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3 de agosto de 2026

Prosa que abraça

Meu primeiro pensamento ao iniciar a leitura deste livro foi a trabalheira que deve ter dado pra revisar. “Janice”, obra de estreia de Rafael Prado, pela Editora Patuá, é narrado por uma Preta Velha, com a linguagem já bem conhecida das vós de terreiro.

“Escuita, fio... que a vó qué te contá uma história.”

O estranhamento inicial logo se torna prazer, como se a narradora estivesse ao meu lado, contando sobre a vida de Janice, desde antes de nascer, acompanhando a infância da menina de onde quase ninguém vê, já que se trata de uma entidade espiritual. Parecia ouvir a voz da vó, a fala doce que toda Preta Velha tem, a suavidade, o carinho com que conversa com o leitor, ao chamá-lo de “fio”.

“Uma semana tem sete dia e num é por acaso não, fio. Sete é número de mistério, de reza direcionada e de trabaio bem feito. Foi em sete dia que se ajeitô o mundo. Tem semana que passa ligeira, parece que nem deu tempo de vivê e tem semana que parece carregá o peso de todos os ano. O tempo, ah, o tempo... ele vai e a gente vai junto, quereno ou não.”

A doçura da vó está presente desde o texto, a história leve, sem grandes tensões, a ternura com os moradores da Vila dos Ipês, dos quais toma conta como se fossem todos filhos queridos. E Rafael não deixa a narrativa cair; segura o tom do início ao fim, sem enfastiar, garantindo sua ousadia em optar por uma narradora inusual (eu nunca tinha lido algo assim em obras de ficção).

Este livro foi um presente, não no sentido literal. Estava na Casa Gueto, da Editora Patuá, na Flip, escolhendo o que queria trazer de novidade, quando a Pricila pescou “Janice”, me apresentou e disse: “Acho que você vai gostar deste”, sem saber que sou umbandista e que tenho um cadinho da história da Janice na minha vida. Acertou.

“Nessa vastidão, num tem ninguém suzinho não, fio.
Ocê também num tá.”

15 de janeiro de 2026

Tradições e sacrifícios

A mim não parece um romance de estreia, tamanha maturidade na temática e no desenvolvimento do drama. Talvez pela experiência de ser mulher na Nigéria, da mesma forma que é difícil ser mulher e negra no Brasil. O livro prende, agarra, surpreende. Quando penso que já entendi o que está acontecendo, surpreende de novo.

Já chego rasgando elogios a “Fique comigo”, da Ayòbámi Adébáyò, lançado em 2027, e que só agora chegou a minha mão, por indicação de um contato de rede social. Aos poucos e cada vez mais vão aparecendo por aqui essas maravilhas da literatura escrita por mulheres africanas; uma leitura que dói, sacode, faz chorar de indignação, mas é muito necessária pra compreender um ambiente tão distante do nosso.

Mulheres que sofrem submetidas a costumes, história, cultura, religião, família, marido... parece lugar comum? Não é, não. Ayòbámi fala de poligamia, famílias pluriparentais, obediência irrestrita a todos e todas que vieram antes e aos mais velhos que chegaram depois. Fala de uma personagem que é obrigada a responder a toda essa gente porque não consegue engravidar. Além da pressão, ainda tem que aceitar uma segunda esposa do marido, por imposição da sogra, na tentativa de fazer nascer uma criança naquela casa. E muitos absurdos acontecem, um após outro, enquanto Yejidi tenta a todo custo dar um filho a Akin, sem se dar conta do quanto é enredada por mentiras.

“Fique comigo” também é uma história de perdas, de cultos de feitiçaria, de como lidar (ou não) com a anemia falciforme – doença que comumente acomete a população negra e de outras origens com ancestralidade africana –, numa Nigéria da década de 80, com poucos recursos, pouco entendimento dessa anomalia no sangue e poucas chances de sobrevivência.

5 de janeiro de 2026

Com gentileza, na incontingência e nas palavras

Todo o tempo de que dispunha naquele período recente dediquei à leitura de dois livros da mesma autora: “Crônicas da incontingência da clausura – cotidianos da pandemia”, volumes 1 e 2, da Marlene de Fáveri. E foi a melhor coisa que fiz.

Conheci a autora no Encontro do Mulherio das Letras, em Florianópolis, e lá soube de suas publicações. Procurei para comprar na nossa mesa de livros à venda e não encontrei. Não satisfeita, fui atrás da própria Marlene.

Ao saber que os livros não estavam à venda e, sim, eram presenteados, fiz a minha melhor e mais simpática cara de pau e pedi. E ela, muito gentil, levou os exemplares no dia seguinte.

Essa é a Marlene que em 54 textos narra seus dias de isolamento durante a pandemia de Covid-19, quando deixou seu apartamento na capital para ficar com a mãe, no sul de Santa Catarina: uma alma gentil. Consigo mesma, com a mãe, com os bichos, com o jardim, com a horta, com sua própria história, resgatada nos longos papos com Dona Terezinha.

 “O cotidiano tem coisas que não se explica sem senti-las na pele e nas veias. Não existe realidade sem o cotidiano, este lugar do devir ou do vir a ser a partir das experiências. Do latim devenire, pode ser lido como tornar-se diferente do que era antes, movimentar-se. No sentido mais comum, cotidiano seria a esfera privada da vida, onde acontecem rupturas – como está sendo na pandemia – mas principalmente permanências de costumes, hábitos, gestos e práticas culturais.” 

Não foi nada fácil a clausura da pandemia para quem levou a sério o risco que corríamos. E Marlene não só abraçou a missão, como decidiu que escreveria sobre seus dias no campo, em suas idas e vindas a Florianópolis, a preocupação em proteger a mãe e ao mesmo tempo mantê-la feliz, satisfeita, tranquila. Para isso Marlene precisou calçar galochas e pegar na enxada, assumir as compras e a cozinha, tomar conta da rotina médica de Dona Terezinha e à noite sentar para escrever. Um grande aprendizado desenvolvido quase minuto a minuto, naquele tormento em que não víamos muita esperança.

