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3 de agosto de 2026

Prosa que abraça

Meu primeiro pensamento ao iniciar a leitura deste livro foi a trabalheira que deve ter dado pra revisar. “Janice”, obra de estreia de Rafael Prado, pela Editora Patuá, é narrado por uma Preta Velha, com a linguagem já bem conhecida das vós de terreiro.

“Escuita, fio... que a vó qué te contá uma história.”

O estranhamento inicial logo se torna prazer, como se a narradora estivesse ao meu lado, contando sobre a vida de Janice, desde antes de nascer, acompanhando a infância da menina de onde quase ninguém vê, já que se trata de uma entidade espiritual. Parecia ouvir a voz da vó, a fala doce que toda Preta Velha tem, a suavidade, o carinho com que conversa com o leitor, ao chamá-lo de “fio”.

“Uma semana tem sete dia e num é por acaso não, fio. Sete é número de mistério, de reza direcionada e de trabaio bem feito. Foi em sete dia que se ajeitô o mundo. Tem semana que passa ligeira, parece que nem deu tempo de vivê e tem semana que parece carregá o peso de todos os ano. O tempo, ah, o tempo... ele vai e a gente vai junto, quereno ou não.”

A doçura da vó está presente desde o texto, a história leve, sem grandes tensões, a ternura com os moradores da Vila dos Ipês, dos quais toma conta como se fossem todos filhos queridos. E Rafael não deixa a narrativa cair; segura o tom do início ao fim, sem enfastiar, garantindo sua ousadia em optar por uma narradora inusual (eu nunca tinha lido algo assim em obras de ficção).

Este livro foi um presente, não no sentido literal. Estava na Casa Gueto, da Editora Patuá, na Flip, escolhendo o que queria trazer de novidade, quando a Pricila pescou “Janice”, me apresentou e disse: “Acho que você vai gostar deste”, sem saber que sou umbandista e que tenho um cadinho da história da Janice na minha vida. Acertou.

“Nessa vastidão, num tem ninguém suzinho não, fio.
Ocê também num tá.”

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