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21 de julho de 2025

Quando deito pra dormir

– ôôô, meu Deus, obrigada, mais um dia vencido! Mais um ou menos um? Sei lá, é difícil resolver isso e todo dia é a mesma dúvida. Caramba, meus pés estão doendo de frio e não esquentam, duas meias, que saco essas cobertas não estão embrulhando meus pés do jeito que eu preciso. Podia pegar outra meia, mas não vou, não, preguiça danada, agora que me ajeitei. Vai demorar a esquentar, mas daqui a pouco dá certo. Ai, meu quadril, desse jeito não dá, vou ter que virar pro outro lado. Melhor nem abrir os olhos, pra não despertar de vez. Despertar o quê, se nem relaxei pra dormir? Fica quieta, mulher, para essa cabeça. Pronto, parou, esquece o pé, não pensa, respira... Será se o marido vai demorar a vir dormir? Tá muito frio, amanhã ele vai reclamar de dor nas costas, no pescoço, meu pescoço também dói com frio e a lombar e os quadris e os joelhos, tô mais velha que o marido. Este ano queria fazer festa de aniversário, juntar gente, cantar parabéns, sempre tão difícil, vou ficar só na vontade e passar sozinha de novo com o marido, ô chatice essa data que eu nasci. Acabei fazendo a mesma coisa com meu filho coitado, onde será que ele vai passar aniversário este ano? Ele sempre some pra curtir sozinho, o mesmo problema da data, juntinho comigo. Vou acabar indo pro mesmo lugar, de novo, pelo menos é aniversário diante do mar. Será que vai dar pra levar minhas amigas à praia em julho? Sempre consigo ir, faz calor de dia, não é impossível. Tanta coisa pra organizar, preocupada com o carro que vai lotado, muita bagagem pra ficar lá em casa uma semana inteira. Para a cabeça! Não pensa. Respira. Já deve ter uma hora que tô aqui, que barulho é esse? Geladeira assombrada fazendo barulho novo, credo. Seis anos com ela e ainda não acostumei com os estalos de madrugada. E nem madrugada é ainda. Até a geladeira contra mim. Deve estar com raiva porque precisa de uma limpeza e eu com preguiça. Tô muito acelerada, acho que vou ter que tomar mais um comprimidinho. Não, vou continuar tentando. Para a cabeça! Não pensa. Isso, respira, continua assim, é desse jeito que se medita, sabia? Ah, não tenho talento pra meditar, não. E aquele vídeo engraçado ensinando a esvaziar a mente? Misericórdia! Ficava imaginando como seria o rosto dono daquela voz escorregadia feito uma flauta desafinada. Quem consegue meditar ouvindo aquilo? Credo. Minha amiga nunca mais voltou a tocar flauta, era tão linda se apresentando. Posso falar nada, também nunca mais passei meus dedos pelo teclado de um piano, vida que passa, que atropela, tinha que estudar, trabalhar, criar filho. Onde será que tá ele a essa hora? Não deu notícia essa semana, moleque abusado. Amanhã mando mensagem cedo, se der tempo, preciso dormir, meu Deus. Tenho que pular da cama muito cedo pra fazer meu exame. Car%$#@! Onde coloquei o pedido? O que fiz quando saí do consultório do médico? Botei o pedido na bolsa ou no envelope dos outros exames? Já faz tantos dias. Ih... troquei de bolsa nem sei quantas vezes. Não vai dar tempo de ver isso amanhã quando eu acordar. Nããããão! Agora, não vou ver nada. Tô tentando dormir. Raiva do marido. Já veio pra cama, já apagou e já tá roncando. Agora é que não durmo mesmo. Maridoooooo! Vira de lado, por favor. Pelo menos o potinho pra fazer xixi já tá no lugar certo, não vou esquecer de coletar. Será que o marido não mexeu? ai ai ai, só me falta isso. Ter que levar o material depois, porque não encontrou o pote. E vou ter que ir na farmácia pegar outro. Ah, não. Pego no laboratório mesmo, mas vou ter que passar na farmácia, de qualquer jeito. Preciso de mais protetores auriculares, escova de dente nova, remédio de pressão e o analgésico pra dor na lombar. Minhas costas... virar de novo pra ver se me ajeito melhor. Tinha mais uma coisa pra pegar na farmácia e não lembro o que é. Pronto, não durmo enquanto não lembrar. Eu não me aguento. Para a cabeça! Não pensa. Respira. Nariz entupiu de novo, cadê o neosoro? Era pra estar aqui, na beiradinha da mesa, putz, a diarista veio hoje e mudou meu remédio de lugar, vou ter que acender a luminária. Nããããão! Luz não! Achei. Maridoooooo! Ajeita a cabeça, por favor. Puxa vida, sei que eu ronco também, mas ele não acorda com ruído nenhum, enquanto eu definitivamente não durmo. Vou virar de novo e... calooooor! Onze graus, inacreditável meu estado, jogando as cobertas pra longe. Calma, respira quietinha, que passa. Não se mexe. Lembra quando brincava de Mandraque. Que Mandraque nada! Não aguento! Cadê o controle do ventilador? Também era pra estar ao lado do neosoro e não tá. Calor estúpido! Vou ter mesmo que ir na cozinha tomar o outro remédio e vai ser mais um tanto de tempo esperando fazer efeito, se fizer. Para a cabeça! Não pensa. Respira...

6 de julho de 2025

A mãe da Fatinha morreu

As panelas chiavam nas cozinhas, quando a notícia correu a vizinhança. A mãe da Fatinha morreu. Quem privava de alguma intimidade com a família se apressou a acudir marido, filhos, sogra, passar um café. Os que ficaram boquiabertos em suas casas se postaram em rezas, em vozes que entremeavam “Deus ajude”, “Deus console”, “Deus receba”, “que tragédia, meu Deus”. Outros foram aos portões, a ver de longe o movimento. Fogões apagados, cozidos interrompidos, arroz queimado. E a mãe da Fatinha nem chegou a colocar a comida no fogo.

Saiu para as compras, levando sua bolsinha de mão e dentro dela a lista do que precisaria para o almoço. Desceu a rua que desembocava na porta do mercado, parou pra dar uma olhadinha nas bancas de frutas, verduras e legumes, enfileiradas do lado de fora. Pegaria o que precisasse antes de entrar. Com a calma e simpatia de sempre, cumprimentou um funcionário aqui, uma conhecida ali, passeou pelas gôndolas a encher sua cesta. No balcão do açougue pediu zelo com o corte da carne, bem bonita, vistosa e limpinha. E não esqueceu do Mineirinho que a Fatinha adorava.

Depois de parir cinco filhos homens, Fatinha chegou para ser o dengo da mãe. Mimos, chamegos, trato diário e caprichado nos longos cabelos ruivos. Bateu boca com o marido pra dar nome à criança, nascida menina pela graça de Nossa Senhora de Fátima, a quem tanto pediu tal bênção. Fatinha cresceu diferente, recusou vestidos, gostava de shorts, regata e kichute, os irmãos criticavam, o pai grunhia ao vê-la jogando bola na rua, mas a mãe era só amor. Já a minha mãe não deixava brincar com a Fatinha. “Não é companhia pra você”, dizia, sem explicar o motivo.

Todos os domingos o almoço era o momento único da semana pra juntar a família, comida diferente da rotina, risadas à mesa, assistir ao Qual é a Música no início da tarde com as barrigas estufadas. Para a mãe da Fatinha era um dia pra lá de especial. Sua caçula fazia quinze anos. Preparou a lista para a refeição preferida da filhota: lagarto redondo recheado com linguiça, maionese de legumes, macarrão. Foi o que se espalhou pelo asfalto na frente do mercado, logo que a mãe da Fatinha deu o primeiro passo para atravessar a rua. Ela não viu o carro vindo de trás da caminhonete parada em fila dupla e voou. Voaram as batatas, cenouras, cebolas, maçãs, azeitonas. O Mineirinho rolou para o outro lado da pista espumando à pressão. Embaixo da caminhonete, dois caramelos já disputavam o lagarto redondo e a linguiça, mal o corpo magro da mãe da Fatinha encontrou o chão. Tão disforme que não sobraria nada, caso lhe sobrasse vida.

