Páginas

Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens

3 de agosto de 2026

Prosa que abraça

Meu primeiro pensamento ao iniciar a leitura deste livro foi a trabalheira que deve ter dado pra revisar. “Janice”, obra de estreia de Rafael Prado, pela Editora Patuá, é narrado por uma Preta Velha, com a linguagem já bem conhecida das vós de terreiro.

“Escuita, fio... que a vó qué te contá uma história.”

O estranhamento inicial logo se torna prazer, como se a narradora estivesse ao meu lado, contando sobre a vida de Janice, desde antes de nascer, acompanhando a infância da menina de onde quase ninguém vê, já que se trata de uma entidade espiritual. Parecia ouvir a voz da vó, a fala doce que toda Preta Velha tem, a suavidade, o carinho com que conversa com o leitor, ao chamá-lo de “fio”.

“Uma semana tem sete dia e num é por acaso não, fio. Sete é número de mistério, de reza direcionada e de trabaio bem feito. Foi em sete dia que se ajeitô o mundo. Tem semana que passa ligeira, parece que nem deu tempo de vivê e tem semana que parece carregá o peso de todos os ano. O tempo, ah, o tempo... ele vai e a gente vai junto, quereno ou não.”

A doçura da vó está presente desde o texto, a história leve, sem grandes tensões, a ternura com os moradores da Vila dos Ipês, dos quais toma conta como se fossem todos filhos queridos. E Rafael não deixa a narrativa cair; segura o tom do início ao fim, sem enfastiar, garantindo sua ousadia em optar por uma narradora inusual (eu nunca tinha lido algo assim em obras de ficção).

Este livro foi um presente, não no sentido literal. Estava na Casa Gueto, da Editora Patuá, na Flip, escolhendo o que queria trazer de novidade, quando a Pricila pescou “Janice”, me apresentou e disse: “Acho que você vai gostar deste”, sem saber que sou umbandista e que tenho um cadinho da história da Janice na minha vida. Acertou.

“Nessa vastidão, num tem ninguém suzinho não, fio.
Ocê também num tá.”

11 de março de 2025

Epitáfio em três versos

Onofre foi enterrado às nove horas de uma manhã fria e chuvosa. Alberto, ante o jazigo em que deixaria para sempre o amigo, sentiu a tristeza comprimir o peito. Não pela separação sem retorno, mas pela despedida em dia tão feio. “Onofre merecia partir com céu claro, de azul límpido, sol manso e brisa perfumada”, pensou. Contudo, o destino escolhera a atmosfera densa, cinza, a chuva fina e constante.

No cemitério eram somente Alberto, Celeida, a dona do asilo, Karina, a psicóloga, e os coveiros. Já sem força para andar longa distância, deixaram-no ir de carro até a penúltima aleia, no cantinho à esquerda, onde ficava o mausoléu da família. Onofre fora o remanescente. Alberto acompanhara o sepultamento da mãe dele, única pessoa entre os familiares que conheceu. O amigo se foi mais de vinte anos depois.

- Não há mais ninguém que vá ocupar lugar aqui – disse Alberto para si.

Desceram do carro com cuidado; a psicóloga ofereceu-lhe o braço. Com os joelhos já tão fracos, o paralelepípedo molhado era convite ao chão. Sem choro, preces ou qualquer discurso de adeus, apenas os olhares de tristeza e saudade, viram arriar o caixão de luxo pago com antecedência pelo próprio Onofre. Queria sua derradeira casa “linda e confortável”.

Assim foi.

Alberto divagava. Tentava compreender os entrelaces da existência, que levaram Onofre à total solidão, embora tenha feito de seus dias os melhores que pode, por si e por quem privara da companhia dele. Nenhum parente, nenhum outro amigo, nenhum sobrinho, ninguém. E, no entanto, ali estava representado o maior amor dedicado a um ser, amor claramente expresso nos olhares de quem teve a divina graça de conviver com Onofre. Unidos por sentimento igual, permaneceram juntos - Alberto, Celeida e Karina - flores nas mãos, a ver cada placa sendo assentada, o cimento a cobrir as frestas; o assentamento da lápide em mármore, que Onofre também mandara fazer com antecedência.

            “...como um bicho, simplesmente,

            De um amor sem mistério e sem virtude

            Com um desejo maciço e permanente.”

            Onofre. *12.01.1931 / +14.07.2017

Sem sobrenome e sem foto. Não adiantaram os insistentes rogos de Alberto e das responsáveis pelo asilo. Ele não arredou o pé.

- Parem de tentar me convencer. Quero assim e pronto – teimou.

Jamais explicou seus motivos. O mármore ficou à espera, guardada dentro do mausoléu. Poderia ter mudado de ideia e encomendado outra. No entanto está lá, do jeito que quis, sem sobrenome e sem foto.

- Pra que foto, Alberto? Quem vai lá me visitar? Você? Vai querer ir ao cemitério pra olhar minha cara séria naquela moldura antiquada pregada numa sepultura? – perguntou ao amigo, sorrindo.

Tampouco entenderam os três versos no excerto do poema que escolhera para o epitáfio, sem citar a autoria. Onofre era desse jeito. Um jeito só dele.

A chuva fria não deu trégua. Retornaram ao asilo juntos, pois era missão de Alberto cuidar dos objetos pessoais do amigo e queria fazê-lo logo. Outros residentes os aguardavam na grande varanda do casarão; Alberto sentiu certa curiosidade nos olhares, como se quisessem saber como estava o único e leal amigo de Onofre, que morava fora e o visitava religiosamente a cada quinze dias.

Alberto estava bem. Sempre pensara que não se deve esperar do futuro a partir de certa idade. Dos oitenta e seis anos de Onofre, os últimos vinte e três passara no asilo, que todos chamavam de vila, a Vila Primavera. Estabeleceu que seria sua morada definitiva após a morte da mãe, a quem cuidou até o fim. Não teve esposa, nem filhos. Do resto da família, há muito não tinha notícias. Alberto completara oitenta e quatro poucos meses antes do amigo. Viúvo, morava sozinho num apartamento no mesmo prédio que a filha. Além dela, tinha Onofre.

Diante das caixinhas e pequenos pacotes que colocara com cuidado em cima da cama e da escrivaninha, suspirou fundo antes de começar. “Não há para quem deixar nada, é preciso decidir o que fazer”, pensou. Em suas visitas, notara a organização da pequena estante e jamais pensou que fosse ele a se ocupar da vida pessoal de Onofre, trancada naquelas caixas. A filha de Alberto o aconselhou a não assumir tal responsabilidade, o pessoal do asilo ficou em dúvida, por motivo comum: a idade. No entanto, Alberto fez questão.

- Ele só tinha a mim - suspirou de novo.

Recordações retornaram à mente em cada foto, em cada peça de roupa, cartas, cartões de Natal, de aniversário, bilhetes, bilhetes. Receitas médicas, exames, mimos recebidos pelas enfermeiras, alguns poucos livros. O mais novo adquirido da escritora que viera palestrar para os residentes meses atrás.

Alberto recostou na cabeceira da cama e respirou fundo. Ao passo que saiu o ar, deixou caírem as lágrimas. Cruzou os braços no peito, como em um abraço, e largou as palavras num sopro.

- Tanta coisa por dizer... Mas que não seriam ditas, ainda que pudesse fazer voltar o tempo.

