenouras, cebolas, maçãs, azeitonas. O Mineirinho rolou para o outro lado da pista espumando à pressão. Embaixo da caminhonete, dois caramelos já disputavam o lagarto redondo e a linguiça, mal o corpo magro da mãe da Fatinha encontrou o chão. Tão disforme que não sobraria nada, caso lhe sobrasse vida.
De longe dava pra escutar os gritos da Fatinha chamando pela mãe; a rua inteira escutou. Tão querida, tão prestativa, tão amável, dava a vida pela filha... Baixaram as músicas, não se ouviram as risadas às mesas, nem a voz do Silvio Santos ecoando das TVs, não teve o churrasco da mãe da Vanessa, vizinha de frente da mãe da Fatinha.
Naquele tempo os mortos eram velados em casa. Da calçada do outro lado era possível ver o caixão na sala, embaixo da velha lâmpada incandescente pendurada pelo fio e rodeado por sei lá quantas pessoas. Fatinha destroçada. O tanto de gente que passou por ali, virou a noite, chorou com os filhos, provava o quanto a mãe da Fatinha era querida. Quintal cheio, calçada cheia, gente que não parava de chegar.
No enterro, logo cedinho, vi de perto o caixão baixar a sepultura, Fatinha ajoelhada em cima do monte de terra vermelha, as mãos sobre a terra vermelha, os olhos vermelhos. Falava sozinha, falava com a mãe, enquanto em volta rezavam a última oração, entoavam os últimos cânticos. Do lado de cá da cova, observava Fatinha, agora sem mãe. Fios do cabelo colavam à pele do rosto, ao suor, às lágrimas. Rosas atiradas, terra sobre a tampa do caixão e Fatinha agora gritava “Eu queria estar lá dentro com ela! Eu queria! Queria estar lá dentro com ela, ir embora com ela!” e várias mãos a puxavam pelo braço, chamavam seu nome, ela arrastada pra trás, o corpo sem forças, desfalecendo.
Há quase cinquenta anos esses gritos ecoam na minha memória, junto à sequência de imagens e rezas e gritos e sepulturas feias e malcuidadas no velho cemitério público da cidade. E não tenho certeza se realmente estava lá, porque minha mãe jamais me deixaria ir ao enterro da mãe da Fatinha.
11 de março de 2025
Onda de pobreza extrema
Pego meu livro, caderno, lápis, caderno e caneta. Sento no
sofá da sala, onde o ar-condicionado opera em 17º e o ventilador sopra direto
no meu pescoço, área do corpo que ferve após a menopausa. É domingo e a onda de
calor no Sudeste do Brasil cozinha os miolos.
Abro o livro sobre as pernas e olho pela janela. Ainda
transpiro, após o almoço na cozinha abafada, e respiro aliviada pelo privilégio
de ter uma casa ampla, morar numa área muito arborizada próxima à Mata da
Cicuta e ter aparelhos que aliviam a impressão de derretimento de corpo e alma.
Impossível não pensar em quem não tem os mesmos privilégios,
ao menos uma morada ventilada, um ventilador barulhento. Três da tarde, céu
azul límpido, um sol pra cada um, lindo dia de quentura extrema e de muito
sofrimento para muitos lá fora.
Lembro de uma das visitas que fiz, quando acompanhava a
equipe de atenção domiciliar a pacientes terminais, para escrever meu livro
“Alguém pra segurar a minha mão”. Bairro periférico, quase hora do almoço,
quase o mesmo calor de hoje. Numa casinha de tijolos, quintal apinhado de
entulhos de todo tipo e cheiro de sujeira, em um quarto minúsculo sem janelas
estava a paciente. Uma senhora de quase oitenta anos, acabava de chegar de uma
internação. Talvez a última. Uma cama, uma mesinha improvisada, uma cadeira
para o médico sentar.
Dona Cida, assim vou chamá-la aqui, era diabética, cardíaca,
hipertensa e sofria as sequelas de tudo junto. Falava aos suspiros e era
traduzida por uma pessoa da família. Suava. Como suava! O médico perguntou se
teve febre e como resposta ouviu que não havia dinheiro pra comprar termômetro.
Não cabiam todos da equipe dentro do quarto e mesmo se coubesse, nenhum de nós
suportaria o abafamento.
Era o que tinha e era o possível, me disse o médico. A vida
se esvaindo em meio a condições que não ajudavam, ao contrário. A morte vai
chegar mais rápido, pensei. Como garantir a dieta adequada, remédios, roupa
limpa e trocada todos os dias, ar respirável. Percebia-se que ninguém na casa
tinha conhecimento para os cuidados mínimos.
