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10 de março de 2025

A ausência da mulher na literatura

Estávamos a uma semana do Dia Internacional da Mulher, quando fui convidada para dar uma palestra a estudantes de magistério sobre a presença da mulher na literatura. Nenhum material pronto; nada arquivado. Priorizei a tarefa e mergulhei em pesquisa sobre o assunto. Seriam poucos dias para levantar dados históricos, informações atualizadas, situar o tema e roteirizar o discurso. Mal comecei a busca e dei de cara com uma pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília, que definiu o tom da minha conversa com as alunas – não falaria da presença, mas da ausência da mulher na literatura.

A pesquisa, iniciada em 2003 pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília, coordenada por Dalcastagnè, concluiu que o perfil do autor de romances no país, publicados pelas grandes editoras (Record, Companhia das Letras e Rocco), manteve-se o mesmo por mais de quarenta anos: esse autor é homem, branco, de classe média, nascido no eixo Rio-São Paulo. Os narradores também estão no mesmo lugar que seus autores, sejam protagonistas ou coadjuvantes: na maioria são homens, brancos, de classe média, heterossexuais e moradores de grandes cidades.

Os resultados da primeira etapa da pesquisa foram divulgados em 2005 e os da segunda etapa em 2018. Foram analisados 692 romances escritos por 383 autores, nos períodos de 1965 a 1979, de 1990 a 2004 e de 2005 a 2014. Os percentuais não surpreendem, no entanto chocam, por se tratar de um registro documental de uma realidade ainda difícil de ser mudada e, pior, negada inclusive por editores.

De 1965 a 1979 foram 82,6% de autores homens contra 17,4% de autoras mulheres; de 1990 a 2004 a maioria masculina baixa para 72,7% contra 27,3% de autoras mulheres; e de 2005 a 2014 livros publicados por homens ficaram em 70,6% e de mulheres em 29,4%. Entre as protagonistas, mulheres também são minoria, e mulheres negras, tanto na posição de autoras como na de personagens protagonistas aparecem abaixo de 10%. Personagens negros, principalmente mulheres, ainda aparecem como serviçais. Os autores são majoritariamente do Rio de Janeiro (33%), São Paulo (27%) e Rio Grande do Sul (9%). O que até então poderia ter sido chamado de “achismo feminista” se revelou uma ausência gritante documentada em pesquisa acadêmica.

Não coincidentemente, à mesma época descobri o projeto “Leia Mulheres”, criado em 2014 pela escritora Joanna Walsh e já consolidado no país, com tendência a crescer cada vez mais, pois estimula braços em todos os municípios. O projeto consistia basicamente em conclamar a todos e todas a lerem mais escritoras, já que no restrito mercado editorial mulheres não tinham (e ainda não têm) tanta visibilidade. A partir de 2015, Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques levaram o Leia Mulheres para espaços físicos, como livrarias e casas de cultura. Hoje, homens e mulheres leem mulheres em cerca de 150 municípios de todos os estados brasileiros e, ainda, na Alemanha, Portugal e Suíça. Uma campanha que circulou na Internet nos convidava a contar “Quantas mulheres você tem na estante” e foi o mote escolhido para não só estimular o hábito da leitura nas alunas de magistério, como conclamá-las a valorizar a produção de escritoras, inclusive com o reforço do “você também pode”. Afinal, mulheres ainda estão ausentes na literatura e em muitos outros segmentos por falta de “autorização” do machismo estrutural que se esforça para mantê-las distantes do desenvolvimento intelectual e do mercado produtivo, em qualquer área.

Registros como o da professora Dalcastagnè existem para que mulheres que escrevem – e também as que leem – tenham conhecimento do lugar que (não) ocupam e saibam que necessitam lutar bravamente para garantir no mínimo o que lhes é de direito: o de poder publicar sua(s) obra(s). Muitas não alcançam uma editora pelo simples fato de serem mulheres – sim, acontece! Em 2015, por exemplo, a escritora Catherine Nichols, depois de ser rejeitada por quase uma dezena de editoras, experimentou enviar seu manuscrito sob o pseudônimo de George. Recebeu oito respostas positivas. Nas festas literárias com grande cobertura da imprensa nacional, quando uma mulher é o foco, quase nunca é pela qualidade do seu trabalho e, sim, pelos atributos físicos. Torna-se musa do evento e ganha fotos de seu rosto e corpo nos jornais, ao invés das capas de seus livros. Milhares de mulheres têm dificuldade de escrever/publicar por causa das jornadas domésticas. Livros escritos por mulheres ainda são considerados literatura feminina, no sentido de romântico, desinteressante para o mercado, sem qualidade literária que assegure sucesso de vendas.