Enxugou os olhos nas mangas da camisa, recolocou os óculos e se levantou para abrir o armário. Conferiu as gavetas, para ver se havia algo mais que roupas, quando deparou com uma caixa pequena, de madeira. Alberto levantou a tampa e dentro encontrou outro pacote de fotografias. Ali estavam todas as lembranças: desde o dia em que se viram pela primeira vez no baile de carnaval, quando estava com a família no clube e encontrou Onofre no balcão do bar, até reuniões e festas em casas de ambos. Eram dezenas de registros, guardados com esmero e anotados no verso com data e local. No fundo da caixa, um envelope lacrado: “Pra Você”. O mundo parou em torno, enquanto Alberto leu:


Rio de Janeiro, 1º de março de 2016

Alberto,

Não sei por que lhe escrevo, se não pretendo lhe entregar esta carta. Talvez pela urgente necessidade de conforto, neste momento. Jamais teria coragem de dizer o que vem por estas linhas. Quem sabe um dia esta lhe chegue em mão e não estarei em corpo para vexá-lo com tamanha loucura. Tanta foi minha covardia que não pude olhar-lhe com a verdade do que sinto, não soube usar da voz para confessar-me. Agora que recorro às palavras traçadas, vejo-me incapaz de expressar meu mais profundo desejo. Portanto, escolhi os versos de Vinícius, que tantas vezes repeti serem meus preferidos.

 

Soneto do Amor Total

 

Amo-te tanto, meu amor… não cante

O humano coração com mais verdade…

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade

 

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

 

Amo-te como um bicho, simplesmente,

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.

 

E de te amar assim muito e amiúde,

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.

 

Do seu,

Onofre.

 

Longe de tudo

Lenço amarrado à cabeça, chinelos de borracha e uma bolsinha minúscula com documento e uns trocados. Botou os pés fora de casa, sem intenção de voltar ao inferno diário do tráfico, da polícia arrombando portas e vidas, da pobreza sem esperança, do isolamento imposto pelo resto do mundo. Perdera o único filho para o crime e o marido para as drogas. Não tinha mais nada, não queria mais nada. Sem rota, sem plano, ganhou a rua e andou.

Tiroteio deixa um morto e cinco feridos. Três adolescentes são abatidos durante incursão de policiais no Morro da Piedade. Hermínia caminha, sem interromper os passos para um descanso. Segue em direção ao que chama “longe de tudo”. Um lugar em que jamais esteve, mas imagina e procura fora e dentro de si, enquanto se locomove rígida e segura. Grupo fortemente armado realiza falsa blitz e rouba carros para invadir a comunidade. Sua alma, sim, conhece a lonjura que busca, como se em sonho já a visitasse, como se a trouxesse de outras dimensões de si mesma.

Hermínia aperta a passada pois necessita se afastar do tormento que deixou para trás. Crê no fim da guerra, na libertação, nunca mais medo e sofrimento. Sem prever, avança no rumo das montanhas e sobe, agora devagar. A polícia ocupa todos acessos e prende cinco traficantes. Encontra sob as árvores um veio d’água e se abaixa pra matar a sede. Está exausta. Molha o rosto, as têmporas, a nuca. Olha adiante e vislumbra o caminho. Quer encontrar o que nunca viu, o que não sabe e não conhece. Retoma sua marcha à beira da estrada, os tornozelos tocando musgos crescidos entre galhos úmidos à sombra da mata. Grupo da polícia especial invade casa e mata uma mulher e dois filhos pequenos com tiros de fuzil.

Sem ver dia nem noite, a cada trecho que vence, experimenta a liberdade de apenas ser, enche os pulmões com vigor e expira seus temores, vê ao longe a cidade, ameaça um suspiro. O ruído do repuxo atrai Hermínia, que transpõe o limite da margem e adentra a mata. Raios de sol dançam entre as frestas das copas, salpicando a água do riacho de pequenos diamantes de luz. Hermínia se ajoelha. Chora e ri. Desconhece essa sensação estranha, ao mesmo tempo serena. Se emociona, descalça os chinelos e se entrega.

Moradores do Morro da Piedade não têm paz. Nesta madrugada um incêndio destruiu praticamente todos os barracos do lado leste da comunidade. Dados não oficiais informam até agora trinta e duas mortes e centenas de feridos. Moradores desalojados e desamparados não sabem para onde ir.

Efêmero

Sem hora nem dia certos, apenas chega. Na ruazinha do lado de casa, buzina seu carro preto - o mesmo carro preto. Jamais hesito, sequer penso. Num átimo estou perto, junto, ofegante, suplicante. Braço apoiado no encosto do banco do carona, carrega um sorriso maroto e olhar vívido. O paletó está aberto, o nó da gravata frouxo. Aparenta cansaço, após um dia de trabalho exaustivo, com as mechas levemente cacheadas em desalinho pela testa, a camisa amarrotada. Não me beija. Recua, apesar da insistência do meu movimento a fim de alcançar-lhe a boca. Frustrada, beijo suas mãos, roço meus lábios em cada um de seus dedos. Contemplo seu rosto. O arfar de meu peito revela a paixão irrefreável e a saudade que parece já durar uma vida. Enquanto traga o cigarro e bafora a fumaça despreocupado, perscruta-me dos pés à cabeça, sem me tocar. O olhar dele tem tesão, tem saudade. E certa ponta de tristeza. Percebo em sua respiração o ímpeto por me tomar e se afogar no meu abraço. Fuma e me encara. Não diz nada. Nem eu. Nossos olhos dizem tudo por nós. Assim permanecemos, sem mundo em torno, sem ruído, só a névoa por trás das janelas, enroscada nos vultos das árvores da praça, e a brisa que sempre nos acompanha.

Há anos aparece sem aviso, sem prazo, sem data, e nos amamos. A falta que fazemos um ao outro é tamanha, que somos ávidos, frenéticos, furiosos até. No entanto, somos breves. Sabemos que logo acaba e ele terá de ir, ou eu. E tudo é apressado. Num dos primeiros encontros disse que me amava. A ternura em sua expressão confessava por si, nem exigia as palavras. Nessa noite, cometemos o amor, do início ao fim. A única noite em que tivemos tempo – não temos controle sobre esse tempo. Reconhecemo-nos e nos unimos, pertencíamo-nos desde algum lugar distante e sabíamos que éramos um. Beijos inesquecíveis, é o que preciso dizer, pois beijos são a porta para a entrega completa, e nada viria sem os lábios grossos e molhados, a língua faminta e sôfrega. Ainda que não possa me oferecer o amor por inteiro, como ocorre em tantas outras vezes, sou sequiosa por seus beijos, que seja somente um, efêmero, posso me contentar. Na mansidão do amor, sem a urgência dos demais no porvir, foi um beijo sem fim, que não se concluiu, até o prazer máximo do desejo saciado. O beijo que senti queimar a boca e arrepiar pele, depois de tudo.

Não sei se o amo ou se um dia amei. Amo o amor que me devota, o quanto sofre a privação de minha companhia, o anseio pelo meu corpo, a fome pelo meu sexo quando finalmente vem me ver. Ele me encanta, fascina, faz fremir cada cantinho dos meus nervos. Com ele, sou inteira dele.

Um dia, de pé diante de mim, o desalento estampado na face, olhou-me longamente. “Não quero ser seu amante”. Em poucas ocasiões se expressou pela voz. Beijou-me as mãos, meu pescoço, suspirou meu cheiro, tocou de leve meus lábios, roçou meu rosto com o dele. Curvou-se, apoiou a cabeça em meu colo e chorou. Enquanto acariciava seus cabelos negros, assisti a tarde levando embora o dia, empurrando o sol para trás das montanhas ao longe, deixando um céu vermelho. Ficamos assim, por segundos arrastados. No peito, o aperto da despedida que se aproximava, a insegurança que nos abate no instante da separação, a aflição da incerteza, o amor sofrido e resignado doendo na carne, a alma tremendo de medo de uma vida sem ele por perto. De repente, ergueu-me como a uma criança, acima dele, com os braços tesos ao alto: “Não sei se suporto mais tantos anos longe você.”

De volta ao chão, tentei eternizar aquele momento. Segurei-o pelas mãos e não consegui falar – nunca digo nada. Sinto-o, amo-o, adoro-o além de minha compreensão, porém calada. Quis trazê-lo para mim, prendê-lo talvez, quis balbuciar um “Não vá. De novo, não”. Com garganta incapaz de emitir qualquer som, limitei-me a olhá-lo, clamando por ele em silêncio, apaixonada e triste. Entre nós, a aura do costumeiro sentimento de perda iminente, de medo, de pavor por não saber se voltaremos a nos ver. Tudo acontece num rasgo de tempo, o lapso em que uma réstia de luz do sol atravessa uma clareira na nuvem e em seguida se põe. Então, desperto.