 “No movimento da narrativa, o que me move vai tomando cursos do que emociona, seja para os enfeites que a vida dá, seja para a dor que aperta e abre feridas. Faz algum tempo, perguntei à amiga Urda Klueger como faz para escrever tão belas histórias? Me aconselhou a escrever o que vem do coração. Nestas últimas semanas, andei tendo disparos cardíacos de tantos sentidos que me apunhalaram, tive que lidar com isso, e na escrita encontro os silêncios que me acalmam.” 

Os relatos se alternam entre os afazeres do dia a dia, com detalhes da vida da mãe, da avó, das lutas das mulheres das famílias do campo, sua própria história, educação e trabalho, os desmandos do (des)governo da época. E muito sentimento: ausências, saudades, a falta de abraços, a filha longe, a distância dos irmãos e amigos, as notícias cada vez piores, amigos indo embora, mulheres sofrendo violência no isolamento doméstico. E também as pequenas alegrias diárias: os alimentos semeados e colhidos no próprio quintal, ovos colhidos no galinheiro, o roçar dos gatos, cantos de pássaros e chilreio de grilos e sapos, flores no jardim, silêncio.

Apesar de toda a tristeza em que se desenrolam os acontecimentos narrados, ler Marlene foi um presente, pela suavidade, pela honestidade, pela quantidade de informação que ela disponibiliza, pelo conhecimento que nos oferta, por tanto amor e por tamanha gentileza em tudo o que diz e faz.

Para quem puder ter acesso, recomendo que leia.

E meu muito obrigada à Marlene de Fáveri, por tudo isso.

 “Desde quando nos
queimaram nas fogueiras,
não paramos mais de arder.
Nossos úteros carregam a
Fúria de nossas cúmplices ancestrais.
Somos feitas do barro que as
limalhas não conseguiram romper.”

 

 


 

29 de julho de 2025

Linguagem que desnuda a vida

Quando Annie Ernaux venceu o Nobel de Literatura, em 2022, e houve aquela excitação comum nesses momentos – “quem é?”, “de onde?”, “o que ela escreve?” – também fui atrás dos detalhes. A autora não era pra mim uma estranha, mas não havia ainda alcançado sua obra. Li reportagens, artigos, resenhas, assisti a vídeos. Sem saber por onde começar a leitura de Ernaux, aceitei a dica de iniciar por “Os anos”, no entanto não me encaixei. Deixei o livro de lado e adiei o “projeto Ernaux” pra um outro tempo.

Poucos dias depois, outra dica: “Já leu ‘A escrita como faca e outros textos’? Pode ser um bom caminho pra entender a escritora, antes de encarar a obra’”. Deu certo. Nesse livro, a própria Annie Ernaux detalha toda a sua trajetória numa entrevista ao escritor francês Frédéric-Yves Jeannet, em quem ela responde como quer, quando quer, no tempo dela (a entrevista levou meses pra ser concluída). Com precisão e uma sinceridade surpreendente, ela explica seu modo de produzir e fala sobre o que chama de “postura de escrita”, seu método pessoal de juntar o social e o individual, sem prejuízo algum. Terminada a leitura de “A escrita como faca...”, desisti temporariamente de “Os anos” e resolvi começar pelo começo. A partir de uma lista em que reuni os principais títulos, iniciei pelo mais antigo, “O lugar”, de 1984. Foi assim que devorei dez títulos seguidos, sem interrupção – e quase sem fôlego.

A francesa Annie Ernaux nasceu em 1940, em Lillebonne, na Normandia. Cresceu em Yvetot, numa família de origem pobre. Estudou na Universidade de Rouen-Normandie e na Universidade de Bordeaux, onde se formou em literatura francesa. O livro “Os anos”, de 2008, é considerado um dos mais importantes, porque oferece todo o panorama da sociedade francesa do pós-guerra até os dias atuais, no pano de fundo da história pessoal da autora. Mas é no aprofundamento dessa história, ao ler as outras obras, e na ordem de publicação, que aparecem as minúcias.

Ernaux aborda temas como classe social, gênero, divórcio, câncer, aborto, relações familiares, pobreza, sempre de modo direto, sem floreios, sem hesitação ou constrangimento. Uma escrita marcada pela objetividade e pela ausência de sentimentalismo exagerado. Seus livros são curtos, extremamente impactantes, oferecem uma visão profunda sobre a condição humana e as estruturas sociais que moldam nossas vidas. Algumas das obras mais conhecidas incluem “Uma mulher” (1988), “Paixão simples” (1991), “A vergonha” (1997), “O acontecimento” (2000) e “A outra filha” (2011), editadas no Brasil pela Fósforo.

“Nunca pensei que, por ser menina, mulher, e nascida em uma família popular, não pudesse alimentar a ambição de escrever. Era levada pela certeza de que, antes de tudo, isso dependia de desejo e vontade.”

Considerada uma das autoras mais importantes da literatura contemporânea, Ernaux criou um estilo de escrita, que chama de autossociobiografia, na qual explora memórias pessoais para refletir sobre questões sociais e históricas, combina elementos da autobiografia com análise sociológica e histórica do contexto em que suas experiências ocorreram. Ela não apenas narra sua vida, mas também examina como suas vivências refletem questões coletivas. Suas obras acabam por transcender o relato pessoal e se tornam um espelho da sociedade.

Em "O Lugar", por exemplo, Annie Ernaux conta a vida do pai e, ao mesmo tempo, analisa as relações familiares e os conflitos de classe na França. Em "O Acontecimento", ela relata a própria experiência com um aborto clandestino nos anos 1960. Testemunho poderoso sobre os desafios enfrentados por mulheres que desejam interromper uma gravidez em uma sociedade que as condena por isso, traz detalhes minuciosos sobre todo o processo pelo qual passou, algo que jamais vi em toda a minha experiência de leitura, tão detalhado e ao mesmo tempo tão frio e duro.