Foram muitas as famílias que conheci em cenários semelhantes
ou piores. Na experiência como repórter, infelizmente testemunhei pobreza
extrema, famílias enormes compartilhando um cômodo, sem ventilação, muitas
vezes sem banheiro, sem o básico, sem nada. Isso já faz uns trinta anos e
infelizmente tudo continua do mesmo jeito.
O sentimento de desânimo me desaba, no momento em que estudo,
leio, escrevo, aproveitando o domingo tranquilo pra colocar leituras em dia,
anotar dados de pesquisas para um artigo, fresquinha no sofá da minha casa, atendendo
a demandas do ofício.
E a pergunta que sempre me vem à mente é: “Pra quê?”
É luta atrás de luta, “êita atrás de êita”, sempre na
tentativa de mudar algo, melhorar aqui, avançar lá, mas a canícula que hoje nos
rouba o conforto vai piorar. O clima está em polvorosa. Há muito tempo algo de
concreto deveria estar em curso para frear o aquecimento tão anunciado e que
agora nos acomete com recordes de temperaturas altas, tempestades, ciclones,
furacões, incêndios florestais e até urbanos. E na outra ponta da cegueira, da
negação, dos interesses espúrios que negligenciam as necessidades, continuam lá
as famílias das donas Cidas, na mesma indignidade de sempre. Preciso respirar
fundo e tentar me concentrar na leitura, pois há compromissos a cumprir. O que
posso fazer individualmente, faço. Mas não depende do “se cada um fizer sua
parte”. É muito mais que isso, o buraco é bem mais embaixo e como ouço dizer
por aí, “isso não vai dar bom”.
Eu viro as costas
A caminho dos sessenta posso afirmar que aprendi em anos de
psicanálise que dizer ‘não’ é saudável e libertador. Aceitei de bom grado as
vitórias, as conquistas, o conhecimento, o aprendizado, amores, amizades,
filho, viagens, trabalho, profissões. No entanto também tive que me submeter às
adversidades. Perdas pelas quais choro há anos; desemprego com filho pequeno e
sozinha pra dar conta; relações tóxicas (inclusive dentro da família); um TDAH
que me causou trocentos problemas por todos esses anos, só agora corretamente
diagnosticado; um câncer de mama aos quarenta anos, que desconstruiu meu corpo,
minha casa nesta vida, e me obrigou a reconstruir a alma com os cacos que
sobraram, pra continuar meu percurso por aqui.
Todo esse combo me suavizou por um lado e me endureceu por
outro. Portanto me sinto à vontade para dizer não a outras tantas situações,
condições e pessoas. E digo ‘não’, firmemente, às pessoas sem caráter. Nesta
fala, defino como ausência – ou desvio – de caráter a criatura que atraiçoa,
abusa, intoxica, maldiz, dissimula, tem maldade no coração, mas aparenta doçura
para conseguir o que quer a qualquer custo. Gente sem caráter não mede esforços
para enaltecer o próprio umbigo, em detrimento do outro, da participação do
outro, da colaboração do outro; gente que passa o trator por cima de quem quer
que seja, ainda que machuque, adoeça ou mate.
A mim não importa quem seja ou de onde venha: mulher, homem,
velho (“Canalhas também envelhecem”, né? Vide meu livro “Justa Causa”),
LGBTQUIA+, pessoa com deficiência (Sim! Caráter não está no corpo), profissão,
classe social... Não importa a cor da pele, etnia, raça, religião, time que
torce. Não tolero e não tolerarei a canalhice da fala doce pela frente e a flexa
atirada na minha nuca quando me viro. Não tolero e não tolerarei as cobranças
por visibilidade dos próprios feitos, enquanto é vil, venal, desumano, infame,
imoral, desonesto, hipócrita, sonso, mal, cruel. Eu digo ‘não’.
Viro as costas solenemente; me levanto, se sentar na minha
mesa; viro a cara, se me olha; mudo de calçada, se vir em minha direção;
desprezo.
Não sou espiritualmente evoluída para relevar, compreender,
perdoar e ser generosa com gente mau-caráter. Não quero e não preciso ser benevolente
com pessoas abjetas. Parabéns a quem consegue.
Por fim, não aceito cobranças, muito menos exigências dessas
criaturas repugnantes e nem atendo aos apelos de quem as defende, seja por
ingenuidade ou excesso de generosidade ou, sei lá, por má fé, por serem semelhantes.
Até porque não cobro bom comportamento de ninguém e jamais vou permitir que me
cobrem. Tenho muitas limitações, mas se tem algo que não tolero, de jeito
nenhum, é gente mau-caráter. Era só isso.
