19 de outubro de 2016

Quem viver será

Fui convidada para compor a comissão julgadora de um desfile. Não de mulheres e homens lindos, jovens e sarados, candidatas à beleza disso ou daquilo, mas um desfile de idosos. Aceitei de bom grado. O evento reuniria internos das instituições da minha cidade, uma ação para elevar a autoestima, integrá-los, socializá-los. Era perto da minha casa e o convite veio da Bruna, pessoa que merece meu respeito, pelo trabalho que desenvolve com essas pessoas.

Confesso: não estava preparada para o que iria assistir. Não pensei, não avaliei, não imaginei nada antes de chegar ao local do encontro. Apenas cheguei. E da porta do salão, vi descerem das vans a vontade de ser, de estar, de desejar, de fazer. Caminhando devagar, ajudados por cuidadores ou apoiados em andadores, lá estavam o futuro de muitos de nós.

Não foi choque, tristeza ou pena. Foi constatação do que poderá vir a ser pra mim e pra tantos outros. A cada um que subia os degraus, pensava em alguém que conheço, na sua vez de ficar velho; via-me na minha vez. E questões de todas as grandezas pululavam na cabeça: como será comigo? Vou andar de muletas, de andador? Estarei saudável até quando? Perderei minha lucidez? Serei uma velhinha supimpa ou melancólica? Serei desejante?

A plateia foi se acomodando, enquanto os concorrentes aguardavam no fundo do salão. Os homens de um lado, silenciosos, e as mulheres entregues aos cuidados de uma equipe de maquiadoras, manicures e cabeleireiras. Era nítida a expectativa. Por outro lado estavam confiantes, prontas para enfrentar os olhos da comissão julgadora. Quem concebe tal cenário?

Quando falamos em idosos que vivem em asilos, logo pensamos em velhos doentes, decrépitos, abandonados pela vida, terminando seus dias na companhia amarga da solidão a que foram entregues. Digamos que não seja assim, invariavelmente. Há meios de fazer diferente, não que seja fácil, no entanto é possível. Fiz uma palestra anos atrás no Residencial Vila do Sol, e saí de lá surpresa e grata pelo que vi e experienciei com os hóspedes (como são chamados). Não são tratados como velhos inúteis, ao contrário, o objetivo das equipes é fazer com que se sintam em casa, de verdade. Podiam levar móveis e objetos de valor (uma senhora levou o piano!), um deles saía sozinho para ir ao mercado, padaria, farmácia... Havia festas, música, dança. Notei que eles desejavam e desejar é viver.

Um amigo se compadeceu daquelas pessoas presentes no evento. Cá com meus cachos tentei compreender. Estar num asilo nem sempre quer dizer que está abandonado. Há, sim, muita maldade humana envolvida, contudo há casos de precariedade tão descomunal, que a única solução para a família é internar seu idoso, pois somente desse modo pode ser bem assistido. Há ainda pais, mães, maridos despóticos que ganham em troca esse destino na velhice (ou são ignorados dentro de casa mesmo. Ou, ainda, exaurem seus companheiros e companheiras cuidadores e a saúde de todos é comprometida. Assisti a uma cena que retrata esse tipo de relação e relatei numa crônica um tempo atrás). Não se deve julgar.

E então eles desfilaram! Entravam pelo fundo do salão e percorriam o tapete vermelho, em direção à mesa da comissão julgadora. Uns tímidos, outros sorridentes, dançando, no andador (!), porém afirmando suas potências. Queixos erguidos, altivos, se apresentavam aos jurados e retornavam, ovacionados por amigos na plateia. E nós ali na mesa, meio abobalhados. Saí do chão várias vezes, a ponto de me perder e não ouvir o nome do próximo a desfilar. Era uma história inteira que se criava na minha mente, quando viravam as costas e retomavam o percurso de volta.

Não me satisfaço com definição alguma para a velhice, como também não tenho a minha. Encarada como o fim, poderia ser um recomeço. Por que não? Os desejos reprimidos são liberados (permitidos pela mesma sociedade que os reprimiu), há uma liberdade indizível e uma sabedoria que não chegam a alcançar o nível consciente. Mas estão ali: no sorriso, no brilho e na profundidade do olhar, na gratidão.

Esfregam na nossa cara que se chegarmos lá, o barco será o mesmo para os bonzinhos, os canalhas, os caridosos, os egoístas, os ricos, os pobres. Escancaram a realidade de que se tenta escapar com estratégias inúteis. E sorriem.
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10 de outubro de 2016

Annita

A nitazoxanida é um anti-helmíntico antiparasitário, de amplo espectro, indicado para amebíases, giardíases, helmintíases e ancilostomíase. Nome fantasia: Annita.

Ao observar a prateleira da farmácia, enquanto o balconista atendia o meu pedido, dei de cara com uma embalagem robusta cujo nome chamou a atenção. Anotei a substância pra pesquisar depois e descobri, não sem rir um cadinho, que se tratava de um medicamento pra verme, ou vermífugo.

Que viagem! O nome de uma artista relacionado a parasitas intestinais, desses que ficam, consomem o indivíduo. Com o notebook no colo relaxei a cabeça no encosto do sofá e imaginei uma pequena lista de possibilidades para algumas afecções, como a seguir:

Em caso de prisão de ventre, haveria o Jillmar, pra soltar.  Nas diarreias, em que o intestino fica meio apressado, a prescrição médica seria Serjio, embora fosse eficaz apenas contra um único tipo de agente causador de desarranjos. O desconforto digestivo - ou estômago enjoado - seria aliviado com CerRa, mas, com cuidado, porque entre as reações adversas, poderia tornar a cabeça um tanto atrapalhada. Seria importante ter cautela com o princípio ativo Alexxandrilanida + Moraesina, conhecido como Pecece, por crises intensas de pânico observadas após a ingestão.

Haveria os fármacos traiçoeiros, indicados para cura, quando na verdade gerariam sérios problemas, como causar apatias, sensação de opressão e de sufocamento, sentimentos de perda e de perseguição, depressão, demência, paralisia e até a morte. Como exemplo, o Aessius N+EV, e centenas de outros similares, sendo Mixell o pior de todos, principalmente quando associado a Cuña ED, poderoso potencializador de síndromes fatais, se combinado a drogas específicas.

Como a mente é um universo paralelo e dela é possível extrair qualquer ideia, construí uma empresa farmacêutica com condição de derrubar marcas tão perigosas para a saúde, tanto as mortais, como as que apresentam efeitos colaterais complicadores para o funcionamento do organismo como um todo. Foram necessários anos de pesquisa; os cientistas tiveram de começar praticamente do zero, pois a concorrência era dominante do mercado.


Já se passaram anos aqui na cachola e nada. Nadica. Dentre os princípios ativos existentes, capazes de superar marcas tão fortes, a maioria é inerte; as que mobilizam renovação celular não apresentam eficácia quando agrupadas; e há ainda as substâncias cuja aglutinação é impossível.

Bora pra cozinha engolir rápido a pilulazinha pra ansiedade.
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4 de outubro de 2016

Sem filhote

Uma amiga me perguntou como está o ninho vazio.

