21 de maio de 2016

Legados

Partiu de surpresa. Apesar da idade avançada, nunca se espera que alguém querido vá embora para sempre. Saúde em dia, uma cirurgia simples, sucesso no procedimento, previsão de alta, a pressão baixa, pneumonia, entra em choque, UTI, “Alô, o médico solicita a presença de alguém da família.”

Ainda o sentimento de frustração. E, de repente, o que dava sentido às vidas daquela família se vai. Deixa pra trás um legado de simplicidade, fé, religiosidade, liberdade, respeito ao outro (qualquer outro), educação, alegria de viver. Difícil descobrir sentidos novos a esta altura, no entanto, é o que se deve fazer agora.

A morte e o morrer sempre foram um sapo na garganta; decerto, não só pra mim. Desde sempre esse tema me cristaliza. Não tenho uma relação minimamente equilibrada com essa certeza, embora creia que haja um “lado de lá” e o prosseguimento da vida, de uma forma diferente. Acreditar faz muito bem, até que ela, a morte, resolve passar perto.

Não à toa os povoados antigos cresciam em torno de onde eram realizados os rituais fúnebres. Talvez tão marcante quanto o nascimento, a hora de se despedir de uma vida altera sentimentos e estados de consciência, cria e revolve dores. Ver inerte um corpo que foi tão próximo por 40, 50, 60 anos é mais que triste. Levanta uma série de questões nunca antes consideradas, que travam os dias, pois se emaranha com a saudade, a frustração, a angústia, a impotência. E tudo isso é luto. A hora de dormir é melancólica. A hora de acordar é confusa. As obrigações e compromissos da rotina exaurem além do que seria aceitável. A vontade de nada é imperiosa. “Chorar na cama, que é lugar quente” é o desejo tormentoso a cada hora da jornada que se recusa a passar. A espera é longa pelo tempo curador de todas as aflições.

No quarto dela há uma cômoda e sobre o móvel um modesto altar. Imagens de sua devoção católica e terços dispostos com zelo. Na parede, um espelho, e no canto do espelho, uma única foto, a minha, o meu rosto sorridente junto de suas fontes de força e graça. Nem eu mesma sei o quanto já chorei de emoção, alegria e gratidão por tanto amor, tanto carinho. A admiração que tinha por ela e que poucas vezes verbalizei, talvez por timidez, tem sua recíproca escancarada numa demonstração tão simples. Olhos molhados e nó na garganta a cada vez que me lembro daquele cenário.

O que a infalibilidade do destino espera de nós? Ou, o que devo esperar de mim, diante do inevitável? Posso dizer muito do que se repete por aí, sobre viver intensamente cada dia, comer melhor, valorizar a naturalidade, os pés no chão, desprender-me das exigências torpes da vida material, mandar esse capitalismo às favas e parar de correr atrás de sei lá o quê. Soa piegas, justo pelo tanto que se bate nesses temas a toda hora. Mas, olha, pode ser mesmo verdade. Viver mais de 90 anos com plena saúde, feliz, distribuindo sorrisos, e ir embora sem dever nada a si própria, é pra pouquíssimos. Penso que já esteja passando da hora de começar a correr atrás da concretude de uma vida rica de algo que possa deixar e também levar. Como ela soube fazer muito bem.
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19 de maio de 2016

Sem preconceito, mas, vai que..

Cheguei para a entrevista atrasada, correndo, bufando, e a surpresa foi completa quando encontrei o prefeito deitado dentro do carro, ocupando com o corpo as duas poltronas da frente, a cabeça pendendo para o lado de fora, de óculos escuros, mirando o céu. Mais calmo impossível e nós, trinta minutos depois da hora marcada, constrangidos.

- Bom dia, prefeito, desculpe o adiantado da hora.
- Problema nenhum. Estava aqui admirando o voo solitário de um urubu.
- (?)
- Minha mãe sempre dizia que quando a gente vê um urubu voando bem alto e sozinho, é sinal de notícia boa.

Surpresa de novo. A vida inteira, o que recebemos de informação sobre essa ave é que se trata de um bicho nojento, asqueroso, perigoso, que come lixo e carniça. É feio, tem um andar coxo, muito esquisito, chega a causar certo horror às vezes. Jamais imaginaria a possibilidade de boa coisa a caminho, mesmo sendo apenas superstição.

O encontro com o prefeito aconteceu faz quase vinte e cinco anos e, desde então, passei a observar melhor os urubus. Tentei reverter dentro de mim o preconceito, procurando saber mais sobre esse pobre animal, excluído de qualquer demonstração de apreço, consequente de seus hábitos.

O que mais gera repugnância no comportamento do urubu é sua preferência por carnes em estado de putrefação. Quando não encontra animais mortos, opta pela caça de bichos menores, como alguns roedores, sapos e lagartos. Porém, exatamente por comer animais mortos, é considerado necessário, até mesmo indispensável, por garantir o equilíbrio ecológico, livrando o ambiente de doenças facilmente dissemináveis. Pra piorar a situação do desventurado, ele não pode cantar, pois não possui órgão vocal específico. Portanto, grasna.

Destituída do preconceito, veio a compaixão. Todas as vezes em que vejo um urubu, tenho ímpeto de parar pra olhar. Pude conhecer um bem de perto num sítio, onde rolava um churrasco. A proprietária do local (pasmem!) tinha um urubu de estimação. Caíra no quintal quando filhote, foi tratado, alimentado e ficou. Claro que a única pessoa na festa que não sentiu repugnância pelo animal fui eu (confesso um medinho de me aproximar muito).

Recentemente li uma história em que o personagem narra sua própria morte, atacado por um bando de urubus que invadem o apartamento. A sequência é horripilante, devido aos pormenores do banquete. É mais um ponto a favor da ojeriza contra o animal já tão rejeitado – o autor não poderia, por exemplo, falar em corujas? Elas também comem carne.

E após tantos anos de reforma interior, treinando meu mais carinhoso olhar para os urubus, eis que o inesperado acontece. Ao volante, indo para o trabalho, avisto bem ao longe um solitário em voo alto. “Opa! Bom sinal! Que boa notícia será?”. Logo que me indaguei, ele foi baixando a altitude, ao mesmo tempo em que vinha na minha direção. Em questão de segundos estava à minha frente, forçando as asas para trás, na tentativa de parar e não conseguiu. Entrou embaixo do pneu dianteiro esquerdo, escutei (ou senti) um “crec” e ainda pude ver pelo retrovisor o infeliz estraçalhado na pista. Não contive o remorso: “Eu matei o urubuuuu! Eu matei o urubuuuuuuuu! Meu Deus, eu matei o urubu.”. Superstição ou não, além de chorar de pena do bicho, não deixei de cismar com um possível mau presságio; afinal, se o urubu voando alto prenuncia coisa boa, prefiro nem pensar no que possa significar esse mesmo urubu sendo assassinado por mim.
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13 de janeiro de 2016

Ruídos insones II

O ar condicionado.
O zumbido no meu ouvido.
Minha respiração.
A gata salta no piso do banheiro.
A descarga do vizinho, a torneira do vizinho.
O ronco do vizinho!
E meus pensamentos apressados e barulhentos.