Sentei na pedra e chorei

Ia àquele consultório toda semana. Era uma obrigação imposta pela família “conversar com o doutor Gilson”, como se aquele palavrório sem sentido fosse me fazer mudar de rumo em plena crise de rebeldia-pós-casamento-precoce-mal-feito-recém-terminado.

A intuição nunca me enganou; a única pessoa em casa que tinha restrições ao doutor era eu. Ninguém sabia, mas passava longe daquele endeusamento, a idolatria, a confiança exagerada, só porque era profissional muito bonzinho, amigo da minha irmã. A cara dele não passava coisa boa; os olhos transmitiam algo estranho, que a compreensão não alcançava. Só sei que não gostava.

Até que um dia aconteceu. O inesperado esperado. Ele mostrou o que era de verdade, ou seja, um escroque.

Eu chorava sem trégua. A vida, aos dezenove anos, estava virada do avesso, e a família, sem entender o que ocorria com minha cabeça, empurrava-me para que aquele homem vil fizesse o papel de psicanalista, me ouvisse e dissesse coisas que me conduzissem ao que pensavam ser o caminho certo. Era educado, a voz baixa e suave, falava manso como qualquer ser bondoso ou que se faça de. O tom da voz saía meio rouco. Recebia-me de modo cortês, com abraço, dois beijos, sentava-se atrás da mesa e eu à frente, como numa consulta convencional.

Só que nesse dia minha fragilidade estava no ápice; não conseguia dizer nada; só chorava. Ele se levantou, se aproximou e tocou meu ombro.

- Vem cá. Você está precisando de colo.

Eu boba, ingênua como minha criação me fez ser, acreditei e aceitei o falso acolhimento. Ele recostou na maca e me puxou. Abraçou-me forte, inicialmente como um pai carinhoso. De repente, as mãos pesadas começaram a alisar minhas costas, de cima a baixo. Tensionei o corpo, pelo estranhamento. No mesmo instante em que respirou quente no meu pescoço, abaixo da orelha, as mãos desceram um pouco mais e pressionaram levemente meus quadris. Fiquei em choque, primeiro sem acreditar no que estava acontecendo e depois, sem saber como reagir. Afinal, ele era o médico da família, grande amigo, me conhecia desde criança.

Quando as mãos dele pressionaram mais forte, me puxando de encontro a ele, senti a realidade que não queria. Afastei-me e então vi, sob a calça branca de tecido fino, quase transparecer o pênis em completa ereção. Apartei-me por completo, peguei a bolsa pendurada na cadeira, a porta e corri. Não esqueço a expressão decepcionada, do tesão em máxima potência, interrompido.

Saí desnorteada pelo corredor do hospital. Não havia em quem confiar, com quem conversar. A família não alcançava o que ocorria comigo naquela idade, não era capaz de lidar com uma adolescência na sua forma mais conflituosa e entregara tais responsabilidades a outro. Eu, por minha vez, precisava crer nos meus e então, embora toda a confusão mental do momento, obedecia à ordem: - Vai conversar com o doutor.

Perdida. Mais que perdida fiquei vazia. Saí da porta do hospital, parei na calçada. Não era capaz de me concentrar no que precisava fazer. Tinha que ir embora. Pra onde? Pra casa? Que casa? Onde é minha casa? Quem vai me acolher agora? Pior: não havia a menor chance de revelar o que acontecera naquele consultório. Quem acreditaria? Para minha família, era Deus no céu e Gilson na Terra.

Sem mais uma alma pra pedir socorro, a única atitude que poderia tomar era mesmo voltar pra casa. Virei o corpo, avistei a delegacia de polícia. O ponto de ônibus era ao lado. Segui em frente, atravessei a rua; passava pelas pessoas sem vê-las. Estava tonta, a mente em turbilhão, não pensava de forma coerente, parecia alucinada. A visão de minutos atrás me dava ódio, asco, queria vomitar.

Parei em frente à porta da delegacia; as lágrimas saltaram, grossas. Olhei lá pra dentro, baixei a cabeça e segui. Já no ponto de ônibus sentei numa grande pedra, velha conhecida, e não me segurei. Chorei. Chorei muito. Solucei a ponto de chamar a atenção de outras pessoas.

- Moça, você tá passando mal? Precisa de ajuda?

Agradeci. Enxuguei o rosto. Disse que estava triste, de luto. Eles não sabiam que o luto era por mim. Chegou o ônibus e os trinta minutos do trajeto se tornaram a viagem mais longa da minha vida.

Jamais precisarei fazer esforço para lembrar o que ocorreu naquela manhã, naquele hospital, com aquele homem que aprendemos a chamar de médico, mas que pra mim não passou de mais um canalha que a sociedade fabricou com esmero. Apesar do nevoeiro que encobre a maioria de minhas memórias de adolescência, há fatos que marcam mais que nascimento e morte.

Trinta anos se passaram e pela primeira vez contei a alguém o que ocorrera. Foi uma catarse. Expus a raiva que senti da minha irmã e da minha mãe, desabafei o quanto de mágoa ainda carregava por terem, mesmo sem saber, me empurrado para o colo daquele médico escroto. Porém, os piores sentimentos que saíam do fundo do inconsciente eram por ele. Horror, nojo, ódio. Lembro a cara dele, o rosto, a língua presa, a voz rouca e sinto engulhos. Meu estômago se contorce.

Na sessão com a terapeuta tudo isso saiu de uma só vez, uma fala regada a muito choro e tristeza profunda. Saber que hoje estaria a centenas de quilômetros não me satisfazia. Por outro lado desejava estar cara a cara novamente para dizer tudo que estava engasgado, mas na verdade mesmo, preferia saber-lhe morto. Nunca desejara isso a ninguém, no entanto, morto é acabado e assim talvez me sentisse finalmente livre do passado repugnante.

O processo de matar alguém dentro da própria mente não ocorre em minutos, diante do terapeuta. É morte lenta, como ministrar doses mínimas de veneno, diariamente, até vê-lo definhar dia após dia. A cada dia imaginava matando-o de um modo diferente: por enforcamento, tiro, facada, empurrado de uma sacada do 21º andar, afogado, envenenado, surrado, capado. E me comprazia.

Até que um dia, no set terapêutico:

- Matei! Está morto, o maldito! E eu mesma sepultei pelado, branquelo, pálido, seco, sem sangue no corpo, sem caixão. Joguei-o no fundo de uma vala e deitei terra por cima, até não ver mais aquela cara e cabelos ruços. Eu matei! Está enterrado!

Meu corpo ficou leve, a mente livre, o passado apodrecendo embaixo do chão frio no meio do nada e eu liberta da lembrança da roupa branca com uma ereção quase a atravessar a calça transparente. Está morto.

Cheguei em casa, o telefone tocando. Era minha mãe.

- O doutor Gilson morreu hoje. Soubemos agora. Definhou lentamente de uma doença desconhecida até se sufocar sozinho e apagar de vez.

Jamais a vizinhança ouvira uma gargalhada tão alta, que chegou a ouvidos das gente de todos os cantos, com ecos em todas as partes.

Da janela

O verso da música martelava na mente, enquanto fumava um cigarro na sacada do apartamento, após uma xícara de café – “Ela se jogou da janela do quinto andar”. A letra de Renato Russo convidava o pensamento a questionar, a avaliar possibilidades. Alguém – quem? –, teria se lançado ao ar. Por quê? E o que mais? O que lhe acontecera depois? Nada preenchia o vazio da não resposta, da não continuidade, da expectativa.

