19 de junho de 2012

Cabeça vazia


Crônica publicada originalmente no jornal Volta Cultural - Junho/2012

Um dos meus maiores prazeres é ficar à toa. Sério. Aprecio os minutos ou horas preciosas que dedico a (tentar) pensar nada, fazer nada, movimentar nada; apenas olhar o tempo, ouvir o silêncio (experimente); tão somente jiboiar.

Outros chamariam a isso de meditação. Não saberia dizer se medito, exatamente pelo que expus acima: ‘tentar pensar nada’. Quem medita jura que esvazia a cabeça, algo que ainda não sou capaz. Minha mente viaja por muitos lugares, situações e gentes, sem parar, sem elaborar, sem raciocinar.

Pode parecer estranho, mas meu corpo fica cansado com o tanto que uso a cabeça. Fico mesmo exausta, a ponto de chegar em casa quase me arrastando, como se tivesse carregado peso o dia todo. E por isso curto me jogar no sofá e ficar paradinha, sem nenhum ruído em volta (e isso por aqui é raro), com exceção do ar condicionado, claro, porque na há como pensar em nada sentindo o meu calor só meu.

Há dias em que desabo e vago sem esforço; em outros, o exercício de reduzir a velocidade é árduo. Fecho os olhos, entrego o corpo, fixo o pensamento em algo específico e assim permaneço.

Até um tempo atrás não me permitia tal deleite. Aprendi que fazer nada era pecado e estava sempre a procurar algo de útil a fazer. Porém, felizmente descobri que parar de vez em quando para desocupar o HD é extremamente saudável. Esta não atividade é que organiza minha vida, me põe no prumo e em condições de continuar a lida adiante. Pena que não consiga fazer nada diariamente. Não por falta de tempo, pois sempre há uma brecha, mesmo que seja ao fim do dia. É que às vezes a agitação da jornada é tamanha, que simplesmente é impossível parar o motorzinho cerebral. Ele funciona no modo automático.

Também gosto de fazer nada quando estou na minha praia preferida, de mar calmo, brisa suave e muitas amendoeiras que fecham uma sombra perfeita para quem gosta apenas de assistir o sol esturricar a pele dos outros. Faço nada quando estou neste lugar. Sento, me ajeito confortavelmente de frente para o horizonte, e me deixo levar para o azul (ou cinza, pode variar). Às vezes até leio um pouco; pouquinho. Nada de sair aventurando, a procura de programas, roteiros de passeios, vamos aqui, vamos ali. Neste recanto quase particular não abro mão de estar completamente à toa.

Vazia como a minha cabeça nestas horas é este papo furado. Palavrório de quem há alguns minutos estava com o corpitcho esticado no sofá, vagando e vagando e, de repente, lembrou que tinha de escrever uma crônica.
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