O gato da rua mia no telhado.
A coruja pia na árvore em frente.
O vento agita a árvore em frente.
A TV ao longe, muito longe, é como um chiado.
Uma janela fecha. Ou abre.
O chuveiro pinga e pinga e pinga.
E meus pensamentos apressados e barulhentos.

E minhas dores, e meu passado, e o medo do futuro.
Tudo emaranhado em nós, rodando na cabeça,
conforme me movo na cama, a tentar
o conforto pra dormir.
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29 de dezembro de 2015

Não se vive sem

Saudade não é algo que se sente. Tenho pensado a respeito. Saudade é algo que está em si. Nasce-se com ela, vive-se com ela e vai-se embora da vida carregando-a junto.

O tempo todo há uma saudade presente, quase ostensiva, e às vezes nem parece sentimento; há momentos em que parece mesmo orgânica, que faz parte do corpo. Chego a imaginar que se ficar sem saudade dentro de mim, estarei como de luto. Seria o luto de saudade da saudade.

Ou seja, ela não sai, não vai embora, não é retirável, não morre com a morte, não se mata nunca. A saudade não se mata; é eterna.

Interessante é saber que o sentido ampliado da palavra saudade só existe pra nós, que a expressamos e a ‘sentimos em Português’. Originada no Latim, está, sim, em outras línguas, ao contrário do que se costuma afirmar. Porém, quer dizer mais exatamente a falta do lar, uma vontade de voltar à casa, uma solidão por isso. Já na Língua Portuguesa saudade que dizer muito mais: é dor de toda ausência, uma dor que se pode dizer prazerosa. Tão prazerosa que foi, é e será para sempre em versos, canções e prosa. E a rima aqui é proposital.

Vinicius cantou: “Chega de saudade / A realidade é que sem ela / Não há paz / Não há beleza / É só tristeza / É só tristeza e a melancolia / Que não sai de mim.”. E Djavan também: “Era tanta saudade / É pra matar / Eu fiquei até doente / Eu fiquei até doente, menina / Se eu não mato a saudade / É, deixa estar / A saudade mata a gente.”. Clarice abusou: “Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença.”. E Fernando Pessoa foi mais longe: “Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida.”.

É incurável, pois que está sempre aqui dentro, a lembrar algo que não terá mais volta. Ou terá, mas de outra forma ou em outro tempo, quem saberá? A gente sente saudade até de não sei quê.

Uma brisa fresca ao fim da tarde... saudade; por do sol no outono... saudade; céu estrelado em noite clara... saudade; música, perfume, comida, filme, andar na rua... saudade; sonhar dormindo ou acordada... saudade. Um nome que nunca ouvi antes... saudade.


Publicada originalmente na Revista Volta Cultural - Dezembro/2015 
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19 de dezembro de 2015

Dois tempos

- Mãe, sobe aqui, rápido! Você precisa ver isso!
- Que é? Está me assustando!
- Sobe, depressa!

Ele me mostra, da janela do quarto, o céu roxo que adoro, prestes a desabar em chuva. É quase possível sentir o peso da água, que a força da gravidade empurra pra baixo. Esqueço o estava fazendo e paro. Fico estática, diante do espetáculo que vai transformando a paisagem rapidamente. Admiro o contraste com as copas das árvores, com os telhados, os muros. E me causa imenso respeito o silêncio da natureza, a prenunciar a tempestade que se aproxima. Nem um pio da passarinhada costumeira.

A ventania traz as folhas da árvore em frente pra dentro do quintal. Roupas voam na corda e pra fora dela também. Aos primeiros trovões, ainda ao longe, os bichos de casa pressentem que lá vem problema e caçam cantos pra se esconder. Ouvem-se vidraças que se fecham na vizinhança e a mãe que grita à filha: “Essa porta batendo aí!”. E o que há pouco era nuvem encorpada desaba sobre nós.

A casa é quietude. Do sofá, através do vidro que ainda escorre, vejo gotas remanescentes da chuvarada de há pouco. O tempo para; já não há mais vento. Agora é calmaria. Não há som ligado, nem TV; os bichos dormem em volta. Silêncio ruidoso: na rua, passarinhos celebram o cair da tarde. Brincam nos galhos úmidos, tomam banho nas poças das folhas, fazem algazarra na água que desce pela canaleta. Passa um carro, passa outro, e se vai distante o ronco do motor subindo a rua até sumir. Ora uma criança dá sinal de vida num apartamento, ora um cachorro late ali embaixo.

Vem da cozinha o recomeço após a chuva. O movimento que já conheço da leiteira no fogão, do acendedor, a tampa. A torneira aberta lavando a garrafa. A gaveta de talheres, o pote que é aberto e em seguida fechado. Canecas retiradas do armário. O aroma inconfundível.

- Mãe, tá rolando um café fresco, vem pra cá!
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1 de setembro de 2015

De graça, não dá

Leio numa postagem na rede social uma oferta de emprego para repórter, em um jornal no interior do Estado. Contrata-se profissional ou estudante de 7º ou 8º período. Na hora pensei “E o salário, é o mesmo nos dois casos? A um jornalista experiente está sendo oferecida a mesma remuneração que será paga a um estudante?”. A gritaria foi inevitável nos comentários, a responsável pelo post tentou se justificar, mas não convenceu, só que, no fim das contas, apesar da indignação geral, lá estava ela de volta, agradecendo pelas dezenas de currículos recebidos.

As pessoas precisam dos empregos. Paguem o que pagarem, não dispensam a oportunidade. Não há espaço para debates éticos, coerência ou concorrência desleal. Aliás, imagino que muitos sequer aprenderam de que se trata tudo isso. É assim que a banda anda tocando faz tempo. 

Sem entrar no mérito da necessidade de sustento, penso na deseducação da sociedade, cujo cidadão chega a se permitir tais ações de desrespeito - consigo e com os outros -, por desconhecer interesse coletivo e o quanto isso acaba respingando nele lá na frente. Nossa cultura estimula o individualismo e tal comportamento está cada vez mais naturalizado. Quem se preocupa e se ocupa do bem-estar coletivo é um otário.

E dessa forma, enquanto profissionais de qualquer categoria se sujeitam a ser contratados pelo mínimo do mínimo, com seu salário equiparado ao de um estudante, sem levar em conta currículo, anos de experiência e qualificações, seguimos em queda livre no que tange à valorização do trabalho. Aliás, parece que isso é desejo de poucos, principalmente de  contratantes, que apertam o gargalo, forçando a aceitação de qualquer coisa em troca da minha mão de obra e, principalmente, do meu conhecimento. E cada vez mais deixam-se de contratar assessores de imprensa, por exemplo, porque dá pra aproveitar o “rapazinho do RH que escreve direitinho”.

Quase em todas as vezes que sou sondada para ministrar palestras ou oficinas, surpreendo o contratante no primeiro contato, ao comunicar que minha atividade é remunerada, como se precisasse avisar. E na maioria das vezes nem perguntam, como se estivessem me propondo um favor. São vinte e cinco anos de carreira, com milhares de horas dedicadas a leitura e estudo. Com exceção das palestras que faço sobre a minha experiência com o câncer de mama, e as propostas que já nascem beneficentes, tudo é trabalho. O problema - motivo deste texto - é o jornalista-escritor-poeta-palestrista-oficineiro que faz qualquer coisa por qualquer trocado, até por trocado nenhum. E então, quem estuda uma vida inteira para ter um conteúdo de qualidade a oferecer vale o quê mesmo? E qual o interesse do “profissional” em ministrar palestra ou oficina gratuitamente num evento patrocinado, de iniciativa privada? Vai saber… Como disse, mais adiante será ele próprio o prejudicado pelo costume do qual fez ou faz parte. Ou o cliente. E não sei o que é pior.