Estatelara-se no cimento quente da calçada em pleno sol do meio-dia? Ou numa noite gelada, como a de hoje? “Dorme agora, é só o vento lá fora”. Dorme o sono da morte, o tal sono eterno que lhe prometeu a religião durante tantos anos?

Tentava imaginar o que haveria de semelhante nas vidas de mulheres que decidiam sair de cena, como a moça que se atirara da janela do quinto andar. Se seriam infelizes, humilhadas, rejeitadas, gordas demais, magras demais, odiadas, cansadas, feias, fracassadas.

Ela se jogou. Atirou-se ao voo sem retorno. Que deleite! Como sonhara com isso há tempos! Faltou-lhe coragem – ou covardia. “Para sair da vida é preciso muita coragem. Para preferir morrer é preciso ser covarde”, afirmou em voz alta, olhando seus pés descalços.

Recitava a letra diariamente, ouvia a mesma música sempre. Repetia para si o verso e se imaginava como num filme, a deslizar no salto para o nada, vestida numa camisola azul esvoaçante, a pressão do ar queimando-lhe a face e o grito pavoroso e alucinado de quem se entrega ao vazio da morte.

“Ela se jogou da janela do quinto andar”.

Olhou para baixo, dos pés para o lado de fora da sacada. Estava no sexto andar. Não havia mais alma perdida. O povo acorda cedo e sua angústia, sua vontade de ir, sem jamais precisar vir, era só sua, cria da dor de todos os dias e da solidão.

Os edifícios em silêncio, às escuras. Nem sinal das outras vozes de outras mulheres que comumente ouvia, em prantos, aos berros, em situação semelhante a sua, e que de repente calavam, após deixá-la aflita por longos minutos, às vezes horas, a ponto de se ajoelhar em prece por elas.

A imensidão da cidade cobria a linha do horizonte e lhe dava a dimensão da sua insignificância. Ninguém a conhecia, ninguém a enxergava, ninguém a escutava. Sequer no seu corredor havia amigos.

Dor ou fantasia, fantasia ou desejo, desejo ou loucura. Queria experimentar a sensação de se jogar à liberdade, ir, não voltar, sem se preocupar ao ponto final da sua única aventura.

A música parou de tocar e seus devaneios foram interrompidos. Atirou o cigarro com força, mas o vento o trouxe de volta. “Merda!”

Não queria acordar de manhã, não mais essa vez, passar por tudo de novo e de novo e de novo. Respirou fundo. Precisava decidir e decidiu.

“Vou fazer mais um café. Amanhã troco a fechadura da porta e aquele traste não volta mais aqui”.

10 de março de 2025

Sonho realizado antes de morrer

Aristides entrou na saleta disfarçando o tremor nas mãos e o gelo que lhe contraía a espinha. Trazia biscoitos, requeijão, batatas chips, ketchup e coca-cola. Era o pedido para o lanche da tarde.

Deixou a bandeja e não esperou agradecimento, pois sabia que nunca o ouviria do presidente.

- Que que é? Vai ficar plantado aí? – disse o chefe, sem levantar a cabeça – Já fez seu serviço, agora chispa, que eu tô com muita coisa aqui.

Aristides puxou a arma que ganhara de presente do filho do chefe e apontou para a testa.

- “Filho da puta!”

Foi só o tempo de o chefe erguer a cabeça e receber o único tiro. Aristides apertou as pálpebras, soltou uma gargalhada e o homem tombou sobre a mesa.

- Tamo livre.

Abriu os olhos estatelados, porém parecia sorrir. Não estava consciente; ainda assim sorria um riso de alegria de criança travessa. O enfermeiro sentiu sua agitação que, apesar da respiração sôfrega, até poucos minutos dormia profundamente, sedado que estava.

Conferiu os aparelhos, tocou-lhe o ombro, fitou-o com pesar.

- Andou sonhando, seu Aristides... – disse, com carinho – Está tudo bem, não se agite.

Aristides cerrou os olhos. Os lábios mantiveram um sorriso de lado. O enfermeiro juntou suas mãos com a do paciente e rezou um Pai Nosso.

Drusa de Ametista

As residentes da casa de repouso quase nunca experimentavam um dia diferente, uma novidade que escapasse dos cuidados diários repetitivos e das minguadas visitas. Eram poucas internas na pequena morada para mulheres, em que viviam de seus próprios silêncios e lembranças. Quando muito, faziam suas refeições na mesa da sala ou tomavam sol no jardim.

Celina chegou radiante com sua caixa de livros – iria ler para as idosas. Em contatos com colaboradoras da instituição, a jovem estudante universitária coletara preferências e escolhera os títulos. Embora nem todas aceitassem recebê-la duas vezes na semana, para ouvi-la narrar histórias, Celina ficou satisfeita com a aceitação inicial.

Às portas dos noventa anos, tia Dedé foi quem surpreendeu, ao aceder de bom grado as visitas de Celina. Com as articulações inflamadas e doloridas pela síndrome que lhe invadiu o corpo a partir dos sessenta, não lhe agradavam os afagos e docilidades; não gostava de falação e não tinha trava na língua. Sem família e amigos, optou pelo recolhimento na casa de repouso, para escapar das penas do mundo e seria a primeira vez que deixaria de lado a rabugice, para se abrir a alguém de fora. Sempre fora solitária, mesmo rodeada de gente, porém a improdutividade a empurrou para a reclusão total e a distância de tudo o que lhe reportasse sentimento e sensibilidade. Apesar da retração no comportamento, curtiu a perspectiva de apreciar boa leitura, quem sabe com alguém que lhe levasse uma centelha de ânimo. Culta, inteligente e sagaz, supôs que poderia ser, no mínimo, divertido.

É com tia Dedé que se estabelece uma relação estreita, a partir do momento em que Celina apresenta a obra selecionada – Drusa de Ametista, de Maria Zelda Castanheiro, autora que conhecera recentemente. Celina apostou que o denso romance filosófico, publicado na década de setenta, suscitaria à mente de tia Dedé ao menos um bom papo, de acordo com a diminuta lista de interesses apontados por ela. Esquiva no primeiro dia, não demorou a criar com Celina uma amizade delicada, singela, fortalecida por um respeito amoroso.

– Você tem olhos de bola de gude, garota – dizia tia Dedé a uma Celina atenta, durante as longas conversas que ficaram comuns.

Tia Dedé não apenas se divertiu, como participou ativamente das sessões de leitura: fazia perguntas, propunha discussão, falava mal de personagens, pedia à Celina que tomasse nota do que debatiam sobre os dramas e reflexões do casal protagonista.

– Diabo de diálogo extenso e patético! Nada produtivo o que diz Ivan à Lúcia, não acrescenta nada. Tem excesso de divagação sobre a ametista, sem utilidade prática na história. O que você acha, Celina? Quero saber o que sai dessa cabecinha verde.

– O parágrafo anterior pede esse diálogo, tia Dedé, vamos retomar pra conferir.

– Anote, menina, anote...

A estimativa de uma hora e meia, no máximo duas horas para cada encontro, não foi cumprida. As tardes com tia Dedé não tinham teto para acabar. A velha senhora, arredia e aborrecida, mostrou-se envolvente e sedutora. Ocupou-se de alimentar o entusiasmo de Celina e provocar-lhe a curiosidade, promovendo verdadeiros colóquios literários, repletos de indagações, controvérsias, devaneios e a leitura das quinhentas e tantas páginas se estendeu por tempo maior que o previsto.

Celina tentou emendar outro livro, mas tia Dedé, sob pretexto de que precisaria decantar o volume de informação, despediu a moça com um ríspido “Depois...”. A dama da ranzinzice retornara ao seu lugar e deixou na jovem estudante uma semente em brotação. Celina mergulhou em mais créditos na universidade, as horas ficaram escassas e as visitas às idosas foram rareando. O trabalho voluntário também ficaria para depois.