Pela mesma constatação da ausência da mulher na literatura, foi fundado no Brasil, em 2017, o Movimento Feminista Literário Mulherio das Letras, que atualmente conta com mais de sete mil integrantes, todas escritoras, profissionais de Letras ou que fazem parte da produção de livros, como capistas, designers, diagramadoras, ilustradoras, editoras, etc. O Movimento foi fundado por um grupo de escritoras, reunidas em Paraty durante a Festa Literária Internacional (Flip) de 2016, convictas de que não só as autoras eram menos contempladas no mercado literário, como tinham menor visibilidade e não havia equilíbrio de gênero nos convites para os grandes eventos, até hoje dominados e ocupados por homens. Já no ano seguinte o movimento reuniu mais de quinhentas escritoras em um primeiro encontro nacional, em João Pessoa/PB e não parou mais. Teve encontro em 2018, em Guarujá/SP e, em 2019, em Natal/RN. Em 2020, a pandemia obrigou-as a realizar o encontro on line [1].

A mentora intelectual do Mulherio das Letras é a escritora santista Maria Valéria Rezende, autora de cinco romances, três livros de contos e nove infantis/juvenis, premiada com Jabuti, São Paulo de Literatura e Casa de Las Americas, entre outros. Freira e educadora popular, viajou o mundo e conheceu a pobreza extrema por todos os cantos. Com a vasta experiência adquirida em suas andanças, conhece a fundo a realidade das populações mais afastadas de nossos olhos urbanos. Poucos fazem ideia de como vivem essas pessoas. Tudo o que aprendeu, sentiu e viveu transporta para suas obras, com delicadeza e sensibilidade, numa literatura que vai do humor à realidade mais dura dos brasileiros esquecidos nas comunidades periféricas. “Eu respirei o mundo inteiro, e isso entrou pelos meus cinco sentidos. Há uma variedade de lembranças, sensações, impressões... e é com isso que eu construo a minha literatura” – ela diz. Há mais de quarenta anos mora na Paraíba, conhece muito bem a realidade do povo nordestino e transporta essa realidade para sua ficção.

À Maria Valéria Rezende juntam-se centenas de outras romancistas, contistas, cronistas, poetas, acadêmicas, entre as quais posso citar algumas, com certeza deixando muitas de fora: na categoria romance/conto temos Cinthia Kriemler, Deborah Dornellas (Prêmio Casa de Las Americas), Maria José Silveira, Patrícia Melo, Eliana Alves Cruz, Marilia Passos, Natália Borges Polesso, Conceição Evaristo (também contista, poeta e ensaísta), Henriette Effenberger, Lindevânia Martins; na poesia, Divanize Carbonieri (também contista e romancista), Marilia Kubota, Jeanne Araújo (também romancista e cronista), Diana Pilatti, Nic Cardeal, Dalila Telles Veras, Liria Porto (Prêmio Jabuti), Lia Sena; na pesquisa acadêmica, Eurídice Fiqueiredo, Regina Dalcastagnè, Lilian Schwarcz, Ana Elisa Ribeiro, Luciana Hidalgo, Candice Azevedo, Djamila Ribeiro. A lista é enorme e só cresce.

Encerro este texto convidando você, leitora(or) a passar os olhos pelas prateleiras de suas estantes e verificar quantas mulheres há nelas. Caso constate que há poucas em relação aos homens ou, na pior hipótese, que as autoras estão ausentes, a relação acima pode ser um ótimo começo para uma grande mudança (sem falar nas autoras consagradas e celebradas no Brasil e mundo afora). Fica aqui, portanto, o convite para que possamos contar com sua colaboração no processo de extinção da desigualdade de gênero na produção editorial brasileira.



[1] Em 2021 não houve encontro. Em 2022 foi realizado novamente em João Pessoa/PB; em 2023, no Rio de Janeiro; em 2024 em Belém/PA.

(Texto originalmente publicado na Revista Arigó, Volta Redonda, 2022)

Os meninos vão olhar pra minha bunda?

