4 de agosto de 2017

Entre as mulheres da minha vida

Edméa é o nome dela. Negra, sorrisão, cabelos crespos, sempre presos ou poucas vezes alisados com henê, soltos na altura dos ombros. Baixinha, magra, muito ativa, andava de um lado pra outro, resolvendo a vida. A própria, a do marido, das filhas e de todo mundo que com ela buscasse socorro. Morava na periferia da periferia da cidade, numa casa própria, porém de infraestrutura precária. Ela e o companheiro se completavam na rotina de trabalho duro para dar o mínimo de dignidade às meninas: estudo, roupa, comida, cama, chuveiro quente. Era umbandista. Atendia em casa, com suas entidades, ao povo necessitado de apoio espiritual, um trabalhinho pra arrumar emprego, pra curar doença, pra trazer amor de volta. Não tinha hora nem dia pra levar ajuda a qualquer pessoa que necessitasse.

Edméa não é mais deste mundo. Partiu nem sei mais há quantos anos. Foi continuar seu trabalho de caridade na outra dimensão; não saberia ficar à toa nem no paraíso. Está presente em boas memórias de infância, quando era merendeira da escola pública e todas as vezes que minha mãe me mandava lá, me recebia com um pote de arroz doce. Nunca mais comi arroz doce como o dela; nem minha mãe conseguiu reproduzir a consistência e o sabor. O largo sorriso volta e meia aparece na mente, como se ela mesma, em pessoa, se materializasse. Sorrio quando revejo na mente o olhar de menina que acompanhava suas risadas.

Uma das melhores amigas de minha mãe. Era assídua em casa, sentada à mesa da cozinha, com o copo de café na mão esquerda e o cigarro aceso na direita. Falava sem parar, enquanto minha mãe cuidava do almoço. Gostava de todos nós e me paparicava, a única criança da família naquela época. Se preocupava com meus irmãos, perguntava por todos. E a nós, também socorria espiritualmente. Bastava pedir. Certa vez torci o tornozelo na escola e após o tratamento médico, continuava sentindo dores. Edméa benzeu meu pé, religiosamente todas as semanas, até eu afirmar, com certeza, que não doía mais.

O coração não lhe cabia no peito. Mal tinha pra si, mas vivia de oferecer aos outros, de se doar. De educação deficiente, não sabia resolver as encrencas em família com calma e serenidade: brigava, esbravejava, chinelo voava em cima das crianças. Vizinhança a escutava de longe, quando o pau quebrava na casa da Edméa. Era assim que sabia fazer e nada disso lhe tirava a quantidade de amor que levava na alma.

Fazia festa no dia de Cosme e Damião, preparava um bolo confeitado do tamanho da mesa, doces, balas, pirulitos e guaraná. Enchia a casa de criança, incorporava a Mariazinha e ia pro quintal brincar com a gente. Aquilo era engraçado e estranho ao mesmo tempo, pois não entendia direito aquela transmutação: Edméa de saia rodada, cabelos presos numa maria-chiquinha, com laços de fita cor-de-rosa, descalça, brincando de pique, com um pirulito na boca.

Muito antes de chegar a velhice, o coração grande de Edméa não deu conta do agito que era a vida dela. Ficou fraco e lhe roubou a disposição. Não demorou e Edméa se despediu da existência. Foi brincar de pique com as crianças do outro mundo. Lembro do choque da notícia, da minha mãe triste, no entanto não chorei. Parece que passei a dor adiante. Não fui ao velório, não vi o corpo descer à sepultura. Ela é Edméa e está aqui, nesse sorrisão que que me aparece com frequência. Sempre na hora certa.
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2 de agosto de 2017

De ontem pra hoje

Há momentos específicos em que recordações de infância retornam aos borbotões. Se já não soubesse algo sobre as rasteiras do inconsciente, diria que me chegam do nada. Só que não. Com a idade próxima dos cinquenta, é inevitável o retorno no tempo, para devidas avaliações e revisões, mesmo sem fazer esforço. A cabeça vai lá, cada dia visita uma situação, traz pro agora, mistura tudo e com o resultado posso tentar saber o que fazer adiante. Muitas vezes não sai coisa boa. Mergulhar na memória é ação de alto risco: levanta remorsos, arrependimentos, dores, perdas. Reafirma a falta de coragem para enfrentamentos tantas vezes necessários. Mostra numa telinha o que não foi realizado. Aponta as oportunidades que passaram e sequer foram percebidas.

Não era a intenção o lamento. Cenas de infância têm me retornado com certa frequência, porém não me motivam a discorrer sobre dias felizes, brincadeiras sem fim, amigos de rua, brincar descalça na lama depois da chuva. Falo de desejos alimentados durante a existência e que não se tornam palpáveis. A gente quer ser tanta coisa, quer ir a tantos lugares, quer fazer de tudo um pouco e as horas voam e as obrigações são em maior número que a quantidade de dias que a vida proporciona pra criar, produzir, executar planos e projetos.

Lembro agora da última conversa sobre desejos que tive com minha irmã, dois meses antes dela morrer. Era como se fosse a mãe amiga, companheira, e desse lugar me cobrou um posicionamento mais seguro diante do mundo. Longe de ser ela mesma uma rocha, queria me ver de queixo pra cima, transformando meus desejos em realidade, pisando firme na terra, dona do meu nariz, independente, autônoma, bem sucedida, material e emocionalmente.

Ser mulher não ajuda. São inúmeros os mandatos impostos, muito peso colocado nas costas à saída do ventre, antes mesmo de ver a luz. Não pode isso, não pode aquilo, é feio, é pecado, obrigação com a casa, obrigação com a família, arte não dá sustança pra ninguém, tem que estudar pra ter emprego (nunca pelo conhecimento!), não pode rir alto, falar alto, opinar, questionar, não querer, não se obrigar, deve ser obediente, cordata, se submeter, vai casar, ter filhos, depender e se sujeitar ao marido e muitas etcéteras.