A universidade e os sonhos de juventude estavam adormecidos lá atrás, naquele canto da memória em que se guardam imagens desfiguradas e nebulosas. Celina leciona e mora em outra cidade, trabalha em três turnos, precisa pagar contas e sobreviver do próprio trabalho. Ao chegar à sala de professores, encontrou um envelope no seu escaninho, remetido pela casa de repouso. “Como isso veio parar aqui?”. As mãos trêmulas e úmidas que rasgaram o papel, encontraram as notas do livro que ela leu para tia Dedé, em inúmeras folhas manuscritas. No fundo do envelope havia um pendrive, em que constava um arquivo de áudio. Era uma gravação de tia Dedé, pedindo que Celina lançasse uma nova edição de seu livro, Drusa de Ametista, revista e atualizada, agora depois de sua morte, com as devidas alterações anotadas e exaustivamente discutidas. A dedicatória exclusiva seria para Celina Ambrósio, “a menina dos olhos de bola de gude provou à Maria Zelda que é possível renascer na velhice”.

Subversiva

Na saída do banheiro do hospital passaram-lhe um folheto, com informações sobre direitos não assegurados; o que o governo escondia e a imprensa não podia noticiar; e quem denunciava era preso e desaparecido. Sabia algo a respeito, porque ouvira do irmão, antes do sumiço. Por onde andaria? A pergunta veio à mente junto com um arrepio e o ato instintivo que levou o papel dobrado para dentro do sutiã.

O contato foi inusitado para Eulália, que nunca experimentava nada diferente em sua jornada de trabalho: acordava às 4h30, despertava Joana, aprontava tudo para que a filha chamasse e cuidasse dos irmãos menores e fossem para a escola. Limpava e tornava a limpar enfermarias e banheiros e só os veria à noite, quando precisava dar conta de atenção, carinho, colo, em meio ao preparo do almoço do dia seguinte e montagem das marmitas. Colocava todo mundo para dormir e ia para a cama.

O sentido da vida era garantir o sustento e os estudos das crianças. Tinha pouca instrução – o bastante para ocupar vaga de servente – e não alcançava o entendimento da parte que deveria lhe caber, porém se indignava com as faltas na sua mesa e as sobras nas mesas de tantos outros. Nas missas da igreja da vila, o padre citava o Evangelho de Jesus Cristo, pregando o amor ao próximo, a igualdade, a justiça, mas na prática não era assim e Eulália sabia que aquilo não estava certo: o dinheiro não dava para o mês, sofria com assédio no emprego, não havia como reclamar.

Mostrou o folheto ao marido e queimou-o. Silenciaram. Mais uma vez, calaram.

– Meus filhos! Joana! Meus filhos! O que estão fazendo com a gente?!

As lágrimas colaram no rosto o tecido do capuz justo que trazia à cabeça, enquanto escutava os ruídos de carros que arrancavam com fúria. Interrompeu os soluços, diante de ameaças contra suas crianças, caso não se calasse. Chorou em silêncio durante o demorado trajeto, o tempo que durou o estupro de Joana, logo que a mãe foi arrancada de casa. Jamais teria notícias da família.

Eulália teve os cabelos cortados rente ao couro cabeludo, raspado em alguns pontos da cabeça. Não quer notícia do seu irmãozinho? Os seios queimados por cigarros. Quero nomes, fala! Mamilos torcidos com alicate. Já lhe contaram que não vai sair daqui viva? Choque na vagina, no ventre, no ouvido. Vou trazer surpresinha, até você abrir a boca! Cadeira do dragão, nua e molhada. Olha, olha... está se mijando feito um bebê! Estupros. Baratas no corpo ferido. O rosto desfigurado por espancamento. Vaca imunda!

O carro se deslocava devagar, desacelerava, avançava de novo. Deu várias voltas e freou bruscamente. Duas portas se abriram e Eulália foi puxada para o chão. Duas portas bateram com violência e o carro arrancou. Sumiu como se não tivesse existido. Sem forças para levantar, Eulália se deixou ficar, sentindo a terra sob as mãos e o cheiro de mato molhado depois da chuva. Puxou o capuz, hesitante. Observou a escuridão úmida, celebrada pelas vozes dos grilos e sapos, sentiu o frio que é frio de verdade, o vazio do breu. O abandono e a solidão que seriam sua companhia para sempre.

 

Rasgada

As carreiras são mal preparadas pelas mãos trêmulas de Carolina. Divide o conteúdo de um pino em quatro, ali mesmo, no beco, em cima de um carro. Uma cheirada e mais um gole na garrafa de vodca barata que está quase no fim. Gastara boa parte do dinheiro dos serviços da semana num branco mais caro. Não estava a fim de se contentar com o efeito curto de pó vagabundo. Queria sumir de si. Manda as quatro pra dentro, mais um trago na vodca e com dois passos cambaleantes dá com as costas no muro. Emite um gemido abafado, ao mesmo tempo em que passa os braços em torno do tronco, como num abraço a si. Despreparada para a brisa fria da noite, sente o dorso gelar ao contato com a parede alta do colégio. Os membros desnudos arrepiam, Carolina se deixa escorregar, corpo mole. Chão.

Não era esse o efeito esperado. Queria esquecer de novo, mas a euforia não veio. Vê de longe o cara virando a esquina devagar, indo na sua direção; não quer mais. A imagem do moleque atravessa sua retina e à leva de volta a outro tempo, naqueles dias que pareciam jamais ter fim. Ela o olha como naquela fresta. Carolina é tomada por um torpor, enquanto experimenta pontadas na cabeça. Não quero... não, desta vez, não.

Ajoelhada no piso de terra batida, naquele lugar escuro, meio de lado, com uma das mãos apoiada no chão, passa parte dos dias ali, com a cabeça meio tombada, de modo a encaixar o olho no buraco enviesado da madeira velha. O máximo de mundo que vira desde os treze anos era o que depois passou a chamar de “antessala do inferno”: um ambiente com ar de cozinha, uma bancada grande e muito velha no meio, onde Carolina podia ver os pés dele entrando por uma porta estreita logo atrás. Havia sempre vasilhas sujas espalhadas, canecas suspensas que jamais saíam do lugar. Não eram as mesmas em que ele lhe levava água, café, sopa...

O rapaz está ali, mas não avança. Encosta num carro, à distância, acende um cigarro. Carolina olha, pisca para focar a visão. Novamente pela greta ela o vê: está parado próximo a um armário antigo cheio de tralhas: peças de carro, ferramentas, panos rotos, tachos, botinas. A luz é precária, porém já sabe quais serão os próximos movimentos. Está enojada, cansada, esgotada. Ele mastiga algo lentamente e move o pescoço na direção de onde ela está. Carolina se abaixa, se arrasta e se encolhe. Já são sete anos. Sente medo a cada vez que ele aparece. Não sabe mais nada de seus dias de infância, do rosto cândido da mãe, das brincadeiras com os irmãos mais novos, nem da sua última festa de aniversário, quando fez de treze.

Puxa o ar cada vez com mais força, parece não entrar nada nos pulmões, vai dando um aperto no peito. O coração acelera e os pés e as mãos perdem calor. Carolina estremece e vira mais um gole da vodca. A maior parte escorre pelos cantos da boca, que enxuga com o antebraço. Carolina solta o corpo e deixa a bad dominar de vez. A viela em que tantas vezes se entregara às orgias com os moleques estava agora silenciosa. Perdera a conta das madrugadas em que se drogava até perder o juízo e no fundo do beco sem saída era abusada. Desejava ser abusada. Avisava à rapaziada que estaria lá, procurava por eles, esperava, queria, se entregava, depois chorava. Voltava pro cortiço trôpega, suja, deprimida.