De longe dava pra escutar os gritos da Fatinha chamando pela mãe; a rua inteira escutou. Tão querida, tão prestativa, tão amável, dava a vida pela filha... Baixaram as músicas, não se ouviram as risadas às mesas, nem a voz do Silvio Santos ecoando das TVs, não teve o churrasco da mãe da Vanessa, vizinha de frente da mãe da Fatinha.

Naquele tempo os mortos eram velados em casa. Da calçada do outro lado era possível ver o caixão na sala, embaixo da velha lâmpada incandescente pendurada pelo fio e rodeado por sei lá quantas pessoas. Fatinha destroçada. O tanto de gente que passou por ali, virou a noite, chorou com os filhos, provava o quanto a mãe da Fatinha era querida. Quintal cheio, calçada cheia, gente que não parava de chegar.

No enterro, logo cedinho, vi de perto o caixão baixar a sepultura, Fatinha ajoelhada em cima do monte de terra vermelha, as mãos sobre a terra vermelha, os olhos vermelhos. Falava sozinha, falava com a mãe, enquanto em volta rezavam a última oração, entoavam os últimos cânticos. Do lado de cá da cova, observava Fatinha, agora sem mãe. Fios do cabelo colavam à pele do rosto, ao suor, às lágrimas. Rosas atiradas, terra sobre a tampa do caixão e Fatinha agora gritava “Eu queria estar lá dentro com ela! Eu queria! Queria estar lá dentro com ela, ir embora com ela!” e várias mãos a puxavam pelo braço, chamavam seu nome, ela arrastada pra trás, o corpo sem forças, desfalecendo.

Há quase cinquenta anos esses gritos ecoam na minha memória, junto à sequência de imagens e rezas e gritos e sepulturas feias e malcuidadas no velho cemitério público da cidade. E não tenho certeza se realmente estava lá, porque minha mãe jamais me deixaria ir ao enterro da mãe da Fatinha.

11 de março de 2025

Onda de pobreza extrema

Temperatura: 38º. Sensação térmica: 40º.

Pego meu livro, caderno, lápis, caderno e caneta. Sento no sofá da sala, onde o ar-condicionado opera em 17º e o ventilador sopra direto no meu pescoço, área do corpo que ferve após a menopausa. É domingo e a onda de calor no Sudeste do Brasil cozinha os miolos.

Abro o livro sobre as pernas e olho pela janela. Ainda transpiro, após o almoço na cozinha abafada, e respiro aliviada pelo privilégio de ter uma casa ampla, morar numa área muito arborizada próxima à Mata da Cicuta e ter aparelhos que aliviam a impressão de derretimento de corpo e alma.

Impossível não pensar em quem não tem os mesmos privilégios, ao menos uma morada ventilada, um ventilador barulhento. Três da tarde, céu azul límpido, um sol pra cada um, lindo dia de quentura extrema e de muito sofrimento para muitos lá fora.

Lembro de uma das visitas que fiz, quando acompanhava a equipe de atenção domiciliar a pacientes terminais, para escrever meu livro “Alguém pra segurar a minha mão”. Bairro periférico, quase hora do almoço, quase o mesmo calor de hoje. Numa casinha de tijolos, quintal apinhado de entulhos de todo tipo e cheiro de sujeira, em um quarto minúsculo sem janelas estava a paciente. Uma senhora de quase oitenta anos, acabava de chegar de uma internação. Talvez a última. Uma cama, uma mesinha improvisada, uma cadeira para o médico sentar.

Dona Cida, assim vou chamá-la aqui, era diabética, cardíaca, hipertensa e sofria as sequelas de tudo junto. Falava aos suspiros e era traduzida por uma pessoa da família. Suava. Como suava! O médico perguntou se teve febre e como resposta ouviu que não havia dinheiro pra comprar termômetro. Não cabiam todos da equipe dentro do quarto e mesmo se coubesse, nenhum de nós suportaria o abafamento.

Era o que tinha e era o possível, me disse o médico. A vida se esvaindo em meio a condições que não ajudavam, ao contrário. A morte vai chegar mais rápido, pensei. Como garantir a dieta adequada, remédios, roupa limpa e trocada todos os dias, ar respirável. Percebia-se que ninguém na casa tinha conhecimento para os cuidados mínimos.

Foram muitas as famílias que conheci em cenários semelhantes ou piores. Na experiência como repórter, infelizmente testemunhei pobreza extrema, famílias enormes compartilhando um cômodo, sem ventilação, muitas vezes sem banheiro, sem o básico, sem nada. Isso já faz uns trinta anos e infelizmente tudo continua do mesmo jeito.

O sentimento de desânimo me desaba, no momento em que estudo, leio, escrevo, aproveitando o domingo tranquilo pra colocar leituras em dia, anotar dados de pesquisas para um artigo, fresquinha no sofá da minha casa, atendendo a demandas do ofício.

E a pergunta que sempre me vem à mente é: “Pra quê?”

É luta atrás de luta, “êita atrás de êita”, sempre na tentativa de mudar algo, melhorar aqui, avançar lá, mas a canícula que hoje nos rouba o conforto vai piorar. O clima está em polvorosa. Há muito tempo algo de concreto deveria estar em curso para frear o aquecimento tão anunciado e que agora nos acomete com recordes de temperaturas altas, tempestades, ciclones, furacões, incêndios florestais e até urbanos. E na outra ponta da cegueira, da negação, dos interesses espúrios que negligenciam as necessidades, continuam lá as famílias das donas Cidas, na mesma indignidade de sempre. Preciso respirar fundo e tentar me concentrar na leitura, pois há compromissos a cumprir. O que posso fazer individualmente, faço. Mas não depende do “se cada um fizer sua parte”. É muito mais que isso, o buraco é bem mais embaixo e como ouço dizer por aí, “isso não vai dar bom”.

Eu viro as costas

Daqui uns dias completo cinquenta e cinco anos nesta existência. Tempo que deu direitos mais que suficientes de me manifestar sobre certas questões; não apenas dizer, mas pensar, escolher. É de escolhas que venho falar. Já que em muitas situações não temos alternativas, podemos pelo menos aprender a aceitar ou não o que é imposto pelas circunstâncias.

A caminho dos sessenta posso afirmar que aprendi em anos de psicanálise que dizer ‘não’ é saudável e libertador. Aceitei de bom grado as vitórias, as conquistas, o conhecimento, o aprendizado, amores, amizades, filho, viagens, trabalho, profissões. No entanto também tive que me submeter às adversidades. Perdas pelas quais choro há anos; desemprego com filho pequeno e sozinha pra dar conta; relações tóxicas (inclusive dentro da família); um TDAH que me causou trocentos problemas por todos esses anos, só agora corretamente diagnosticado; um câncer de mama aos quarenta anos, que desconstruiu meu corpo, minha casa nesta vida, e me obrigou a reconstruir a alma com os cacos que sobraram, pra continuar meu percurso por aqui.

Todo esse combo me suavizou por um lado e me endureceu por outro. Portanto me sinto à vontade para dizer não a outras tantas situações, condições e pessoas. E digo ‘não’, firmemente, às pessoas sem caráter. Nesta fala, defino como ausência – ou desvio – de caráter a criatura que atraiçoa, abusa, intoxica, maldiz, dissimula, tem maldade no coração, mas aparenta doçura para conseguir o que quer a qualquer custo. Gente sem caráter não mede esforços para enaltecer o próprio umbigo, em detrimento do outro, da participação do outro, da colaboração do outro; gente que passa o trator por cima de quem quer que seja, ainda que machuque, adoeça ou mate.

A mim não importa quem seja ou de onde venha: mulher, homem, velho (“Canalhas também envelhecem”, né? Vide meu livro “Justa Causa”), LGBTQUIA+, pessoa com deficiência (Sim! Caráter não está no corpo), profissão, classe social... Não importa a cor da pele, etnia, raça, religião, time que torce. Não tolero e não tolerarei a canalhice da fala doce pela frente e a flexa atirada na minha nuca quando me viro. Não tolero e não tolerarei as cobranças por visibilidade dos próprios feitos, enquanto é vil, venal, desumano, infame, imoral, desonesto, hipócrita, sonso, mal, cruel. Eu digo ‘não’.

Viro as costas solenemente; me levanto, se sentar na minha mesa; viro a cara, se me olha; mudo de calçada, se vir em minha direção; desprezo.