Antes de organizar a cabeça pra começar a fazer planos, é preciso brigar contra todos os encargos e ordenações, o que demanda tempo, paciência (às vezes nenhuma), rompimentos, solidão, medo, adiamentos, desistências, longas pausas, e muitas vezes parada definitiva. Quando vê, passou. A saúde não é mais a mesma, o vigor físico ficou lá atrás, os desejos têm de ser repensados, remanejados, substituídos. E agora? Qual o sentido disso?

Entendo quem vive de lembranças. Cumpre os compromissos da vida e passa o resto dos dias voltando atrás. Minhas próprias lembranças, penso que as bloqueei. Uma névoa encobre a maioria delas; quando parto em busca, vejo-me em meio à bruma densa. Diviso fragmentos, nada inteiro, nítido, completo. Dizem que me aproximo da idade em que a memória começa a criar. Talvez seja boa oportunidade de recriar o roteiro das cenas para encaixar nas partes soltas e compor narrativas inéditas. Seria perfeito se de um novo passado pudesse se desenhar um novo futuro.

Pelo menos nas madrugadas, enquanto o corpo repousa, o inconsciente – ou espírito – passeia bastante. É quando vou onde quero, encontro pessoas que nunca vi, vivo intensamente histórias originais, entabulo longas conversas, realizo. Mas, sobre minhas noites, já é outra a prosa. Depois eu conto.
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3 de abril de 2017

Gatos fazem o que querem... ops, nem tanto

Toda noite é a mesma coisa: quando ouvem o ruído da primeira janela sendo fechada, começam a retornar do quintal. Há quem diga que gato não se educa, pode ser, mas eles se acostumam com a rotina e sabem, por instinto, que necessitam dos hábitos diários, para garantir a comida, a água, a cama quente e o cafuné. Quando as janelas se fecham, quem ficar do lado de lá vai passar perrengue.

Filó é quem mais conhece sobre passar a noite fora. E de tanto sair correndo ao invés de entrar quando chamada, ficou no quintal diversas vezes, até entender que janela arriando é sinal de baixar a bola, caçar o rumo de casa e entrar pra dormir (ou não).

Chico é muito apegado à comida. Tanto, que aprendeu mais rápido que a Filó. Quando chego na janela, se estiver do lado de fora, põe-se em alerta no banco da varanda. Chora, mia, faz manha e, como não tem jeito, cede. Vou descendo a janela devagarzinho, ele roça os bigodes na grade, em seguida a cabeça, pata após pata e o salto no chão. Mais esperto que a Filó, sabe dar a volta por cima do telhado ou pelo muro da vizinha e entrar pelos fundos. Se estiver chovendo, estará em apuros, por isso preferiu se acostumar com os horários dos humanos.

Gatos são selvagens, ainda não estão totalmente adaptados à domesticação. Já dependem da comida dada, porém não perdem a independência e o temperamento altivo. Fazem o que querem, na hora em que querem e do jeito que querem. Não adianta insistir em domá-los. Por outro lado, são capazes de se adequar perfeitamente aos costumes da família.

Flora sente o momento em que vou subir para dormir e fica de prontidão no primeiro degrau da escada. Ao menor movimento meu, sobe correndo e me aguarda na porta. Abro, ela vai para debaixo da cama, espera que seja aberta a porta do banheiro. Salta na pia e com um miado chorado, pede água da torneira. Parece sede de uma semana. Enquanto tomo banho, ela se satisfaz. Depois, deita no tapete, assiste ao meu banho e por ali fica até de manhã, quando também desperta e desce comigo.

Zoraide é minha Garfield. Come, dorme, faz suas necessidades, toma sol. Tem preguiça de pular a janela; às vezes fica na porta, pedindo para entrar ou sair de casa. Aparenta não atentar para o mundo a sua volta, embora saiba sempre onde estou e anda atrás. Se me sento no sofá na sala, ela vai pro tapete; se estou na cadeira do quintal, se aproxima e deita perto; se trabalho à mesa do escritório, ela deita no meu pé. Não gosta de ser comandada, como a Flora, no entanto reconhece, como os outros, a hora de se recolher. Basta que se diga “bora!” e ela atravessa sala e copa, passa pelo buraco da grade da área e encontra a cama.

Durante a noite, os quatro sabem que a comida fica na área de serviço. De manhã, esperam seus pratos no chão da copa. Quando terminam de comer, as janelas estão novamente abertas e bora se refestelar no sol!

Comecei a desenhar esse texto, enquanto aguardava a última entrar. Sim, a Filó, enrola do lado de fora, se fazendo de difícil. Logo entra desfilando na cozinha, olha na minha cara, mia. Acabei falando de cada um, porque fazem a minha alegria diária, são brincalhões e, mesmo brincando, são parte do meu silêncio. Prezam sua independência, autonomia e liberdade, ao mesmo tempo em que demonstram amor incondicional a quem tem condição de perceber esse amor e se dispõe a recebê-lo. 
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16 de fevereiro de 2017

Tem um homem pelado lá dentro

Chego para a minha aula de pilates, junto com a fisioterapeuta, já colocando o papo em dia, quando o rapaz do lado de lá da grade alerta:

- Ih, vocês não vão poder entrar, não!

A chave nem chegou a girar na tranca do portão.

- O que houve?

- O cara tá apagado, bebeu muito. E tá pelado.

 - Pelado?!

Sim. Havia um homem lá dentro, dormindo. Na verdade, desmaiado de bêbado. É proprietário do imóvel onde funcionava o estúdio. Deve ter chegado arriado, bufando de calor, entrou direto, sem pensar (de que jeito?) tomou uma chuveirada e desabou na cama do aparelho de exercícios. Sem roupas.

O moço, constrangido, ainda insistiu. Aguardamos.

 - Chamei, cutuquei, mexi nas pernas. Ele não acorda, não.