“O pior da vergonha é que achamos que somos os únicos a senti-la.”

Annie Ernaux também não esconde que teve vergonha da pobreza em que viveu na infância e esse sentimento é revelado e analisado em “A vergonha”, em que descreve como sua origem humilde e sua posição social fizeram com que se sentisse deslocada, especialmente depois de ver seu pai tentar matar sua mãe, em 1952. Esse fato marcou a percepção da autora sobre a própria família e sua condição social, criando um sentimento de inadequação e vergonha que a acompanhou por muitos anos. E a educação formal acabou por distanciá-la da família, tornando-a consciente das diferenças de classe e das barreiras sociais que os separavam dos grupos mais privilegiados.

Já “Paixão simples” é um livro impactante porque explora a intensidade e a vulnerabilidade da paixão de forma crua e sem filtros. Nesse livro, Ernaux narra sua experiência com um amante casado, revelando como essa relação consumiu sua vida, sua rotina e seu trabalho, além da sua percepção do tempo. Ela conta que, enquanto estava apaixonada, o tempo não seguia uma lógica cronológica convencional. Cada minuto longe do amante era uma intervalo angustiante. Descreve a longa espera por um telefonema que marcaria um encontro, a expectativa torturante, a obsessão por uma roupa especial que usaria com ele (e para ele) e a devoção quase cega, sem tentar justificar ou romantizar seus sentimentos. Uma reflexão sobre desejo, dependência emocional e a natureza efêmera das relações em abordagem sem nenhum pudor.

O impacto de Annie Ernaux na literatura contemporânea é profundo e multifacetado. O estilo único influenciou autores e leitores ao se depararem com essa nova perspectiva que transforma experiência pessoal em reflexão sócio-histórica. A narrativa clara e incisiva desafia convenções literárias tradicionais, tornando suas obras acessíveis e impactantes. Além disso, a escrita de Annie Ernaux tem um forte viés feminista, questionando normas sociais e dando voz a experiências muitas vezes marginalizadas.

Terminada a primeira lista, já há uma segunda sendo preparada para encarar uma nova etapa das leituras de Annie Ernaux. A escrita é fluida, os livros são curtos, cada mergulho é profundo, porém breve. Longa é a reflexão, que traz muitas oportunidades de compreensão de outras perspectivas da vida e do mundo. 

“(...) Pois, para além de todas as razões sociais e psicológicas que pude encontrar naquilo que vivi, existe uma da qual estou mais certa que tudo: as coisas aconteceram comigo para que eu as conte. E o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros.”

 

9 de julho de 2025

Entre a repugnância e o regozijo

Ainda não havia despertado o interesse pela obra de Márcia Tiburi, até entrar no Clube de Leitura da Manuela D’Ávila, que este ano propôs um estudo do feminismo, com base em livros teórico-filosóficos e de ficção. O primeiro título do programa: “Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve”. Um soco no estômago. Um, não. Vários.
Muito intenso e provocador, da primeira à última página, conta a história de Helena, brasileira que se muda para Paris e passa a viver no apartamento de Chloè, mulher solitária, de passado e presente dolorosos. A trama avança misturando as histórias das duas personagens, até que se entrelaçam e então compartilham suas dores e traumas e solucionam seus dramas juntas.
Parece trivial, mas para abordar temas como feminicídio, violência patriarcal e de que forma as instituições como família, igreja e justiça endossam essas práticas, Márcia Tiburi nos leva ao fundo do poço, junto com Helena, heroína sofrida, fria e assassina. A narrativa é concebida para lançar olhar crítico e implacável sobre as estruturas de poder e pra isso lança mão de alegorias das violências enfrentadas por mulheres em diferentes épocas e lugares.
Helena sofre um trauma na infância, ao testemunhar a morte da mãe, perpetrada pelo padrasto, a quem chamava de pai. Desse momento em diante, empreende uma busca por sobrevivência, ao mesmo tempo em que passa por todo tipo de abuso, porém carrega consigo a coragem de não deixar barato. Sai pela vida a fugir da violência masculina e atinge seus objetivos também de forma violenta.
Não se trata da narrativa de uma personagem comum. Repleto de metáforas que se aproximam do realismo fantástico, apresenta uma Helena mítica, ou mística, misteriosa, estranha, sua subjetividade não é facilmente acessível. É uma personagem que está sempre no limiar, não se sabe qual será o próximo passo. Como todas nós, que vivemos perseguidas e ameaçadas, Helena é uma sobrevivente. E age de forma tão violenta e ao mesmo tempo tão natural, que nos leva a questionar “por que concordo com tudo isso? Por que toda essa brutalidade me faz bem?” E a gente se vê nesse lugar de repugnância e de regozijo, um sentimento de vingança vibrando em conflito com a culpa por comemorar cada tiro.
A morte permeia toda a narrativa. Mulheres que matam não só para se defender, mas para acabar com o apagamento que sofrem, para chegar lá na frente, mesmo sem saber que lugar é esse. Necessitam se manter vivas, precisam resistir. Buscam espaço onde possam existir sem medo, embora esse espaço não exista; elas caminham com o medo, enfrentam o medo, matam o medo e o que lhes amedrontam. E seguem.
Depois de suas andanças e fugas, Helena chega a Paris e encontra Chloè, que a abriga em sua casa. Chloè é feminista, militante, enfrenta uma luta interna por não se conformar com a morte da filha, declarada como suicídio, mas ela tem certeza de que foi feminicídio praticado pelo marido. E acompanha de olhos bem abertos a saga da neta médica, casada com um abusador agressivo, trabalha e sustenta casa e se vira em plantões e rebate a avó que se empenha para lhe abrir os olhos, enquanto tenta se convencer de que é assim mesmo, ele é assim mesmo, todos são assim mesmo.
Helena espalha seu sofrimento nas tintas, desenha lindamente em traços descobertos por Chloé, que é especialista em arte, trabalha no Louvre, atravessa quadros, rouba telas. Cada uma a seu jeito, têm um desejo em comum: enfrentar o patriarcado e suas imposições. E aqui Márcia Tiburi nos presenteia com um grande diferencial: as mulheres sofrem, são abusadas, mas permanecem silenciosas e acuadas no lugar do sofrimento. Elas reagem, de forma assustadora, como só vemos nos livros escritos por homens, em que os homens são os protagonistas e heróis, ovacionados em sua desumanidade e está sempre tudo bem. A história da masculinidade colocou as coisas nesse patamar e ainda seguimos esse fluxo, quase no automático.