(Texto publicado originalmente em 2023)
10 de março de 2025
Velhos são gente, não anjos
Não é porque tem cabelo branco e 60+, 70+, 80+ e tantos que se torna sábio de repente. Sabedoria, no sentido atribuído aos idosos em geral, requer um bocado de desprendimento, mais uma boa dose de equilíbrio, entendimento das mazelas do mundo, aceitação das diferenças, serenidade, honestidade consigo e com os outros, preocupação e ocupação com as necessidades alheias, não com o que os outros fazem de suas vidas. Mesmo sem estudo formal, aquele que carrega a sabedoria consigo possui no coração e na alma predicados que o torna uma boa referência, pela sensatez, lealdade ao praticar o que prega, simplicidade e objetividade finas, que sempre surpreendem a quem tem o dom de complicar. Sabedoria é para poucos.
Sem esforço de memória reconheço ao menos meia dúzia de velhos e velhas canalhas, que só enxergam o próprio umbigo e querem que o resto do planeta de exploda – os que podem, já colaboram para que o planeta se exploda mesmo. Gente que não pensa duas vezes ao apontar a “bichinha” e fazer chacota ou dizer que a pessoa de pele negra “nasceu depois das 18h”. Gente que se dedica a olhar e criticar o gordo, o feio, o velho assanhado, a velha desavergonhada, enquanto suas próprias escolhas são sempre perfeitas e de acordo com regras “da boa educação e do bom comportamento e da moral e blá-blá-blá”. São frequentadores fiéis dos templos religiosos, de qualquer denominação, fazem questão de dar esmolas, mas não querem pobre e preto por perto, preto é sempre bandido, população de rua só emporcalha a cidade e atravanca o caminho. São idosos maus, maledicentes, rancorosos, preconceituosos, racistas, egoístas, que vivem de alimentar ódio. Sim, canalhas também envelhecem, né?
Há vovozinhos fofinhos estuprando netas e netos. Há
vovozinhas lindinhas e educadas que não “dão a mão a preto”. Há senhorinhas
muito queridinhas que não permitem que suas diaristas usem seu banheiro ou que
comam sua comida. Há senhoras “de respeito na sociedade” que literalmente
escravizam pessoas. Há senhorzinhos passando a mão em bunda de mulher dentro
dos ônibus. Há senhores que alcançam poder, fazem fortuna, constroem
patrimônio, família, redes de amigos, ganham prestígio, mas se constituíram no
crime e no crime permanecem. Há velhinhos e velhinhas com cara de coitadinhos
que tornaram as vidas de suas famílias um inferno, porque são tirânicos. Há
velhinhos e velhinhas a arruinar psicologicamente filhos e netos, do alto de
suas cadeiras de rodas.
Sabedoria dos mais velhos é uma expressão que não cabe na
realidade. Velhos são gente, não anjos. Há os gente boa e os que não são. E os
calhordas estão por aí, aos montes, se esbarrando uns nos outros. Basta olhar
em volta para vê-los se exibindo, descaradamente, inclusive carregando a
responsabilidade de milhares de mortes nas costas. Quantos você conhece?
(Texto publicado originalmente em 2021)
Narcisismo espiritual
Com a prática da meditação e de olhar pro meu interior, adquiri
autoconhecimento. Como é bom me conhecer!
Meus chacras estão alinhados e não permito que se desalinhem.
Desenvolvi os bons sentimentos, os bons desejos, mantenho
meus pensamentos elevados.
Acendo incensos em todos os cômodos da casa, para que as
fragrâncias espantem as consciências negativas que porventura passem por aqui.
Diante dos meus altares, me conecto com energias espirituais
e com elas converso, me sinto protegido, seguro.
Estou todo o tempo conectado com o meu divino, meu corpo e
meu espírito são cada vez mais leves.
Me vigio permanentemente, tento corrigir os meus erros ou o
que penso que sejam os meus erros.
A tudo digo gratidão; a todos desejo luz.
Quando me deito à noite, eu-corpo repouso e eu-espírito
viajo e danço em harmonia com o cosmos.
Estou sempre equilibrado, porque busquei minha
espiritualidade, busquei profundamente esse encontro com meu eu espiritual.
Estou em paz.
Por isso, o mundo a minha volta não me interessa.
Não quero saber do mundo.
Não quero saber do país.
Não quero saber de política.
Não quero saber.
Se souber dessas coisas, se me der conta de tudo o que
acontece ao meu redor, perco a minha paz, perco a minha serenidade e meu
equilíbrio espiritual.
Prefiro não saber que há 17 milhões de pessoas passando fome
no país.
Prefiro não saber que uma mulher morreu queimada, após
tentar cozinhar com álcool, porque não tinha dinheiro pra comprar gás.
Prefiro não saber que existe racismo no Brasil; não quero
enfrentar a realidade da população negra, que permanece alvo de assassinatos
diários.
Prefiro esquecer que meu país é o que mais mata LGBTQIA+ no
mundo.