Meses atrás fui contratada para revisar um livro que já havia sido revisado por outra pessoa, mas o autor não ficara satisfeito. Pedira a um amigo da família que quebrasse o galho, pois esse tipo de serviço costuma sair caro; pensava que qualquer pessoa pudesse “dar uma olhadinha”, e tal. Pois é, caro sairia para ele, o autor, caso publicasse a obra.

De graça, não dá. O profissional cobra porque é qualificado para a atividade, pagou pela qualificação e se responsabiliza pelo trabalho que executa. Como aquele diálogo que circula na internet:

“Você ta me cobrando 50 reais por um serviço que faz em cinco minutos?”
“Não. Estou te cobrando só 50,00 pra fazer em cinco minutos uma atividade que levei anos para me qualificar pra fazer.”
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24 de agosto de 2015

Graciana Perpétua

O dia não tem nada de especial, não se trata de data comemorativa, aniversário, nada de significativo no calendário. De repente, uma aparição surge de um dos cantinhos da memória: uma senhorinha magra e alta no fundo do quintal, com uma das mãos às costas, na altura da cintura, e a outra acenando. O coquinho no cabelo branco ralo, os olhos verdes sempre muito vivos e o sorriso que trago de herança. 

Não quero entender por que, ao mudar de posição no sofá, a imagem da minha avó me visita sem aviso. Apenas paro a leitura e delicadamente recosto a cabeça pra não perder a lembrança da mãe de minha mãe, que me ocupa de repente. Curto a saudade, repasso bons momentos, os exemplos, a alegria, o temperamento forte e altivo de uma autêntica libriana.

Estivemos por pouco tempo juntas nesta vida. Os encontros eram semanais, por um dia ou dois. Às vezes era ela que vinha em casa, passava um tempo. Nessa convivência rara aprendi muito do que sei sobre viver com simplicidade, valorizar o que se tem, fazer o que é possível e ser feliz com tudo.

Era religiosa, benzedeira. Mantinha na sala do barraco um congá. Recebia as crianças das redondezas, trazidas pelos pais, que buscavam no oculto a solução para os males do corpo e dos ânimos exaltados. Com ramos de arruda e guiné na mão, rezava e afastava os maus fluidos. Sempre tinha um bom conselho, uma sugestão, uma dica.

Passei minha infância refém de alergias, me coçava inteira e ela, sempre muito paciente comigo, ensinava a massagear a pele, sem usar as unhas, pra não me machucar. No grande quintal de terra, alegrava-se ao me mostrar as margaridas em floração, ensinou o prazer de cultivar plantas e hortaliças. Semeou em mim o mesmo gosto.


Tinha doze anos quando ela encerrou seu ciclo na Terra. Não chorei pela morte, pelo término da existência física. Mesmo criança, sem noção clara do fim, senti pelo pouco tempo que tivemos; queria conversar mais, ver aquele riso debochado tanto mais, rir das piadas, ganhar abraços, beijos, afagos e broncas. Sentir o perfume nos cabelos, que só ela tinha, comer o arroz mais gostoso que já experimentei. Tão especial assim, fez jus à eternidade que trazia no nome. Estará para sempre na memória, no sangue, na firmeza de espírito para encarar a vida - seu maior legado em mim - até nos encontrarmos novamente. “Bença, vó!”


Publicada originalmente no Jornal Volta Cultural - Edição de Maio/2015
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26 de janeiro de 2015

Rotina cruel

Acordo cedo.
Antes de o Sol aparecer por trás da goiabeira, abro meus olhos e, preguiçosamente, vejo o dia nascendo a minha volta. Faço isso rápido, pois o espaço é pequeno. Numa espreitadela consigo conferir o que rola por aqui. Quero despertar devagar, no entanto não me deixam. Os vizinhos de frente formam uma família grande; mal saem da cama e estão fazendo barulho. As crianças gritam, reclamam de fome, saem pra brincar, e eu os espio de longe.
Mais um dia igualzinho a todos os outros.
Levanto para o desjejum. Comida farta, porém já meio enjoativa; nunca muda. Como tudo, apesar da mesmice. Não vou deixar para as moscas. Gosto mais das frutas e detono tudo o que vem. Lambuzo os beiços, a cara, as mãos. De barriga cheia, volto a me recostar. De longe, quieto - enquanto posso - assisto a algazarra dos vizinhos.
Minha rotina é solitária.
Estou só, vivo só, apesar do movimento constante por aqui e das visitas diárias. Não tenho namorada, noiva ou esposa, muito menos filhos. Passo meus dias assim, entre deitar e levantar, comer, mirar alguma coisa ao meu redor, ver o céu, acompanhar o Sol passar por cima da goiabeira e cair do outro lado, atrás das patas-de-vaca, onde os sabiás laranjeira fazem coro na madrugada e no fim da tarde. Nos horários certos meu serviçal traz minhas refeições. Sou tratado com carinho e atenção. Tomo banhos regulares, sou medicado se adoeço.
Mas, não sou feliz.
O alarido do pessoal que para pra me ver me irrita ao limite. Já não bastasse os vizinhos em algazarra, tenho que aturar essa balbúrdia o dia todo. Ninguém me respeita. Gosto de brincar e de me relacionar, porém detesto ser incomodado durante meu sono. E às vezes, como qualquer ser, preciso de recolhimento, de ficar mudo no meu canto, simplesmente ficar ali, atendendo a necessidade do meu corpo.
Na verdade, quase enlouqueço.
Meus surtos são diários. Não tolero esse povo que vem me ver e fica me atirando coisas. Em resposta, grito, berro, bato no peito, corro de um lado para outro, atiro minhas próprias fezes pra ver se causo algum temor, ou repulsa. Ao invés de irem embora, acham graça, e riem, e gritam mais e mais, e me atiram pedras. Volto pro meu canto e daqui não saio, até que finalmente me deixem em paz. Não aguento viver esse estresse diário, contínuo. Será que nunca vai ter fim? Serei condenado a ficar o resto da minha vida exposto a tamanha desconsideração? E jaz faz anos, muitos anos, que me hospedarem nesse lugar esquisito. Está certo que fui salvo das maldades de um pessoal que me obrigava a horrores que nem gosto de lembrar, mas me trazer pra cá também não foi uma boa ideia.
Começa a escurecer.
O silêncio, aos poucos, torna a reinar. Espero mais um bocado, as crianças do vizinho caem no sono, e posso deitar sossegado para olhar as estrelas. Não é muito bom, não, porque as admiro apenas por um quadrado em cima da minha cabeça. Melhor assim do que quando chove e tenho de permanecer no meu cantinho, lá dentro, ainda mais isolado. Do jeito que estou agora, ouço as folhas das árvores se roçando ao sabor do vento, galos cantando lá longe, a água do riacho.
Adormeço.
Sonho que estou em casa e me confundo, pois aqui, onde vivo, chamam de minha casa. É outro lugar, aberto, de uma grandeza sem fim, e com milhares de árvores, tantas que nunca vi. Eu subo nelas, pego as frutas nos galhos, cochilo à sombra de grandes copas. Tenho família! Uma mulher, filhos, irmãos! Meu coração se enche de alegria, me emociono, quase choro. Pulo, corro, brinco com meus pequenos. Não há limites na imensidão que é a minha casa. Não fico doente, não surto. Minha vida é plena!
Acordo cedo.
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19 de janeiro de 2015

Tá na moda. Não, obrigada

Não gosto de moda. Pelo simples motivo de que coloca todo mundo igualzinho, inibe a diversidade de gostos, de preferências e de estilos. Tolhe vontades e impõe ao indivíduo o uso do que dita a tendência, independente de lhe cair bem ou não.