“(...) a morte, pois, de uma bela mulher é, inquestionavelmente, o tema mais poético do mundo.”

A afirmação acima é de Edgar Allan Poe, escrita em 1846, no ensaio “A filosofia da composição”, em que explica como criou o poema “O corvo”. Para dar o tom de beleza ao texto, não hesitou em optar pela imagem e descrição de uma mulher morta. A violência contra as mulheres está encrustada na história das artes, como se vê, no entanto Márcia Tiburi faz exatamente o oposto.
A pesquisadora Eurídice Figueiredo, em “Por uma crítica feminista – leituras transversais de escritoras brasileiras” cita Virginia Woolf, sobre um exercício mental que propõe “imaginar como as mulheres deveriam escrever sobre suas vidas, narrando suas experiências que nunca foram enfocadas pelos escritores do passado e não tentando imitar a escrita dos homens”. E segue o raciocínio ao se referir a Nelly Richards: muitos textos escritos por mulheres, “por mimetismo passivo ou por subordinação filial à autoridade paterna da tradição canônica”, reproduzem os modelos de subjugação masculina.
Márcia inaugura no meu histórico de leituras a personagem mulher dona da ação e da reação, que é violenta, que mata. Nesse livro, as mulheres sofrem, caem e levantam atirando. Com os olhos acostumados à literatura escrita por homens e à escrita por mulheres, mas ainda atrelada ao modo masculino de escrever e estruturar suas histórias, esbarrei no ceticismo no desfecho, apontei certa ausência de lógica nas cenas finais, algo cinematográfico, verossímil se encenadas por homens – “mulheres fazerem isso?”, porém despertei rápido: por que não?
“Com os sapatos aniquilados...” evidencia que que uma mulher é, sim, capaz de se defender com inteligência, sagacidade, frieza. Que também pode tratar seu algoz como lixo, matar e jogar fora, no melhor estilo “deixar pra lá”. Importante destacar que os personagens masculinos não são nomeados. São o padrasto, os irmãos, o policial, o marido, o pastor, o caminhoneiro... Afinal, nenhum merece nome porque na verdade são nada, além de seres apenas nascidos.

Publicado originalmente no Blog Hora do Sabbat, em abri/2025
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12 de março de 2025

Por uma crítica feminista

Passei alguns meses na companhia desta obra da professora e pesquisadora Eurídice Figueiredo. Sim, meses. Só de analisar o sumário e de ler a introdução concluí que “Por uma crítica feminista - leituras transversais de escritoras brasileiras” não seria livro pra ler, mas sim, estudar. Este trabalho tão minucioso me mostrou que havia e ainda há muito o que conhecer e aprender sobre literatura escrita por mulheres.

“A proposta deste livro é de mapear a produção literária de autoria feminina, sobretudo dos séculos XX e XXI, sem deixar, porém, de lançar um olhar sobre as precursoras oitocentistas, com o intuito de detectar as mudanças operadas na maneira de tratar de suas experiências familiares, corporais e sexuais.”

Sem delongas, Eurídice abre a introdução do livro já explicando objetivamente a que veio: mergulhar numa pesquisa minuciosa que respondesse de que forma as escritoras brasileiras se posicionam frente a temas ligados à corporeidade.

Para alcançar esse feito, a autora leu uma centena de títulos de romances, novelas, contos, das canônicas às mais atuais, e elaborou uma síntese crítica de 384 páginas. Dividido em cinco partes, o trabalho de Eurídice Figueiredo trata de gênero, cânone, ancestralidade, sistema patriarcal, temas encontrados e pinçados das obras que pesquisou, como erotismo, gravidez, aborto, maternidade, estupro, incesto, menstruação, TPM, relações abusivas, automutilação, prostituição, lesbianidade, velhice.

“As autoras têm demonstrado cada vez maior liberdade na escrita ficcional de aspectos que envolvem seus corpos.”

Uma preciosidade que nos apresenta obras importantes pouco conhecidas, quase nunca (ou nunca) citadas e também nos reapresenta obras já conhecidas, sob seu olhar afiado, numa escrita habilidosa, de fácil compreensão. Fiz descobertas maravilhosas sobre autoras já conhecidas e fui atrás de outras tantas, de quem não tinha ouvido falar. Alguns títulos me chamaram tanto a atenção, que comprei durante a leitura e fui lendo e estudando, acompanhada pela crítica de Eurídice Figueiredo.

Excelente leitura, boas surpresas, imprescindível para quem estuda feminismo e literatura escrita por mulheres.

11 de março de 2025

Salvar o fogo

Tento escrever algo sobre minha experiência com essa leitura, mas parece que não há mais o que dizer sobre a escrita de Itamar Vieira Jr.

A escolha do tema, a ambientação, as personagens, a Luzia... Pessoas tão reais, tão possíveis, tão distantes do meu mundinho branco e privilegiado, urbano e cheio de possibilidades.

De novo Itamar vai ao interior da história, das dores e cicatrizes dos meus e nossos de antes, da miséria, da fome, da falta de tudo, do material ao que é essencial à vida, à vida do corpo e da alma.

Ô, Luzia...! Que vontade de pegar Luzia pela mão e trazer pra casa, dizer que ela pode ser perdoada e se perdoar, que não cometeu pecado algum, que pode se libertar de si mesma. Vontade de sentar com Luzia à mesa da minha cozinha e tomando um café quente lhe dizer que sim! ela tem direito de amar aos seus.

Itamar faz isso comigo. Me compele a querer fazer algo por essas pessoas, talvez pela culpa ancestral da minha branquitude.