O corpo de Carolina parece se mover sozinho, sente pavor, mas não perde o ímpeto, quer se levantar, a mente não para, cai de novo. A consciência falha, pensamentos se sobrepõem uns aos outros, já não tem controle sobre os próprios membros. Não precisa ver pela fresta que ele vem em direção à pesada peça de madeira que fez de porta; sua pisada é lenta, porém firme. As botas batem forte no chão, como a amedrontar Carolina de propósito. A porta é arrastada. Ela se afasta, sentada com as pernas juntas, e se encosta no canto da parede. Os olhos arregalados, os cabelos lhe caem sobre o rosto, diz não.

O rapaz termina o cigarro e segue em frente, para perto de Carolina. Arma um sorriso cínico, abre o casaco, relaxa um braço e com o outro lhe dá um aceno. Ela mal o vê, não lhe reconhece a face, se contorce para tentar levantar e de novo as pernas desobedecem, aperta as costas contra ao muro. A cabeça dói ainda mais, Carolina leva as mãos às têmporas e vira o pescoço de um lado para outro. Diz não repetidas vezes. Ele se aproxima. A mente parece girar em looping, em alta velocidade, o quarto vazio, o medo da solidão, o abandono, o horror, o ódio, as tentativas de fuga, a fuga... Está cada vez mais próximo, não diz nada. Ele se abaixa, toca os cabelos dela.

O cômodo é escuro e ela pode apenas ver seu vulto, sente o cheiro forte da loção, a mesma fragrância de sempre. O asco lhe aperta a garganta. Ele respira já bem perto e ela sente o calor do ar que vem dele. Não, de novo não... O rapaz tira o casaco e joga no chão, desabotoa o fecho da calça lentamente, sem tirar o riso cínico da face. O corpo de Carolina se debate, involuntariamente, não, por favor, está febril, não... eu não quero... O peito infla em movimentos rápidos, num esforço quase inútil de respirar... não faz isso... Não! Para! Por favor, para! Para, pai! Me mata, me mata! Por favor, pai, me mata, mas não faz isso de novo comigo. Me mata.

Convulsão.

Overdose.

9 de março de 2025

Pé-de-não-sei-quê

E o maldito pé de não sei quê enfim pendeu de vez, mortinho. Arqueou o tronco fino lentamente, perdendo sua força; tentou apoiar no muro, mas minha vontade que virasse um molho de folhas secas pareceu vencer o que lhe restava de viço. E ali está: acabado, sem chance de voltar a assombrar minhas lembranças e a se manter como guardião do jardim do amor eterno, como se agora me ameaçasse com sua presença muda. E feia.

Ele caiu. E com ele se foram as últimas lágrimas. As últimas que choraria de raiva, de humilhação. Agora o choro é de foda-se! Desabou o último representante de uma fase sombria.

Dez anos durou aquele arbusto. O mesmo tempo em que dividimos o teto, a cama, a comida, o chão. O mesmo tempo em que nos enganamos ou que eu me enganei. Era pra ser o símbolo da nossa união e da nossa felicidade. Foi o primeiro ser vivo a fazer parte do que seria um lar, em dia especialmente escolhido, com direito a ritual a dois. Recebeu o apelido de pé de não sei quê, pois não sabíamos nada sobre plantas, muito menos que nome teria a arvorezinha que levamos para a casa em obra. Ríamos disso.

O que nunca prevemos é que o mundo é real, com problemas reais e suas consequências. Com as mudanças, mágoas e rancores. Com a maldade pura e fria. Foi uma década de olhos baixos, sorrisos pela metade, concordâncias falsas, cessões por pressão. E, ao final, o transbordamento de tanto desgaste pela via mais torpe: a violência.

Encaro o pé de não sei quê com ódio. O peso de significados que carregava o levou à queda. Eu não resisti, ele também não. Aguentei o que pude, levei a sério o que aprendi com o padre e com meus pais: segurar o casamento, pelo bem dos filhos. Balela. Tornamo-nos todos infelizes - eu, ele e eles - por não sermos capazes de dizer não. Eu não fui capaz de dizer não.

Confesso que dei uma ajudazinha: deixei que se virasse. Se chovesse, teria água; caso contrário, ah, que pena. Era frágil, o pé de não sei quê. Bem parecido comigo lá no início da história. Passei pela manipulação, pela pressão, pelo descaso, pelo abuso. Ele só teve sede e absorveu minhas vibrações negativas para que definhasse sozinho. Finalmente, parou de exalar seu perfume nauseante no fim da tarde.

Por que não o derrubei? Afinal, seria mais rápido me livrar da representação tão marcante dos meus dias de infortúnio. Porque preferi ser cruel. Queria vê-lo se dobrar diante dos meus olhos, vergar o que era altivo e vultoso, beijar o chão. Entregar -se.

Em pouco tempo o caule enrugou, as folhas amarelaram e começaram a cair. Mais uns dias e estava encurvado, até tombar de vez. Morte assistida e comemorada com o que de pior tenho em mim. Imagino que me olha com desprezo, enquanto o encaro com sarcasmo.

Era o que eu queria ter feito, meses atrás, mas não tive tempo, nem jeito. O ódio me faria a arrancar-lhe unha a unha, até ajoelhar e pedir perdão. O ódio que o surpreenderia na madrugada com o quarto em chamas, até sucumbir sufocado. O ódio a mim, por ter me submetido e suportado sem resposta. O ódio por tudo em que se transformou essa existência fracassada. O ódio que me moveu a fazê-lo pagar com a vida, sem sentir nada do que me fez penar.


Desenlace de Família

Aquele rosto me era estranho. Não porque jazesse inerte, dentro do caixão. Não porque, coberto de flores, não pudesse reconhecer-lhe o físico. Não porque cheirasse mal. A tez morena, avermelhada, feito índio; os cabelos brancos encaracolados; os lábios finos, sem curvatura, como se traçados num único risco de dois lápis. Aquele rosto me inspirava desprezo, somente. Não me interessava recordar dele vivo, pois à memória retornaria a expressão de fúria nas lides diárias ou descendo o cacete nas filhas.

Agora a carcaça do brutamontes estava cercada pelo choro das mulheres que subjugou. Não atinava como pessoas tão judiadas fossem capazes lamentar a morte de seu carrasco. Olhei ao redor e não encontrei a caçula, a única das filhas que conversava comigo, a mais doce e cordata. Havia algo que nos unia, um laço entre almas. Não reagia às corretivas do pai, ao contrário, demonstrava afeto por ele, não manifestava revolta pelo tratamento opressivo, não chorava e nem reclamava pelos cantos. Apesar de castigá-la como às outras, Rejane era a única filha que contava com um mínimo de carinho e certo excesso de atenção do “tio” Cadô. As irmãs se ressentiam, enquanto a mãe notava a diferença, mas deduzia como preferência natural – quem não tem seu filho dileto? Compreenderia se qualquer das filhas faltasse ao velório, no entanto foi Rejane que não velou o pai.

E eu? O que estava fazendo naquela sala escura com cheiro de flor e vela, suor e café? Fora arrastada pelo meu irmão, Lucas, sem explicações; disse “morreu” e me tirou de uma festa para o velório. Não tivesse apenas treze anos e igualmente criada abaixo de porrada, teria questionado “E eu com isso?”

Seria a minha primeira vez na quermesse, sem a mãe; a primeira vez de olhos sombreados e batom; a primeira noite com amigas. Combináramos de andar na festa de braços dados, pedir música e mandar mensagens aos rapazes pelo autofalante. Não poderia passar das dez horas, sob a ameaça da varinha de marmelo de papai, que me aguardaria na varanda, a contar os primeiros segundos de atraso. Como “tio” Cadô fazia com Rejane, papai me cobria de mimos exagerados, contudo não me poupava das sovas quando lhe convinha ou se me rebelasse contra seus afagos melosos.

Quis me afastar do caixão, porém meu irmão me segurava, e se mantinha contrito diante do corpo do homem que admirara. Temente a Deus, frequentava a igreja aos domingos, pai exemplar, bom provedor, trabalhador, honesto, corrigia esposa e filhas com precisão, educava com rigor, rude, tosco, grosso, mau, violento, cruel. Na verdade, não era parente nosso; amigo chegado de papai, fora escolhido para apadrinhar Lucas. Embora as duas famílias tenham se constituído praticamente juntas, até então, mamãe tolerava essa amizade em silêncio.