As redes sociais abriram espaço para a proliferação das denúncias. Movimentos nas redes sociais ampliaram a força e a voz das vítimas. As mulheres botaram a boca no trombone e revelaram abusos e abusadores protegidos há décadas pelo machismo estrutural. Ainda é pouco. Infelizmente, é necessário aumentar o tom da gritaria, juntar mais gargantas, fazer coro também fora da internet, porque a violência sexual não tem freio.

As mulheres deram um passo adiante e encorajaram umas às outras a tornarem públicas suas histórias, ainda que sob o risco de serem culpabilizadas, simplesmente pelo fato de serem o que são, por causa da roupa que vestem, do horário que circulam na rua – comentários que costumam proteger os criminosos. É sempre assim que acontece. No entanto, quantas crianças e idosas são abusadas e estupradas mundo afora? Quantos meninos e meninas, freiras, fiéis das igrejas e religiões várias, atletas?

Dados da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos (ONDH) e do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde são alarmantes:

- 95.200 denúncias em 2020, no Disque 100;

- 368.333 violações, que incluem violência física, psicológica, abuso sexual, abuso sexual físico, estupro e exploração sexual;

- 85% a 95% dos agressores são pessoas conhecidas;

- 30% são pais;

- 72% dos casos de violência contra crianças e adolescentes ocorrem na casa da vítima ou do agressor;

- 69% dos casos são recorrentes;

- 92% das crianças/adolescentes falam a verdade quando relatam os abusos;

- Apenas 10% dos casos são notificados às autoridades;

- A maioria das vítimas é do sexo feminino e mais de 50% na faixa etária entre 1 e 5 anos (!).

Importante repetir informações fundamentais e que não escandalizam ninguém: crianças e adolescentes são estuprados dentro de casa, repetidas vezes, por familiares ou amigos que frequentam o ambiente. São pais, irmãos, padrastos, primos, tios, avôs, maridos das avós, padrinhos, agregados em geral e, ainda, padres, pastores, gurus espirituais, esses escroques que se aproveitam da confiança que a fé cega favorece. Vítimas fáceis, formadas pela credulidade que as entrega de bandeja nas mãos desses pulhas.

Nos EUA, de acordo com estudo coordenado pelo especialista David Lisak, apenas 36% dos estupros são denunciados. No Brasil, os percentuais são muito próximos, segundo estimativa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública – aqui, a notificação é de 35%. Motivo: a certeza de que serão arremessadas para o lugar de culpadas, mentirosas, trapaceiras, ou a certeza de que não vai dar em nada, “porque homem é assim mesmo e homem protege homem, não adianta”, como se ouve muitas vezes.

Na hora do ato em si, a falta de reação é ainda mais comum, primeiro porque as mulheres sentem medo de morrer. Ou podem sofrer um torpor causado pela invasão aos seus corpos, pela brutalidade e selvageria, então emudecem, travam. No caso das crianças, por serem estupradas na maioria das vezes dentro de casa por pessoas de sua convivência, acabam por interagir quase normalmente com os agressores. Especialistas explicam que se trata de um mecanismo de defesa: não são capazes de processar que uma pessoa da família ou amigo íntimo possa atacá-las de forma tão violenta.

Um tempo atrás, uma amiga pediu para conversar comigo. Mal chegou a minha casa e foi logo contando que fora estuprada na infância, pelo próprio pai. Ela, as irmãs e o irmão. Todos submetidos à força e ao poder do pai, machão, agressivo, autoritário. Como a história da minha amiga, outras têm sido reveladas. E são tantas, que chego a me perguntar se alguma de nós passou pela vida sem sofrer abuso de homem. Temo que não. A certeza de que têm direitos e poder sobre o corpo feminino e a necessidade de exercer esse poder é tamanha, que é até difícil imaginar uma mulher que nunca tenha passado por qualquer tipo de abuso.

Uma vez questionei uma conhecida sobre o medo que ela tinha de que a filha de treze anos fosse até à padaria, duas ruas atrás de onde estávamos. Ela me respondeu:

- O marido da minha mãe abusou dela, a estuprou com o dedo e tá solto por aí. Não temos mais sossego depois disso. Não vai sozinha a lugar nenhum.

E não se trata de gente pobre, da periferia, às quais o senso comum e ignorante sempre atribui esse tipo de comportamento. Falo de gente fina, elegante e nem um pouco sincera, estudada e trabalhada no dinheiro que compra casarão no alto do bairro nobre, com garagem do tamanho de um campo de futebol. Atrás dos muros altos dessa gente se escondem, além de piscinas e jardins suntuosos, uma podridão medonha.

E por que isso ocorre?