É tanta verdade o que se lê na obra do Itamar, que aquelas vidas seguem seus rumos, em continuidade, em um ciclo sem fim, porque a pobreza, a tristeza, o abandono, a solidão e o isolamento das minorias miseráveis também não têm fim, desde que o mundo é mundo – espero que não dure mais tanto tempo.

São essas as minhas palavras soltas, sem nenhuma pretensão, apenas pra dizer francamente o que uma boa história me causa. E taí um recorte do tanto que Salvar o fogo me alcançou e há três dias mexe com tudo que é meu.

(Texto publicado originalmente em 2023)

 

10 de março de 2025

Dicas da Imensidão

Mário de Andrade, numa de suas frases de efeito, afirmou que “em verdade, sempre será conto aquilo que seu autor batizou com o nome de conto”. Não tenho ideia se houve quem dissesse isso antes ou depois. Se não me engano, ouvi algo parecido de Marcelino Freire, pouco tempo atrás. O fato é que o que se conhece como conto tradicional ou de padrão literário, tem ganhado novos ares, tornando-se cada vez mais diverso em sua estrutura.

Quando escrevi “Justa Causa”, recebi como crítica tê-lo chamado de livro de contos, quando na verdade seriam tão somente histórias. Talvez sim, talvez não. Sou da opinião de Mario de Andrade sobre a alma do conto, da mesma forma que não aceito padrões de qualquer tipo. Há que se considerar algumas regras para isso e para aquilo, mas fugir de normas e padrões, na verdade, é o meu padrão, como o é de tantos artistas.

Todo esse lero-lero é pra falar sobre o livro “Dicas da Imensidão”, da Margareth Atwood, que comprei como livro de contos e que, se for levar em conta o tal padrão literário do conto, trata-se apenas de um livro de histórias, dez histórias muito bem contadas.

Dez histórias de mulheres e suas fragilidades na infância, dramas de adolescência, relacionamentos, sexo, as diversas sensações diante do espelho, a velhice. E nada nessas narrativas têm lugar comum, como pode parecer, pela temática que apresenta. Atwood fala com muita sutileza sobre os ardis impostos à vida da mulher, às suas rotinas e atividades profissionais, ao que tem que se agarrar sangrando pra sobreviver. Tudo isso ambientado em lugares pra lá de maravilhosos nos campos e em torno dos lagos do Canadá.

Gostei muito da Atwood contista que acabei de conhecer. “Dicas da Imensidão” é questionador e é suave, a leitura convida a muitas reflexões e ao mesmo tempo é um passeio. Recomendo muito.

 

9 de março de 2025

No Jardim do Ogro

Ela pode chocar, mas não surpreende. Não pelo tema. “No Jardim do Ogro” (Tusquets, 2014) é o primeiro romance de Leïla Slimani, embora “Canção de Ninar”, de 2016, tenha sido seu livro de estreia, com boa recepção por leitores brasileiros. Entre os dois, prefiro “Canção de Ninar”.

Para um primeiro romance, dá gosto ver a ousadia de Leïla em tocar de modo tão descarado num grande tabu: a compulsão sexual vivida por uma mulher. Não a compulsão apenas como desejo, em função de uma existência sem graça e sem prazer nenhum ou por causa da rotina com um marido que não faz sexo e quando o faz, é um “sexo quadrado”, quase no sentido geométrico. Trata-se da compulsão como doença emocional/psíquica.

Passei o livro todo entendendo o comportamento de Adèle como uma explosão de emoções represadas, para depois compreender o comportamento doentio, como o de qualquer paciente viciado, dependente.

Sim, claro, vítima do machismo, que a expõe à sexualidade muito cedo; da sociedade que exclui mulheres, principalmente pobres; do casamento por comodidade; da falta de sentido em tudo isso e em todo o resto. Adèle acumula desejos, acumula uma bomba sexual, que nunca explode; se retroalimenta. Não só busca a satisfação do seu apetite, como se machuca e se deixa machucar.

Por outro lado, há o marido, que também carrega uma fragilidade emocional ou uma doença psicossocial qualquer. Não gosta de sexo, jamais se abriu para as diversões sexuais, sequer curte o assunto entre amigos e se casou somente para ter uma família convencional.

A narrativa da Leïla Slimani é primorosa. Frases curtas, secas, diretas, porém não permite desgrudar os olhos. Tem habilidade rara para passar pelos tempos diversos da narrativa, que vai e volta e leva o leitor a conhecer os meandros da história em seus vários aspectos, que influenciam ou irão influenciar os personagens até o desfecho. Em Canção de Ninar, a autora inicia a narrativa pelo fim e retorna no tempo, até a história culminar com a cena descrita na primeira página.

O desfecho de “O Jardim do Ogro” me lançou no rosto uma enorme interrogação, a ponto de voltar uma página e mais outra página, com o sentimento de “acho que perdi alguma coisa” para, em seguida, soltar um suspiro e dizer: “Ah! Isso é Leïla Slimani!”

(Texto publicado originalmente em 2020)

Você tem nojo de quem?

Umas palavrinhas sobre o livro Nojo, lançamento de Divanize Carbonieri pela Carlini&Caniato Editorial

Quando procurei Divanize Carbonieri para pedir seu mais novo livro, após as trocas de informações sobre preço e envio, ela escreveu: “espero q vc não se assuste muito com o Nojo”. Do pouco que já havia lido a respeito, nada se associava a essa fala. Assustar? Espero que não seja terror, pensei. Ou suspense. Histórias de suspense me fazem mal.

O livro chegou e, ao ler a orelha de Malu Jimenez, sem ainda folhear as páginas, mudei de expectativa – isso vai ser soco no estômago. “(... o nojo provém dessa construção estética equivocada que nos diz que o habitual é repulsivo (...) Ler Nojo é se constranger com a própria construção do que significa ter corpo”.