(Pra quem não sabe: é quando os filhos vão embora pra assumir seus próprios encargos neste mundo e a casa fica de um jeito que toda hora é nó na garganta.)

Minha resposta ficou vaga, confesso. Não sei explicar claramente o que sinto sobre essa ausência. Não me vejo como a mãe que a sociedade considera normal, aliás, nem meu filho me vê dentro da caixinha.

A educação dele foi libertária, com base em amor, respeito e liberdade de escolha. Os amigos e as mães dos amigos estranhavam ao ouvi-lo contar: “minha mãe diz que eu tenho de ir embora, estudar longe e ficar por lá”. Ele cumpriu o mandato e a mãe ficou satisfeita. Sério. Com choro, mas sem nem um pingo de dúvida do estímulo certeiro que dei.

Já vi mulheres dizendo de tudo um tanto sobre seus ninhos vazios. Da boca pra fora, da boca pra dentro, com estardalhaço, deprimidas. Já vi filha voltando em definitivo pra casa com pena da mãe que ligava todas as noites chorando. Já vi mãe que se desfez em lágrimas durante os cinco anos em que o filho estudou fora. Já vi mãe que largou tudo pra trás e foi atrás da filha (essa história foi um desastre!).

Não há receita para viver. Não há dica milagrosa, simpatia, nem mágica. No meu caso, foi uma afirmação elementar: não educá-lo pra ficar agarrado na minha saia ad eternum. É cruel demais exigir isso. É o que penso. Pragmática que sou, foi mais fácil planejar e me programar para entregar meu rapaz à própria vida, até porque, se eu não entregasse, iria assim mesmo. É como funciona a nossa natureza e quem se recusa a ela, sofre.

Circula muito pelas redes sociais uma frase do Rubem Alves, que diz: "Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar.". Vai voar, sim, pra quão longe desejar ir, sabendo que tem pra onde voltar, em terra firme, se quiser ou precisar. Jamais deixarei de ser a mãe, e com o respeito mútuo que cultivamos, viveremos bem um com o outro, ainda que à distância.

O ninho está vazio. Perfeito para escrever, estudar, vagabundear pelas redes sociais; pra me dedicar sem interrupção ao trabalho minucioso de pesquisa, aprendizado, criação e montagem de terrários; pra tomar café comigo, tomar cerveja comigo, ir ao cinema no meio da tarde comigo, ler no sofá durante um dia inteiro sem interrupção. Tudo isso com plena certeza de que o cara está feliz. Tão simples e tão complicado de absorver, né? Está feliz: cursando o que escolheu por vontade dele, independente e autônomo como sempre foi e como batalhei para que fosse.

O ninho está vazio. E nada me falta.
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20 de junho de 2016

Novas noites de domingo

Fica o cheiro na face, na mão, e o gosto tão conhecido de beijo e carinho, depois que ele vai embora.

Fica um ar triste, melancólico, o olhar perdido, parado no tempo, depois que ele vira aquela esquina.

Fica um andar arrastado, a mente parada, o choro travando a garganta, quando fecho a porta atrás de mim.

Fica a falta do lanche compartilhado, das boas conversas e das muitas risadas, quando sento à mesa da cozinha.

Fica a lembrança da cumplicidade, das trocas de olhares e dos segredos guardados a dois, quando revejo suas fotos.

Fica a vontade de ouvir os passos trôpegos na escada, o som alto no banheiro, o jeito tão engraçado de me chamar, que ouço mesmo na sua ausência.

Fica uma saudade imensa de um passado que jamais volta, que agora é só memória, mas ao mesmo tempo uma felicidade que nem me cabe, pelos novos tempos de agora; por isso preciso me reinventar a cada minuto.

Ficam a ansiedade e a angústia, ao passar das horas, a espera que você ligue de lá e diga: “Cheguei em casa.”
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14 de junho de 2016

Ouvir histórias

Quem se permite escutar histórias dos outros amealha uma coleção de contos. Casos reais, de gente de verdade, que sente e sofre, e nós, aqui de longe, na maioria do tempo não nos damos conta e, pior, nem queremos saber. O ofício da escrita me põe a ouvir. Quando alguém começa a me dizer algo, interrompo o que estiver fazendo para prestar a atenção. E me deleito com todos os detalhes, me angustio junto, me aflijo.

As pessoas necessitam falar; as pessoas são sós. E no meu exercício solitário de colocar as palavras organizadas em forma de texto são justamente esses inúmeros ‘alguéns’ que me vêm à mente. Como entes invisíveis, que na hora H reaparecem pra me inspirar. A crônica não era esta; o tema era diverso, porém, ao me deparar com a tela em branco pra dar corpo à ideia que tinha na cabeça, as histórias de tantas almas me rodeiam. Fazem um volteio em mim e permanecem aqui. Não consigo discorrer sobre outro assunto.

A arte é que imita a vida. Muito do que se vê em cinema e folhetins nos arrancam as exclamações de sempre: “Isso só acontece em novela!”, “Só podia ser filme!”. A existência humana é mais complexa que qualquer roteiro escrito por uma mente brilhante. E não comumente são experiências felizes ou vitoriosas. Quem dorme em lençóis de cetim e travesseiro de plumas também revela frustrações, infelicidade, traições, perdas, insanidades.

Um relato que ouvi dia desses ficou agarrado na memória, retorna à tona a todo momento. Uma mulher casada, com dois filhos, era surrada pelo marido diariamente. Ele chegava em casa embriagado, ameaçava-a de morte e iniciava a sessão de tortura. Certa vez ela tomou coragem e fugiu com as crianças. O homem a alcançou, levou-a pra casa aos tapas e jurou matá-la e aos filhos, caso tentasse escapar de novo. Ela se foi novamente, mas sem os meninos. Um morreu, pois ainda não havia completado dois meses; o outro foi criado sozinho pelo pai até a adolescência, solto, entre a rua e os bares, e depois acolhido por uma senhora que o educou e lhe colocou regras. Anos depois o homem abraçou uma religião, buscou a mulher de volta e o filho que sobreviveu não a perdoa por ter sido abandonado. Não pode compreender a mãe. Ou ela morreria pelas mãos do marido, ou morreriam todos se fugissem juntos. Hoje mãe e filho são idosos e mal se falam.

Parece ficção, drama da novela das seis, no entanto é uma das milhares de vidas tristes que há por todos os cantos do planeta, que nos fogem ao conhecimento. Não temos tempo pra saber, não podemos nos dar ao luxo da preocupação com a existência alheia. Já temos problemas demais.

Penso nas pessoas que vejo nas ruas. Imagino como são em casa, se têm necessidades, filho doente, mulher ou ex, roteirizo mentalmente a rotina delas e invariavelmente rabisco umas linhas sobre algumas, projeto suas práticas religiosas, se estudam ou não, se vão a festas, se bebem, como comem, como se comportam no banho, como transam, vejo-as mortas. Não por simples morbidez e, sim, porque toda história tem um fim e esse é o final pra todo mundo. Enquanto isso, escrevo.
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6 de junho de 2016

VI Bienal Rubem Braga

Passava pouco das oito da manhã quando cheguei e logo percebi que a noite por ali não tivera fim. Entrei lentamente pelo portão, como havia me programado, para matar a saudade do lugar com calma. Porém, o que imaginei ver enquanto entrava a passo leve, estava bem longe da realidade: a água pesada que caíra sobre a cidade na noite anterior só não destruiu por completo, mas causou danos e obrigou praticamente toda a equipe a virar a madrugada trabalhando duro.