Prefiro esquecer que a cada seis horas e meia morre uma
mulher vítima de feminicídio.
Prefiro esquecer que a cada duas horas ocorre uma denúncia
de estupro de uma menina menor de 14 anos.
Assim como não quero nem imaginar que existe um genocídio em
curso no meu país, em que setecentas mil pessoas morrerem por descaso; até
aproveitei o isolamento da pandemia pra me trancar em casa e orar, mas sem
acompanhar as notícias (isso nunca!).
Porque não posso perder a minha paz.
Não preciso saber que a gasolina está mais de 7,00, pois nem
tenho carro.
Não preciso saber que há mais de quatorze milhões de
desempregados. Já sou aposentado e risco de desemprego não me apavora mais.
Não preciso saber que poderia ajudar de alguma forma, que
aqui na minha cidade, bem perto de mim, há vários movimentos pedindo ajuda pra
pagar aluguel e dar de comer a muitas famílias que estão na miséria. Já tem
bastante gente ajudando, né?
Não posso me aproximar de nada disso, senão minha
espiritualidade vai ser abalada, então prefiro ficar aqui quietinho, diante dos
meus altares, conectado com meu divino, enquanto o mundo a minha volta pode desabar,
enquanto lá fora o país pode afundar, fora de mim, enquanto milhares de pessoas
devem estar sofrendo por carências materiais, de saúde, de casa, de comida, de
acolhimento.
Não tenho nada a ver com isso. Importante é garantir que meu
eu espiritual se mantenha como está.
Trabalhei duro pela minha reforma íntima, cresci
espiritualmente, investi minha vida em desenvolvimento pessoal, tantas horas e
horas e dias e semanas olhando pra dentro...
Se prestar atenção a tudo o que acontece, desarmonizo meus
chacras, posso surtar de preocupações, serei alcançado pelas energias negativas
que vêm dessas notícias todas, o que vai ser de mim?
Então, vou ficando por aqui, calminho no meu canto,
espiritualizado, leve, quase levitando, em harmonia com o universo. Nada vai
tirar a paz que conquistei. Somaisêu.
(Texto publicado originalmente em 2021)
9 de março de 2025
Corpos Perfeitos
Ah, pronto!
Passei a receber um tsunami de postagens patrocinadas no Facebook e no Instagram, oferecendo de tudo para chegar ao “corpo perfeito”. Desde receitas mirabolantes para enfiar goela abaixo, passando por sessões de tortura, até coisas esdrúxulas, como encolher a barriga, puxando a respiração bem profundamente, lá pra dentro, a ponto de a pessoa ficar azul, sem fôlego, tudo isso de manhã cedo, ao acordar, ainda em jejum, para alcançar o abdômen negativo. Liliane Amorim acabara de morrer e esses absurdos passavam diante dos meus olhos a todo momento. Ela queria um “corpo perfeito”, além do “corpo padrão” que já exibia em fotos nas redes sociais. Para olhos saudáveis, aquele corpo não precisava de mais nada. E ela influenciava um monte de outras mulheres e isso faz um estrago danado na cabeça de muita gente...
Tive um câncer de mama doze anos atrás. Após seis sessões de quimioterapia, passei por uma cirurgia chamada TRAM. Para quem não sabe ou não acompanhou comigo na época, minha mama esquerda foi totalmente esvaziada, preservando pele, mamilo e aréola. No mesmo procedimento, o cirurgião plástico abriu meu abdômen, como em uma abdominoplastia, cortou ali meus dois músculos reto abdominais, mergulhou-os por dentro, passando-os por um “túnel” e com meus próprios músculos preencheu minha mama. Hoje meu abdômen é protruso, feito a barriga de uma grávida de seis meses. Nem cinta disfarça, porque é rígido. Minha mama esquerda, após vinte e cinco sessões de radioterapia, deixou de ser uma promessa de mama (quase) normal. As pontas dos músculos sofreram queimadura e fizeram uma esteatonecrose. É dura feito rocha, feia, repuxada, dolorida e está diminuindo de tamanho gradativamente. Haveria uma forma de corrigir, mas para isso teria que perder mais um músculo, desta vez das costas, e não estou a fim. Por ter menopausado aos quarenta anos, por causa da quimioterapia, as consequências da disfunção hormonal apareceram cedo. Além disso tudo, o metabolismo é lerdo, ganhei peso e sou uma mulher de cinquenta e dois anos, viva da silva dentro desse corpo, satisfeita pela oportunidade de ainda estar por aqui, porém sempre com uma ponta de tristeza diante do espelho ou quando precisa comprar roupas ou na hora de escolher roupa pra ir à rua.