Passei pelo prefácio, confesso, quase sem prestar muita atenção, tamanha a minha curiosidade, e me deparei com o inusitado. Numa única sentada, li Nojo do início ao fim. Impossível parar, pausar, impossível até quase respirar, pois a narrativa simplesmente me arrastou.

O tema é mesmo chocante; é, sim, soco no estômago, porque Divanize escancara em linguagem muito popular os desvarios aos quais nos entregamos ao aceitar a normalização das mais absurdas exigências estéticas. Desvario diante de nossos próprios corpos diante do espelho, desvario nas decisões tomadas para mudar o que a ditadura da estética nos impõe como perfeito, o desvario da palavra, quando a usamos contra todos os corpos, sejam os nossos ou dos outros, todos os outros.

Dos comentários que li sobre o livro de Divanize, um deles se refere “à personagem”. Pois não vi apenas uma personagem. Em Nojo parecem haver meia dúzia de mulheres conversando, falando rápido, animadas ou revoltadas, com raiva ou debochadas, criticando a si próprias e às demais, sempre ácidas e afiadas – e eu à curta distância, assistindo. Pessoas comuns, de vidas comuns, reproduzindo em palavras e expressões o que aprenderam a negar. Sua barriga, seu cabelo, meu dedo, meu nariz, sua celulite, minha roupa amassada, sua maquiagem, vulva rosa, vulva escura, você tá gorda, eu tô magra demais, perna grossa, braço balançando.

Apesar da seriedade da crítica proposta, não pude me furtar a muitas risadas em vários momentos, diante de comparações criadas para os ditos “defeitos”, como dizer que o corpo parece um tigre de tão cheio de estrias, ou afirmações como “quem gosta de curva é burro”, quando uma das personagens enaltece o corpo magro, esguio, seco feito tábua, e garante que tal condição estética é privilégio de intelectuais.

Lembrei de muitas situações vividas, eu mesma, com a mudança do meu corpo depois de um câncer de mama. Lembrei também de situações presenciadas e relatadas, como o caso de uma amiga cuja mãe teimava que sua barriga era grande e feia e que tinha que “fazer alguma coisa pra acabar com isso aí”, até que ela mesma, a mãe, comprou uma dessas cintas elétricas que não dão resultado algum e deu pra filha. Sem consultar a filha, sem ser solicitada. A cinta, jamais usada, se perdeu em meio a tralhas no fundo do armário, até a mãe pedir de volta. “Sei que não tá usando, então me devolve, que vou dar pra Fulana”. Sem também consultar a fulana, claro. Mãe vítima da sociedade vitimando a própria filha.

Também penso em mim mesma, tantas vezes rendida ao péssimo costume de apontar corpos, e agora sigo nessa reforma interna, à medida que me educo e descubro o quanto de desamor há nesse tipo de comportamento. Desamor por mim e pelos outros. Acomodação irrestrita nesse lugar que nos colocam e que a gente aceita feito gado obediente, sem pensar, sem refletir. Apenas reproduzindo os mugidos que chegam aos ouvidos. Em Nojo, Divanize Carbonieri nos convida a sair desse lugar. No meu caso, sair rindo, porque realmente achei bastante engraçado.

(Texto publicado originalmente em 2020)

Gente esquecida

Sobre o livro “A vida que ninguém vê”, de Eliane Brum

Contei essa história dias atrás e vou repetir aqui: recém-formada, primeiros anos de profissão, ouvi de um jornalista próximo que “gente comum não interessa a ninguém, inclusive não vende jornal”. A afirmação veio em resposta ao meu desejo de escrever sobre gente anônima, pinçada do meio do povo, aquele velhinho que passa os dias sentado na porta da rua, do bairro da periferia. Minha vontade era ouvir as histórias dessas pessoas.

Balde de água fria. Cidade do interior, jornalismo de interior, conveniências de interior. Quem é que ia querer saber de gente esquecida? Pauta boa aqui era politiquice, politicagem e afins. Bora lá fazer o bom e velho jornalismo da produção e promoção de invisibilidade, que o importante é vender jornal.

Trinta anos se passaram e só agora me dei a oportunidade de ler “A vida que ninguém vê” (Arquipélago, 2006), da jornalista Eliane Brum, que reúne os textos da coluna de mesmo nome que ela escreveu no jornal Zero Hora. A proposta da coluna veio do diretor de redação Marcelo Rech que, segundo ele mesmo, não pensaria em outro repórter pra assumir a tarefa: “extrair crônicas reais de pessoas comuns e situações corriqueiras, em busca de inovações e inovadores para marcar a história do jornalismo brasileiro”.

O ano era 1998. Foram quarenta e seis colunas em onze meses. A invisibilidade que não vendia jornal rendeu à Eliane Brum o Prêmio Esso de Jornalismo – Regional Sul, em 1999. O livro, lançado em 2006, recebeu o Prêmio Jabuti de melhor livro-reportagem, em 2007. Por que cito essas datas? Porque passei pelo jornalismo, como repórter, nessa época. Porque foi numa noite dos anos 90 que ouvi de um jornalista experiente que gente comum não interessava a ninguém. E a frase, curta e grossa, entrou pelos meus ouvidos como uma ordem, que foi cumprida com rigor (já fui muito competente em cumprir mando dos outros sobre meus desejos). Pensando bem, a que jornal desta região do interior do Estado do Rio interessariam histórias sobre gente que ninguém vê? Talvez fosse uma frustração tremenda se desobedecesse a ordem e tentasse. A não ser que fosse embora daqui (poderia ter sido muito bom isso). Só que Eliane Brum valoriza “o cachorro que morde o homem”, não o contrário, como os antigos colegas costumam exemplificar uma boa pauta, a do “homem que morde o cachorro”, e esfregou na cara do jornalismo brasileiro que gente comum rende prêmio cobiçado pela “elite sabichona” que até hoje povoa a imprensa nacional.