Na praia, no feriado de Ano Novo, dois modelos de biquíni marcaram presença. A cada cinco mulheres, quatro usavam os de babadinho no peito ou tomara-que-caia torcido entre os seios. E se uma mulher chega a uma loja hoje e pede algo diferente, não tem. “Mas esse é o que está usando!”. E se eu não quiser usar o que está usando?

Ainda sobre o biquíni, não gosto de alças que amarram atrás do pescoço. Primeiro, porque não aprecio marca de biquíni; segundo, porque me machucam um bocado. Prefiro as alças retas, como as de sutiã, bem finas, cujas marcas ficam devidamente ocultas. Não tem. Nunca tem.

A ditadura do cabelo liso é outro exemplo. E já falei um tanto sobre ela. Em algum momento alguém sentenciou que cabelo bonito é liso e pronto. Todas as mulheres decidiram ser iguais. Independente da textura dos fios, a ordem é alisar. E o que se vê são fios esticados, sem movimento, sem graça, sem modulação. Muitas delas ainda pintam de preto bem preto e é bom nem dizer aqui com que se assemelham.

Sem contar as meninas. Não consigo, por exemplo, diferenciar as amigas do meu filho. Salvo a namorada, que tem os cabelos na altura dos ombros, e outras exceções, todas tem o cabelo comprido e liso e se vestem bem parecidas. Ninguém mais quer divergir, ousar, ser autêntico, sair do padrão.

Minha maior dificuldade em relação ao cabelo foi encontrar uma profissional que gostasse e soubesse cuidar de cachos. Hoje em dia, basta entrar num salão para ouvir: “Chegou um produto novo que faz uma progressiva perfeita”. Não, obrigada, só quero tratar meus cachos. E recebo de volta um olhar de desprezo, um nariz torcido e um atendimento de má vontade. Certa vez fui a um salão arrumar as madeixas para um casamento. A cabeleireira mandou logo lavar para escova, sem me perguntar nada. Quando disse que queria cachos compostos e bonitos, tive de esperar quase meia hora, até que encontrassem o difusor esquecido no fundo de uma caixa.

Voltando à praia, outra coisa interessante que observei foi nome de cachorro, ou melhor, de cadela. De uma hora pra outra, parece que todas as cadelinhas do mundo passaram a se chamar Mel. Num único dia estava em companhia de três Mel à minha volta no quiosque: uma Duchshund, uma Yorkshire e uma Vira-lata. Sem contar as outras Mel que conheço.

E agora, falando dos homens: a tal da barba virou um furor. Gente, que engraçado, eles também ficam iguaizinhos, porque não se trata apenas de deixar crescer e escolher um formato de corte. É usar corte idêntico, todo mundo junto. O resultado, principalmente em grupo, é hilário.

Sem intenção de ferir o gosto ou o desejo de ninguém, quero apenas dizer que para os meus olhos moda é um negócio que faz mal, porque me confunde: fiquei zonza na praia ao ouvir tantas vezes numa tarde o nome Mel. Nesse mesmo passeio, para todos os lados que olhava havia um homem ou uma turma com a mesma barba - quem é quem? - e já falei aqui do quanto me custa diferenciar as amigas do meu filho. Além de me desorientar, atiça minha rebeldia. Desde sempre não me adapto a padrões. Basta ver que é tudo conforme, obediente a um dito qualquer, para que eu queira diferente. E se a moda é estar sempre dentro de um padrão, sou fora de moda, com muito gosto.
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9 de dezembro de 2014

Outra vez Natal

A alegria com esta época durou pouco. Quando comecei a ter noção do que era o Natal para o mundo lá fora e o que representava, realmente, comemorar o nascimento de Jesus, passei a desgostar gradativamente. Caio nessa mesmice ano a ano, mas não me canso de lamentar: não encontro o fundamento da comilança e bebelança em que se tornou o que antes se conhecia como a celebração no nascimento de Jesus.

Criada numa família católica, acostumei-me a acreditar nisso – e ainda creio. Penso que seja esse o motivo de tamanha aversão às festanças promovidas na madrugada de 25 de dezembro. Por mim, se seguisse apenas a minha vontade e os meus sentimentos mais íntimos, passava a noite de Natal em casa, em silêncio, sem agitação, quieta, meditando e agradecendo por tudo o que sou, pelas conquistas pessoais, a harmonia e o amor dentro do meu núcleo familiar, a saúde.

Também me repito com as críticas ao Natal brasileiro, comprado das culturas norte-americana e europeia. Sinto arrepios e calafrios ao entrar nos shoppings e ver a decoração inspirada no inverno polar: ursos brancos, muita neve, pinheiros e aquele Papai Noel vestido de veludo, vermelho de calor, brilhando de tanto suar. Cenário que seria surreal, se não estivesse tão naturalizado por aqui. Espero o dia em que verei um slogan parecido com “Natal tropical no shopping”. Seria o máximo.

No entanto tive filho e se tem um ser nessa vida que nos move a fazer concessões sorrindo de felicidade, é filho. Mesmo mantendo o que penso sobre o Natal de hoje, tento manter a tradição, estimulada pelo meu filho. Montamos árvore, decoramos a casa e a fachada. Instalamos luzes, como aquela estrela que, segundo a Bíblia, mostrou aos Reis Magos onde estava Jesus.

Vejo a casa toda iluminada e penso no que aprendi a acreditar. Uma crença que me faz muito bem. O Natal que resolvi construir pra mim é esse: tem luz ao meu redor, tem sossego, tem paz e serenidade. Não tem mágoa, não tem rancor, portanto não tenho ninguém a perdoar. Nada como o coração leve para, enfim, ver outro sentido nessa data tão importante para os cristãos, deturpada pelas exigências cada vez mais brutais do capitalismo. Exigências que cumpro, por certa elegância, digamos assim.

Estou sentada há horas, escrevendo. De vez em quando levanto o rosto e na direção dos meus olhos está a árvore de Natal. Tão moderninha, comprada pronta, cheia de laços, borboletas e bolas estilosas, me remete à infância, quando minha irmã mais velha saía em busca de um tronco seco adequado para montar a nossa árvore. Ela ‘plantava’ o tronco numa lata grande, cobria todos os galhos com algodão e pendurava as bolinhas, que eram de vidro e a mãe não me deixava chegar perto, pra não quebrar. O clima era outro. “Eu não sei por que a gente cresce...”, dizia muito bem Ataulfo Alves.