- Como é que a gente faz?

- Não faz. Ele não vai sair.

A solução oferecida pela fisioterapeuta foi fazer a aula de pilates na minha casa, proposta imediatamente aceita. Não faltou nenhum dos sentimentos normais diante de um cenário tão esdrúxulo: espanto, raiva pela falta de respeito e pela total desconsideração com a pessoa que utiliza e paga pelo espaço, frustração.

Aula feita, passo a repensar sobre o episódio. Conheço o sujeito que dormia no estúdio. Mora nos fundos e está sempre por perto, perambulando aqui e ali. Um tipo grandão, corpulento, bem alto. Fala grosso, mas nunca nos destratou. É desleixado, sujo. Além de beber, fuma muito e por isso cheira mal. Respira tão ofegante, que a gente ouve à distância. Jamais demonstrou respeito com o local de trabalho dos outros. Entrava e saía quando bem entendia, com ou sem alunos em atividade. Minha fisioterapeuta já reclamara sobre essas liberdades. Deu em nada.

As pessoas da família parecem imperturbáveis. Que se dane o cara e também se danem a profissional e seus alunos. O rapaz que nos atendeu chamou duas vezes e, sem sucesso, simplesmente disse “Ele não vai sair”, com uma expressão de que estava tudo bem. Ou seja, f-se.

Voltando ao meu repensar: acabei rindo da situação. Imaginei aquele tipo grosseirão pelado, dormindo a altos roncos, babando, totalmente à mercê do álcool correndo nas veias, em plena cama de exercícios. O que me restou foi dar muita risada pelo inusitado da coisa.

Desplante à parte, não voltamos mais. O fim já estava próximo e, suponho, o caso do homem pelado foi a gota d’água, ou melhor, de álcool.
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22 de janeiro de 2017

Quarenta e duas rosas brancas

Assisto à chuva pela janela e me lembro da mulher que jogou quarenta e duas rosas brancas para Iemanjá à meia-noite do dia 31 de dezembro. Sob a tempestade, lá estava, segurando com uma das mãos o guarda-chuva – que não guardava nada –, e na outra, a sua oferenda. Ajoelhada à beira d’água, fez sua prece, agradecendo por estar viva, por ter conseguido retornar àquele lugar, depois do ano que passara. Jurou que voltaria, porém era incerto. Da última vez que estivera ali, despediu-se com pesar. Olhou para o mar com lágrimas na face: “Eu vou voltar”. Foi quando fez a promessa à rainha.

Quarenta e duas rosas brancas. Quarenta e dois anos completara dias antes de encerrar o mês. No começo do ano, sem saber se teria um aniversário novamente, ofereceu o mesmo número da idade que faria em quantidade de rosas para Iemanjá, para que pudesse vencer a adversidade que a acometera e regressasse ao seu recanto de repouso.

A cada rosa, um agradecimento. Ou um pedido. Sem parar de chorar, sozinha na chuva forte, gritava suas orações com os braços abertos e os olhos para o alto. Chorava e sorria. Chorava e soluçava. Demorou. O temporal deu uma trégua, à medida que os soluços foram se espaçando e o pranto se tornou silêncio. Corpo molhado, joelhos na areia, deu mais um suspiro de gratidão e se ergueu devagar. Cumprira o ano, a promessa.

Quarenta e duas rosas. Quarenta e dois anos enfim completados.

Poderia fazer planos, curtir e celebrar a vida, tomar sol, optar pela forma que gostaria de se conduzir, apreciar sua cerveja, fazer sexo inteira, viajar sem temor, reaprender a ser dona do próprio corpo. Reaprender tanta coisa...

Anos se passaram e, em uma conversa recente, acabou por relatar esse episódio (dentre vários ocorridos naquele ano). E foi tão marcante verbalizar o que vivenciara no réveillon à beira-mar, que a mente se abriu para outros detalhes dessa experiência. O tempo não parou e a mente também não. Há muitas questões enterradas no inconsciente, sendo exumadas de pouco em pouco. Há muito que fazer com as informações que agora vêm à tona. É preciso que descubra uma forma de desconstruir os reveses, para viver plenamente – se é que isso é possível. É preciso descortinar o poder de transformar.

Vai ter um bocado de trabalho pela frente, a mulher. A chuva lá fora me traz à memória aquela noite de afirmação, de sua expressão determinada, com os olhos no horizonte escuro de temporal. Ela segue seu rumo, caminhando devagar, com os pés cravados no chão, fazendo de cada dia um, na complexidade da existência.
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21 de janeiro de 2017

Cebola, não

De que você não gosta de comer? Pense; sempre há algo insuportável ao paladar. Eu, por exemplo, detesto cebola. Não curto outras coisas também, mas de todas, a mais horrorosa é a bendita da cebola.

Por quê?

Como a uva passa no Natal, cebola está em todas. É figurinha carimbada na cozinha, seja crua, cozida, em picles, frita, assada, confitada, refogada. Pode ser picadinha, fatiada, em rodelas ou mesmo inteira. Não há quem cozinhe sem a danada.

Nem eu.

A comida de forno e fogão não sai sem cebola. Nos refogados e cozidos, claro. Não há frango sem cebola, nem feijão, nem arroz. E só. Crua, sem chance. Sinto ânsias só de imaginar meus dentes estalando um pedaço ou mínimo cisquinho dela. Sério: tudo o que já estiver dentro volta, se mastigar cebola crua.

Então, sofro com os exageros, como no caso das uvas passas no Natal. Quem gosta de cozinhar com cebola, não deixa por menos: é cebola na salada de folhas, na farofa, no caldo da moqueca, no macarrão, no sanduíche, na maionese, no salpicão, no caldo verde, no hot dog, na sopa, no pirão!