O capitalismo criou a invisibilidade, a sociedade capitalista a aceita e a imprensa protetora do capital a alimenta. Essa equação é repetida há anos e para muitos “é desse jeito”. Acostumaram-se a desejar mais, ter mais, trabalhar mais pra ter mais, morar melhor, viajar mais, tomar mais remédios, dormir menos e quem não vive essa vidinha assim-assim não “chegou lá” por falta de esforço. Essa “gente que não se esforça” foi ficando cada vez mais escondida, lixo humano empurrado pra longe (vide “Vidas desperdiçadas”, do Bauman), invisível e “Pô, cara, normal, né? Uns chegam lá e outros, não, fazer o quê?” E “desse jeito”, os que “não chegam lá” deixam de existir, não fazem parte, não pertencem, não merecem, suas vidas (vidas?) não interessam à imprensa.

Lá. Onde é lá? É ali, na padaria, no hipermercado, onde o capitalismo determina que a vida tem que seguir, mesmo com um corpo estirado no chão, escancarando que a vida é um sopro, que amanhã qualquer um de nós pode acabar no piso frio de um estabelecimento comercial, enquanto outros tomam café ou escolhem os ingredientes que vão levar pro jantar.

“Não há nada mais triste que enterro de pobre porque não há nada pior que morrer de favor, não há nada mais brutal do que não ter de seu nem o espaço da morte. Depois de uma vida sem lugar, não ter lugar pra morrer. Depois de uma vida sem posse, não possuir nem os sete palmos de chão da morte. A tragédia suprema do pobre é que nem com a morte escapa da vida.”

O trecho acima é do texto “Enterro de pobre”, no qual Eliane Brum relata a tristeza de um homem para enterrar seu bebê, natimorto por negligência médica por onde a mãe passou antes de perder o filho. Não deixaram que ele visse a criança; também não lhe foi permitido vestir o bebezinho com a roupinha que comprou por sete reais. Tudo isso aconteceu enquanto os dois outros filhos estavam internados, cada um em um hospital. Num deles, a mulher acompanhava a filha quando sentiu o sangue descer pelas pernas. A enfermeira disse que voltasse pra casa. Na manhã seguinte, foram à Casa de Saúde, mas não foram atendidos. Só chamando a polícia conseguiram que fossem levados a um hospital da capital. Tarde demais.

Pessoas invisíveis. Pessoas sem importância. Vidas que não merecem atenção. Histórias que ninguém conhece, nem vai conhecer, porque “quem é que se interessa por gente comum?”. Como aquele mendigo, que não caminha, se arrasta, e que Eliane precisou se abaixar à altura dele, rente ao chão, para olhá-lo nos olhos, porque havia ali um homem e para entrevistar o homem era preciso olhá-lo nos olhos. A jornalista explica essa necessidade no último capítulo do livro, “O olhar insubordinado”, em que critica o jornalismo que não enxerga e não escuta.

(...) O mendigo da rua da praia, estatelado no chão, barriga sobre a laje, havia trinta anos. Não sei quantas vezes passei por ele com pena e culpa. A vida que ninguém vê me impôs – e não foi fácil – curvar o pescoço, me agachar e colocar meus olhos no mesmo plano dos olhos dele.

(...) O jornalista é reduzido a um compilador de monólogos, a um aplicador de aspas em série. Especialmente se só pode contar com palavras transmitidas por telefone ou email. Fulano disse, sicrano afirmou.

(...) Tenho pena dos repórteres das teses prontas, que saem não com blocos, mas com planilhas para preencher aspas predeterminadas.

Escrevi um livro-reportagem (“Alguém pra segurar a minha mão” – Literalux, 2006) sobre o direito à morte humanizada e acompanhei pessoas comuns. Visitei casas de pacientes muito pobres; outros, nem tanto. Testemunhei a aproximação e a chegada da morte na intimidade dos quartos. Pessoas comuns morrem como todas as outras e têm histórias importantes; deixam histórias ricas. Quero continuar me interessando por gente. É gente que faz o mundo.

O ser humano, qualquer um, é infinitamente mais complexo e fascinante do que o mais celebrado herói.

(Texto publicado originalmente em 2020) 

 

 

Torto Arado

Um livro que retrata o Brasil como ele é, desse jeito que a gente não vê, que a gente não sabe e passa a conhecer por meio das histórias contadas por nossos escritores. Gosto de ler e de escrever sobre pessoas, sobre vidas que se desenrolam (ou se enrolam) esquecidas, ao largo da realidade urbana de cada dia, nos muitos cantos do país. Gosto de conhecer esse povo, ainda que me entristeçam suas desgraças, causadas pela minoria dominante, que os isolaram na mais completa falta de direitos básicos.

Itamar Vieira Júnior ambienta Torto Arado num desses cantos e descreve uma saga que se repete por aqui há muitas gerações: a das famílias de negros, que permaneceram pobres e segregados, prisioneiros da falsa liberdade conquistada com a abolição.

Saltam aos olhos o chão de terra, a roça, a mata, o céu, o balde de água, o casebre de barro, a chuva, a seca, o trabalho escravo, em troca de um teto roto para abrigar o corpo depois da lida. O suor no rosto, o dorso curvado, a cabeça baixa, as mãos calejadas, as vistas turvas, os pés descalços e inchados, o sangue escorrendo, a carcaça fria. A fome, as perdas, a humilhação engolida, o grito de dor agarrado na garganta, a miséria da falta de instrução.

Muitas das tragédias que fazem e sempre fizeram parte do cotidiano das populações invisíveis do país, são vividas pelos personagens. Famílias que saíram em busca de sobrevivência e tiveram que sustentar suas demandas se arrastando de um lado a outro, até encontrar lugar para trabalhar, garantir um terreiro para plantar e comer o que o sol, a chuva e o patrão permitissem. Em Torto Arado elas aparecem embaixo de um céu que impõe seu peso, seu poder de vida e morte, seja azul iluminado, nublado ou derrubando água, revelando o tanto que essa gente viveu (e vive) a nu na vida, entregue à vontade de Deus. E que só Deus conhece.