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27 de novembro de 2014

Por que precisamos tanto

Desde criança, por instinto, ou intuição, via nas árvores algo que me remetia a um sentimento bem fundo, “lá dentro”, como tentava explicar. Sensível, talvez pela idade, quando via um corte de galhos ou a derrubada de uma árvore inteira, doía, de verdade. Apertava os olhos, cerrava os dentes, comprimia os músculos, do mesmo jeito que se faz quando se contrai o corpo para contornar a sensação de dor.

Demorei muito para entender aquela percepção. Ou melhor, foram necessários os anos de leitura, estudo e aprendizado com a própria vida para compreender que não se pode prescindir delas. A partir delas que é ‘fabricada’ a água que se precipita em forma de chuva.

Florestas tropicais como a Amazônia produzem grandes quantidades de água por meio da evaporação de água na transpiração das folhas e vegetação em geral, criando nuvens de chuva que levam suprimentos vitais de água para outras regiões do país. Uma árvore adulta pode absorver do solo até 250 litros e transpirar até 60 litros de água por dia. Mais de dois bilhões de pessoas dependem das terras florestadas para proteger seus suprimentos de água. Regiões desmatadas podem perder até 90% da água da chuva.

A equação é simples; o entendimento, precário. Autoridades, profissionais técnicos de diversos segmentos, bandidos que assaltam as matas diariamente e, claro, os demais criminosos que permitem e fecham os olhos para a derrubada das florestas, trocam a compreensão de uma premência por interesses diversos.

Parece tão simplória essa fala. Porém, é dessa forma bem simples que se deve esclarecer por que precisamos de árvores, por que não tapar todo o solo com asfalto e cimento, por que defender cada arbusto contra cortes indiscriminados, por que brigar incansavelmente não só pela Floresta Amazônica, mas por qualquer concentração de mata, por menor que seja. Onde tem árvore, tem fabricação de água e de oxigênio.

Numa crônica de 2008, cito texto de Rubem Fonseca, “Pensamentos Imperfeitos”, no qual ele afirma ser impossível alguém que não goste de árvores: “Não falo do sujeito, índio ou não, que faz a queimada para plantar mandioca, soja, cana de açúcar ou lá o que for. Esse vai direto para o inferno, mesmo jurando para São Pedro que fazia isso para conseguir o leite das crianças. Falo das pessoas que me cercam, que vivem na minha cidade e não têm qualquer razão para destruir, desprezar, ou até mesmo ignorar a existência das árvores”.

Recentemente perguntei a uma conhecida por que tinha derrubado o sombreiro que há tantos anos estava lá, no jardim ao final da rua, de frente para sua varanda: “As raízes estavam entrando embaixo da casa e levantando o piso”. Ah, tá. E quem chegou primeiro? Por que não se pensou em um projeto para manter a árvore no seu lugar, sem prejudicar a edificação? Faltou arquiteto, boa vontade ou inteligência? E que tal não ter oferecido para venda aquele lote, porque havia uma árvore ali que deveria ser preservada? Já fiz perguntas semelhantes em ocasiões diversas. Jamais houve uma resposta convincente, nem do tipo: “é mais fácil cortar a árvore, que pensar”.

Pensar. É isso o que se está tentando ensinar a muitas crianças, nas poucas oportunidades em que professores conseguem com que os pequenos reflitam. É essa garotada, ainda, a melhor multiplicadora de informação, a que leva para casa a orientação para pais e irmãos. É preciso ouvi-los! É preciso insistir cada vez mais com essa geração. Pois pode ser ela que, para sobreviver, terá que usar a inteligência que desperdiçamos para encontrar a solução que não conseguimos até hoje. E olha que é fácil, muito fácil. No entanto, está ficando pra depois.
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12 de novembro de 2014

Caminho trágico

Chamam de adolescentes, mas, pra mim, são crianças. Aos 12, 13 anos, esses seres acabaram de sair das fraldas. Podem ter 15 ou 16, frequentar festas, beijar na boca, fazer sexo liberadamente, usar drogas, se prostituir, abortar, emocionalmente são crianças. A identidade está no comecinho de sua formação, os hormônios, em efervescência, provocam de tudo um pouco no corpo e no cérebro. Não há a menor chance de exigir equilíbrio, serenidade, raciocínio, projeção de futuro, noção de perigo. Eles são frágeis e, por mais que nos surpreendam com um crescimento físico veloz, precisam de ajuda, precisam ser supervisionados bem de perto.

Só que agora eles resolveram aderir à moda do suicídio.

Em Volta Redonda, no sul-fluminense, recentemente duas dessas crianças, de 15 anos - um menino e uma menina -, foram estimuladas a se matar. E se enforcaram em suas próprias casas, no curto espaço de oito dias. As investigações da polícia apontam para grupos de motivação, na rede social, criados e administrados com esse objetivo. Na verdade, seria um pacto de morte. Para os alunos das escolas onde estudavam, é certo que exista um jogo por trás disso e que outras mortes estariam para acontecer. Após o suicídio dos dois adolescentes, três grupos foram descobertos na cidade - até agora sem confirmação de que tivessem algo a ver com o caso. Um deles era administrado por uma menina de 12 anos.

Todo esse relato é pra lamentar o quanto de abandono sofrem essas crianças, ainda que cresçam em lares com famílias teoricamente harmônicas, sem privações de ordem financeira. Mais triste é constatar o alto nível de ignorância com que se trata assunto tão grave. Primeiro, por parte da própria sociedade, que não é capaz de vencer esse tabu. Do outro lado está a mídia, que sempre evitou a cobertura desse tipo de ocorrência, sob a justificativa de não promover o encorajamento. E há uma parcela considerável dos que se referem ao suicida como irresponsável, maluco, burro, numa intenção clara de desqualificar o indivíduo e sua atitude, isolando-o em sua ‘audácia’, quando o problema na verdade é de saúde pública e merece um debate amplo, para que muitos dos doentes a nossa volta possam ser ajudados e protegidos de si próprios.

Mais que adultos doentes, estamos falando de crianças desnorteadas pela própria condição que a faixa etária impõe, soltos à própria sorte, absolutamente mergulhados em celulares e seus aplicativos, fechados para o mundo, porém abertos a incentivos vários, não observados por pais ausentes, preocupados demais com suas próprias vidas. Ou não preocupados com coisa alguma.

Fico imaginando o tanto de solidão vivem essas crianças, com seus olhares atentos nas telas de seus aparelhos, acreditando em tudo o que veem ou leem, criando e vivendo em um mundo paralelo, no qual podem ser ‘entendidas’, enquanto pais, irmãos, tios, empregadas pensam que ‘assim estão bem; estão quietos e tranquilos’. Lembro a minha própria adolescência, quando não me sentia compreendida pelos meus pais e irmãos mais velhos, e me fechava em devaneios absurdos e desejos extremos nunca levados a cabo. A maior de todas as vontades era a de fugir para um lugar onde pudesse pensar por mim, livremente, ter minhas opiniões. Um lugar no qual não houvesse repressão ou opressão. Essa foi a minha realidade mental. Talvez possa dizer ‘que bom’ para o fato de não haver na época a internet.