Estava aguada por comer um pirão de peixe e eis que chega diante de mim uma cumbuca de pirão de cebola. Pedaçudas, gordas, al dente, estalando, fazendo crec. Como reclamar? Só me resta não pedir de novo; não no mesmo lugar.

Poucos se dispõem a compreender o desgosto dos outros com algum ingrediente. Quando quero pedir um prato e esse é servido com cebolas cruas, para que me chegue sem as tais, digo bem séria ao garçom: “Por favor, escreva bem grande aí no seu bloquinho que sou alérgica”. Não sendo assim, passo por fresca.

Já vivi situação desagradável em um almoço comunitário, numa instituição religiosa (onde se espera a complacência dos nossos pares). Ao me servir, senti do alto o aroma inconfundível de muita cebola fresca picada na maionese. Preferi nem tentar, o que suscitou a curiosidade em torno:

“Não vai comer?”
“Não, tem muita cebola e eu não gosto.”

Foi o suficiente para virar tema de deboche e de olhares e narizes torcidos no resto da festa. Por isso, pergunto: do que você não gosta? Pensando no que não comeria de jeito nenhum, seria capaz de respeitar a outra pessoa que odeia o que você, de repente, adora? E a partir daí, poderia pensar, por favor, em não picar dúzias de cebolas em todos os pratos preparados, assim como fazem com as uvas passas na ceia de Natal.

A gente agradece. Sim, a gente. Tem mais um monte por aí.
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19 de outubro de 2016

Quem viver será

Fui convidada para compor a comissão julgadora de um desfile. Não de mulheres e homens lindos, jovens e sarados, candidatas à beleza disso ou daquilo, mas um desfile de idosos. Aceitei de bom grado. O evento reuniria internos das instituições da minha cidade, uma ação para elevar a autoestima, integrá-los, socializá-los. Era perto da minha casa e o convite veio da Bruna, pessoa que merece meu respeito, pelo trabalho que desenvolve com essas pessoas.

Confesso: não estava preparada para o que iria assistir. Não pensei, não avaliei, não imaginei nada antes de chegar ao local do encontro. Apenas cheguei. E da porta do salão, vi descerem das vans a vontade de ser, de estar, de desejar, de fazer. Caminhando devagar, ajudados por cuidadores ou apoiados em andadores, lá estavam o futuro de muitos de nós.

Não foi choque, tristeza ou pena. Foi constatação do que poderá vir a ser pra mim e pra tantos outros. A cada um que subia os degraus, pensava em alguém que conheço, na sua vez de ficar velho; via-me na minha vez. E questões de todas as grandezas pululavam na cabeça: como será comigo? Vou andar de muletas, de andador? Estarei saudável até quando? Perderei minha lucidez? Serei uma velhinha supimpa ou melancólica? Serei desejante?

A plateia foi se acomodando, enquanto os concorrentes aguardavam no fundo do salão. Os homens de um lado, silenciosos, e as mulheres entregues aos cuidados de uma equipe de maquiadoras, manicures e cabeleireiras. Era nítida a expectativa. Por outro lado estavam confiantes, prontas para enfrentar os olhos da comissão julgadora. Quem concebe tal cenário?

Quando falamos em idosos que vivem em asilos, logo pensamos em velhos doentes, decrépitos, abandonados pela vida, terminando seus dias na companhia amarga da solidão a que foram entregues. Digamos que não seja assim, invariavelmente. Há meios de fazer diferente, não que seja fácil, no entanto é possível. Fiz uma palestra anos atrás no Residencial Vila do Sol, e saí de lá surpresa e grata pelo que vi e experienciei com os hóspedes (como são chamados). Não são tratados como velhos inúteis, ao contrário, o objetivo das equipes é fazer com que se sintam em casa, de verdade. Podiam levar móveis e objetos de valor (uma senhora levou o piano!), um deles saía sozinho para ir ao mercado, padaria, farmácia... Havia festas, música, dança. Notei que eles desejavam e desejar é viver.

Um amigo se compadeceu daquelas pessoas presentes no evento. Cá com meus cachos tentei compreender. Estar num asilo nem sempre quer dizer que está abandonado. Há, sim, muita maldade humana envolvida, contudo há casos de precariedade tão descomunal, que a única solução para a família é internar seu idoso, pois somente desse modo pode ser bem assistido. Há ainda pais, mães, maridos despóticos que ganham em troca esse destino na velhice (ou são ignorados dentro de casa mesmo. Ou, ainda, exaurem seus companheiros e companheiras cuidadores e a saúde de todos é comprometida. Assisti a uma cena que retrata esse tipo de relação e relatei numa crônica um tempo atrás). Não se deve julgar.

E então eles desfilaram! Entravam pelo fundo do salão e percorriam o tapete vermelho, em direção à mesa da comissão julgadora. Uns tímidos, outros sorridentes, dançando, no andador (!), porém afirmando suas potências. Queixos erguidos, altivos, se apresentavam aos jurados e retornavam, ovacionados por amigos na plateia. E nós ali na mesa, meio abobalhados. Saí do chão várias vezes, a ponto de me perder e não ouvir o nome do próximo a desfilar. Era uma história inteira que se criava na minha mente, quando viravam as costas e retomavam o percurso de volta.

Não me satisfaço com definição alguma para a velhice, como também não tenho a minha. Encarada como o fim, poderia ser um recomeço. Por que não? Os desejos reprimidos são liberados (permitidos pela mesma sociedade que os reprimiu), há uma liberdade indizível e uma sabedoria que não chegam a alcançar o nível consciente. Mas estão ali: no sorriso, no brilho e na profundidade do olhar, na gratidão.

Esfregam na nossa cara que se chegarmos lá, o barco será o mesmo para os bonzinhos, os canalhas, os caridosos, os egoístas, os ricos, os pobres. Escancaram a realidade de que se tenta escapar com estratégias inúteis. E sorriem.
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10 de outubro de 2016

Annita

A nitazoxanida é um anti-helmíntico antiparasitário, de amplo espectro, indicado para amebíases, giardíases, helmintíases e ancilostomíase. Nome fantasia: Annita.