O que os protege das angústias da vida é a religiosidade, apresentada de modo impecável por Itamar. O sincretismo que mistura as crenças numa só, com seus santos católicos, orixás, atabaques, dança e rodopio; a comunidade que sobrevive com a ajuda de curador-rezador. Encantadoras as descrições do jarê, da festa em homenagem à Santa Bárbara, ou Iansã, da convivência e do respeito aos espíritos e a presença constante do invisível entre os trabalhadores de Água Negra. É na religiosidade e na fé que se voltam e se persignam, para resistir na labuta e sofrer com dignidade, cultivando a crença nos intermediários do Altíssimo, nos guias, nos guardiões, para aquecer o coração, acalmar a alma, e reunir força para prosseguir de pé.

E no fim das contas são eles, os protetores ocultos, os que abençoam, que livram dos males e das ameaças constantes; e os salvam por meio de seus próprios corpos.

(Texto publicado originalmente em 2019)

Combustão

O livro já chegou em minhas mãos todo molhado! Nem esperou para ser lido e apareceu aqui em combustão espontânea, por efeito dessas benditas cartas de Gregório e Hilda.

Brincadeiras à parte, tive de esperar muitos dias para começar a ler “Combustão”, de Jeanne Araújo e Cefas Carvalho, lançado em dezembro pela Literalux. O livro realmente me foi entregue encharcado, por ter tomado chuva na caixa dos Correios. Após dias secando e outros tantos embaixo de uma pilha de livros pesados, para realinhar páginas e capa, enfim, ao abrir a primeira carta, fechei o livro rápido e gritei:

“Gente?!”

De cara imaginei que o romance entre Hilda e Gregório se passava no século XIX. As urgências do casal sempre em vielas, becos e cabarés me conduziram a esse lugar do passado e, mesmo depois de me deparar com detalhes que remetem ao tempo atual, continuei a viajar no tempo. Interessante esse sentimento, que também pode ter sido instigado pelo vocabulário escolhido pelos autores ou pela verve do jornalista Gregório.

Uma particularidade: como Jeanne Araújo é amiga pessoal, tive a impressão de ouvir sua voz doce, baixa, com o delicioso sotaque soteropolitano, narrando aqueles encontros tórridos num papo informal.

A vontade foi de sorver tudo de uma vez, mas preferi ler bem devagarzinho, degustando a cada duas cartas. Mantive assim o ritmo, até perceber mais dor e angústia que o prazer das recordações proposto por Greg na primeira carta. E num fôlego fechei o livro no colo.

Quanto amor, quantas histórias de tantos amores! Quanta ânsia, quanto desejo satisfeito e não satisfeito. Quanta saudade do que não chegaram a desfrutar. As correspondências de Gregório e Hilda me trouxeram à mente casos reais de pessoas castigadas por “amar aquilo que não se pode ter”, que faz sofrer e deixa marcas que doem pra sempre.

Jeanne e Cefas escrevem sobre amor e desamor, fantasia e desilusão, luxúria impelida por afeto, pela fome do corpo, pela mentira, pela inconstância, pelo acaso. Porém, “O que importa agora? O que isso traria de bom ou ruim a uma história dividida em tantas pequenas partes, que juntando, não dá uma? (...) Nós fomos e nunca fomos nada”, diz Hilda, nesse momento em que enfrentam, cada um no seu canto, os reveses do tempo. O que ambos necessitam na velhice é apenas reviver na lembrança o melhor do amor, o melhor do sexo de uma vida inteira.

E me acompanhou até o fim a voz da Jeanne narrando as memórias de Hilda, como se estivesse sentada à beira da minha cama.

(Texto publicado originalmente em 2018)

A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas

É estupendo o livro “A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas”, da Maria José Silveira. Valeu a espera de meses, aguardando a nova edição, agora com um novo capítulo final.

Desde o nascimento de Inaiá, no mesmo momento em que aportavam por aqui as primeiras caravelas portuguesas, até os dias atuais, a história do Brasil é contada pela perspectiva de uma linhagem de mulheres.

Nenhuma romantização. As narrativas são realistas, dolorosas, alegres, apesar das dificuldades de cada época, tristes, trágicas, emocionantes.

Faz pensar muito nas teorias da ancestralidade, segundo as quais nossa carga genética traz aptidões, comportamentos, marcas físicas e emocionais das que vieram antes, não importa desde quando. E ainda assim, esquecemos quem somos, de quem e de onde viemos.

 “Quanto a Jacira, também lhe parecia natural a ideia de que o índio estava mais perto de um bicho do que deles. Essa geração de brasileiros, nem bem dois séculos tinham se passado e já havia por completo se esquecido de quem descendiam. Além de não reconhecidos como parentes, os índios eram temidos e, pior, desprezados”. Em apenas dois séculos, depois da invasão dos portugueses, os brasileiros resultantes da mistura entre brancos e índios não faziam mais ideia de sua ascendência. Brancos eram brancos, índios e animais eram a mesma coisa e pretos viriam a se tornar ‘peças’.

As heranças que passam de uma a outra, diretamente ou em gerações alternadas, aparecem sutil e suavemente na narrativa de Maria José Silveira: cabelos, olhos, tom da pele, beleza, sinais no corpo, temperamento, até lembranças – ou nostalgia. Hereditariedade que não está apenas nas características notáveis das personagens, mas também no perfil da mulher histórica.

“(Damiana) tem o dom de não fazer do passado um fardo e sim um cofre fechado, onde guardará para sempre seu tesouro de luz inextinguível”.

O dom de Damiana é nosso fardo de hoje. Esconder as dores do passado – e também do presente – num cofre, mais que virtude, é meio de sobrevivência, porque é preciso tocar em frente, apesar de.

No final, no capítulo inserido na edição atualizada, a deixa para que não esqueçamos que nossa história continua nas histórias das outras que virão. Emocionante.

Ainda em franca reflexão sobre essa obra magnífica, deixo aqui minha indicação para que não deixem de ler “A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas”. Leitura muito necessária.

Em tempo: revisão impecável.

(Texto publicado originalmente em 2018)