O que avistei quando cheguei foram estandes vazios, salas e cadeiras sendo enxutas, um movimento de recuperação de tudo o que fosse possível, para fazer a festa acontecer. Afinal, o mestre estava ali abençoando novamente o grande encontro literário de Cachoeiro de Itapemirim, e não deixou que o ânimo esmorecesse.

A VI Bienal Rubem Braga teve início na terça, dia 31, e na noite de quarta foi pega de surpresa por um temporal que arrasou toda a cidade. Muitos desabrigados e desalojados, ruas cobertas de lama, inúmeras famílias sem seus pertences, destruídos pelas águas.

Na Praça de Fátima, a mesa de debates “Os dilemas das Identidades de Gênero na Construção de Personagens Literários”, com João Paulo Cuenca, Andrea Del Fuego e Milena Paixão, teve de ser interrompida, e as perguntas do público que insistiu em ficar foram respondidas no camarim. A mesa para a qual fui convidada, seria na manhã seguinte.

Por que comecei relatando justamente o outro lado desse evento singular?

Para exaltar a galhardia com que a equipe organizadora não só faz acontecer, como não se deixa abater e dá a volta por cima: mexe aqui, recoloca ali, limpa, lava, enxuga, transporta, remaneja, respira fundo e põe a engrenagem pra rodar, com um invariável sorrisão na face.

Logo chegam os ônibus lotados de estudantes para as atividades do dia e eles podem ser recebidos com a mesma alegria de sempre. Assim foi o terceiro dia da VI Bienal Rubem Braga, um evento do qual me orgulho de ter participado pela segunda vez. Realizada pela Secretaria de Cultura do município, faz merecida homenagem ao cronista nascido por ali, onde corre o rio Itapemirim.

Este ano teve Zezé Motta e Wilson Coelho na mesa de abertura, e muita gente com muita coisa boa a dizer durante a semana: Sérgio Vaz, Marcelino Freire, Paulo Lins, José Eduardo Agualusa, Gonçalo M. Tavares, Jorge Nascimento, Carol Bensimon, Saulo Ribeiro, Sara Passabon, entre tantos outros. Ao longo de todos os dias as crianças foram presenteadas com contação de histórias, teatro de fantoches, oficinas, feira de livros, muita música e performances como a do cão Zig, da Borboleta Amarela e do Entregador de Palavras.

Na mesa da quinta-feira estavam comigo Babi Dewet e Felipe Castilho, escritores que em seus livros falam para o público jovem e se comunicam com essa galera pela internet. De manhã e à tarde recebemos estudantes de oitavo e nono anos e de ensino médio para conversar sobre “Leitura, Literatura e Internet”, e saímos no fim da tarde com a sensação de ter aprendido não só entre nós, com nossa troca de informações, como com aqueles garotos e garotas ávidos, de olhos brilhantes, encantados, carregados de questões.

A Bienal terminou ontem, com o show da Bia Bedran, e como sempre deixa o conhecido desejo de ‘quero mais’. Os incansáveis trabalhadores da cultura de Cachoeiro de Itapemirim, acolhedores como se nos recebessem em casa, tornam-se ‘amigos de infância’ nas redes sociais e outros novos amigos surgem para trocar ideias sobre literatura e não deixar nunca o assunto morrer. “Minha alma canta” quando vejo o Rio de Janeiro pela janela do avião, mas um pedacinho do coração fica por lá.  
    

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30 de maio de 2016

Minha casa sou eu

Chegar em casa tem sido um dos melhores momentos dos meus últimos tempos. Resolvo, passo a passo, todas as pendências na rua e, ao retornar, já no caminho uma parte de mim se sente de volta. O prazer cem por cento começa logo que fecho a porta às minhas costas. Viro a chave e respiro fundo.

Reclusão é a palavra da vez: não escondida, deprê, mau humorada, ranzinza. Sim, buscando serenidade, realizando as tarefas com calma, inspirando meus ares a cada movimento, trabalhando sem trégua, mas também sem desespero, abafamento, cobranças.

Minha casa me recebe como um abraço longo e restaurador. Tem meus cantos prediletos, o meu café, minha mesa onde escrevo, minha bancada onde crio e construo. Tem a Bernadete, a Zoraide, a Flora e a Filó, que transformam meu silêncio em troca de carinho e amizade. Tem diante da janela o meu sofá; dali olho o céu, curto a brisa nas plantas da varanda, voo longe levada pelo vento da tarde.

Porém, mais importante que cada canto, objeto ou criatura, é na minha casa, na minha introspecção, que recebo a mim mesma, dentro desse corpo que me abriga. Eu me recolho a esse lar recôndito, em que somente me cabe e que só por mim é conhecido.

Desta forma me vejo, me escuto, me sinto. Entravo diálogos com a carne, ou assisto, a mim e à carne, em debate. Abro as janelas de mim e descubro a sensação de enxergar o mundo por uma perspectiva diferente; sim, diferente, porque é sempre nova, nunca se repete. Ouço as várias vozes que de mim dizem verdades surpreendentes ou às vezes cruéis. Olho nos olhos dos meus desejos, tento retirar lá do âmago as questões escamoteadas, tento saber por que me escondo dos meus sentimentos.

Pessoa querida disse que reclusão faz mal, que é num certo “lá” o lugar em que tudo acontece, e que é tempo desperdiçado estar em silêncio e só. Muitos bichos hibernam, outros simplesmente se recolhem por algumas horas, quando o instinto pede uma pausa. Nós, mamíferos, temos muitas semelhanças e não creio que seja bom para a saúde negá-las.

É na minha reclusão que busco fazer nascer, a cada dia, uma vida nova, que não se repete tal e qual à de ontem. É no fundo desse corpo no qual resido, desse meu verdadeiro lar, que descanso realmente, que me recarrego, que me renovo e encontro a galhardia para recomeçar inédita.

Não é uma brincadeira, não é fácil. Na verdade é um exercício. É preciso abdicar do que chamo de insignificâncias, pra ter poder de significar de modos distintos.
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21 de maio de 2016

Legados

Partiu de surpresa. Apesar da idade avançada, nunca se espera que alguém querido vá embora para sempre. Saúde em dia, uma cirurgia simples, sucesso no procedimento, previsão de alta, a pressão baixa, pneumonia, entra em choque, UTI, “Alô, o médico solicita a presença de alguém da família.”

Ainda o sentimento de frustração. E, de repente, o que dava sentido às vidas daquela família se vai. Deixa pra trás um legado de simplicidade, fé, religiosidade, liberdade, respeito ao outro (qualquer outro), educação, alegria de viver. Difícil descobrir sentidos novos a esta altura, no entanto, é o que se deve fazer agora.