Ao observar a prateleira da farmácia, enquanto o balconista atendia o meu pedido, dei de cara com uma embalagem robusta cujo nome chamou a atenção. Anotei a substância pra pesquisar depois e descobri, não sem rir um cadinho, que se tratava de um medicamento pra verme, ou vermífugo.

Que viagem! O nome de uma artista relacionado a parasitas intestinais, desses que ficam, consomem o indivíduo. Com o notebook no colo relaxei a cabeça no encosto do sofá e imaginei uma pequena lista de possibilidades para algumas afecções, como a seguir:

Em caso de prisão de ventre, haveria o Jillmar, pra soltar.  Nas diarreias, em que o intestino fica meio apressado, a prescrição médica seria Serjio, embora fosse eficaz apenas contra um único tipo de agente causador de desarranjos. O desconforto digestivo - ou estômago enjoado - seria aliviado com CerRa, mas, com cuidado, porque entre as reações adversas, poderia tornar a cabeça um tanto atrapalhada. Seria importante ter cautela com o princípio ativo Alexxandrilanida + Moraesina, conhecido como Pecece, por crises intensas de pânico observadas após a ingestão.

Haveria os fármacos traiçoeiros, indicados para cura, quando na verdade gerariam sérios problemas, como causar apatias, sensação de opressão e de sufocamento, sentimentos de perda e de perseguição, depressão, demência, paralisia e até a morte. Como exemplo, o Aessius N+EV, e centenas de outros similares, sendo Mixell o pior de todos, principalmente quando associado a Cuña ED, poderoso potencializador de síndromes fatais, se combinado a drogas específicas.

Como a mente é um universo paralelo e dela é possível extrair qualquer ideia, construí uma empresa farmacêutica com condição de derrubar marcas tão perigosas para a saúde, tanto as mortais, como as que apresentam efeitos colaterais complicadores para o funcionamento do organismo como um todo. Foram necessários anos de pesquisa; os cientistas tiveram de começar praticamente do zero, pois a concorrência era dominante do mercado.


Já se passaram anos aqui na cachola e nada. Nadica. Dentre os princípios ativos existentes, capazes de superar marcas tão fortes, a maioria é inerte; as que mobilizam renovação celular não apresentam eficácia quando agrupadas; e há ainda as substâncias cuja aglutinação é impossível.

Bora pra cozinha engolir rápido a pilulazinha pra ansiedade.
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4 de outubro de 2016

Sem filhote

Uma amiga me perguntou como está o ninho vazio.

(Pra quem não sabe: é quando os filhos vão embora pra assumir seus próprios encargos neste mundo e a casa fica de um jeito que toda hora é nó na garganta.)

Minha resposta ficou vaga, confesso. Não sei explicar claramente o que sinto sobre essa ausência. Não me vejo como a mãe que a sociedade considera normal, aliás, nem meu filho me vê dentro da caixinha.

A educação dele foi libertária, com base em amor, respeito e liberdade de escolha. Os amigos e as mães dos amigos estranhavam ao ouvi-lo contar: “minha mãe diz que eu tenho de ir embora, estudar longe e ficar por lá”. Ele cumpriu o mandato e a mãe ficou satisfeita. Sério. Com choro, mas sem nem um pingo de dúvida do estímulo certeiro que dei.

Já vi mulheres dizendo de tudo um tanto sobre seus ninhos vazios. Da boca pra fora, da boca pra dentro, com estardalhaço, deprimidas. Já vi filha voltando em definitivo pra casa com pena da mãe que ligava todas as noites chorando. Já vi mãe que se desfez em lágrimas durante os cinco anos em que o filho estudou fora. Já vi mãe que largou tudo pra trás e foi atrás da filha (essa história foi um desastre!).

Não há receita para viver. Não há dica milagrosa, simpatia, nem mágica. No meu caso, foi uma afirmação elementar: não educá-lo pra ficar agarrado na minha saia ad eternum. É cruel demais exigir isso. É o que penso. Pragmática que sou, foi mais fácil planejar e me programar para entregar meu rapaz à própria vida, até porque, se eu não entregasse, iria assim mesmo. É como funciona a nossa natureza e quem se recusa a ela, sofre.

Circula muito pelas redes sociais uma frase do Rubem Alves, que diz: "Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar.". Vai voar, sim, pra quão longe desejar ir, sabendo que tem pra onde voltar, em terra firme, se quiser ou precisar. Jamais deixarei de ser a mãe, e com o respeito mútuo que cultivamos, viveremos bem um com o outro, ainda que à distância.

O ninho está vazio. Perfeito para escrever, estudar, vagabundear pelas redes sociais; pra me dedicar sem interrupção ao trabalho minucioso de pesquisa, aprendizado, criação e montagem de terrários; pra tomar café comigo, tomar cerveja comigo, ir ao cinema no meio da tarde comigo, ler no sofá durante um dia inteiro sem interrupção. Tudo isso com plena certeza de que o cara está feliz. Tão simples e tão complicado de absorver, né? Está feliz: cursando o que escolheu por vontade dele, independente e autônomo como sempre foi e como batalhei para que fosse.

O ninho está vazio. E nada me falta.
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20 de junho de 2016

Novas noites de domingo

Fica o cheiro na face, na mão, e o gosto tão conhecido de beijo e carinho, depois que ele vai embora.

Fica um ar triste, melancólico, o olhar perdido, parado no tempo, depois que ele vira aquela esquina.

Fica um andar arrastado, a mente parada, o choro travando a garganta, quando fecho a porta atrás de mim.

Fica a falta do lanche compartilhado, das boas conversas e das muitas risadas, quando sento à mesa da cozinha.

Fica a lembrança da cumplicidade, das trocas de olhares e dos segredos guardados a dois, quando revejo suas fotos.