Não sou espiritualmente evoluída para relevar, compreender, perdoar e ser generosa com gente mau-caráter. Não quero e não preciso ser benevolente com pessoas abjetas. Parabéns a quem consegue.

Por fim, não aceito cobranças, muito menos exigências dessas criaturas repugnantes e nem atendo aos apelos de quem as defende, seja por ingenuidade ou excesso de generosidade ou, sei lá, por má fé, por serem semelhantes. Até porque não cobro bom comportamento de ninguém e jamais vou permitir que me cobrem. Tenho muitas limitações, mas se tem algo que não tolero, de jeito nenhum, é gente mau-caráter. Era só isso.

(Texto publicado originalmente em 2023)

10 de março de 2025

Velhos são gente, não anjos

As tradições familiares, por afeto ou pressão histórico-cultural ou por influência religiosa, generalizam incoerências. Uma delas é afirmar que todo idoso é sábio, que se deve valorizar e respeitar a sabedoria dos mais velhos, que se deve ouvi-los porque são referência, seguir seus conselhos, aprender com eles. Só que idosos são seres humanos, têm limitações, falhas, têm bom ou mau caráter, têm seus lados sombrios. O avanço da idade não promove automaticamente uma mudança de índole.

Não é porque tem cabelo branco e 60+, 70+, 80+ e tantos que se torna sábio de repente. Sabedoria, no sentido atribuído aos idosos em geral, requer um bocado de desprendimento, mais uma boa dose de equilíbrio, entendimento das mazelas do mundo, aceitação das diferenças, serenidade, honestidade consigo e com os outros, preocupação e ocupação com as necessidades alheias, não com o que os outros fazem de suas vidas. Mesmo sem estudo formal, aquele que carrega a sabedoria consigo possui no coração e na alma predicados que o torna uma boa referência, pela sensatez, lealdade ao praticar o que prega, simplicidade e objetividade finas, que sempre surpreendem a quem tem o dom de complicar. Sabedoria é para poucos.

Sem esforço de memória reconheço ao menos meia dúzia de velhos e velhas canalhas, que só enxergam o próprio umbigo e querem que o resto do planeta de exploda – os que podem, já colaboram para que o planeta se exploda mesmo. Gente que não pensa duas vezes ao apontar a “bichinha” e fazer chacota ou dizer que a pessoa de pele negra “nasceu depois das 18h”. Gente que se dedica a olhar e criticar o gordo, o feio, o velho assanhado, a velha desavergonhada, enquanto suas próprias escolhas são sempre perfeitas e de acordo com regras “da boa educação e do bom comportamento e da moral e blá-blá-blá”. São frequentadores fiéis dos templos religiosos, de qualquer denominação, fazem questão de dar esmolas, mas não querem pobre e preto por perto, preto é sempre bandido, população de rua só emporcalha a cidade e atravanca o caminho. São idosos maus, maledicentes, rancorosos, preconceituosos, racistas, egoístas, que vivem de alimentar ódio. Sim, canalhas também envelhecem, né?

Há vovozinhos fofinhos estuprando netas e netos. Há vovozinhas lindinhas e educadas que não “dão a mão a preto”. Há senhorinhas muito queridinhas que não permitem que suas diaristas usem seu banheiro ou que comam sua comida. Há senhoras “de respeito na sociedade” que literalmente escravizam pessoas. Há senhorzinhos passando a mão em bunda de mulher dentro dos ônibus. Há senhores que alcançam poder, fazem fortuna, constroem patrimônio, família, redes de amigos, ganham prestígio, mas se constituíram no crime e no crime permanecem. Há velhinhos e velhinhas com cara de coitadinhos que tornaram as vidas de suas famílias um inferno, porque são tirânicos. Há velhinhos e velhinhas a arruinar psicologicamente filhos e netos, do alto de suas cadeiras de rodas.

Sabedoria dos mais velhos é uma expressão que não cabe na realidade. Velhos são gente, não anjos. Há os gente boa e os que não são. E os calhordas estão por aí, aos montes, se esbarrando uns nos outros. Basta olhar em volta para vê-los se exibindo, descaradamente, inclusive carregando a responsabilidade de milhares de mortes nas costas. Quantos você conhece?

(Texto publicado originalmente em 2021)

Narcisismo espiritual

Faço três meditações por dia. Passo meia hora olhando dentro de mim. Aprendi a conhecer minha respiração e a respirar cada vez melhor.

Com a prática da meditação e de olhar pro meu interior, adquiri autoconhecimento. Como é bom me conhecer!

Meus chacras estão alinhados e não permito que se desalinhem.

Desenvolvi os bons sentimentos, os bons desejos, mantenho meus pensamentos elevados.

Acendo incensos em todos os cômodos da casa, para que as fragrâncias espantem as consciências negativas que porventura passem por aqui.

Diante dos meus altares, me conecto com energias espirituais e com elas converso, me sinto protegido, seguro.

Estou todo o tempo conectado com o meu divino, meu corpo e meu espírito são cada vez mais leves.

Me vigio permanentemente, tento corrigir os meus erros ou o que penso que sejam os meus erros.

A tudo digo gratidão; a todos desejo luz.

Quando me deito à noite, eu-corpo repouso e eu-espírito viajo e danço em harmonia com o cosmos.

Estou sempre equilibrado, porque busquei minha espiritualidade, busquei profundamente esse encontro com meu eu espiritual.

Estou em paz.

Por isso, o mundo a minha volta não me interessa.

Não quero saber do mundo.

Não quero saber do país.

Não quero saber de política.

Não quero saber.

Se souber dessas coisas, se me der conta de tudo o que acontece ao meu redor, perco a minha paz, perco a minha serenidade e meu equilíbrio espiritual.

Prefiro não saber que há 17 milhões de pessoas passando fome no país.

Prefiro não saber que uma mulher morreu queimada, após tentar cozinhar com álcool, porque não tinha dinheiro pra comprar gás.

Prefiro não saber que existe racismo no Brasil; não quero enfrentar a realidade da população negra, que permanece alvo de assassinatos diários.

Prefiro esquecer que meu país é o que mais mata LGBTQIA+ no mundo.

Prefiro esquecer que a cada seis horas e meia morre uma mulher vítima de feminicídio.

Prefiro esquecer que a cada duas horas ocorre uma denúncia de estupro de uma menina menor de 14 anos.

Assim como não quero nem imaginar que existe um genocídio em curso no meu país, em que setecentas mil pessoas morrerem por descaso; até aproveitei o isolamento da pandemia pra me trancar em casa e orar, mas sem acompanhar as notícias (isso nunca!).

Porque não posso perder a minha paz.

Não preciso saber que a gasolina está mais de 7,00, pois nem tenho carro.

Não preciso saber que há mais de quatorze milhões de desempregados. Já sou aposentado e risco de desemprego não me apavora mais.

Não preciso saber que poderia ajudar de alguma forma, que aqui na minha cidade, bem perto de mim, há vários movimentos pedindo ajuda pra pagar aluguel e dar de comer a muitas famílias que estão na miséria. Já tem bastante gente ajudando, né?

Não posso me aproximar de nada disso, senão minha espiritualidade vai ser abalada, então prefiro ficar aqui quietinho, diante dos meus altares, conectado com meu divino, enquanto o mundo a minha volta pode desabar, enquanto lá fora o país pode afundar, fora de mim, enquanto milhares de pessoas devem estar sofrendo por carências materiais, de saúde, de casa, de comida, de acolhimento.

Não tenho nada a ver com isso. Importante é garantir que meu eu espiritual se mantenha como está.

Trabalhei duro pela minha reforma íntima, cresci espiritualmente, investi minha vida em desenvolvimento pessoal, tantas horas e horas e dias e semanas olhando pra dentro...

Se prestar atenção a tudo o que acontece, desarmonizo meus chacras, posso surtar de preocupações, serei alcançado pelas energias negativas que vêm dessas notícias todas, o que vai ser de mim?

Então, vou ficando por aqui, calminho no meu canto, espiritualizado, leve, quase levitando, em harmonia com o universo. Nada vai tirar a paz que conquistei. Somaisêu.