A morte e o morrer sempre foram um sapo na garganta; decerto, não só pra mim. Desde sempre esse tema me cristaliza. Não tenho uma relação minimamente equilibrada com essa certeza, embora creia que haja um “lado de lá” e o prosseguimento da vida, de uma forma diferente. Acreditar faz muito bem, até que ela, a morte, resolve passar perto.

Não à toa os povoados antigos cresciam em torno de onde eram realizados os rituais fúnebres. Talvez tão marcante quanto o nascimento, a hora de se despedir de uma vida altera sentimentos e estados de consciência, cria e revolve dores. Ver inerte um corpo que foi tão próximo por 40, 50, 60 anos é mais que triste. Levanta uma série de questões nunca antes consideradas, que travam os dias, pois se emaranha com a saudade, a frustração, a angústia, a impotência. E tudo isso é luto. A hora de dormir é melancólica. A hora de acordar é confusa. As obrigações e compromissos da rotina exaurem além do que seria aceitável. A vontade de nada é imperiosa. “Chorar na cama, que é lugar quente” é o desejo tormentoso a cada hora da jornada que se recusa a passar. A espera é longa pelo tempo curador de todas as aflições.

No quarto dela há uma cômoda e sobre o móvel um modesto altar. Imagens de sua devoção católica e terços dispostos com zelo. Na parede, um espelho, e no canto do espelho, uma única foto, a minha, o meu rosto sorridente junto de suas fontes de força e graça. Nem eu mesma sei o quanto já chorei de emoção, alegria e gratidão por tanto amor, tanto carinho. A admiração que tinha por ela e que poucas vezes verbalizei, talvez por timidez, tem sua recíproca escancarada numa demonstração tão simples. Olhos molhados e nó na garganta a cada vez que me lembro daquele cenário.

O que a infalibilidade do destino espera de nós? Ou, o que devo esperar de mim, diante do inevitável? Posso dizer muito do que se repete por aí, sobre viver intensamente cada dia, comer melhor, valorizar a naturalidade, os pés no chão, desprender-me das exigências torpes da vida material, mandar esse capitalismo às favas e parar de correr atrás de sei lá o quê. Soa piegas, justo pelo tanto que se bate nesses temas a toda hora. Mas, olha, pode ser mesmo verdade. Viver mais de 90 anos com plena saúde, feliz, distribuindo sorrisos, e ir embora sem dever nada a si própria, é pra pouquíssimos. Penso que já esteja passando da hora de começar a correr atrás da concretude de uma vida rica de algo que possa deixar e também levar. Como ela soube fazer muito bem.
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19 de maio de 2016

Sem preconceito, mas, vai que..

Cheguei para a entrevista atrasada, correndo, bufando, e a surpresa foi completa quando encontrei o prefeito deitado dentro do carro, ocupando com o corpo as duas poltronas da frente, a cabeça pendendo para o lado de fora, de óculos escuros, mirando o céu. Mais calmo impossível e nós, trinta minutos depois da hora marcada, constrangidos.

- Bom dia, prefeito, desculpe o adiantado da hora.
- Problema nenhum. Estava aqui admirando o voo solitário de um urubu.
- (?)
- Minha mãe sempre dizia que quando a gente vê um urubu voando bem alto e sozinho, é sinal de notícia boa.

Surpresa de novo. A vida inteira, o que recebemos de informação sobre essa ave é que se trata de um bicho nojento, asqueroso, perigoso, que come lixo e carniça. É feio, tem um andar coxo, muito esquisito, chega a causar certo horror às vezes. Jamais imaginaria a possibilidade de boa coisa a caminho, mesmo sendo apenas superstição.

O encontro com o prefeito aconteceu faz quase vinte e cinco anos e, desde então, passei a observar melhor os urubus. Tentei reverter dentro de mim o preconceito, procurando saber mais sobre esse pobre animal, excluído de qualquer demonstração de apreço, consequente de seus hábitos.

O que mais gera repugnância no comportamento do urubu é sua preferência por carnes em estado de putrefação. Quando não encontra animais mortos, opta pela caça de bichos menores, como alguns roedores, sapos e lagartos. Porém, exatamente por comer animais mortos, é considerado necessário, até mesmo indispensável, por garantir o equilíbrio ecológico, livrando o ambiente de doenças facilmente dissemináveis. Pra piorar a situação do desventurado, ele não pode cantar, pois não possui órgão vocal específico. Portanto, grasna.

Destituída do preconceito, veio a compaixão. Todas as vezes em que vejo um urubu, tenho ímpeto de parar pra olhar. Pude conhecer um bem de perto num sítio, onde rolava um churrasco. A proprietária do local (pasmem!) tinha um urubu de estimação. Caíra no quintal quando filhote, foi tratado, alimentado e ficou. Claro que a única pessoa na festa que não sentiu repugnância pelo animal fui eu (confesso um medinho de me aproximar muito).

Recentemente li uma história em que o personagem narra sua própria morte, atacado por um bando de urubus que invadem o apartamento. A sequência é horripilante, devido aos pormenores do banquete. É mais um ponto a favor da ojeriza contra o animal já tão rejeitado – o autor não poderia, por exemplo, falar em corujas? Elas também comem carne.

E após tantos anos de reforma interior, treinando meu mais carinhoso olhar para os urubus, eis que o inesperado acontece. Ao volante, indo para o trabalho, avisto bem ao longe um solitário em voo alto. “Opa! Bom sinal! Que boa notícia será?”. Logo que me indaguei, ele foi baixando a altitude, ao mesmo tempo em que vinha na minha direção. Em questão de segundos estava à minha frente, forçando as asas para trás, na tentativa de parar e não conseguiu. Entrou embaixo do pneu dianteiro esquerdo, escutei (ou senti) um “crec” e ainda pude ver pelo retrovisor o infeliz estraçalhado na pista. Não contive o remorso: “Eu matei o urubuuuu! Eu matei o urubuuuuuuuu! Meu Deus, eu matei o urubu.”. Superstição ou não, além de chorar de pena do bicho, não deixei de cismar com um possível mau presságio; afinal, se o urubu voando alto prenuncia coisa boa, prefiro nem pensar no que possa significar esse mesmo urubu sendo assassinado por mim.
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13 de janeiro de 2016

Ruídos insones II

O ar condicionado.
O zumbido no meu ouvido.
Minha respiração.
A gata salta no piso do banheiro.
A descarga do vizinho, a torneira do vizinho.
O ronco do vizinho!
E meus pensamentos apressados e barulhentos.

O gato da rua mia no telhado.
A coruja pia na árvore em frente.
O vento agita a árvore em frente.
A TV ao longe, muito longe, é como um chiado.
Uma janela fecha. Ou abre.
O chuveiro pinga e pinga e pinga.
E meus pensamentos apressados e barulhentos.

E minhas dores, e meu passado, e o medo do futuro.
Tudo emaranhado em nós, rodando na cabeça,
conforme me movo na cama, a tentar
o conforto pra dormir.
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29 de dezembro de 2015

Não se vive sem

Saudade não é algo que se sente. Tenho pensado a respeito. Saudade é algo que está em si. Nasce-se com ela, vive-se com ela e vai-se embora da vida carregando-a junto.