Fica a vontade de ouvir os passos trôpegos na escada, o som alto no banheiro, o jeito tão engraçado de me chamar, que ouço mesmo na sua ausência.

Fica uma saudade imensa de um passado que jamais volta, que agora é só memória, mas ao mesmo tempo uma felicidade que nem me cabe, pelos novos tempos de agora; por isso preciso me reinventar a cada minuto.

Ficam a ansiedade e a angústia, ao passar das horas, a espera que você ligue de lá e diga: “Cheguei em casa.”
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14 de junho de 2016

Ouvir histórias

Quem se permite escutar histórias dos outros amealha uma coleção de contos. Casos reais, de gente de verdade, que sente e sofre, e nós, aqui de longe, na maioria do tempo não nos damos conta e, pior, nem queremos saber. O ofício da escrita me põe a ouvir. Quando alguém começa a me dizer algo, interrompo o que estiver fazendo para prestar a atenção. E me deleito com todos os detalhes, me angustio junto, me aflijo.

As pessoas necessitam falar; as pessoas são sós. E no meu exercício solitário de colocar as palavras organizadas em forma de texto são justamente esses inúmeros ‘alguéns’ que me vêm à mente. Como entes invisíveis, que na hora H reaparecem pra me inspirar. A crônica não era esta; o tema era diverso, porém, ao me deparar com a tela em branco pra dar corpo à ideia que tinha na cabeça, as histórias de tantas almas me rodeiam. Fazem um volteio em mim e permanecem aqui. Não consigo discorrer sobre outro assunto.

A arte é que imita a vida. Muito do que se vê em cinema e folhetins nos arrancam as exclamações de sempre: “Isso só acontece em novela!”, “Só podia ser filme!”. A existência humana é mais complexa que qualquer roteiro escrito por uma mente brilhante. E não comumente são experiências felizes ou vitoriosas. Quem dorme em lençóis de cetim e travesseiro de plumas também revela frustrações, infelicidade, traições, perdas, insanidades.

Um relato que ouvi dia desses ficou agarrado na memória, retorna à tona a todo momento. Uma mulher casada, com dois filhos, era surrada pelo marido diariamente. Ele chegava em casa embriagado, ameaçava-a de morte e iniciava a sessão de tortura. Certa vez ela tomou coragem e fugiu com as crianças. O homem a alcançou, levou-a pra casa aos tapas e jurou matá-la e aos filhos, caso tentasse escapar de novo. Ela se foi novamente, mas sem os meninos. Um morreu, pois ainda não havia completado dois meses; o outro foi criado sozinho pelo pai até a adolescência, solto, entre a rua e os bares, e depois acolhido por uma senhora que o educou e lhe colocou regras. Anos depois o homem abraçou uma religião, buscou a mulher de volta e o filho que sobreviveu não a perdoa por ter sido abandonado. Não pode compreender a mãe. Ou ela morreria pelas mãos do marido, ou morreriam todos se fugissem juntos. Hoje mãe e filho são idosos e mal se falam.

Parece ficção, drama da novela das seis, no entanto é uma das milhares de vidas tristes que há por todos os cantos do planeta, que nos fogem ao conhecimento. Não temos tempo pra saber, não podemos nos dar ao luxo da preocupação com a existência alheia. Já temos problemas demais.

Penso nas pessoas que vejo nas ruas. Imagino como são em casa, se têm necessidades, filho doente, mulher ou ex, roteirizo mentalmente a rotina delas e invariavelmente rabisco umas linhas sobre algumas, projeto suas práticas religiosas, se estudam ou não, se vão a festas, se bebem, como comem, como se comportam no banho, como transam, vejo-as mortas. Não por simples morbidez e, sim, porque toda história tem um fim e esse é o final pra todo mundo. Enquanto isso, escrevo.
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6 de junho de 2016

VI Bienal Rubem Braga

Passava pouco das oito da manhã quando cheguei e logo percebi que a noite por ali não tivera fim. Entrei lentamente pelo portão, como havia me programado, para matar a saudade do lugar com calma. Porém, o que imaginei ver enquanto entrava a passo leve, estava bem longe da realidade: a água pesada que caíra sobre a cidade na noite anterior só não destruiu por completo, mas causou danos e obrigou praticamente toda a equipe a virar a madrugada trabalhando duro.

O que avistei quando cheguei foram estandes vazios, salas e cadeiras sendo enxutas, um movimento de recuperação de tudo o que fosse possível, para fazer a festa acontecer. Afinal, o mestre estava ali abençoando novamente o grande encontro literário de Cachoeiro de Itapemirim, e não deixou que o ânimo esmorecesse.

A VI Bienal Rubem Braga teve início na terça, dia 31, e na noite de quarta foi pega de surpresa por um temporal que arrasou toda a cidade. Muitos desabrigados e desalojados, ruas cobertas de lama, inúmeras famílias sem seus pertences, destruídos pelas águas.

Na Praça de Fátima, a mesa de debates “Os dilemas das Identidades de Gênero na Construção de Personagens Literários”, com João Paulo Cuenca, Andrea Del Fuego e Milena Paixão, teve de ser interrompida, e as perguntas do público que insistiu em ficar foram respondidas no camarim. A mesa para a qual fui convidada, seria na manhã seguinte.

Por que comecei relatando justamente o outro lado desse evento singular?

Para exaltar a galhardia com que a equipe organizadora não só faz acontecer, como não se deixa abater e dá a volta por cima: mexe aqui, recoloca ali, limpa, lava, enxuga, transporta, remaneja, respira fundo e põe a engrenagem pra rodar, com um invariável sorrisão na face.

Logo chegam os ônibus lotados de estudantes para as atividades do dia e eles podem ser recebidos com a mesma alegria de sempre. Assim foi o terceiro dia da VI Bienal Rubem Braga, um evento do qual me orgulho de ter participado pela segunda vez. Realizada pela Secretaria de Cultura do município, faz merecida homenagem ao cronista nascido por ali, onde corre o rio Itapemirim.