São doze anos parando em frente ao espelho contrariada, vendo a mama a cada dia mais feia e menor, a barriga mais apontada para a frente, as cicatrizes salientes, em seguida respirar fundo e sair logo, dizendo “sou uma privilegiada, há coisas mais importantes pra pensar, afinal tô viva”. Confesso que por diversas vezes a depressão me fez acrescentar um “pra quê”, depois de “tô viva”. Enfim, são reações humanas, compreensíveis, perdoáveis.
Dias atrás a publicitária e influenciadora Cris Guerra gravou e postou um vídeo ótimo e útil, em que falou sobre etarismo. Pedia aos humoristas – no caso, Fábio Porchat – que se atualizassem na forma como se referem às pessoas maduras. Num episódio de Porta dos Fundos, a personagem de Porchat teria feito chacota com a mãe, uma mulher de cinquenta e oito anos, lesada, tratada como uma vovozinha demente. Cris discorreu sobre como o mundo mudou para nós, mulheres, que já de bom tempo deixamos de ser velhas a partir dos quarenta, para sermos profissionais de sucesso, livres, independentes, donas de nossos narizes e de nossos corpos. Um discurso excelente, não só a respeito de mulheres, mas de pessoas maduras em geral. Compartilhei com deus e o mundo.
Só que na sequência do vídeo, pude acompanhar algumas postagens da publicitária em que ressalta o poder de escolha das mulheres maduras de, sim, poderem usar o cabelo que bem entenderem, a roupa que bem entenderem. “Minissaia depois dos 50, pode, sim!”. Claro que pode, mas há um porém aí. Pelo menos nas TLs das minhas redes sociais não passam mulheres maduras gordas e barrigudas, de minissaia e vestido tubinho e croped, com o mesmo discurso de Cris Guerra, magérrima, corpinho de uma jovem de vinte anos. Como eu, deve haver muitas mulheres da minha idade, com meu corpo, sem representatividade. Há inúmeros perfis de 50+ nas redes e nenhum de mulheres acima do “peso padrão”, desfilando roupas descoladas, utilizando-se do mesmo discurso das escolhas e etcéteras. Todas são magras, ou seja, é como se mulheres 50+ gordas não existissem.
Tudo bem, posso viver como quiser, ter a cor e o corte de cabelo que preferir e me vestir conforme der na telha. Não tenho a menor vontade de vestir uma minissaia ou um croped. Mas não há referências para mulheres com meu biotipo atual, enquanto mulheres maduras magérrimas não são maioria. Não tem interesse em produzir moda pra nós. As influenciadoras, mesmo as maduras, batalham pra manter seus corpitchos sequinhos e se esforçam para propagandear as maravilhas da idade – pra elas. Quem ousa mostrar um corpo levemente acima do “peso padrão” é execrado por comentários ofensivos. Ou seja, as falas são lindas, pertinentes, necessárias. Aplaudo e colaboro com a difusão de toda e qualquer iniciativa que atualize discursos, quebre preconceitos e paradigmas. Só que na prática ainda não vemos mulheres reais representando mulheres reais. O mercado não permite, a misoginia não permite, até as poucas influenciadoras que se dizem feministas acabam levando caixote nessa onda e seguimos assim.
(Texto publicado originalmente em 2021)
Aroma de Vanilla
Nunca fui muito fã do sabor de baunilha em alimentos, como doces, bolos e sorvetes, mas o aroma suave emanado da xícara de chá fervendo era de um frescor que nunca tinha sentido antes. Talvez pela mistura com camomila e mel, pensei. E jamais imaginaria, até poucos meses atrás, que a baunilha era uma orquídea – a Vanilla planifolia.
Inebriada pelo vapor perfumado do chá, lembrei de tudo o que aprendi sobre a Orquídea Baunilha nos últimos meses e no tanto de tempo que a cura das vagens demora pra que possamos apreciar essa fragrância, extraída de uma substância chamada vanilina.
Existem mais de 35 mil espécies de orquídeas registradas e a Vanilla planifolia é a única que produz vagens comestíveis. É uma orquídea terrestre trepadeira, cresce melhor se plantada no chão e pode alcançar até dez metros de comprimento – uma exagerada. É nativa do México, no entanto a maior produção está na Indonésia e em Madagascar, onde há mais de oitenta mil produtores cadastrados.
Segundo os orquidófilos, a flor da Baunilha não tem a menor graça: é pequena, de cor verde-amarelada, não tem perfume, além de a planta ser meio desengonçada. Raramente é polinizada de modo natural, porque as abelhinhas responsáveis por esse trabalho não ocorrem fora da América Central, portanto, desde a polinização, o processo é manual e bastante demorado, o que torna a vanilla uma das especiarias mais caras do mundo.