Não assisti ao enterro. Acompanhei o caixão sair no carro funerário, entrei em casa, do outro lado da rua, e emburrei. Sobre a causa da morte, passei muitos anos sem saber. No velório escutara rumores sobre um tombo da marquise e minúcias que não se arranjaram de modo lógico no meu raciocínio. Este mês faz dez anos que “tio” Cadô se foi. Também são dez anos sem ver Rejane, a filha que pagou na cadeia pelo assassinato do pai, com a paulada que o derrubou do beiral da janela, onde emendava um fio. Deve estar prestes a sair da prisão. Agora, se quiser, poderá viver. Eu escolhi fugir.

 

Vitrine

Diante da vitrine ela cristaliza. Estática, vê a beleza estonteante exposta ali, bem à frente dos seus olhos, que se arregalam, ao mesmo tempo em que ganham um brilho ansioso, misto de desejo com uma admiração aniquilantes. Ela não pode, não deve, mas uma atração irresistível a toma por completo. O corpo arrepia, as pernas amolecem, a boca seca. A respiração ofegante avisa do perigo iminente. Já tivera a mesma sensação antes; por vezes, pode resistir, outras - muitas outras - não. E, ao sucumbir, quase sempre levou para casa algo de que se arrependeria mais tarde. No momento em que seus olhos se deparam com uma novidade daquelas, tão diferente, tão exótica, é praticamente impossível dar as costas e retomar o rumo, firmemente, com a plena consciência de que “não preciso disso para viver”. Porém, precisar ou não precisar não importa, não se trata simplesmente de virar as costas. É forte, é um impulso, quase um empurrão pra dentro da loja. Afinal, como ir embora e deixar tudo aquilo para trás? Tão especial que mistura charme, elegância, cor, luz, brilho, um movimento excêntrico, capaz de provocar olhares assaz curiosos, quando não de espanto. Lindo seria pouco para descrever seu objeto de desejo. Passa seriedade e é, ao mesmo tempo, gracioso. Um belíssimo exemplar. E ela pensa, num afã, “que louca não quereria um desse em casa”? Ela não pode, não deve. Poderia argumentar dezenas de motivos para não entrar, poderia listar em segundos quanto lhe custaria possuir algo tão excêntrico, poderia tão somente dizer para si: “Não!”. Mas ela não é capaz, a atração é maior que a resistência, e o suor frio nas mãos geladas lhe dão o sinal que esperava. É hora de decidir. E entra. Analisa-o por todos os lados, confirma que não fora enganada pelo brilho da vitrine. É lindo, excepcional, parece que a encara e diz “fui feito pra você”. O preço, caro. Olha mais uma vez. Volta a cabeça, finge procurar algo que não há por ali. Precisa ganhar tempo. Pensar. Pensar o quê, se já sabe que mais uma vez vai se entregar ao descontrole? “Vou levar!” Nesse momento um calafrio lhe ganha o corpo, quase não consegue puxar o ar. Vai até a porta, ainda está em tempo, pode sair correndo, o rosto está em brasa. E volta, encara-o novamente. Não sabe mais viver sem ele. Passa o cartão, guarda a carteira, prepara os braços. Em instantes está livre de toda a culpa que a consumiu nos minutos passados, fica feliz, excitada, exultante com sua aquisição. “Vai se chamar Caetano”. E sai da loja mais que satisfeita, levando no colo sua iguana.

 

Cama e mesa

A repórter se ajeitou no banquinho de madeira rente ao chão, enquanto Dalmira tentava controlar o choro para continuar seu relato. Levava ao rosto o lenço gasto e parava o olhar, perdido, a mirar o passado. Na face cansada e velha, apesar dos quarenta e poucos anos, escorriam as lágrimas expressivas dos sentimentos de uma existência. Firmino Neves morrera há nove meses; Dalmira agora já não frequentava o casarão do dono “daquelas terra tudo”, inclusive do pequeno povoado de Encruzilhada do Cipó. Mudara-se em definitivo para sua casa.

Chegou menina-moça na fazenda para trabalhar e, ainda que sem corpo de mulher pronta, deixava rastros de suspiros por onde transitava. Diziam que era feita de café com leite e açúcar queimadinho, devido ao tom da pele, e provocava lambidas de beiços na homarada, sem dar confiança para ninguém. Porém, o patrão Firmino Neves foi o único a provar o sabor de café com leite tão cobiçado em Encruzilhada do Cipó. Não apenas a tez morena, mas o balançar dos quadris e a voz de criança faceira que cantarolava pelos corredores nas tarefas diárias faziam o poderoso fazendeiro tremer de vontades. Firmino Neves se considerava dono dos empregados e logo determinou para si que Dalmira era sua pertença, sem se importar em quando lhe colocaria as mãos; seria apenas questão de tempo. Aguardou a potra arisca se acalmar sem pressa, para aprimorar a doma na cama; logo ficaria doce e fácil.

Assim, Dalmira se tornou mais uma entre as mancebas de Firmino Neves. Ganhou uma casa sua e passou a receber cinquenta dinheiros por dia para servir a seu senhor em meio aos lençóis e nos afazeres domésticos. Fora comprada e “bem-paga”, do mesmo modo que as outras, mantidas em cada sede. Dalmira cuidava pessoalmente da comida, das roupas, das botas, do quarto, dos banhos. Era presenteada com vestidos, brincos, pulseiras, colares, fitas de cabelo, teve a casa mobiliada e até um aparelho de som, no qual colocava suas músicas preferidas para tocar e rodopiava pela sala, quando Firmino Neves não estava ou não a chamava. Não levantava os olhos, respondia às ordens com ações, quase não falava. Como a ninfa Eco, condenada à maldição de apenas repetir a voz de Narciso, objeto de sua cupidez, alienava-se e enfurnava seus próprios desejos. Estava sempre pronta, arrumada e perfumada, pois Firmino Neves cismava de querer seus préstimos a qualquer hora.

Não teve criança; fora obrigada a entregar menino nascido ou a botar fora a cria, logo que lhe atrasavam as regras. Nunca saiu da fazenda, não conheceu parente. Nasceu criada, encarou a lida em troca de morar e comer, tornou-se amante de Firmino Neves e nada soube de si.

— Conheço ninguém, não, senhora, a não ser os daqui. Fico sozinha neste fim de mundo até morrer.

Sem pressa e em detalhes, Dalmira discorria acerca de seus dias ao lado de Firmino Neves a uma jornalista lívida. A matéria, pensada minuciosamente, contaria as experiências de mulheres do interior do país, que atravessaram a vida sob o jugo de seus coronéis, servindo-lhes a própria carne. A exemplo das amasiadas de Firmino Neves, muitas poderiam existir pelos cantões do país, e a revista seguia atrás dessas histórias.

A personagem escolhida para a primeira reportagem da série “Cama e Mesa” envelhecia rápido e prematuramente, contudo se conservava jovem no gosto de se mostrar enfeitada, de sombra nos olhos, vestido florido de saia rodada. A repórter acreditava que a trajetória de Dalmira seria perfeita para sua pauta – saturada de dor e tormento, coagida pela dominação, pelo poder, pelo dinheiro, pelo descaso de uma sociedade conivente com a submissão e subserviência femininas. Alheou-se à entrevista, imaginando Dalmira infeliz, dias e noites em claro, o anseio por ir embora, sumir dali, abandonar Firmino Neves para ser livre, ao lado de alguém que a honrasse e construísse com ela uma família em uma relação de amor.

— Saudade? – a repórter se deu conta de que escapulira em devaneios – o que disse?

— Que sinto saudades de Firmino Neves, sinto falta do meu homem.

— E o seu sofrimento nesse tempo todo? – perguntou a repórter, confusa.