Porque a maioria de nós permite, silencia, se omite, se esconde, acoberta. Sem contar o persistente discurso que impõe à mulher o papel de objeto, do qual o homem pode e deve dispor quando, como e onde quiser. Vide os comerciais de lingerie para agradar homens; revistas com dicas para sensualizar e conquistar o cara na balada; coach (argh!) ensinando o passo-a-passo para atrair os olhares masculinos; mães que ainda orientam filhas a arrumar homem para casar; mulheres iludidas com tudo isso, enredadas nessa cultura machista acachapante que, mesmo nos dias de hoje, engravidam para garantir um casamento; e muitas etcéteras. A continuar assim, alimentamos esse ciclo histórico de poder e consequente violência. E creio que apenas nós, mulheres, sabemos lutar para mudar essa realidade.

É necessário juntar mais corpos e vozes para engrossar esse movimento. Espero e luto com tudo o que posso e o que aprendo todos os dias para não ver mais uma menina de doze anos experimentar roupa diante do espelho do meu quarto e me perguntar:

- Fala sério, tia, essa calça tá boa mesmo? Jura? Os meninos vão olhar pra minha bunda e querer ficar comigo?

Evidente que rolou uma conversa, mas a menina não é minha filha. O que ela disse foi reprodução do que escuta entre amigas e também em casa, por que não? Quantas vezes ouvi mãe de menina alertando de que “assim nenhum menino vai querer você”! Conheci garota de nove anos que já fazia depilação, porque a mãe exigia que fosse “higiênica desde cedo”. Enquanto o objetivo da roupa, da calcinha, da maquiagem, do sapato, da depilação, for agradar e atrair homem, não estaremos livres da convicção deles de que têm de domínio sobre nós. Transformar essa realidade é um poder que temos e precisamos ter consciência disso e partir para a ação. Denunciar, estimular a denúncia, divulgar nossas campanhas, nosso trabalho no movimento, sermos solidárias com todas as outras em situação de abuso ou violência.

Importante: é urgente reconhecer que a criança precisa aprender na escola o que não aprende em casa. Aula de educação sexual não ensina ninguém a fazer sexo; ensina as diferenças e o respeito a essas diferenças; ensina autoproteção. Milhares de meninas e meninos são rotineiramente estuprados e abusados em casa, sem saber que é errado, que é uma violência. É no ambiente escolar que professores, pedagogos e psicólogos têm condições de detectar que a criança não está bem, perdeu rendimento, está isolada, retraída, chora no banheiro. Se a criança tiver a mínima noção sobre seu corpo e o corpo do outro, muita violência sexual pode ser evitada. Desconfio muito – muitíssimo – dos homens que são contra a educação sexual no âmbito escolar.

Pra terminar: é preciso ficar claro que violência sexual nada tem a ver com sexo.  Estuprar é exercer poder, é subjugação. O homem que não tiver pênis, vai usar o que tiver à mão, vai fazer com cabo de vassoura, de enxada, ferro, sei lá. E vai ser sempre crime.

É isso.

(Texto publicado originalmente em 2021)

9 de março de 2025

Sobre o direito a uma boa morte

Livro-reportagem "Alguém pra segurar a minha mão" - cuidados paliativos e morte humanizada

Esther* morreu em paz. Serena, reconciliada consigo mesma, com plena compreensão da doença que a acometeu e do fim da sua existência. A família também compreendeu e aceitou para ela o que o destino reserva para todos nós, com a diferença de que para Esther houve a oportunidade de sair da vida com dignidade, cercada de amor, amparada em sua própria cama, com alguém segurando a sua mão.

Essa é uma história real, de uma personagem real. Esther, como muitos outros pacientes que tiveram a chance de serem atendidos por uma equipe multidisciplinar de cuidados paliativos, enquanto se despedia da vida, pode usufruir do direito humano de ter uma boa morte.

Oferecido pelo SUS, o Serviço de Atenção Domiciliar propõe a desospitalização e oferece a doentes terminais um caminho digno até a morte, com qualidade de vida enquanto há vida. Pacientes com metástases de câncer avançadas, por exemplo, que não respondem mais aos tratamentos, podem e têm o direito de serem liberados dos tratamentos fúteis, que apenas os mantêm conectados a aparelhos, sofrendo intervenções desnecessárias e invasivas. Esther esteve entre os 1769 pacientes assistidos pelo SAD de Volta Redonda, em dez anos de atividade.