Pra início de conversa, ela só floresce a partir do sétimo ano de cultivo e as flores duram um único dia. Como se dozes horas pra polinizar à mão não fosse dificuldade suficiente, a fertilização das flores só pode ser feita de manhã, logo que elas abrem. Imagina transferir o pólen de uma flor para o estigma da outra, uma a uma, em curto tempo. É preciso quase ter mãos mágicas.
Após a polinização, é sentar e esperar para que nasçam as vagens e amadureçam por um período entre oito e nove meses, até que possam ser colhidas quando atingirem uma cor opaca, quase marrom. Então se inicia o processo de cura, em que as vagens passam por uma secagem, ora ao sol, ora à sombra, em etapas de uma semana cada e, em seguida, um repouso de três meses ao abrigo da luz, tempo para a maturação dos cristais de vanilla e fixação do aroma. Em um processo 100% artesanal, cada vagem é alisada e esticada manualmente, para se tornar a vareta de baunilha que a gente encontra no mercado a preços nada simpáticos. Nos processos mais industrializados, o tempo de cura pode ser mais curto com a ajuda de fornos. Ainda assim, são anos de investimento, do plantio à idade adulta da orquídea, mais a espera de meses pelo amadurecimento das vagens e o período de cura.
Caminho longo para chegar à minha cozinha no aroma do chá e me encantar, a ponto de me levar longe, a construir mentalmente cada passo da produção da baunilha e, detalhe, não fui eu quem tomou o chá. Apenas estava ao lado, em silêncio, desfrutando. Foi quase uma meditação, com perfume e quentura na noite fria.
Agônica
Estou morrendo. Definho um pouco por minuto, perco massa, líquidos, nutrientes. Tudo o que me compõe – ou compunha – se esvai de meu corpo cada vez mais rápido.
Ouço dizer que me amam, porém sinto
que apenas me exploram, usurpam, vilipendiam. Acho mesmo é que sou odiada.
Destroem a mim e a tudo o que
sou. Arrancam-me a vida, minha história. Deturpam como me constituí e
desqualificam minha magnitude. Duvidam da minha sensibilidade e de minhas
fraquezas.
Suja! Muito suja! Quem vem a mim
retira o que tenho e ainda me largam imunda!
Rolo de um lado a outro, por
vezes mudo de posição, tento me salvar sozinha, como já fui capaz em épocas
passadas. Agora, pisam-me sem piedade, tiram de mim e não me alimentam, bebem-me
e não me saciam a sede, introduzem-se em minhas entranhas e me viram as costas.
Há dias em que me revolto e
vomito; ou sofro e exponho sintomas das síndromes que me debilitam. Ponho fogo
na casa, berro, desespero. Peço socorro e consigo algum olhar de compaixão.
Olham-me; não me veem.
Tomam-me bens valiosos e dispõem
sobre mim coisas que não me pertencem – vai ficar mais bonita, mais eficiente,
mais isso ou aquilo. Não quero nada! Nunca quis! Não fui feita para ser adornada
ou destruída por quem quer apenas se servir e jogar fora – para mim, não existe
fora. Por isso estou virando uma latrina.
Não tenho sequer um plano de
saúde. Testaram vários e nenhum deu certo, por serem caros, por concluírem que
não valeria a pena. Custos altos ultrapassariam os ganhos imediatos, esses sim,
indispensáveis. Que plano de saúde existiria pra mim? Saúde pública, nem pensar,
pois querem mais é que me exploda.
Só que não se lembram, não sabem,
ou não se tocam que é grave minha condição. E quem de mim se serve, portanto,
morrerá comigo. As doenças que me contaminam, acometem os que me consomem.
Estou ficando feia, sem viço, sem
brilho, exceto em pontos esconsos que resistem, em órgãos que se ordenam por
conta própria para garantir minha sobrevivência.
No entanto, estou morrendo. Já
sufoco e mal consigo respirar. Não demora e acabo, assim, da noite para o dia.
Implodo, viro lama, fumaça e pó.
E se você leu esse lamento até
aqui e deu de ombros, é porque faz parte da quadrilha que me assassina dia a
dia e que irá se extinguir junto comigo.
Silêncio abafado
Tantos anos depois, ainda que goste muito – e cada vez mais – de silêncio, me desconforta esse tal silêncio abafado das tardes frias. Nem passarinho canta. Bem longe soa um pio fraco que logo some. Lá de mais longe vem um latido e mais outro latido. Em alguma cozinha louças se esbarram ou caem ou quebram. Um ônibus passa na avenida principal.
Tomo uma xícara de café, sozinha à mesa, atenta a esses ruídos distantes e abafados pelo silêncio da tarde fria. Respiro o vapor do café. Sinto uma tristeza. Passeio no passado.