Hoje o acesso e a recepção de todo e qualquer tipo de influência externa está ao alcance de um clique. E isso ocorre no momento em que o capital exige cada vez mais as famílias fora de casa. Como disse o delegado de Volta Redonda, Antônio Furtado, sobre a menina de 12 anos, “esses adolescentes necessitam de um acompanhamento psicológico, porque estão num caminho extremamente trágico”. Na minha humilde opinião, não só eles. 
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4 de novembro de 2014

No modo ‘pause’

Tem sido difícil encontrar inspiração para escrever crônicas. Por mais que tente mudar de assunto, entre simples rabiscos e textos quase concluídos, acabo caindo na temática pisada e repisada da política despolitizada dos últimos dias (ou de sempre, como queira). A frustração, a decepção, a surpresa e estupefacção me tomaram de tal modo, que o senso criativo ficou comprometido, impedido de vagar por outras paragens senão a grave preocupação com a sociedade em que vivo e por qual brigo diariamente.

Leio e releio obras inspiradoras de Rubem Braga, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Drummond, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, numa tentativa vã de recobrar a capacidade de contemplação e abstração, necessárias ao discurso leve da crônica. Volto aos dias de infância, rememoro datas, revejo amigos e revivo momentos passados, porém quando retorno a este lugar em que estou, a realidade não me permite tirar os pés do chão, ou melhor, não me permite soltar a mente e as mãos.

Não me saem da cabeça incoerência, preconceito, intolerância, homofobia, misoginia, falta de educação, falta de leitura, falta de conhecimento político básico, truculência, fascismo, agressividade, violência, estupidez, imbecilidade, falta de vergonha por tudo isso.

Como disse um amigo próximo que sofreu os dias sombrios da ditadura, não dá pra “cantar o por do sol, com seus raios batendo nas quaresmeiras em flor à beira da estrada de Santos”, com a densidade da própria vida ao nosso redor, clamando nossas vozes em coro.

É o que me ocorre agora. Após tanto despautério acontecendo diante dos meus olhos, depois de assistir, assombrada, a uma horda de alucinados gritando por intervenção militar na avenida principal da maior metrópole do país, no momento em que meu país luta a duras penas para consolidar uma democracia tão suada pra ser conquistada, só mesmo o descanso da mente. “O acrobata pede desculpas e cai”, diz Fausto Wolff.

É preciso tempo. Eu preciso de tempo. Ainda não digeri ou vomitei tudo o que entalou na garganta. Ainda não descobri o que fazer com tudo isso que está assustadoramente aí. Ainda não pude entender o que faz um deputado ir armado a uma manifestação que se nomeia pacífica (embora berre pelo retorno do que tivemos de mais violento na nossa história recente). Não alcanço a compreensão de tamanho desvio psíquico que acomete a tanta gente ao mesmo tempo.

Aos poucos, as ideias vão retomar seu lugar de sempre; devagarinho vou conseguir novamente discernir o que é lá e o que é cá e minha observação poética do cotidiano pode ocupar novamente seu local de destaque. Talvez – quem sabe? – tenha a capacidade magistral de transformar toda essa lástima em ironia e graça, a exemplo do que fizeram e fazem grandes cronistas da nossa história – atualmente brilham nesse cenário Antônio Prata e Gregório Duvivier.

No entanto, confesso que ainda amargo o susto dos acontecimentos recentes. Meu sistema permanece no modo ‘pause’, enquanto a fita (que coisa mais coisa antiga!) é rebobinada. Só espero que não embole.
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23 de setembro de 2014

Uns e outros

Dez e trinta da manhã e a pequena lanchonete da recepção do hospital está lotada. Sentados ou de pé, pacientes que se submeteram a exames fazem seu desjejum; acompanhantes em compasso de espera; visitantes. Do lado de dentro do balcão, três atendentes – uma no caixa, duas preparando cafés e servindo salgados e sanduíches – se esforçam ao máximo para dar conta do recado, sem se estressarem, com sorrisão aberto nas faces, dinâmicas, concentradas, educadas. A fila do caixa cresce. Parte dos clientes aguarda, enquanto outros já fazem seus lanches, todos em silêncio.

Estou na fila do caixa para tirar minha ficha. Como tantos outros, estava também em jejum, acabara de sair de uma ressonância magnética e iria resolver ali mesmo a carência do meu estômago, antes de tocar a segunda-feira adiante. À minha frente, três pessoas; exatamente diante de mim, uma mulher usando lenço na cabeça, rosto redondo, sem sobrancelhas, pele com cor indefinida. Rapidamente se reconhece uma paciente em tratamento contra o câncer.

De repente, um sobressalto. Às minhas costas uma cliente reclama, em alto e bom som, do atendimento. Diz que tem pressa, que não pode ficar ali, que é tudo muito lento, que é uma falta de respeito. Viro-me lentamente, sem crer no escândalo, olho direto nos olhos dela, que me encara e continua, em busca de apoio: “Isso cabe reclamação formal, você não acha? Estou me sentindo lesada, vê se pode, tenho o que fazer, não posso perder tanto tempo”. Volto a cabeça e assim permaneço. Ela não para. E a palavra ‘absurdo' e a expressão ‘falta de respeito’ são repetidas a cada fim de frase.

Atrás do balcão, as três atendentes continuam sorridentes, plácidas, apressadas e concentradas. Não podem sequer se dar ao luxo de olhar e torcer o nariz. Do lado de fora, tudo como antes. Silêncio, paciência, tolerância, compreensão. De cabeça baixa, a maioria toma seu café, fingindo não estar ali, quem sabe sofrendo de vergonha alheia ou apenas respeitando o local em que estamos. Ainda na fila, de novo a cidadã discorre uma lista de impropérios, desiste e vai embora. A fila anda. As pessoas se olham disfarçadamente, ao mesmo tempo em que a paciente à minha frente, já na sua vez, no caixa, encerra a questão: “E eu agora vou entrar pra fazer uma seção de quimioterapia.”.


Crônica publicada originalmente no jornal Volta Cultural - setembro/2014
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18 de agosto de 2014

Egoísta ou sem educação?

Sempre que estou no trânsito e me revolto com aquele motorista abusado, com instinto de superioridade, divago entre falta de educação e egoísmo. Tento, em vão, chegar a alguma conclusão sobre de onde viria comportamento tão esdrúxulo no espaço coletivo. Poderia se originar da criação precária, em que não se aprende a respeitar o outro; poderia vir da má índole mesmo, afinal; ou o cara é na verdade um egoísta simples, daquele que não enxerga um palmo adiante, ao lado ou a qualquer distância além de dois centímetros do próprio umbigo. O medíocre.

Certa vez, de carona com um conhecido, passei todo o trajeto assustada, desconfortável e constrangida. O cidadão dirigia com a mão esquerda no volante e a direita na buzina, forçava passagem, não permitia que fosse ultrapassado, mesmo que o outro carro estivesse com mais da metade à frente. Cortava pelo acostamento, não dava a preferência aos mais frágeis – pedestres e ciclistas – xingava, esbravejava. Parecia estar numa guerra e seu único objetivo era vencer. Em algum momento resolvi comentar algo do tipo “não costumo fazer isso”, ao que ele respondeu de imediato: “É, mulher é assim mesmo...”

A questão não é de gênero. Trata-se de educação. Não costumo fazer nada do que ele faz por educação. Apenas isso.