Este ano teve Zezé Motta e Wilson Coelho na mesa de abertura, e muita gente com muita coisa boa a dizer durante a semana: Sérgio Vaz, Marcelino Freire, Paulo Lins, José Eduardo Agualusa, Gonçalo M. Tavares, Jorge Nascimento, Carol Bensimon, Saulo Ribeiro, Sara Passabon, entre tantos outros. Ao longo de todos os dias as crianças foram presenteadas com contação de histórias, teatro de fantoches, oficinas, feira de livros, muita música e performances como a do cão Zig, da Borboleta Amarela e do Entregador de Palavras.

Na mesa da quinta-feira estavam comigo Babi Dewet e Felipe Castilho, escritores que em seus livros falam para o público jovem e se comunicam com essa galera pela internet. De manhã e à tarde recebemos estudantes de oitavo e nono anos e de ensino médio para conversar sobre “Leitura, Literatura e Internet”, e saímos no fim da tarde com a sensação de ter aprendido não só entre nós, com nossa troca de informações, como com aqueles garotos e garotas ávidos, de olhos brilhantes, encantados, carregados de questões.

A Bienal terminou ontem, com o show da Bia Bedran, e como sempre deixa o conhecido desejo de ‘quero mais’. Os incansáveis trabalhadores da cultura de Cachoeiro de Itapemirim, acolhedores como se nos recebessem em casa, tornam-se ‘amigos de infância’ nas redes sociais e outros novos amigos surgem para trocar ideias sobre literatura e não deixar nunca o assunto morrer. “Minha alma canta” quando vejo o Rio de Janeiro pela janela do avião, mas um pedacinho do coração fica por lá.  
    

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30 de maio de 2016

Minha casa sou eu

Chegar em casa tem sido um dos melhores momentos dos meus últimos tempos. Resolvo, passo a passo, todas as pendências na rua e, ao retornar, já no caminho uma parte de mim se sente de volta. O prazer cem por cento começa logo que fecho a porta às minhas costas. Viro a chave e respiro fundo.

Reclusão é a palavra da vez: não escondida, deprê, mau humorada, ranzinza. Sim, buscando serenidade, realizando as tarefas com calma, inspirando meus ares a cada movimento, trabalhando sem trégua, mas também sem desespero, abafamento, cobranças.

Minha casa me recebe como um abraço longo e restaurador. Tem meus cantos prediletos, o meu café, minha mesa onde escrevo, minha bancada onde crio e construo. Tem a Bernadete, a Zoraide, a Flora e a Filó, que transformam meu silêncio em troca de carinho e amizade. Tem diante da janela o meu sofá; dali olho o céu, curto a brisa nas plantas da varanda, voo longe levada pelo vento da tarde.

Porém, mais importante que cada canto, objeto ou criatura, é na minha casa, na minha introspecção, que recebo a mim mesma, dentro desse corpo que me abriga. Eu me recolho a esse lar recôndito, em que somente me cabe e que só por mim é conhecido.

Desta forma me vejo, me escuto, me sinto. Entravo diálogos com a carne, ou assisto, a mim e à carne, em debate. Abro as janelas de mim e descubro a sensação de enxergar o mundo por uma perspectiva diferente; sim, diferente, porque é sempre nova, nunca se repete. Ouço as várias vozes que de mim dizem verdades surpreendentes ou às vezes cruéis. Olho nos olhos dos meus desejos, tento retirar lá do âmago as questões escamoteadas, tento saber por que me escondo dos meus sentimentos.

Pessoa querida disse que reclusão faz mal, que é num certo “lá” o lugar em que tudo acontece, e que é tempo desperdiçado estar em silêncio e só. Muitos bichos hibernam, outros simplesmente se recolhem por algumas horas, quando o instinto pede uma pausa. Nós, mamíferos, temos muitas semelhanças e não creio que seja bom para a saúde negá-las.

É na minha reclusão que busco fazer nascer, a cada dia, uma vida nova, que não se repete tal e qual à de ontem. É no fundo desse corpo no qual resido, desse meu verdadeiro lar, que descanso realmente, que me recarrego, que me renovo e encontro a galhardia para recomeçar inédita.

Não é uma brincadeira, não é fácil. Na verdade é um exercício. É preciso abdicar do que chamo de insignificâncias, pra ter poder de significar de modos distintos.
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21 de maio de 2016

Legados

Partiu de surpresa. Apesar da idade avançada, nunca se espera que alguém querido vá embora para sempre. Saúde em dia, uma cirurgia simples, sucesso no procedimento, previsão de alta, a pressão baixa, pneumonia, entra em choque, UTI, “Alô, o médico solicita a presença de alguém da família.”

Ainda o sentimento de frustração. E, de repente, o que dava sentido às vidas daquela família se vai. Deixa pra trás um legado de simplicidade, fé, religiosidade, liberdade, respeito ao outro (qualquer outro), educação, alegria de viver. Difícil descobrir sentidos novos a esta altura, no entanto, é o que se deve fazer agora.

A morte e o morrer sempre foram um sapo na garganta; decerto, não só pra mim. Desde sempre esse tema me cristaliza. Não tenho uma relação minimamente equilibrada com essa certeza, embora creia que haja um “lado de lá” e o prosseguimento da vida, de uma forma diferente. Acreditar faz muito bem, até que ela, a morte, resolve passar perto.

Não à toa os povoados antigos cresciam em torno de onde eram realizados os rituais fúnebres. Talvez tão marcante quanto o nascimento, a hora de se despedir de uma vida altera sentimentos e estados de consciência, cria e revolve dores. Ver inerte um corpo que foi tão próximo por 40, 50, 60 anos é mais que triste. Levanta uma série de questões nunca antes consideradas, que travam os dias, pois se emaranha com a saudade, a frustração, a angústia, a impotência. E tudo isso é luto. A hora de dormir é melancólica. A hora de acordar é confusa. As obrigações e compromissos da rotina exaurem além do que seria aceitável. A vontade de nada é imperiosa. “Chorar na cama, que é lugar quente” é o desejo tormentoso a cada hora da jornada que se recusa a passar. A espera é longa pelo tempo curador de todas as aflições.