O cheiro da tarde fria de silêncio abafado lembra o café da infância atravessando o coador de pano e enchendo o grande bule. Lembra o aroma do pão quentinho na cesta do padeiro de bicicleta, que buzinava subindo a rua. Lembra os finais de tarde em que chegava do colégio junto com a noite e juntava o que havia nas panelas num delicioso mexidão: arroz, pedaços de angu, caldo de feijão, ovos.
As tardes frias de silêncio abafado com cheiro de café e pão quentinho lembram o banho com a luz do sol fraco no basculante do banheiro, a camisetinha de algodão com paletó de flanela por cima e o pescoço branco de talco perfumado.
As tardes frias de silêncio abafado com cheiro de café e pão quentinho e talco perfumado lembram a horta no quintal e o canto do galo no galinheiro. Galo disciplinado, jamais perdia a hora. O canto da tarde encerrava o dia, a brincadeira. O canto da manhã... ah, desse eu não lembro.
As tardes frias de silêncio abafado com cheiro de café e pão quentinho e talco perfumado e canto do galo no galinheiro são tempos que fixaram morada eterna na memória, mas não são saudosos. Não os recordo como tempos felizes. Eram dias e tardes e noites melancólicos. Eram dias duros, de uma vida dura, das obrigações rigorosamente cumpridas para garantir a sobrevivência. Eu era criança, não sabia de nada, mas sentia peso no ar. Sentia a vida sendo empurrada pela pressão das carências impostas pela vida. E o silêncio daquelas tardes é o mesmo que ouço agora, com os mesmos cheiros e ruídos. A mesma melancolia. Tomo mais um gole de café.
Onde começam os desafios
Queria dizer que o maior e principal desafio é ser mulher. Já li muitos livros de autores famosos em que falam sobre como escrevem, dão dicas, criam verdadeiras oficinas impressas, relatam suas rotinas. Impressiona a maioria dessas publicações serem escritas por autores homens. Um dos que mais me chamou a atenção foi “Romancista como profissão”, do Haruki Murakami. O escritor japonês detalha sua rotina diária: corre sei lá quantos quilômetros, se alimenta assim e assado, escreve xis horas por dia, lê mais xis horas por dia. Pergunto: quem faz o café desse ser? Quem faz o almoço? Quem lava o banheiro, as cuecas e as roupinhas suadas das corridas diárias?
Uma mulher, para ser escritora, antes de qualquer outra decisão tem que ter muita coragem pra encarar o “você não tem competência pra isso”, “você não pode”, “isso não é profissão de mulher” (sim, ainda se escuta isso no século 21), “seu trabalho não é bom o bastante” e por aí vai. Se optar por não casar e não ter filhos já é um bom começo, porém infelizmente não é o caso da maioria.
Relato agora um exemplo de uma escritora, que vou chamar apenas de Escritora:
Nasceu numa família que valorizava a arte dos outros. Em casa, arte não seria nunca aceita como profissão. Para as filhas mulheres, então, nem pensar. Como destino comum a muitas de nós, Escritora casou, teve filho e anotava algumas coisas pra si. À época até arriscava umas crônicas. Tempos depois de casada, ouviu do marido, em alto e bom som: “Quem escreve nesta casa sou euuuuu!”. A essa altura o casamento já não era casamento.
Outro grande desafio a ser vencido por Escritora foi a própria família, para quem seu desejo e futura realização jamais seriam valorizados. Aprenderia a conviver e a aceitar isso sem mágoa muito mais tarde. Já separada e sozinha com o filho, trabalhava fora, cuidava de filho pequeno, fazia almoço, lanche, janta, lavava roupa, filho no banho, filho pra escola, louça, casa... e ainda assim conseguia se sentar em alguma hora do dia pra escrever. Numa dessas, a mãe ligou:
- Tá muito ocupada?
- Tô escrevendo, mãe.
- Ah, então eu posso falar...
E era um blá-blá-blá interminável, de assuntos nada urgentes, que para Escritora nem eram assuntos. Também muito mais tarde ela aprendeu que se quisesse escrever mesmo, uma das coisas que precisaria aprender seria mentir para a mãe nesses momentos. Deu certo.
Quando Escritora já havia alcançado algum conhecimento do público, foi convidada para ministrar uma oficina de crônicas numa bienal, cujo nome era de um escritor brasileiro muito conhecido. Vou chamá-lo aqui de Escritor Brasileiro. Feliz da vida com o reconhecimento e com o cachê bonito que receberia, chegou à casa da mãe contando a novidade.
- Mãããe! Fui convidada pra ministrar uma oficina de crônicas na Bienal Escritor Brasileiro!
E foi imediatamente interrompida pelo irmão:
- E você por um acaso sabe quem é Escritor Brasileiro?