O tempo todo há uma saudade presente, quase ostensiva, e às vezes nem parece sentimento; há momentos em que parece mesmo orgânica, que faz parte do corpo. Chego a imaginar que se ficar sem saudade dentro de mim, estarei como de luto. Seria o luto de saudade da saudade.

Ou seja, ela não sai, não vai embora, não é retirável, não morre com a morte, não se mata nunca. A saudade não se mata; é eterna.

Interessante é saber que o sentido ampliado da palavra saudade só existe pra nós, que a expressamos e a ‘sentimos em Português’. Originada no Latim, está, sim, em outras línguas, ao contrário do que se costuma afirmar. Porém, quer dizer mais exatamente a falta do lar, uma vontade de voltar à casa, uma solidão por isso. Já na Língua Portuguesa saudade que dizer muito mais: é dor de toda ausência, uma dor que se pode dizer prazerosa. Tão prazerosa que foi, é e será para sempre em versos, canções e prosa. E a rima aqui é proposital.

Vinicius cantou: “Chega de saudade / A realidade é que sem ela / Não há paz / Não há beleza / É só tristeza / É só tristeza e a melancolia / Que não sai de mim.”. E Djavan também: “Era tanta saudade / É pra matar / Eu fiquei até doente / Eu fiquei até doente, menina / Se eu não mato a saudade / É, deixa estar / A saudade mata a gente.”. Clarice abusou: “Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença.”. E Fernando Pessoa foi mais longe: “Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida.”.

É incurável, pois que está sempre aqui dentro, a lembrar algo que não terá mais volta. Ou terá, mas de outra forma ou em outro tempo, quem saberá? A gente sente saudade até de não sei quê.

Uma brisa fresca ao fim da tarde... saudade; por do sol no outono... saudade; céu estrelado em noite clara... saudade; música, perfume, comida, filme, andar na rua... saudade; sonhar dormindo ou acordada... saudade. Um nome que nunca ouvi antes... saudade.


Publicada originalmente na Revista Volta Cultural - Dezembro/2015 
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19 de dezembro de 2015

Dois tempos

- Mãe, sobe aqui, rápido! Você precisa ver isso!
- Que é? Está me assustando!
- Sobe, depressa!

Ele me mostra, da janela do quarto, o céu roxo que adoro, prestes a desabar em chuva. É quase possível sentir o peso da água, que a força da gravidade empurra pra baixo. Esqueço o estava fazendo e paro. Fico estática, diante do espetáculo que vai transformando a paisagem rapidamente. Admiro o contraste com as copas das árvores, com os telhados, os muros. E me causa imenso respeito o silêncio da natureza, a prenunciar a tempestade que se aproxima. Nem um pio da passarinhada costumeira.

A ventania traz as folhas da árvore em frente pra dentro do quintal. Roupas voam na corda e pra fora dela também. Aos primeiros trovões, ainda ao longe, os bichos de casa pressentem que lá vem problema e caçam cantos pra se esconder. Ouvem-se vidraças que se fecham na vizinhança e a mãe que grita à filha: “Essa porta batendo aí!”. E o que há pouco era nuvem encorpada desaba sobre nós.

A casa é quietude. Do sofá, através do vidro que ainda escorre, vejo gotas remanescentes da chuvarada de há pouco. O tempo para; já não há mais vento. Agora é calmaria. Não há som ligado, nem TV; os bichos dormem em volta. Silêncio ruidoso: na rua, passarinhos celebram o cair da tarde. Brincam nos galhos úmidos, tomam banho nas poças das folhas, fazem algazarra na água que desce pela canaleta. Passa um carro, passa outro, e se vai distante o ronco do motor subindo a rua até sumir. Ora uma criança dá sinal de vida num apartamento, ora um cachorro late ali embaixo.

Vem da cozinha o recomeço após a chuva. O movimento que já conheço da leiteira no fogão, do acendedor, a tampa. A torneira aberta lavando a garrafa. A gaveta de talheres, o pote que é aberto e em seguida fechado. Canecas retiradas do armário. O aroma inconfundível.

- Mãe, tá rolando um café fresco, vem pra cá!
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1 de setembro de 2015

De graça, não dá

Leio numa postagem na rede social uma oferta de emprego para repórter, em um jornal no interior do Estado. Contrata-se profissional ou estudante de 7º ou 8º período. Na hora pensei “E o salário, é o mesmo nos dois casos? A um jornalista experiente está sendo oferecida a mesma remuneração que será paga a um estudante?”. A gritaria foi inevitável nos comentários, a responsável pelo post tentou se justificar, mas não convenceu, só que, no fim das contas, apesar da indignação geral, lá estava ela de volta, agradecendo pelas dezenas de currículos recebidos.

As pessoas precisam dos empregos. Paguem o que pagarem, não dispensam a oportunidade. Não há espaço para debates éticos, coerência ou concorrência desleal. Aliás, imagino que muitos sequer aprenderam de que se trata tudo isso. É assim que a banda anda tocando faz tempo. 

Sem entrar no mérito da necessidade de sustento, penso na deseducação da sociedade, cujo cidadão chega a se permitir tais ações de desrespeito - consigo e com os outros -, por desconhecer interesse coletivo e o quanto isso acaba respingando nele lá na frente. Nossa cultura estimula o individualismo e tal comportamento está cada vez mais naturalizado. Quem se preocupa e se ocupa do bem-estar coletivo é um otário.

E dessa forma, enquanto profissionais de qualquer categoria se sujeitam a ser contratados pelo mínimo do mínimo, com seu salário equiparado ao de um estudante, sem levar em conta currículo, anos de experiência e qualificações, seguimos em queda livre no que tange à valorização do trabalho. Aliás, parece que isso é desejo de poucos, principalmente de  contratantes, que apertam o gargalo, forçando a aceitação de qualquer coisa em troca da minha mão de obra e, principalmente, do meu conhecimento. E cada vez mais deixam-se de contratar assessores de imprensa, por exemplo, porque dá pra aproveitar o “rapazinho do RH que escreve direitinho”.

Quase em todas as vezes que sou sondada para ministrar palestras ou oficinas, surpreendo o contratante no primeiro contato, ao comunicar que minha atividade é remunerada, como se precisasse avisar. E na maioria das vezes nem perguntam, como se estivessem me propondo um favor. São vinte e cinco anos de carreira, com milhares de horas dedicadas a leitura e estudo. Com exceção das palestras que faço sobre a minha experiência com o câncer de mama, e as propostas que já nascem beneficentes, tudo é trabalho. O problema - motivo deste texto - é o jornalista-escritor-poeta-palestrista-oficineiro que faz qualquer coisa por qualquer trocado, até por trocado nenhum. E então, quem estuda uma vida inteira para ter um conteúdo de qualidade a oferecer vale o quê mesmo? E qual o interesse do “profissional” em ministrar palestra ou oficina gratuitamente num evento patrocinado, de iniciativa privada? Vai saber… Como disse, mais adiante será ele próprio o prejudicado pelo costume do qual fez ou faz parte. Ou o cliente. E não sei o que é pior.

Meses atrás fui contratada para revisar um livro que já havia sido revisado por outra pessoa, mas o autor não ficara satisfeito. Pedira a um amigo da família que quebrasse o galho, pois esse tipo de serviço costuma sair caro; pensava que qualquer pessoa pudesse “dar uma olhadinha”, e tal. Pois é, caro sairia para ele, o autor, caso publicasse a obra.