(Texto publicado originalmente em 2021)

9 de março de 2025

Corpos Perfeitos

Na mesma semana em que circularam as notícias sobre a morte da influenciadora digital Liliane Amorim, por complicações após procedimento de lipoaspiração, precisei procurar minha amiga e orientadora de pilates, a fisioterapeuta Amanda Leiroz. Tinha urgência de praticar alguns exercícios específicos, em casa, pois minha coluna e as articulações do corpo todo estavam em frangalhos. Conversamos muito sobre movimentos com bola, que já estava comprada, e também sobre a faixa elástica. Ela me adiantou várias dicas de como usar, principalmente para aliviar as dores na fáscia plantar, causadas pelo esporão de calcâneo. No mesmo dia comprei a faixa pela internet e consultei vídeos de pilates no YouTube, que explicavam como utilizá-la em vários movimentos.

Ah, pronto!

Passei a receber um tsunami de postagens patrocinadas no Facebook e no Instagram, oferecendo de tudo para chegar ao “corpo perfeito”. Desde receitas mirabolantes para enfiar goela abaixo, passando por sessões de tortura, até coisas esdrúxulas, como encolher a barriga, puxando a respiração bem profundamente, lá pra dentro, a ponto de a pessoa ficar azul, sem fôlego, tudo isso de manhã cedo, ao acordar, ainda em jejum, para alcançar o abdômen negativo. Liliane Amorim acabara de morrer e esses absurdos passavam diante dos meus olhos a todo momento. Ela queria um “corpo perfeito”, além do “corpo padrão” que já exibia em fotos nas redes sociais. Para olhos saudáveis, aquele corpo não precisava de mais nada. E ela influenciava um monte de outras mulheres e isso faz um estrago danado na cabeça de muita gente...

Tive um câncer de mama doze anos atrás. Após seis sessões de quimioterapia, passei por uma cirurgia chamada TRAM. Para quem não sabe ou não acompanhou comigo na época, minha mama esquerda foi totalmente esvaziada, preservando pele, mamilo e aréola. No mesmo procedimento, o cirurgião plástico abriu meu abdômen, como em uma abdominoplastia, cortou ali meus dois músculos reto abdominais, mergulhou-os por dentro, passando-os por um “túnel” e com meus próprios músculos preencheu minha mama. Hoje meu abdômen é protruso, feito a barriga de uma grávida de seis meses. Nem cinta disfarça, porque é rígido. Minha mama esquerda, após vinte e cinco sessões de radioterapia, deixou de ser uma promessa de mama (quase) normal. As pontas dos músculos sofreram queimadura e fizeram uma esteatonecrose. É dura feito rocha, feia, repuxada, dolorida e está diminuindo de tamanho gradativamente. Haveria uma forma de corrigir, mas para isso teria que perder mais um músculo, desta vez das costas, e não estou a fim. Por ter menopausado aos quarenta anos, por causa da quimioterapia, as consequências da disfunção hormonal apareceram cedo. Além disso tudo, o metabolismo é lerdo, ganhei peso e sou uma mulher de cinquenta e dois anos, viva da silva dentro desse corpo, satisfeita pela oportunidade de ainda estar por aqui, porém sempre com uma ponta de tristeza diante do espelho ou quando precisa comprar roupas ou na hora de escolher roupa pra ir à rua.

São doze anos parando em frente ao espelho contrariada, vendo a mama a cada dia mais feia e menor, a barriga mais apontada para a frente, as cicatrizes salientes, em seguida respirar fundo e sair logo, dizendo “sou uma privilegiada, há coisas mais importantes pra pensar, afinal tô viva”. Confesso que por diversas vezes a depressão me fez acrescentar um “pra quê”, depois de “tô viva”. Enfim, são reações humanas, compreensíveis, perdoáveis.

Dias atrás a publicitária e influenciadora Cris Guerra gravou e postou um vídeo ótimo e útil, em que falou sobre etarismo. Pedia aos humoristas – no caso, Fábio Porchat – que se atualizassem na forma como se referem às pessoas maduras. Num episódio de Porta dos Fundos, a personagem de Porchat teria feito chacota com a mãe, uma mulher de cinquenta e oito anos, lesada, tratada como uma vovozinha demente. Cris discorreu sobre como o mundo mudou para nós, mulheres, que já de bom tempo deixamos de ser velhas a partir dos quarenta, para sermos profissionais de sucesso, livres, independentes, donas de nossos narizes e de nossos corpos. Um discurso excelente, não só a respeito de mulheres, mas de pessoas maduras em geral. Compartilhei com deus e o mundo.

Só que na sequência do vídeo, pude acompanhar algumas postagens da publicitária em que ressalta o poder de escolha das mulheres maduras de, sim, poderem usar o cabelo que bem entenderem, a roupa que bem entenderem. “Minissaia depois dos 50, pode, sim!”. Claro que pode, mas há um porém aí. Pelo menos nas TLs das minhas redes sociais não passam mulheres maduras gordas e barrigudas, de minissaia e vestido tubinho e croped, com o mesmo discurso de Cris Guerra, magérrima, corpinho de uma jovem de vinte anos. Como eu, deve haver muitas mulheres da minha idade, com meu corpo, sem representatividade. Há inúmeros perfis de 50+ nas redes e nenhum de mulheres acima do “peso padrão”, desfilando roupas descoladas, utilizando-se do mesmo discurso das escolhas e etcéteras. Todas são magras, ou seja, é como se mulheres 50+ gordas não existissem.

Tudo bem, posso viver como quiser, ter a cor e o corte de cabelo que preferir e me vestir conforme der na telha. Não tenho a menor vontade de vestir uma minissaia ou um croped. Mas não há referências para mulheres com meu biotipo atual, enquanto mulheres maduras magérrimas não são maioria. Não tem interesse em produzir moda pra nós. As influenciadoras, mesmo as maduras, batalham pra manter seus corpitchos sequinhos e se esforçam para propagandear as maravilhas da idade – pra elas. Quem ousa mostrar um corpo levemente acima do “peso padrão” é execrado por comentários ofensivos. Ou seja, as falas são lindas, pertinentes, necessárias. Aplaudo e colaboro com a difusão de toda e qualquer iniciativa que atualize discursos, quebre preconceitos e paradigmas. Só que na prática ainda não vemos mulheres reais representando mulheres reais. O mercado não permite, a misoginia não permite, até as poucas influenciadoras que se dizem feministas acabam levando caixote nessa onda e seguimos assim.

(Texto publicado originalmente em 2021)

Aroma de Vanilla

O aroma diferente recendeu na cozinha; um perfume conhecido, porém não identificado de pronto. Que cheiro novo é esse? Era adocicado, parecido com fragrância de colônia de vó, trazendo reminiscências de infância pro nosso chá noturno. Bingo! Era do chá novo, uma mistura de camomila, mel e baunilha.

Nunca fui muito fã do sabor de baunilha em alimentos, como doces, bolos e sorvetes, mas o aroma suave emanado da xícara de chá fervendo era de um frescor que nunca tinha sentido antes. Talvez pela mistura com camomila e mel, pensei. E jamais imaginaria, até poucos meses atrás, que a baunilha era uma orquídea – a Vanilla planifolia.

Inebriada pelo vapor perfumado do chá, lembrei de tudo o que aprendi sobre a Orquídea Baunilha nos últimos meses e no tanto de tempo que a cura das vagens demora pra que possamos apreciar essa fragrância, extraída de uma substância chamada vanilina.

Existem mais de 35 mil espécies de orquídeas registradas e a Vanilla planifolia é a única que produz vagens comestíveis. É uma orquídea terrestre trepadeira, cresce melhor se plantada no chão e pode alcançar até dez metros de comprimento – uma exagerada. É nativa do México, no entanto a maior produção está na Indonésia e em Madagascar, onde há mais de oitenta mil produtores cadastrados.

Segundo os orquidófilos, a flor da Baunilha não tem a menor graça: é pequena, de cor verde-amarelada, não tem perfume, além de a planta ser meio desengonçada. Raramente é polinizada de modo natural, porque as abelhinhas responsáveis por esse trabalho não ocorrem fora da América Central, portanto, desde a polinização, o processo é manual e bastante demorado, o que torna a vanilla uma das especiarias mais caras do mundo.

Pra início de conversa, ela só floresce a partir do sétimo ano de cultivo e as flores duram um único dia. Como se dozes horas pra polinizar à mão não fosse dificuldade suficiente, a fertilização das flores só pode ser feita de manhã, logo que elas abrem. Imagina transferir o pólen de uma flor para o estigma da outra, uma a uma, em curto tempo. É preciso quase ter mãos mágicas.