E volto ao início desta conversa: falta de educação ou egoísmo? Existiria um ser tão egoísta que não pudesse ser educado devidamente e mudar sua forma de se ver e de ver o mundo? Poderia, então, sugerir que todo egoísta é mal educado? Ou todo mal educado é egoísta? E, finalmente, haveria solução para os problemas do trânsito que, tanto quanto o excesso de veículos nas ruas, são originários do mau comportamento dos motoristas, ao negligenciarem um espaço que é de todos?

Ainda pior é o egoísmo oculto: o indivíduo se posiciona de forma educada frente a seus semelhantes; é aquele que “não faz mal a ninguém, mas também não faz o bem”. Explico: é o tipo de pessoa que vive sua vidinha certinha, no entanto não levanta os olhos para o que ocorre a sua volta. Está sempre a repetir: “ainda bem que não é comigo”, “ainda bem que não é com minha filha”, “não quero nem saber, já que tô aqui quietinho, ganhando meu dinheirinho”, “trabalho todos os dias honestamente, não roubo nada de ninguém; fecho minha porta e minhas janelas e estou em paz”, “sou um cidadão de bem, esse problema não é meu”.

Por se considerar tudo isso, pensa que pode fazer o que bem entender: é aquele que não cuida do próprio lixo e o despeja de qualquer jeito na calçada em frente, do outro lado da via (quando não pendura na árvore); leva animal pra passear e não recolhe o cocô; é contra o trânsito de ônibus na sua rua, principalmente os que vêm da periferia da cidade; contrata carroceiro pra recolher entulho de obra e nem quer saber se o lixo será despejado no rio, na calada da noite; maltrata cachorro; mata gato; para o carro em fila dupla em avenida de tráfego intenso e ainda sai do veículo; promove rinha de galo ou briga de cães; transforma a sala do cinema em uma lixeira e ensina os filhos a fazerem o mesmo; estaciona o carro na porta de casa, mesmo não sendo vaga, atrapalhando o vizinho de frente a entrar com o seu veículo na garagem; joga lixo pela janela do carro (importado e branco); para o carro quase à meia-noite em frente a prédio em bairro residencial e esquece a mão na buzina, para chamar o morador do sexto andar (campainha? oi?); faz obra dentro de casa e vira massa no meio da rua; reclama que o poder público não cuida de nada e joga sofá no rio; reclama da enchente e joga lixo na rua; toca a vida com base em favores para benefício próprio; queixa-se do político corrupto, mas se estivesse no lugar dele, faria pior; defende a maioridade penal, ao mesmo tempo em que ensina o filho adolescente a ser um playboy, irresponsável, desrespeitoso, inconsequente, por quem vai pagar o que for preciso, para liberar da cadeia quantas vezes for necessário; bate na mulher.

A lista é interminável. Só de reler esse pouco já cansa, revolta. Entendidos em literatura poderiam dizer que isso não é uma crônica, pois não trata de contemplação, não tem humor e blá-blá-blá. Por outro lado, se crônica é o retrato do cotidiano, está aí o nosso, bem claro, bem real, bem egoísta, bem sem educação. Salvos alguns sobreviventes.
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2 de junho de 2014

Sem donos

“Não posso perder esse marido! Dependo dele pra sobreviver!”

Acalmem-se, feministas de plantão. A frase acima encerrou um papo rápido no bufê de um restaurante, após minha surpresa com o total desconhecimento de uma colega de trabalho a respeito dos legumes expostos.

- Hhuumm... O que é isso?

- Uai, não conhece batata?

- Conheço quase nada. Não entro na cozinha, não vou a supermercado, nunca cozinhei na vida, nunca aprendi. Olho para esse monte de vegetal aí e sou capaz de reconhecer só a batata, às vezes. E olhe lá.

- Jura? Como você faz em casa?

- Meu marido cozinha. Adora cozinhar. É ele quem faz tudo desde que nos casamos, há vinte e sete anos.

- Gente! Que sensacional!

- Pois é, menina, tenho que cuidar dele direitinho, né? Não posso perder esse marido! Dependo dele pra sobreviver!

A naturalidade é tanta, que senti inveja. Sei cozinhar, mas não gosto. Quando estou a fim, preparo algo para satisfazer um desejo passageiro meu ou de alguém de casa e pronto. Só que a obrigação imposta pela sociedade machista (leia-se: mãe) nos coloca em desconforto até para dizer isso livremente, sem causar um mínimo de espanto, por meio de um olhar de reprovação ou um “Nossa!”. Minha amiga foi além: assume que não sabe, se deu liberdade para continuar não sabendo e se diverte em contar.

Durante anos, nos almoços em família - esses em que cada uma leva um prato - optava por levar o sorvete. Era só passar na padaria, comprar dois potes e estava resolvida a minha colaboração. É tão difícil entender que a pessoa não gosta de cozinhar, que a reação é sempre meio debochada, de desqualificação e redução, como se cometesse uma falta imperdoável e, por isso, fosse ‘menor’ que o resto da humanidade. Até que num domingo, ao dispararem o palavrório de sempre, ouviram como resposta: “Vocês estão com a barriga encostada no fogão desde cedo, né? Então, que pena. Passei a manhã i-n-t-e -i-r-a namorando, embaixo do edredom. Taí o sorvete!”

A recriminação alheia é gritante com mulheres que não ‘cumprem seu papel’, conforme exige essa cultura tosca, ainda no século 21. E elas continuam se dobrando. É triste ver mulher que nos dias de hoje se obriga a preparar e servir o jantar ao marido, após chegar exausta do trabalho (disse ‘se obriga’, é bom frisar). Lamentável existir mulher que trata seu companheiro como filho. Sem contar aquela que tem patrão em lugar do homem com quem deveria compartilhar uma vida por amor.

Mulheres permanecem sendo serviçais porque continuam sendo educadas para tal e não conhecem outra forma de viver. Costumo dizer que não nasci com vocação para esposa. Amém que me casei com um homem sem talento pra marido. Uma convivência ideal, sem obrigações excessivas unilaterais. Ambos são responsáveis pela casa. Claro que há muito que aprender, porém, apenas o fato de o indivíduo se dispor a se desobrigar já é um grande avanço. Porque somos iguais, com direitos iguais, sem donos. Simples assim.
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26 de maio de 2014

Sua mãe não ensinou?

O relógio despertaria às 6h, horário em que somente os santos despertam, porque têm de render a turma de proteção dos mortais que trabalhou na madrugada. Fora esses, ninguém mais merece sair da cama antes de o sol dar as caras.

Além da hora ingrata, soma-se o compromisso de trabalho, a ansiedade, a expectativa, estar fora de casa, sozinha num quarto de hotel, colchão e travesseiros estranhos. Tudo conspirando para uma noite de batalha entre o sono e a espera pelo dia seguinte.

Uma hora: sede.

Uma e quinze: estrondos na rua, parecidos com tiros.

Uma e vinte: abrem-se janelas no andar de cima.

Uma e trinta: o hóspede do quarto ao lado chega e liga a TV.

Ele não quer se sentir só. Quer a companhia da televisão e, ainda, compartilhar seu programa comigo, talvez com todo o andar. No meu caso, o agravante é que a TV parece estar na parede que nos separa. E então, o apartamento inteiro vibra quando rola a vinheta daquele telejornal exibido para as corujas.