— Que sofrimento? A vida não me deu nada, não, dona; Firmino Neves foi quem me deu tudo. Amei quieta, servi com gosto, recebi em troca mais do que esperei. Felicidade era ter Firmino Neves. Agora que foi embora, resta esperar minha vez e ir no encalço dele.

Blusinha roxa

Na chuvarada que desabou sobre a rodovia na noite escura, a carreta capotou. Estrada sinuosa, a água batendo pesado no para-brisa e a discussão violenta foram determinantes para o desfecho trágico. O cavalo se soltou da carroceria, derrapou e emborquilhou. O que parecia ser um tempo sem fim, durou segundos, e estava lá, o corpo retorcido no teto da cabine. A cabeça do lado de fora recebia as rajadas de vento e de chuva, que não davam trégua.

Dailza despertou do choque e descobriu que estava em cima de Edigar, amontoada entre o volante e a poltrona. Sentiu sangue escorrer nos cabelos e na fronte. Apalpou a face e as costelas. O aguaceiro entrava e dificultava qualquer movimento.

Apesar da dor lancinante que não atinava de onde vinha, tentou respirar fundo, virou-se de lado para verificar seu estado e como sairia dali. Passou a vista ao redor e não viu o rosto de Edigar, só um entrelace de pernas. Ainda que muito tonta para compreender a situação, apressou-se. Constatou que não se prendera a nada e se levantou do teto, apoiando-se no encosto da poltrona.

Sentada atrás da carreta, Dailza foi encontrada pela equipe de socorro. Quieta, apática, olhar perdido, a faina do salvamento não a afetava. Os bombeiros praticamente não detectaram ferimentos no motorista inerte, resgatado em meio a roupas de cama encharcadas e latas de cerveja vazias. A remoção de dentro do veículo foi ágil.

– Morreu com alguma pancada no crânio – disse um dos paramédicos.

– Morreu? Como assim, morreu? Não, não pode! Meu Deus, o que eu faço?!

Dailza, que até aquele momento esperava sem se dar conta de si, entregou-se ao desespero. Histérica, gritava coisas sem nexo e não respondia às perguntas dos policiais.

– Era seu marido? Têm família, alguém que possamos avisar? A senhora tem um celular?

O semblante da mulher se resumia a uma mancha de sangue vazada por dois olhos arregalados que não se detinham em ninguém, somente revelavam aflição. Quanto mais questionada pelos agentes, menor a chance de entendimento. Dailza já não distinguia o cenário a sua frente; ao torpor seguiu-se intensa tremura, que começou pelos pés e avançou célere, como uma convulsão.

– Procurem a bolsa dela! – ordenou o comandante.

Perdeu os sentidos.

Na alteração de consciência, enquanto Dailza se debate em espasmos, a mente reconstitui as semanas antes do acidente. A calça branca, a sandália preta de salto alto e verniz, a blusinha roxa – Edigar sempre se desconcerta ao vê-la dentro da blusinha roxa, com decote em V. Dailza sabe e se exibe. Irmã e cunhado no sofá da sala, a mãe na cozinha atarefada com a janta, o sobrinho dorme na rede. A espreitadela de Edigar, o cochilo da irmã, Dailza imprensada por Edigar no canto escuro do terraço, gemidos entalados na garganta, Edigar retornando ao sofá. Outras vezes no quintal, na servidão, no banheiro da garagem, outras tantas na carreta. Na carreta...

– Edigar, para, pelo amor de Deus! Não tá vendo essa chuva? Edigar, fala comigo!

– Cala a boca, sua vadia! Você não vai arruinar minha vida, puta dos diabos!

– Eu tô com medo, Edigar, por favor..! O que você vai fazer comigo..? Me leva pra casa...

– Vou levar, sim, pro inferno! Sua casa é o quinto dos infernos, diaba, vagabunda!

A descarga do raio reflete no para-brisa, seguida do estrondo aterrador que descontrola Edigar, no momento em que Dailza solta um grito agudo e se precipita para cima dele. O temporal na escuridão, a curva, a freada abrupta, a carreta rodando no asfalto.

Dailza está esgotada, sem forças para se mover, quer elevar o tronco para identificar o local e percebe que um acesso de soro detém seu braço. Perscruta o ambiente, libera um suspiro, quando a enfermaria se desenha a sua volta. A memória é apenas uma névoa pálida, quase transparente, em que transitam sequências desconexas. Aperta as pálpebras, com medo de que as lembranças retornem, e pousa a mão sobre o ventre, agora vazio.

 

 

 

22 de janeiro de 2008

O futuro do presente

Marco Antônio voltou à cidade depois de 15 anos no exterior, entre os estudos e muito trabalho. Sentiu saudades do Brasil e da família, em Volta Redonda. Não ficou rico por lá, mas ganhou dinheiro suficiente para retornar e tentar refazer a vida mais perto da mãe e dos irmãos. O último Natal foi crucial para a decisão. Fizeram falta os bate-papos com amigos na padaria da esquina no dia 24 de dezembro, as despedidas do ano velho entre os vizinhos, que sempre viajavam, e o encontro de Natal na única boate da cidade.

Ele chegou na madrugada de uma terça-feira. Cidade parada, vazia. A avenida onde sempre morou com a família estava silenciosa. Ninguém na rua. Desceu as malas do táxi, olhou para a rua de um lado a outro, tentando reconhecer o lugar, sentir-se finalmente em casa. Mas algo estava diferente e pelo adiantado da hora, pensaria nisso mais tarde. Teria muito tempo. Abriu o portão e a família se manifestou dentro da casa, pois já o esperava. Luzes foram acesas, ouviram-se gritos, suspiros, o choro da mãe. Abraços, carinhos, todos tinham muito o que dizer.

Quando acordou de manhã e abriu a janela, a surpresa. Sua rua não existia mais, ou pior, os vizinhos não existiam mais, ou pior ainda, a avenida onde morou desde a infância, era em toda a sua extensão formada por agências de vendas de automóveis. A única casa ainda era a de sua mãe, que resistiu durante todos esses anos a sair do lugar onde viveu desde quando se casou com o pai de Marco Antônio.

Vestiu-se rapidamente e foi andar, ver de perto o que ainda se recusava a crer. A padaria da esquina, uma agência, o boteco na rua ao lado, outra agência, a casa do melhor amigo da infância, mais outra. A academia, a pizzaria, a clínica, não existia mais nada. Sem contar as vagas de estacionamento de toda a avenida, totalmente ocupadas por veículos à venda. Pegou as chaves do carro do irmão e saiu pela cidade. O que era aquilo? O que aconteceu com Volta Redonda? Pouca coisa do comércio que reconhecia ainda sobrava. O antigo clube, virou agência; a boate, também vendendo carro; um dos maiores supermercados da cidade agora tinha seu enorme galpão ocupado com dezenas de automóveis à venda. Avenidas e avenidas com carros enfileirados à venda. Até igrejas deram lugar a agências.

Já em casa, percebeu que o ânimo que o trouxera de volta havia desaparecido, junto com o que recordava da cidade. Não veria a maioria dos amigos, que foram saindo aos poucos, atrás de vida em outros lugares. Da família, somente a mãe, dois dos cinco irmãos, e sobrinhos. Muito do que viu e viveu na sua cidade natal já não existia mais. Ninguém sabia explicar o que teria ocasionado aquele boom de agências de automóveis em Volta Redonda. Nunca ouvira dizer que havia mercado para tantos carros à venda, nem em nível regional.

Dias depois era convidado para prestar serviço numa usina siderúrgica em fase de expansão na Colômbia. Decidiu arriscar, conhecer novos meios de vida. Deixou outra vez Volta Redonda, imaginando como estaria a cidade quando retornasse, sabe Deus quando. Uma vaga ideia passou por sua imaginação, quando, ao sair no táxi rumo ao aeroporto, viu três viaturas da Polícia Federal passando por sua rua, bem devagar.

.