Após a polinização, é sentar e esperar para que nasçam as vagens e amadureçam por um período entre oito e nove meses, até que possam ser colhidas quando atingirem uma cor opaca, quase marrom. Então se inicia o processo de cura, em que as vagens passam por uma secagem, ora ao sol, ora à sombra, em etapas de uma semana cada e, em seguida, um repouso de três meses ao abrigo da luz, tempo para a maturação dos cristais de vanilla e fixação do aroma. Em um processo 100% artesanal, cada vagem é alisada e esticada manualmente, para se tornar a vareta de baunilha que a gente encontra no mercado a preços nada simpáticos. Nos processos mais industrializados, o tempo de cura pode ser mais curto com a ajuda de fornos. Ainda assim, são anos de investimento, do plantio à idade adulta da orquídea, mais a espera de meses pelo amadurecimento das vagens e o período de cura.

Caminho longo para chegar à minha cozinha no aroma do chá e me encantar, a ponto de me levar longe, a construir mentalmente cada passo da produção da baunilha e, detalhe, não fui eu quem tomou o chá. Apenas estava ao lado, em silêncio, desfrutando. Foi quase uma meditação, com perfume e quentura na noite fria.

 

 

 

 

Agônica

Estou morrendo. Definho um pouco por minuto, perco massa, líquidos, nutrientes. Tudo o que me compõe – ou compunha – se esvai de meu corpo cada vez mais rápido.

Ouço dizer que me amam, porém sinto que apenas me exploram, usurpam, vilipendiam. Acho mesmo é que sou odiada.

Destroem a mim e a tudo o que sou. Arrancam-me a vida, minha história. Deturpam como me constituí e desqualificam minha magnitude. Duvidam da minha sensibilidade e de minhas fraquezas.

Suja! Muito suja! Quem vem a mim retira o que tenho e ainda me largam imunda!

Rolo de um lado a outro, por vezes mudo de posição, tento me salvar sozinha, como já fui capaz em épocas passadas. Agora, pisam-me sem piedade, tiram de mim e não me alimentam, bebem-me e não me saciam a sede, introduzem-se em minhas entranhas e me viram as costas.

Há dias em que me revolto e vomito; ou sofro e exponho sintomas das síndromes que me debilitam. Ponho fogo na casa, berro, desespero. Peço socorro e consigo algum olhar de compaixão. Olham-me; não me veem.

Tomam-me bens valiosos e dispõem sobre mim coisas que não me pertencem – vai ficar mais bonita, mais eficiente, mais isso ou aquilo. Não quero nada! Nunca quis! Não fui feita para ser adornada ou destruída por quem quer apenas se servir e jogar fora – para mim, não existe fora. Por isso estou virando uma latrina.

Não tenho sequer um plano de saúde. Testaram vários e nenhum deu certo, por serem caros, por concluírem que não valeria a pena. Custos altos ultrapassariam os ganhos imediatos, esses sim, indispensáveis. Que plano de saúde existiria pra mim? Saúde pública, nem pensar, pois querem mais é que me exploda.

Só que não se lembram, não sabem, ou não se tocam que é grave minha condição. E quem de mim se serve, portanto, morrerá comigo. As doenças que me contaminam, acometem os que me consomem.

Estou ficando feia, sem viço, sem brilho, exceto em pontos esconsos que resistem, em órgãos que se ordenam por conta própria para garantir minha sobrevivência.

No entanto, estou morrendo. Já sufoco e mal consigo respirar. Não demora e acabo, assim, da noite para o dia. Implodo, viro lama, fumaça e pó.

E se você leu esse lamento até aqui e deu de ombros, é porque faz parte da quadrilha que me assassina dia a dia e que irá se extinguir junto comigo.

Silêncio abafado

Há um silêncio que me incomoda, a ponto de provocar mal-estar. Um tipo de silêncio abafado, como se houvesse no ar uma pressão qualquer e, dessa pressão, um som sem som se fizesse ouvir. Já escrevi sobre dias frios, sobre o silêncio dos dias frios. Lembro bem daquela manhã – estava em um banco de praça, meu filho brincava por perto. Era um dia frio e silencioso. O mesmo silêncio abafado. O silêncio do frio. As pessoas se encolhem, se recolhem, as ruas se esvaziam.

Tantos anos depois, ainda que goste muito – e cada vez mais – de silêncio, me desconforta esse tal silêncio abafado das tardes frias. Nem passarinho canta. Bem longe soa um pio fraco que logo some. Lá de mais longe vem um latido e mais outro latido. Em alguma cozinha louças se esbarram ou caem ou quebram. Um ônibus passa na avenida principal.

Tomo uma xícara de café, sozinha à mesa, atenta a esses ruídos distantes e abafados pelo silêncio da tarde fria. Respiro o vapor do café. Sinto uma tristeza. Passeio no passado.

O cheiro da tarde fria de silêncio abafado lembra o café da infância atravessando o coador de pano e enchendo o grande bule. Lembra o aroma do pão quentinho na cesta do padeiro de bicicleta, que buzinava subindo a rua. Lembra os finais de tarde em que chegava do colégio junto com a noite e juntava o que havia nas panelas num delicioso mexidão: arroz, pedaços de angu, caldo de feijão, ovos.

As tardes frias de silêncio abafado com cheiro de café e pão quentinho lembram o banho com a luz do sol fraco no basculante do banheiro, a camisetinha de algodão com paletó de flanela por cima e o pescoço branco de talco perfumado.

As tardes frias de silêncio abafado com cheiro de café e pão quentinho e talco perfumado lembram a horta no quintal e o canto do galo no galinheiro. Galo disciplinado, jamais perdia a hora. O canto da tarde encerrava o dia, a brincadeira. O canto da manhã... ah, desse eu não lembro.

As tardes frias de silêncio abafado com cheiro de café e pão quentinho e talco perfumado e canto do galo no galinheiro são tempos que fixaram morada eterna na memória, mas não são saudosos. Não os recordo como tempos felizes. Eram dias e tardes e noites melancólicos. Eram dias duros, de uma vida dura, das obrigações rigorosamente cumpridas para garantir a sobrevivência. Eu era criança, não sabia de nada, mas sentia peso no ar. Sentia a vida sendo empurrada pela pressão das carências impostas pela vida. E o silêncio daquelas tardes é o mesmo que ouço agora, com os mesmos cheiros e ruídos. A mesma melancolia. Tomo mais um gole de café.

Onde começam os desafios

No lançamento de uma coletânea de mulheres na Flip, uma pessoa perguntou sobre os principais desafios do ofício da escrita. Respostas dadas, fiquei com vontade de falar também, mas claro, eu ali era apenas plateia.

Queria dizer que o maior e principal desafio é ser mulher. Já li muitos livros de autores famosos em que falam sobre como escrevem, dão dicas, criam verdadeiras oficinas impressas, relatam suas rotinas. Impressiona a maioria dessas publicações serem escritas por autores homens. Um dos que mais me chamou a atenção foi “Romancista como profissão”, do Haruki Murakami. O escritor japonês detalha sua rotina diária: corre sei lá quantos quilômetros, se alimenta assim e assado, escreve xis horas por dia, lê mais xis horas por dia. Pergunto: quem faz o café desse ser? Quem faz o almoço? Quem lava o banheiro, as cuecas e as roupinhas suadas das corridas diárias?

Uma mulher, para ser escritora, antes de qualquer outra decisão tem que ter muita coragem pra encarar o “você não tem competência pra isso”, “você não pode”, “isso não é profissão de mulher” (sim, ainda se escuta isso no século 21), “seu trabalho não é bom o bastante” e por aí vai. Se optar por não casar e não ter filhos já é um bom começo, porém infelizmente não é o caso da maioria.

Relato agora um exemplo de uma escritora, que vou chamar apenas de Escritora:

Nasceu numa família que valorizava a arte dos outros. Em casa, arte não seria nunca aceita como profissão. Para as filhas mulheres, então, nem pensar. Como destino comum a muitas de nós, Escritora casou, teve filho e anotava algumas coisas pra si. À época até arriscava umas crônicas. Tempos depois de casada, ouviu do marido, em alto e bom som: “Quem escreve nesta casa sou euuuuu!”. A essa altura o casamento já não era casamento.