Tenho dificuldade para dormir. O sono é leve: não rola com ruído, luz, movimento. Levanto para beber água. Viro pra lá e pra cá, a ponto de jogar travesseiro e lençol pra fora (tudo bem, já me orientaram a consultar um neurologista). Limitações pessoais à parte, convenhamos: uma e meia da manhã é hora de quê? De deixar a vizinhança dormir em paz.

Como ia dizendo, o quarto inteiro vibrava ao som da vinhetinha do telejornal. Todas as notícias do dia eram repetidas, enquanto pensava numa forma de tentar ludibriar o desconforto, pois, caso contrário, já sabia com que cara enfrentaria as dezenas de olhinhos curiosos da oficina de crônicas que começaria às oito.

Fala sério!

Minha mãe sempre ensinou que é feio incomodar os outros. Parece que só ela e mais meia dúzia passaram a lição aos filhos, porque o que mais vejo hoje em dia é gente com os olhos baixos, admirando o próprio umbigo e com fones nos ouvidos. F-se o mundo! Eu e somente eu sou importante!

Inacreditável alguém que chega a um quarto de hotel e, sem pensar em ninguém, liga a TV naquela altura. E você deve estar querendo saber como terminou meu sofrimento, né?

Pois bem: após bater cinco vezes seguidas com uma latinha de cerveja na parede, a pessoa do lado de lá reduziu o volume. Só um pouquinho. Entre incomodar o funcionário do hotel para pedir providências e aguardar pacientemente até que o cidadão ou cidadã resolvesse dormir, escolhi a segunda opção. Ouvi o telejornal inteiro e o programa seguinte até três e meia da manhã, quando, enfim, o silêncio voltou a reinar. Ajeitei o travesseiro, puxei o edredom e chamei Morfeu.

Apenas não pensei na possibilidade de esbarrar nele a qualquer momento, o que me rendeu boas risadas, sozinha, a cada vez que tive de, digamos, me esconder. Só eu, mesma. Só eu.
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19 de maio de 2014

Meu encontro com ele

Ele estava o tempo todo ali. E pra mim, foi uma grata surpresa encontrá-lo logo cedo. Mesmo com a expressão contida e sóbria de sempre, permaneceu em seu lugar de honra na grandiosa festa em sua homenagem. Foi fotografado, abraçado, admirado.

Ele viu todas as equipes de trabalho chegarem junto com o sol, para abrir e arrumar a casa para os visitantes da Bienal Rubem Braga. Por ele passaram bonequeiros, escritores, contadores de histórias, artistas circenses, músicos, oficineiros. Não ficaram de fora de seu olhar os motoristas, livreiros, faxineiros, artesãos, pipoqueiros, operadores de áudio e vídeo, organizadores de todas as atividades realizadas na Praça de Fátima.

Ele viu as crianças, muitas crianças, motivo principal daquele encontro existir. Em nome dele, olhos ávidos e curiosos foram presenteados com o melhor da arte literária, a magia e a fantasia, pelas vozes e expressões de gente que trabalha com o encanto. Ele, que tempos atrás elogiou a transformação de sua casa em biblioteca pública, frequentada diariamente por estudantes, deve ter se orgulhado em assistir àquela algazarra literária.

Ele viu seu cão Zig renascer das raízes do pé de fruta pão e, correndo de um lado a outro, ser motivo a mais de alegria para a garotada: “Senta!”, “Deita!”, “Rola!”, “Finge de morto!”.

Ele viu, de seu posto de destaque, diante do Rio Itapemirim, o amanhecer. E viu o sol nos brindar com dias claros e lindos. Viu o céu azul e sentiu, como nós, a farsante brisa de outono no fim da tarde. Viu também a minha cara de desagrado com o calor, ao me abanar freneticamente, enquanto o povo dali afirmava estar fresco em Cachoeiro.

Ele me viu e eu o vi. Cruzamos nossos olhares durante aqueles segundos em que, como criança, entreguei-me à ilusão de que ele me sorria timidamente e me dizia “Bom dia! Seja bem-vinda à minha terra!”.

Ele me viu e eu o vi. Falei-lhe com meu silêncio de admiração. Como em prece, confessei-me sua seguidora fiel e pedi proteção e inspiração para a arte que abracei - a mesma que fez dele meu eterno mestre. Pedi permissão para, humildemente, ensinar às crianças e jovens o que ele fez melhor que todos os outros. A ele prestei minhas reverências. Fui simplesmente tiete, ao fotografá-lo cada vez que passei. Olhei-o com respeito, sempre. Dele me despedi no domingo, com gratidão e saudade.
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12 de maio de 2014

Espetáculo nupcial

E aquela senhora, que jamais usara um vestido longo na vida, aos oitenta e tantos anos se viu às voltas com a obrigação de usar um, pois entraria na igreja levando as alianças do casamento da neta. Seria obrigada a fazer isso, pois a roupa de padrinhos, madrinhas, pais e assemelhados é estabelecida pela cerimonialista, em acordo com a noiva, e não se pensa na possibilidade de ‘desobedecer’ a tal ordem, pois soaria como desfeita ao convite tão honrado.

Nunca usou, não gosta, não se sente bem, não fica à vontade. Não importa. Tem que ser longo e pronto.  Aquela senhora, sem coragem para questionar, sequer consegue pensar no que fazer. E ainda recebeu um telefonema: “A senhora já pode nos dizer a cor do seu vestido? Preciso informar à cerimonialista.”. Aff!

E o casamento? O que é mesmo o casamento? Um evento; apenas um evento. Uma hora e meia de espetáculo, no qual atores principais, no altar, e coadjuvantes, na primeira fila, devidamente dirigidos, devem seguir à risca um roteiro. Nada pode sair do controle, ninguém pode ser... natural. Para quê? Pra ficar bem na foto, no filme. Pra mostrar certa harmonia estética com todos iguaizinhos frente ao altar.

“Você vai ter de deixar do tamanho em que está. Vestido de madrinha deve cobrir o pé.”. “Como assim? Não uso longo que cubra meu sapato!.”. “Sinto muito, mas no seu caso é assim que se usa.”. Aqui a madrinha era uma mulher mais jovem e mais ousada. Este tipo de convenção não a tolhe e, justamente pela obrigação imposta, não titubeou: customizou o vestido, transformando-o em um estiloso longuete, com a barra dividida em várias pontas franjadas. Um escândalo. Literalmente.

Sou da turma que não faz restrições às escolhas alheias; defendo a liberdade e a peculiaridade de cada ser. Vai entrar na igreja de vestido vermelho? Que máximo! O noivo vai usar all star? Sensacional. O casal combinou vestir rosa fúcsia? Ousado, hein? (Nem vou comentar sobre os casais que nunca põem os pés numa igreja, mas quando vão se casar querem porque querem que a cerimônia seja celebrada por um padre).

Não cabem recriminações às escolhas. A questão é: para participar do espetáculo, aquela senhora vai ter de se sentir mal, ficar incomodada, desconfortável. É possível compreender isso? É o que se espera das pessoas queridas, convidadas para testemunhar um momento tão importante?


“Meu vestido é lilás e preto”, disse uma amiga à cerimonialista, recentemente. “hum..., vamos tentar mudar isso? Não é permitido o preto nem em pequenos detalhes dos vestidos das madrinhas.”. Ah, tá.



Publicada originalmente no jornal Volta Cultural, edição de maio/2014
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