De graça, não dá. O profissional cobra porque é qualificado para a atividade, pagou pela qualificação e se responsabiliza pelo trabalho que executa. Como aquele diálogo que circula na internet:

“Você ta me cobrando 50 reais por um serviço que faz em cinco minutos?”
“Não. Estou te cobrando só 50,00 pra fazer em cinco minutos uma atividade que levei anos para me qualificar pra fazer.”
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24 de agosto de 2015

Graciana Perpétua

O dia não tem nada de especial, não se trata de data comemorativa, aniversário, nada de significativo no calendário. De repente, uma aparição surge de um dos cantinhos da memória: uma senhorinha magra e alta no fundo do quintal, com uma das mãos às costas, na altura da cintura, e a outra acenando. O coquinho no cabelo branco ralo, os olhos verdes sempre muito vivos e o sorriso que trago de herança. 

Não quero entender por que, ao mudar de posição no sofá, a imagem da minha avó me visita sem aviso. Apenas paro a leitura e delicadamente recosto a cabeça pra não perder a lembrança da mãe de minha mãe, que me ocupa de repente. Curto a saudade, repasso bons momentos, os exemplos, a alegria, o temperamento forte e altivo de uma autêntica libriana.

Estivemos por pouco tempo juntas nesta vida. Os encontros eram semanais, por um dia ou dois. Às vezes era ela que vinha em casa, passava um tempo. Nessa convivência rara aprendi muito do que sei sobre viver com simplicidade, valorizar o que se tem, fazer o que é possível e ser feliz com tudo.

Era religiosa, benzedeira. Mantinha na sala do barraco um congá. Recebia as crianças das redondezas, trazidas pelos pais, que buscavam no oculto a solução para os males do corpo e dos ânimos exaltados. Com ramos de arruda e guiné na mão, rezava e afastava os maus fluidos. Sempre tinha um bom conselho, uma sugestão, uma dica.

Passei minha infância refém de alergias, me coçava inteira e ela, sempre muito paciente comigo, ensinava a massagear a pele, sem usar as unhas, pra não me machucar. No grande quintal de terra, alegrava-se ao me mostrar as margaridas em floração, ensinou o prazer de cultivar plantas e hortaliças. Semeou em mim o mesmo gosto.


Tinha doze anos quando ela encerrou seu ciclo na Terra. Não chorei pela morte, pelo término da existência física. Mesmo criança, sem noção clara do fim, senti pelo pouco tempo que tivemos; queria conversar mais, ver aquele riso debochado tanto mais, rir das piadas, ganhar abraços, beijos, afagos e broncas. Sentir o perfume nos cabelos, que só ela tinha, comer o arroz mais gostoso que já experimentei. Tão especial assim, fez jus à eternidade que trazia no nome. Estará para sempre na memória, no sangue, na firmeza de espírito para encarar a vida - seu maior legado em mim - até nos encontrarmos novamente. “Bença, vó!”


Publicada originalmente no Jornal Volta Cultural - Edição de Maio/2015
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26 de janeiro de 2015

Rotina cruel

Acordo cedo.
Antes de o Sol aparecer por trás da goiabeira, abro meus olhos e, preguiçosamente, vejo o dia nascendo a minha volta. Faço isso rápido, pois o espaço é pequeno. Numa espreitadela consigo conferir o que rola por aqui. Quero despertar devagar, no entanto não me deixam. Os vizinhos de frente formam uma família grande; mal saem da cama e estão fazendo barulho. As crianças gritam, reclamam de fome, saem pra brincar, e eu os espio de longe.
Mais um dia igualzinho a todos os outros.
Levanto para o desjejum. Comida farta, porém já meio enjoativa; nunca muda. Como tudo, apesar da mesmice. Não vou deixar para as moscas. Gosto mais das frutas e detono tudo o que vem. Lambuzo os beiços, a cara, as mãos. De barriga cheia, volto a me recostar. De longe, quieto - enquanto posso - assisto a algazarra dos vizinhos.
Minha rotina é solitária.
Estou só, vivo só, apesar do movimento constante por aqui e das visitas diárias. Não tenho namorada, noiva ou esposa, muito menos filhos. Passo meus dias assim, entre deitar e levantar, comer, mirar alguma coisa ao meu redor, ver o céu, acompanhar o Sol passar por cima da goiabeira e cair do outro lado, atrás das patas-de-vaca, onde os sabiás laranjeira fazem coro na madrugada e no fim da tarde. Nos horários certos meu serviçal traz minhas refeições. Sou tratado com carinho e atenção. Tomo banhos regulares, sou medicado se adoeço.
Mas, não sou feliz.
O alarido do pessoal que para pra me ver me irrita ao limite. Já não bastasse os vizinhos em algazarra, tenho que aturar essa balbúrdia o dia todo. Ninguém me respeita. Gosto de brincar e de me relacionar, porém detesto ser incomodado durante meu sono. E às vezes, como qualquer ser, preciso de recolhimento, de ficar mudo no meu canto, simplesmente ficar ali, atendendo a necessidade do meu corpo.
Na verdade, quase enlouqueço.
Meus surtos são diários. Não tolero esse povo que vem me ver e fica me atirando coisas. Em resposta, grito, berro, bato no peito, corro de um lado para outro, atiro minhas próprias fezes pra ver se causo algum temor, ou repulsa. Ao invés de irem embora, acham graça, e riem, e gritam mais e mais, e me atiram pedras. Volto pro meu canto e daqui não saio, até que finalmente me deixem em paz. Não aguento viver esse estresse diário, contínuo. Será que nunca vai ter fim? Serei condenado a ficar o resto da minha vida exposto a tamanha desconsideração? E jaz faz anos, muitos anos, que me hospedarem nesse lugar esquisito. Está certo que fui salvo das maldades de um pessoal que me obrigava a horrores que nem gosto de lembrar, mas me trazer pra cá também não foi uma boa ideia.
Começa a escurecer.
O silêncio, aos poucos, torna a reinar. Espero mais um bocado, as crianças do vizinho caem no sono, e posso deitar sossegado para olhar as estrelas. Não é muito bom, não, porque as admiro apenas por um quadrado em cima da minha cabeça. Melhor assim do que quando chove e tenho de permanecer no meu cantinho, lá dentro, ainda mais isolado. Do jeito que estou agora, ouço as folhas das árvores se roçando ao sabor do vento, galos cantando lá longe, a água do riacho.
Adormeço.
Sonho que estou em casa e me confundo, pois aqui, onde vivo, chamam de minha casa. É outro lugar, aberto, de uma grandeza sem fim, e com milhares de árvores, tantas que nunca vi. Eu subo nelas, pego as frutas nos galhos, cochilo à sombra de grandes copas. Tenho família! Uma mulher, filhos, irmãos! Meu coração se enche de alegria, me emociono, quase choro. Pulo, corro, brinco com meus pequenos. Não há limites na imensidão que é a minha casa. Não fico doente, não surto. Minha vida é plena!
Acordo cedo.
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19 de janeiro de 2015

Tá na moda. Não, obrigada

Não gosto de moda. Pelo simples motivo de que coloca todo mundo igualzinho, inibe a diversidade de gostos, de preferências e de estilos. Tolhe vontades e impõe ao indivíduo o uso do que dita a tendência, independente de lhe cair bem ou não.