Outro grande desafio a ser vencido por Escritora foi a própria família, para quem seu desejo e futura realização jamais seriam valorizados. Aprenderia a conviver e a aceitar isso sem mágoa muito mais tarde. Já separada e sozinha com o filho, trabalhava fora, cuidava de filho pequeno, fazia almoço, lanche, janta, lavava roupa, filho no banho, filho pra escola, louça, casa... e ainda assim conseguia se sentar em alguma hora do dia pra escrever. Numa dessas, a mãe ligou:

- Tá muito ocupada?

- Tô escrevendo, mãe.

- Ah, então eu posso falar...

E era um blá-blá-blá interminável, de assuntos nada urgentes, que para Escritora nem eram assuntos. Também muito mais tarde ela aprendeu que se quisesse escrever mesmo, uma das coisas que precisaria aprender seria mentir para a mãe nesses momentos. Deu certo.

Quando Escritora já havia alcançado algum conhecimento do público, foi convidada para ministrar uma oficina de crônicas numa bienal, cujo nome era de um escritor brasileiro muito conhecido. Vou chamá-lo aqui de Escritor Brasileiro. Feliz da vida com o reconhecimento e com o cachê bonito que receberia, chegou à casa da mãe contando a novidade.

- Mãããe! Fui convidada pra ministrar uma oficina de crônicas na Bienal Escritor Brasileiro!

E foi imediatamente interrompida pelo irmão:

- E você por um acaso sabe quem é Escritor Brasileiro?

A mãe deu um sorrisinho de canto de boca. Jamais contrariou ou permitiu que o filho fosse contrariado. Ficou por isso, porque Escritora também jamais daria uma resposta atravessada ao irmão.

Escritora ainda viveria outros momentos marcantes com pessoas da família, mas encerro o relato com mais um episódio envolvendo a mãe. Aconteceu quando ela contou sobre a pesquisa que estava fazendo para escrever um livro de tema muito difícil, tabu, pesado.

A mãe:

- Você sabe que que não vai conseguir fazer isso, né? Eu te conheço. Esse assunto não é pra você.

- É você quem não me conhece e nem quer conhecer - respondeu em pensamento.

A mãe jamais leu um livro da filha Escritora.

Desafios, meus amigos, não começam no pegar a caneta e escrever. Não começam na dificuldade de transformar ideias em textos, crônicas, crônicas, contos, romances ou o que for. Não começam na necessidade primária de ler muito para escrever bem, muito menos em dedicar dias e noites em pesquisas para desenvolver uma história. Para uma mulher, pobre, de família conservadora que jamais vai apoiar sua vocação, o maior desafio é ter determinação, ter a audácia de passar por cima dos nãos e ir adiante. O resto vem.

Texto publicado originalmente em 2023.

8 de março de 2025

O Lugar

Durante anos trabalhei no Lugar (vou chamar assim).

Todo dia 8 de março, ao entrar na sala, no setor de comunicação, dava de cara com sorrisos de canto de boca, olhares de esguelha, aguardando o momento em que eu ligaria meu computador.

Para esse dia especial, um outro setor do Lugar se esmerava na “decoração” de nossas telas iniciais, em alusão ao Dia Internacional da Mulher.

E era abrir minha área de trabalho e lá estavam rosas, brilho dourado, muito fru-fru e aquela frase de efeito, que além de cafona era de uma despolitização que me queimava de vergonha alheia.

Meus colegas de sala aguardavam ansiosos a minha reação, aguardavam pra rir de mim, a única a se indignar com a pataquada, a total desinformação que deveriam envergonhar o Lugar e todos os que trabalhavam ali.

E eles riam. Elas riam. A chefe ria.

Houve um ano em que fomos surpreendidas por um grupo de mulheres vestidas de camponesas carregando cestos e, dentro deles, presentes para as mulheres: maquiagens!

Sentia raiva, mas também me dava uma tristeza... uma preguiça...

Às vezes dizia algo, outras vezes apenas cara feia e, mais tarde, cansada e sozinha num ambiente em que não me cabia, silenciei.

No último ano em que trabalhei no Lugar, no dia 8 de março, após a surpresinha nojentinha matinal, recebi um email da Grande Chefe, a dona da poha toda, seríssima, caladona, osso duro de roer (acho que era a primeira mulher a ocupar aquele posto em anos de existência do Lugar).

Os termos da mensagem eram mais ou menos assim:

“Bom dia, Giovana. Preciso que você crie um texto curto, de poucas linhas, para que eu possa enviar às funcionárias do Lugar no dia de hoje. Quero que seja você a fazer isso, com seu conhecimento do que significa esta data.”

Quase chorei.

Não comentei com ninguém, elaborei o texto com o que pensava ser necessário ser dito por uma pessoa da estatura da Grande Chefe às funcionárias todas, de todas as classes sociais, etnias, religiões e tal.

Exatamente por ser mulher, me diminuí e ainda pensei: “Ela não vai gostar, vai pedir pra mudar um monte de coisa...”.

Enviei o texto solicitado e poucos minutos depois todo o Lugar estava recebendo a mensagem feita por mim, na íntegra, sem flores, sem enfeitinho.

Não pude saber como foi o 8 de março seguinte, pois não terminei aquele ano no Lugar. Sei por muito que vi de fora de lá, por um tempo, que a cultura, a informação, o estudo, a pesquisa, o entendimento do mundo e da história ainda vão demorar um bocado para alcançar homens e mulheres.

Porém em anos de trabalho no Lugar foi o primeiro e único Dia Internacional da Mulher em que senti certo ânimo, esperança, por uma inciativa simples de uma única pessoa que entendia, naquele universo enorme de gente, o porquê de lembrarmos desta data tão importante e dolorosa.

A estrada é longa, ainda vamos esbarrar com muitas flores, bombons e “Feliz Dia, Guerreira!” pela frente. O cansaço e a preguiça me vencem na maioria das vezes, mas estou aqui, revelando esta história, querendo acreditar que podemos mudar o rumo dessa prosa e que daqui a algum tempo não precisaremos mais passar raiva com florezinhas chegando nos emails, zaps, mensagens diretas etc.

Bora continuar na luta!

4 de agosto de 2017

Entre as mulheres da minha vida

Edméa é o nome dela. Negra, sorrisão, cabelos crespos, sempre presos ou poucas vezes alisados com henê, soltos na altura dos ombros. Baixinha, magra, muito ativa, andava de um lado pra outro, resolvendo a vida. A própria, a do marido, das filhas e de todo mundo que com ela buscasse socorro. Morava na periferia da periferia da cidade, numa casa própria, porém de infraestrutura precária. Ela e o companheiro se completavam na rotina de trabalho duro para dar o mínimo de dignidade às meninas: estudo, roupa, comida, cama, chuveiro quente. Era umbandista. Atendia em casa, com seus guias, ao povo necessitado de apoio espiritual, um trabalhinho pra arrumar emprego, pra curar doença. Não tinha hora nem dia pra prestar ajuda a qualquer pessoa que necessitasse.

Edméa não é mais deste mundo. Partiu nem sei mais há quantos anos. Foi continuar seu trabalho de caridade na outra dimensão; não saberia ficar à toa nem no paraíso. Está presente em boas memórias de infância, quando era merendeira da escola pública e todas as vezes que minha mãe me mandava lá, me recebia com um pote de arroz doce. Nunca mais comi arroz doce como o dela; nem minha mãe conseguiu reproduzir a consistência e o sabor. O largo sorriso volta e meia aparece na mente, como se ela mesma, em pessoa, se materializasse. Sorrio quando revejo na mente o olhar de menina que acompanhava suas risadas.

Uma das melhores amigas de minha mãe. Era assídua em casa, sentada à mesa da cozinha, com o copo de café na mão esquerda e o cigarro aceso na direita. Falava sem parar, enquanto minha mãe cuidava do almoço. Gostava de todos nós e me paparicava, a única criança da família naquela época. Se preocupava com meus irmãos, perguntava por todos. E a nós, também socorria espiritualmente. Bastava pedir. Certa vez torci o tornozelo na escola e após o tratamento médico, continuava sentindo dores. Edméa benzeu meu pé, religiosamente todas as semanas, até eu afirmar, com certeza, que não doía mais.