A mãe deu um sorrisinho de canto de boca. Jamais contrariou
ou permitiu que o filho fosse contrariado. Ficou por isso, porque Escritora
também jamais daria uma resposta atravessada ao irmão.
Escritora ainda viveria outros momentos marcantes com pessoas da família, mas encerro o relato com mais um episódio envolvendo a mãe. Aconteceu quando ela contou sobre a pesquisa que estava fazendo para escrever um livro de tema muito difícil, tabu, pesado.
A mãe:
- Você sabe que que não vai conseguir fazer isso, né? Eu te conheço. Esse assunto não é pra você.
- É você quem não me conhece e nem quer conhecer - respondeu
em pensamento.
A mãe jamais leu um livro da filha Escritora.
Desafios, meus amigos, não começam no pegar a caneta e escrever. Não começam na dificuldade de transformar ideias em textos, crônicas, crônicas, contos, romances ou o que for. Não começam na necessidade primária de ler muito para escrever bem, muito menos em dedicar dias e noites em pesquisas para desenvolver uma história. Para uma mulher, pobre, de família conservadora que jamais vai apoiar sua vocação, o maior desafio é ter determinação, ter a audácia de passar por cima dos nãos e ir adiante. O resto vem.
Texto publicado originalmente em 2023.
8 de março de 2025
O Lugar
Todo dia 8 de março, ao entrar na sala, no setor de
comunicação, dava de cara com sorrisos de canto de boca, olhares de esguelha,
aguardando o momento em que eu ligaria meu computador.
Para esse dia especial, um outro setor do Lugar se esmerava
na “decoração” de nossas telas iniciais, em alusão ao Dia Internacional da
Mulher.
E era abrir minha área de trabalho e lá estavam rosas,
brilho dourado, muito fru-fru e aquela frase de efeito, que além de cafona era
de uma despolitização que me queimava de vergonha alheia.
Meus colegas de sala aguardavam ansiosos a minha reação,
aguardavam pra rir de mim, a única a se indignar com a pataquada, a total
desinformação que deveriam envergonhar o Lugar e todos os que trabalhavam ali.
E eles riam. Elas riam. A chefe ria.
Houve um ano em que fomos surpreendidas por um grupo de
mulheres vestidas de camponesas carregando cestos e, dentro deles, presentes
para as mulheres: maquiagens!
Sentia raiva, mas também me dava uma tristeza... uma
preguiça...
Às vezes dizia algo, outras vezes apenas cara feia e, mais
tarde, cansada e sozinha num ambiente em que não me cabia, silenciei.
No último ano em que trabalhei no Lugar, no dia 8 de março,
após a surpresinha nojentinha matinal, recebi um email da Grande Chefe, a dona
da poha toda, seríssima, caladona, osso duro de roer (acho que era a primeira
mulher a ocupar aquele posto em anos de existência do Lugar).
Os termos da mensagem eram mais ou menos assim:
“Bom dia, Giovana. Preciso que você crie um texto curto, de
poucas linhas, para que eu possa enviar às funcionárias do Lugar no dia de
hoje. Quero que seja você a fazer isso, com seu conhecimento do que significa
esta data.”
Quase chorei.
Não comentei com ninguém, elaborei o texto com o que pensava
ser necessário ser dito por uma pessoa da estatura da Grande Chefe às
funcionárias todas, de todas as classes sociais, etnias, religiões e tal.
Exatamente por ser mulher, me diminuí e ainda pensei: “Ela
não vai gostar, vai pedir pra mudar um monte de coisa...”.
Enviei o texto solicitado e poucos minutos depois todo o
Lugar estava recebendo a mensagem feita por mim, na íntegra, sem flores, sem
enfeitinho.
Não pude saber como foi o 8 de março seguinte, pois não
terminei aquele ano no Lugar. Sei por muito que vi de fora de lá, por um tempo,
que a cultura, a informação, o estudo, a pesquisa, o entendimento do mundo e da
história ainda vão demorar um bocado para alcançar homens e mulheres.
Porém em anos de trabalho no Lugar foi o primeiro e único Dia
Internacional da Mulher em que senti certo ânimo, esperança, por uma inciativa
simples de uma única pessoa que entendia, naquele universo enorme de gente, o
porquê de lembrarmos desta data tão importante e dolorosa.
A estrada é longa, ainda vamos esbarrar com muitas flores,
bombons e “Feliz Dia, Guerreira!” pela frente. O cansaço e a preguiça me vencem
na maioria das vezes, mas estou aqui, revelando esta história, querendo
acreditar que podemos mudar o rumo dessa prosa e que daqui a algum tempo não
precisaremos mais passar raiva com florezinhas chegando nos emails, zaps,
mensagens diretas etc.
Bora continuar na luta!






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