Na praia, no feriado de Ano Novo, dois modelos de biquíni marcaram presença. A cada cinco mulheres, quatro usavam os de babadinho no peito ou tomara-que-caia torcido entre os seios. E se uma mulher chega a uma loja hoje e pede algo diferente, não tem. “Mas esse é o que está usando!”. E se eu não quiser usar o que está usando?

Ainda sobre o biquíni, não gosto de alças que amarram atrás do pescoço. Primeiro, porque não aprecio marca de biquíni; segundo, porque me machucam um bocado. Prefiro as alças retas, como as de sutiã, bem finas, cujas marcas ficam devidamente ocultas. Não tem. Nunca tem.

A ditadura do cabelo liso é outro exemplo. E já falei um tanto sobre ela. Em algum momento alguém sentenciou que cabelo bonito é liso e pronto. Todas as mulheres decidiram ser iguais. Independente da textura dos fios, a ordem é alisar. E o que se vê são fios esticados, sem movimento, sem graça, sem modulação. Muitas delas ainda pintam de preto bem preto e é bom nem dizer aqui com que se assemelham.

Sem contar as meninas. Não consigo, por exemplo, diferenciar as amigas do meu filho. Salvo a namorada, que tem os cabelos na altura dos ombros, e outras exceções, todas tem o cabelo comprido e liso e se vestem bem parecidas. Ninguém mais quer divergir, ousar, ser autêntico, sair do padrão.

Minha maior dificuldade em relação ao cabelo foi encontrar uma profissional que gostasse e soubesse cuidar de cachos. Hoje em dia, basta entrar num salão para ouvir: “Chegou um produto novo que faz uma progressiva perfeita”. Não, obrigada, só quero tratar meus cachos. E recebo de volta um olhar de desprezo, um nariz torcido e um atendimento de má vontade. Certa vez fui a um salão arrumar as madeixas para um casamento. A cabeleireira mandou logo lavar para escova, sem me perguntar nada. Quando disse que queria cachos compostos e bonitos, tive de esperar quase meia hora, até que encontrassem o difusor esquecido no fundo de uma caixa.

Voltando à praia, outra coisa interessante que observei foi nome de cachorro, ou melhor, de cadela. De uma hora pra outra, parece que todas as cadelinhas do mundo passaram a se chamar Mel. Num único dia estava em companhia de três Mel à minha volta no quiosque: uma Duchshund, uma Yorkshire e uma Vira-lata. Sem contar as outras Mel que conheço.

E agora, falando dos homens: a tal da barba virou um furor. Gente, que engraçado, eles também ficam iguaizinhos, porque não se trata apenas de deixar crescer e escolher um formato de corte. É usar corte idêntico, todo mundo junto. O resultado, principalmente em grupo, é hilário.

Sem intenção de ferir o gosto ou o desejo de ninguém, quero apenas dizer que para os meus olhos moda é um negócio que faz mal, porque me confunde: fiquei zonza na praia ao ouvir tantas vezes numa tarde o nome Mel. Nesse mesmo passeio, para todos os lados que olhava havia um homem ou uma turma com a mesma barba - quem é quem? - e já falei aqui do quanto me custa diferenciar as amigas do meu filho. Além de me desorientar, atiça minha rebeldia. Desde sempre não me adapto a padrões. Basta ver que é tudo conforme, obediente a um dito qualquer, para que eu queira diferente. E se a moda é estar sempre dentro de um padrão, sou fora de moda, com muito gosto.
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9 de dezembro de 2014

Outra vez Natal

A alegria com esta época durou pouco. Quando comecei a ter noção do que era o Natal para o mundo lá fora e o que representava, realmente, comemorar o nascimento de Jesus, passei a desgostar gradativamente. Caio nessa mesmice ano a ano, mas não me canso de lamentar: não encontro o fundamento da comilança e bebelança em que se tornou o que antes se conhecia como a celebração no nascimento de Jesus.

Criada numa família católica, acostumei-me a acreditar nisso – e ainda creio. Penso que seja esse o motivo de tamanha aversão às festanças promovidas na madrugada de 25 de dezembro. Por mim, se seguisse apenas a minha vontade e os meus sentimentos mais íntimos, passava a noite de Natal em casa, em silêncio, sem agitação, quieta, meditando e agradecendo por tudo o que sou, pelas conquistas pessoais, a harmonia e o amor dentro do meu núcleo familiar, a saúde.

Também me repito com as críticas ao Natal brasileiro, comprado das culturas norte-americana e europeia. Sinto arrepios e calafrios ao entrar nos shoppings e ver a decoração inspirada no inverno polar: ursos brancos, muita neve, pinheiros e aquele Papai Noel vestido de veludo, vermelho de calor, brilhando de tanto suar. Cenário que seria surreal, se não estivesse tão naturalizado por aqui. Espero o dia em que verei um slogan parecido com “Natal tropical no shopping”. Seria o máximo.

No entanto tive filho e se tem um ser nessa vida que nos move a fazer concessões sorrindo de felicidade, é filho. Mesmo mantendo o que penso sobre o Natal de hoje, tento manter a tradição, estimulada pelo meu filho. Montamos árvore, decoramos a casa e a fachada. Instalamos luzes, como aquela estrela que, segundo a Bíblia, mostrou aos Reis Magos onde estava Jesus.

Vejo a casa toda iluminada e penso no que aprendi a acreditar. Uma crença que me faz muito bem. O Natal que resolvi construir pra mim é esse: tem luz ao meu redor, tem sossego, tem paz e serenidade. Não tem mágoa, não tem rancor, portanto não tenho ninguém a perdoar. Nada como o coração leve para, enfim, ver outro sentido nessa data tão importante para os cristãos, deturpada pelas exigências cada vez mais brutais do capitalismo. Exigências que cumpro, por certa elegância, digamos assim.

Estou sentada há horas, escrevendo. De vez em quando levanto o rosto e na direção dos meus olhos está a árvore de Natal. Tão moderninha, comprada pronta, cheia de laços, borboletas e bolas estilosas, me remete à infância, quando minha irmã mais velha saía em busca de um tronco seco adequado para montar a nossa árvore. Ela ‘plantava’ o tronco numa lata grande, cobria todos os galhos com algodão e pendurava as bolinhas, que eram de vidro e a mãe não me deixava chegar perto, pra não quebrar. O clima era outro. “Eu não sei por que a gente cresce...”, dizia muito bem Ataulfo Alves.

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27 de novembro de 2014

Por que precisamos tanto

Desde criança, por instinto, ou intuição, via nas árvores algo que me remetia a um sentimento bem fundo, “lá dentro”, como tentava explicar. Sensível, talvez pela idade, quando via um corte de galhos ou a derrubada de uma árvore inteira, doía, de verdade. Apertava os olhos, cerrava os dentes, comprimia os músculos, do mesmo jeito que se faz quando se contrai o corpo para contornar a sensação de dor.