O coração não lhe cabia no peito. Mal tinha pra si, mas vivia de oferecer aos outros, de se doar. De educação deficiente, não sabia resolver as encrencas em família com calma e serenidade: brigava, esbravejava, chinelo voava em cima das crianças. Vizinhança a escutava de longe, quando o pau quebrava na casa da Edméa. Era assim que sabia fazer e nada disso lhe tirava a quantidade de amor que levava na alma.

Fazia festa no dia de Cosme e Damião, preparava um bolo confeitado do tamanho da mesa, doces, balas, pirulitos e guaraná. Enchia a casa de criança, incorporava a Mariazinha e ia pro quintal brincar com a gente. Aquilo era engraçado e estranho ao mesmo tempo, pois não entendia direito aquela transmutação: Edméa de saia rodada, cabelos presos numa maria-chiquinha, com laços de fita cor-de-rosa, descalça, brincando de pique, com um pirulito na boca.

Muito antes de chegar a velhice, o coração grande de Edméa não deu conta do agito que era a vida dela. Ficou fraco e lhe roubou a disposição. Não demorou e Edméa se despediu da existência. Foi brincar de pique com as crianças do outro mundo. Lembro do choque da notícia, da minha mãe triste, no entanto não chorei. Parece que passei a dor adiante. Não fui ao velório, não vi o corpo descer à sepultura. Ela é Edméa e está aqui, nesse sorrisão que que me aparece com frequência. Sempre na hora certa.
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2 de agosto de 2017

De ontem pra hoje

Há momentos específicos em que recordações de infância retornam aos borbotões. Se já não soubesse algo sobre as rasteiras do inconsciente, diria que me chegam do nada. Só que não. Com a idade próxima dos cinquenta, é inevitável o retorno no tempo, para devidas avaliações e revisões, mesmo sem fazer esforço. A cabeça vai lá, cada dia visita uma situação, traz pro agora, mistura tudo e com o resultado posso tentar saber o que fazer adiante. Muitas vezes não sai coisa boa. Mergulhar na memória é ação de alto risco: levanta remorsos, arrependimentos, dores, perdas. Reafirma a falta de coragem para enfrentamentos tantas vezes necessários. Mostra numa telinha o que não foi realizado. Aponta as oportunidades que passaram e sequer foram percebidas.

Não era a intenção o lamento. Cenas de infância têm me retornado com certa frequência, porém não me motivam a discorrer sobre dias felizes, brincadeiras sem fim, amigos de rua, brincar descalça na lama depois da chuva. Falo de desejos alimentados durante a existência e que não se tornam palpáveis. A gente quer ser tanta coisa, quer ir a tantos lugares, quer fazer de tudo um pouco e as horas voam e as obrigações são em maior número que a quantidade de dias que a vida proporciona pra criar, produzir, executar planos e projetos.

Lembro agora da última conversa sobre desejos que tive com minha irmã, dois meses antes dela morrer. Era como se fosse a mãe amiga, companheira, e desse lugar me cobrou um posicionamento mais seguro diante do mundo. Longe de ser ela mesma uma rocha, queria me ver de queixo pra cima, transformando meus desejos em realidade, pisando firme na terra, dona do meu nariz, independente, autônoma, bem sucedida, material e emocionalmente.

Ser mulher não ajuda. São inúmeros os mandatos impostos, muito peso colocado nas costas à saída do ventre, antes mesmo de ver a luz. Não pode isso, não pode aquilo, é feio, é pecado, obrigação com a casa, obrigação com a família, arte não dá sustança pra ninguém, tem que estudar pra ter emprego (nunca pelo conhecimento!), não pode rir alto, falar alto, opinar, questionar, não querer, não se obrigar, deve ser obediente, cordata, se submeter, vai casar, ter filhos, depender e se sujeitar ao marido e muitas etcéteras.

Antes de organizar a cabeça pra começar a fazer planos, é preciso brigar contra todos os encargos e ordenações, o que demanda tempo, paciência (às vezes nenhuma), rompimentos, solidão, medo, adiamentos, desistências, longas pausas, e muitas vezes parada definitiva. Quando vê, passou. A saúde não é mais a mesma, o vigor físico ficou lá atrás, os desejos têm de ser repensados, remanejados, substituídos. E agora? Qual o sentido disso?

Entendo quem vive de lembranças. Cumpre os compromissos da vida e passa o resto dos dias voltando atrás. Minhas próprias lembranças, penso que as bloqueei. Uma névoa encobre a maioria delas; quando parto em busca, vejo-me em meio à bruma densa. Diviso fragmentos, nada inteiro, nítido, completo. Dizem que me aproximo da idade em que a memória começa a criar. Talvez seja boa oportunidade de recriar o roteiro das cenas para encaixar nas partes soltas e compor narrativas inéditas. Seria perfeito se de um novo passado pudesse se desenhar um novo futuro.

Pelo menos nas madrugadas, enquanto o corpo repousa, o inconsciente – ou espírito – passeia bastante. É quando vou onde quero, encontro pessoas que nunca vi, vivo intensamente histórias originais, entabulo longas conversas, realizo. Mas, sobre minhas noites, já é outra a prosa. Depois eu conto.
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3 de abril de 2017

Gatos fazem o que querem... ops, nem tanto

Toda noite é a mesma coisa: quando ouvem o ruído da primeira janela sendo fechada, começam a retornar do quintal. Há quem diga que gato não se educa, pode ser, mas se acostumam com a rotina e sabem, por instinto, que necessitam dos hábitos diários, para garantir a comida, a água, a cama quente e o cafuné. Quando as janelas se fecham, quem ficar do lado de lá vai passar perrengue.

Filó é quem mais conhece sobre passar a noite fora. E de tanto sair correndo ao invés de entrar quando chamada, ficou no quintal diversas vezes, até entender que janela arriando é sinal de baixar a bola, caçar o rumo de casa e entrar pra dormir (ou não).

Chico é muito apegado à comida. Tanto, que aprendeu mais rápido que a Filó. Quando chego na janela, se estiver do lado de fora, põe-se em alerta no banco da varanda. Chora, mia, faz manha e, como não tem jeito, cede. Vou descendo a janela devagarzinho, ele roça os bigodes na grade, em seguida a cabeça, pata após pata e o salto no chão. Mais esperto que a Filó, sabe dar a volta por cima do telhado ou pelo muro da vizinha e entrar pelos fundos. Se estiver chovendo, estará em apuros, por isso preferiu se acostumar com os horários dos humanos.

Gatos são selvagens, ainda não estão totalmente adaptados à domesticação. Já dependem da comida dada, porém não perdem a independência e o temperamento altivo. Fazem o que querem, na hora em que querem e do jeito que querem. Não adianta insistir em domá-los. Por outro lado, são capazes de se adequar perfeitamente aos costumes da família.

Flora sente o momento em que vou subir para dormir e fica de prontidão no primeiro degrau da escada. Ao menor movimento meu, sobe correndo e me aguarda na porta. Abro, ela vai para debaixo da cama, espera que seja aberta a porta do banheiro. Salta na pia e com um miado chorado, pede água da torneira. Parece sede de uma semana. Enquanto tomo banho, ela se satisfaz. Depois, se joga no tapete, assiste ao meu banho e por ali fica até de manhã, quando também desperta e desce comigo.

Zoraide é minha Garfield. Come, dorme, faz suas necessidades, toma sol. Tem preguiça de pular a janela; às vezes fica na porta, pedindo para entrar ou sair de casa. Aparenta não atentar para o mundo a sua volta, embora saiba sempre onde estou e anda atrás. Se me sento no sofá na sala, ela vai pro tapete; se estou na cadeira do quintal, se aproxima e se encosta por perto; se trabalho à mesa do escritório, em segundos está em cima do meu pé. Não gosta de ser comandada, como a Flora, no entanto reconhece, como os outros, a hora de se recolher. Basta que se diga “bora!” e ela atravessa sala e copa, passa pelo buraco da grade da área e encontra a cama.

Durante a noite, os quatro sabem que a comida fica na área de serviço. De manhã, esperam seus pratos no chão da copa. Quando terminam de comer, as janelas estão novamente abertas e bora se refestelar no sol!