O atendimento em cuidados paliativos – hoje uma especialidade médica – foi institucionalizado em 1967, por iniciativa da enfermeira Cicely Saunders, que implantou uma conduta considerada exemplar na época. Diferente do tratamento que estabelece intervenções com objetivo de cura, Saunders propunha abordagem integral: que o indivíduo tivesse reconhecimento e controle de sua condição, que pudesse fazer escolhas, tomar decisões, resolver pendências materiais e emocionais.

Da perspectiva psíquica, Elizabeth Kübler-Ross, contemporânea de Cicely Saunders, foi quem detalhou o processo de morrer, descrevendo cada uma das fases emocionais que o paciente terminal atravessa – choque, negação, raiva, negociação, depressão, aceitação e decatexia (algo como frieza ou desinteresse pelo que ocorre consigo mesmo e ao redor). Todo o trabalho de Kübler-Ross está relatado no livro “Sobre a morte e o morrer”, no qual identifica essas etapas e cria métodos para médicos, enfermeiros e familiares acompanharem a ajudarem um paciente próximo do fim da vida. A obra, longe de ser um manual, é resultado de pesquisa que acabou por se tornar uma inovação para a medicina ocidental e uma quebra do tabu sobre a morte: o uso de técnicas suavizadas, de abordagem integral, para que o fim da vida seja mais ameno para os doentes, para os médicos que os atendem e para os familiares que os cercam.

Alguém pra segurar a minha mão

O detalhamento sobre as mortes de Esther e de outros pacientes, bem como entrevistas com familiares e o acompanhamento da equipe do SAD estão no meu livro “Alguém pra segurar a minha mão”, lançado em 2020 pela Editora Literalux. Trata-se de um livro-reportagem, cujo projeto nasceu da compreensão de que pacientes terminais têm direito a morrer em casa, longe da solidão das UTIs. Amiga pessoal do médico paliativista José Antônio Pereira Fernandes, conheci o trabalho do SAD bem de perto, ao participar das visitas domiciliares e testemunhar a equipe em atividade.

Também mergulhei em literatura especializada – livros e artigos produzidos por profissionais em cuidados paliativos, para conhecer tanatologia, entender ortotanásia, saber da origem dos cuidados paliativos e como se espalharam mundo afora. Boas referências, além do já citado “Sobre a morte e o morrer”, da psiquiatra Elizabeth Kübler-Ross, incluem “Em busca da boa morte”, de Rachel Aisengart; “Espiritualidade e finitude”, coleção de artigos organizada por Dulcinéia da Matta Monteiro; “Velai comigo”, da enfermeira Cicely Saunders; e “A morte é um dia que vale a pena viver”, da médica paliativista Ana Cláudia Quintana Arantes, entre outros.

Não pude deixar de dedicar um capítulo à medicina, ao médico levado à condição de Deus e sua dificuldade (poucas vezes revelada) em lidar com o fracasso da perda de seus doentes. Outro grande tabu da nossa sociedade, ao lado do tabu da morte. Médicos são treinados para salvar vidas e trabalham incansáveis com esse objetivo, mesmo quando a morte já é inevitável.

Ao praticamente fazer parte da equipe do médico José Antônio durante a produção da reportagem, estive perto de vários pacientes em seus dias e minutos finais e relato três histórias que exibem a realidade como ela é e como penso que deveria ser para todos. Como digo no livro, “em princípio pensei ser forçoso tentar naturalizar a morte, contudo me dei conta de que não é possível naturalizar o que já é natural”.

“Alguém pra segurar a minha mão” é, ainda, testemunho da luta de profissionais em cuidados paliativos para uma mudança cultural que sacode o maior de todos os tabus da sociedade e ao mesmo tempo a nossa única certeza. É até difícil explicar, quando me perguntam “sobre o que é seu livro?”. É sobre a morte, mas não exatamente sobre a morte; é sobre o conceito de boa morte: que o ser humano possa sair de cena suavemente, em casa, acolhido pelos familiares, sob os cuidados e o carinho de alguém querido ao seu lado.

Morrer sozinho, em qualquer situação, é muito triste. Com a óbvia exceção de outras diversas circunstâncias, se a pessoa cumpre todo seu ciclo de vida e com certeza vai chegar a hora de encerrá-lo, por que não na sua cama, na sua casa, perto de quem ama? É um direito elementar.

(Texto publicado originalmente no Blog Pavio Curto, Volta Redonda/RJ, 2021)