Demorei muito para entender aquela percepção. Ou melhor, foram necessários os anos de leitura, estudo e aprendizado com a própria vida para compreender que não se pode prescindir delas. A partir delas que é ‘fabricada’ a água que se precipita em forma de chuva.

Florestas tropicais como a Amazônia produzem grandes quantidades de água por meio da evaporação de água na transpiração das folhas e vegetação em geral, criando nuvens de chuva que levam suprimentos vitais de água para outras regiões do país. Uma árvore adulta pode absorver do solo até 250 litros e transpirar até 60 litros de água por dia. Mais de dois bilhões de pessoas dependem das terras florestadas para proteger seus suprimentos de água. Regiões desmatadas podem perder até 90% da água da chuva.

A equação é simples; o entendimento, precário. Autoridades, profissionais técnicos de diversos segmentos, bandidos que assaltam as matas diariamente e, claro, os demais criminosos que permitem e fecham os olhos para a derrubada das florestas, trocam a compreensão de uma premência por interesses diversos.

Parece tão simplória essa fala. Porém, é dessa forma bem simples que se deve esclarecer por que precisamos de árvores, por que não tapar todo o solo com asfalto e cimento, por que defender cada arbusto contra cortes indiscriminados, por que brigar incansavelmente não só pela Floresta Amazônica, mas por qualquer concentração de mata, por menor que seja. Onde tem árvore, tem fabricação de água e de oxigênio.

Numa crônica de 2008, cito texto de Rubem Fonseca, “Pensamentos Imperfeitos”, no qual ele afirma ser impossível alguém que não goste de árvores: “Não falo do sujeito, índio ou não, que faz a queimada para plantar mandioca, soja, cana de açúcar ou lá o que for. Esse vai direto para o inferno, mesmo jurando para São Pedro que fazia isso para conseguir o leite das crianças. Falo das pessoas que me cercam, que vivem na minha cidade e não têm qualquer razão para destruir, desprezar, ou até mesmo ignorar a existência das árvores”.

Recentemente perguntei a uma conhecida por que tinha derrubado o sombreiro que há tantos anos estava lá, no jardim ao final da rua, de frente para sua varanda: “As raízes estavam entrando embaixo da casa e levantando o piso”. Ah, tá. E quem chegou primeiro? Por que não se pensou em um projeto para manter a árvore no seu lugar, sem prejudicar a edificação? Faltou arquiteto, boa vontade ou inteligência? E que tal não ter oferecido para venda aquele lote, porque havia uma árvore ali que deveria ser preservada? Já fiz perguntas semelhantes em ocasiões diversas. Jamais houve uma resposta convincente, nem do tipo: “é mais fácil cortar a árvore, que pensar”.

Pensar. É isso o que se está tentando ensinar a muitas crianças, nas poucas oportunidades em que professores conseguem com que os pequenos reflitam. É essa garotada, ainda, a melhor multiplicadora de informação, a que leva para casa a orientação para pais e irmãos. É preciso ouvi-los! É preciso insistir cada vez mais com essa geração. Pois pode ser ela que, para sobreviver, terá que usar a inteligência que desperdiçamos para encontrar a solução que não conseguimos até hoje. E olha que é fácil, muito fácil. No entanto, está ficando pra depois.
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12 de novembro de 2014

Caminho trágico

Chamam de adolescentes, mas, pra mim, são crianças. Aos 12, 13 anos, esses seres acabaram de sair das fraldas. Podem ter 15 ou 16, frequentar festas, beijar na boca, fazer sexo liberadamente, usar drogas, se prostituir, abortar, emocionalmente são crianças. A identidade está no comecinho de sua formação, os hormônios, em efervescência, provocam de tudo um pouco no corpo e no cérebro. Não há a menor chance de exigir equilíbrio, serenidade, raciocínio, projeção de futuro, noção de perigo. Eles são frágeis e, por mais que nos surpreendam com um crescimento físico veloz, precisam de ajuda, precisam ser supervisionados bem de perto.

Só que agora eles resolveram aderir à moda do suicídio.

Em Volta Redonda, no sul-fluminense, recentemente duas dessas crianças, de 15 anos - um menino e uma menina -, foram estimuladas a se matar. E se enforcaram em suas próprias casas, no curto espaço de oito dias. As investigações da polícia apontam para grupos de motivação, na rede social, criados e administrados com esse objetivo. Na verdade, seria um pacto de morte. Para os alunos das escolas onde estudavam, é certo que exista um jogo por trás disso e que outras mortes estariam para acontecer. Após o suicídio dos dois adolescentes, três grupos foram descobertos na cidade - até agora sem confirmação de que tivessem algo a ver com o caso. Um deles era administrado por uma menina de 12 anos.

Todo esse relato é pra lamentar o quanto de abandono sofrem essas crianças, ainda que cresçam em lares com famílias teoricamente harmônicas, sem privações de ordem financeira. Mais triste é constatar o alto nível de ignorância com que se trata assunto tão grave. Primeiro, por parte da própria sociedade, que não é capaz de vencer esse tabu. Do outro lado está a mídia, que sempre evitou a cobertura desse tipo de ocorrência, sob a justificativa de não promover o encorajamento. E há uma parcela considerável dos que se referem ao suicida como irresponsável, maluco, burro, numa intenção clara de desqualificar o indivíduo e sua atitude, isolando-o em sua ‘audácia’, quando o problema na verdade é de saúde pública e merece um debate amplo, para que muitos dos doentes a nossa volta possam ser ajudados e protegidos de si próprios.

Mais que adultos doentes, estamos falando de crianças desnorteadas pela própria condição que a faixa etária impõe, soltos à própria sorte, absolutamente mergulhados em celulares e seus aplicativos, fechados para o mundo, porém abertos a incentivos vários, não observados por pais ausentes, preocupados demais com suas próprias vidas. Ou não preocupados com coisa alguma.

Fico imaginando o tanto de solidão vivem essas crianças, com seus olhares atentos nas telas de seus aparelhos, acreditando em tudo o que veem ou leem, criando e vivendo em um mundo paralelo, no qual podem ser ‘entendidas’, enquanto pais, irmãos, tios, empregadas pensam que ‘assim estão bem; estão quietos e tranquilos’. Lembro a minha própria adolescência, quando não me sentia compreendida pelos meus pais e irmãos mais velhos, e me fechava em devaneios absurdos e desejos extremos nunca levados a cabo. A maior de todas as vontades era a de fugir para um lugar onde pudesse pensar por mim, livremente, ter minhas opiniões. Um lugar no qual não houvesse repressão ou opressão. Essa foi a minha realidade mental. Talvez possa dizer ‘que bom’ para o fato de não haver na época a internet.

Hoje o acesso e a recepção de todo e qualquer tipo de influência externa está ao alcance de um clique. E isso ocorre no momento em que o capital exige cada vez mais as famílias fora de casa. Como disse o delegado de Volta Redonda, Antônio Furtado, sobre a menina de 12 anos, “esses adolescentes necessitam de um acompanhamento psicológico, porque estão num caminho extremamente trágico”. Na minha humilde opinião, não só eles. 
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