Comecei a desenhar esse texto, enquanto aguardava a última entrar. Sim, a Filó enrola do lado de fora, se fazendo de difícil. Logo entra desfilando na cozinha, olha na minha cara, mia. Acabei falando de cada um, porque fazem a minha alegria diária, são brincalhões e, mesmo brincando, são parte do meu silêncio. Prezam sua independência, autonomia e liberdade, ao mesmo tempo em que demonstram amor incondicional a quem tem condição de perceber esse amor e se dispõe a recebê-lo. 
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16 de fevereiro de 2017

Tem um homem pelado lá dentro

Chego para a minha aula de pilates, junto com a fisioterapeuta, já colocando o papo em dia, quando o rapaz do lado de lá da grade alerta:

- Ih, vocês não vão poder entrar, não!

A chave nem chegou a girar na tranca do portão.

- O que houve?

- O cara tá apagado, bebeu muito. E tá pelado.

 - Pelado?!

Sim. Havia um homem lá dentro, dormindo. Na verdade, desmaiado de bêbado. É proprietário do imóvel onde funcionava o estúdio. Deve ter chegado arriado, bufando de calor, entrou direto, sem pensar (de que jeito?) tomou uma chuveirada e desabou na cama do aparelho de exercícios. Sem roupas.

O moço, constrangido, ainda insistiu. Aguardamos.

 - Chamei, cutuquei, mexi nas pernas. Ele não acorda, não.

- Como é que a gente faz?

- Não faz. Ele não vai sair.

A solução oferecida pela fisioterapeuta foi fazer a aula de pilates na minha casa, proposta imediatamente aceita. Não faltou nenhum dos sentimentos normais diante de um cenário tão esdrúxulo: espanto, raiva pela falta de respeito e pela total desconsideração com a pessoa que utiliza e paga pelo espaço, frustração.

Aula feita, passo a repensar sobre o episódio. Conheço o sujeito que dormia no estúdio. Mora nos fundos e está sempre por perto, perambulando aqui e ali. Um tipo grandão, corpulento, bem alto. Fala grosso, mas nunca nos destratou. É desleixado, sujo. Além de beber, fuma muito e por isso cheira mal. Respira tão ofegante, que a gente ouve à distância. Jamais demonstrou respeito com o local de trabalho dos outros. Entrava e saía quando bem entendia, com ou sem alunos em atividade. Minha fisioterapeuta já reclamara sobre essas liberdades. Deu em nada.

As pessoas da família parecem imperturbáveis. Que se dane o cara e também se danem a profissional e seus alunos. O rapaz que nos atendeu chamou duas vezes e, sem sucesso, simplesmente disse “Ele não vai sair”, com uma expressão de que estava tudo bem. Ou seja, f-se.

Voltando ao meu repensar: acabei rindo da situação. Imaginei aquele tipo grosseirão pelado, dormindo a altos roncos, babando, totalmente à mercê do álcool correndo nas veias, em plena cama de exercícios. O que me restou foi dar muita risada pelo inusitado da coisa.

Desplante à parte, não voltamos mais. O fim já estava próximo e, suponho, o caso do homem pelado foi a gota d’água, ou melhor, de álcool.
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22 de janeiro de 2017

Quarenta e duas rosas brancas

Assisto à chuva pela janela e me lembro da mulher que jogou quarenta e duas rosas brancas para Iemanjá à meia-noite do dia 31 de dezembro. Sob a tempestade, lá estava, segurando com uma das mãos o guarda-chuva – que não guardava nada –, e na outra, a sua oferenda. Ajoelhada à beira d’água, fez sua prece, agradecendo por estar viva, por ter conseguido retornar àquele lugar, depois do ano que passara. Jurou que voltaria, porém era incerto. Da última vez que estivera ali, despediu-se com pesar. Olhou para o mar com lágrimas na face: “Eu vou voltar”. Foi quando fez a promessa à rainha.

Quarenta e duas rosas brancas. Quarenta e dois anos completara dias antes de encerrar o mês. No começo do ano, sem saber se teria um aniversário novamente, ofereceu a Iemanjá o mesmo número da idade que faria em quantidade de rosas, para que pudesse vencer a adversidade que a acometera e regressasse ao seu recanto de repouso.

A cada rosa, um agradecimento. Ou um pedido. Sem parar de chorar, sozinha na chuva forte, gritava suas orações com os braços abertos e os olhos para o alto. Chorava e sorria. Chorava e soluçava. Demorou. O temporal deu uma trégua, à medida que os soluços foram se espaçando e o pranto se tornou silêncio. Corpo molhado, joelhos na areia, deu mais um suspiro de gratidão e se ergueu devagar. Cumprira o ano, a promessa.

Quarenta e duas rosas. Quarenta e dois anos enfim completados.

Poderia fazer planos, curtir e celebrar a vida, tomar sol, optar pela forma que gostaria de se conduzir, apreciar sua cerveja, fazer sexo inteira, viajar sem temor, reaprender a ser dona do próprio corpo. Reaprender tanta coisa...

Anos se passaram e, em uma conversa recente, acabou por relatar esse episódio (dentre vários ocorridos naquele ano). E foi tão marcante verbalizar o que vivenciara no réveillon à beira-mar, que a mente se abriu para outros detalhes dessa experiência. O tempo não parou e a mente também não. Há muitas questões enterradas no inconsciente, sendo exumadas de pouco em pouco. Há muito que fazer com as informações que agora vêm à tona. É preciso que descubra uma forma de desconstruir os reveses, para viver plenamente – se é que isso é possível. É preciso descortinar o poder de transformar.

Vai ter um bocado de trabalho pela frente, a mulher. A chuva lá fora me traz à memória aquela noite de afirmação, de sua expressão determinada, com os olhos no horizonte escuro de temporal. Ela segue seu rumo, caminhando devagar, com os pés cravados no chão, fazendo de cada dia um, na complexidade da existência.
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21 de janeiro de 2017

Cebola, não

De que você não gosta de comer? Pense; sempre há algo insuportável ao paladar. Eu, por exemplo, detesto cebola. Não curto outras coisas também, mas de todas, a mais horrorosa é a bendita da cebola.

Por quê?

Como a uva passa no Natal, por muitos odiada, cebola está em todas. É figurinha carimbada na cozinha, seja crua, cozida, em picles, frita, assada, confitada, refogada. Pode ser picadinha, fatiada, em rodelas ou mesmo inteira. Não há quem cozinhe sem a danada.

Nem eu.

A comida de forno e fogão não sai sem cebola. Nos refogados e cozidos, claro. Não há frango sem cebola, nem carne, nem feijão. E só. Crua, sem chance. Sinto ânsias só de imaginar meus dentes estalando um pedaço ou mínimo cisquinho dela. Sério: tudo o que já estiver dentro volta, se mastigar cebola crua.

Então, sofro com os exageros, como no caso das uvas passas. Quem gosta de cozinhar com cebola, não deixa por menos: é cebola na salada de folhas, na farofa, no caldo da moqueca, no macarrão, no sanduíche, na maionese, no salpicão, no caldo verde, no hot dog, na sopa, no pirão!

Estava aguada por comer um pirão de peixe e eis que chega diante de mim uma cumbuca de pirão de cebola. Pedaçudas, gordas, al dente, estalando, fazendo crec. Como reclamar? Só me resta não pedir de novo; não no mesmo lugar.

Poucos se dispõem a compreender o desgosto dos outros com algum ingrediente. Quando quero pedir um prato e esse é servido com cebolas cruas, para que me chegue sem as tais, digo bem séria ao garçom: “Por favor, escreva bem grande aí no seu bloquinho que sou alérgica”. Não sendo assim, passo por fresca.

Já vivi situação desagradável em um almoço comunitário, numa instituição religiosa (onde se espera a complacência dos nossos pares). Ao me servir, senti do alto o aroma inconfundível de muita cebola fresca picada na maionese. Preferi nem tentar, o que suscitou a curiosidade em torno:

“Não vai comer?”
“Não, tem muita cebola e eu não gosto.”

Foi o suficiente para virar tema de deboche e de olhares e narizes torcidos no resto da festa. Por isso, pergunto: do que você não gosta? Pensando no que não comeria de jeito nenhum, seria capaz de respeitar a outra pessoa que odeia o que você, de repente, adora? E a partir daí, poderia pensar, por favor, em não picar dúzias de cebolas em todos os pratos preparados, assim como fazem com as uvas passas na ceia de Natal.

A gente agradece. Sim, a gente. Tem mais um monte por aí.
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