No quarto dela há uma cômoda e sobre o móvel um modesto altar. Imagens de sua devoção católica e terços dispostos com zelo. Na parede, um espelho, e no canto do espelho, uma única foto, a minha, o meu rosto sorridente junto de suas fontes de força e graça. Nem eu mesma sei o quanto já chorei de emoção, alegria e gratidão por tanto amor, tanto carinho. A admiração que tinha por ela e que poucas vezes verbalizei, talvez por timidez, tem sua recíproca escancarada numa demonstração tão simples. Olhos molhados e nó na garganta a cada vez que me lembro daquele cenário.

O que a infalibilidade do destino espera de nós? Ou, o que devo esperar de mim, diante do inevitável? Posso dizer muito do que se repete por aí, sobre viver intensamente cada dia, comer melhor, valorizar a naturalidade, os pés no chão, desprender-me das exigências torpes da vida material, mandar esse capitalismo às favas e parar de correr atrás de sei lá o quê. Soa piegas, justo pelo tanto que se bate nesses temas a toda hora. Mas, olha, pode ser mesmo verdade. Viver mais de 90 anos com plena saúde, feliz, distribuindo sorrisos, e ir embora sem dever nada a si própria, é pra pouquíssimos. Penso que já esteja passando da hora de começar a correr atrás da concretude de uma vida rica de algo que possa deixar e também levar. Como ela soube fazer muito bem.
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19 de maio de 2016

Sem preconceito, mas, vai que..

Cheguei para a entrevista atrasada, correndo, bufando, e a surpresa foi completa quando encontrei o prefeito deitado dentro do carro, ocupando com o corpo as duas poltronas da frente, a cabeça pendendo para o lado de fora, de óculos escuros, mirando o céu. Mais calmo impossível e nós, trinta minutos depois da hora marcada, constrangidos.

- Bom dia, prefeito, desculpe o adiantado da hora.
- Problema nenhum. Estava aqui admirando o voo solitário de um urubu.
- (?)
- Minha mãe sempre dizia que quando a gente vê um urubu voando bem alto e sozinho, é sinal de notícia boa.

Surpresa de novo. A vida inteira, o que recebemos de informação sobre essa ave é que se trata de um bicho nojento, asqueroso, perigoso, que come lixo e carniça. É feio, tem um andar coxo, muito esquisito, chega a causar certo horror às vezes. Jamais imaginaria a possibilidade de boa coisa a caminho, mesmo sendo apenas superstição.

O encontro com o prefeito aconteceu faz quase vinte e cinco anos e, desde então, passei a observar melhor os urubus. Tentei reverter dentro de mim o preconceito, procurando saber mais sobre esse pobre animal, excluído de qualquer demonstração de apreço, consequente de seus hábitos.

O que mais gera repugnância no comportamento do urubu é sua preferência por carnes em estado de putrefação. Quando não encontra animais mortos, opta pela caça de bichos menores, como alguns roedores, sapos e lagartos. Porém, exatamente por comer animais mortos, é considerado necessário, até mesmo indispensável, por garantir o equilíbrio ecológico, livrando o ambiente de doenças facilmente dissemináveis. Pra piorar a situação do desventurado, ele não pode cantar, pois não possui órgão vocal específico. Portanto, grasna.

Destituída do preconceito, veio a compaixão. Todas as vezes em que vejo um urubu, tenho ímpeto de parar pra olhar. Pude conhecer um bem de perto num sítio, onde rolava um churrasco. A proprietária do local (pasmem!) tinha um urubu de estimação. Caíra no quintal quando filhote, foi tratado, alimentado e ficou. Claro que a única pessoa na festa que não sentiu repugnância pelo animal fui eu (confesso um medinho de me aproximar muito).

Recentemente li uma história em que o personagem narra sua própria morte, atacado por um bando de urubus que invadem o apartamento. A sequência é horripilante, devido aos pormenores do banquete. É mais um ponto a favor da ojeriza contra o animal já tão rejeitado – o autor não poderia, por exemplo, falar em corujas? Elas também comem carne.

E após tantos anos de reforma interior, treinando meu mais carinhoso olhar para os urubus, eis que o inesperado acontece. Ao volante, indo para o trabalho, avisto bem ao longe um solitário em voo alto. “Opa! Bom sinal! Que boa notícia será?”. Logo que me indaguei, ele foi baixando a altitude, ao mesmo tempo em que vinha na minha direção. Em questão de segundos estava à minha frente, forçando as asas para trás, na tentativa de parar e não conseguiu. Entrou embaixo do pneu dianteiro esquerdo, escutei (ou senti) um “crec” e ainda pude ver pelo retrovisor o infeliz estraçalhado na pista. Não contive o remorso: “Eu matei o urubuuuu! Eu matei o urubuuuuuuuu! Meu Deus, eu matei o urubu.”. Superstição ou não, além de chorar de pena do bicho, não deixei de cismar com um possível mau presságio; afinal, se o urubu voando alto prenuncia coisa boa, prefiro nem pensar no que possa significar esse mesmo urubu sendo assassinado por mim.
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13 de janeiro de 2016

Ruídos insones II

O ar condicionado.
O zumbido no meu ouvido.
Minha respiração.
A gata salta no piso do banheiro.
A descarga do vizinho, a torneira do vizinho.
O ronco do vizinho!
E meus pensamentos apressados e barulhentos.

O gato da rua mia no telhado.
A coruja pia na árvore em frente.
O vento agita a árvore em frente.
A TV ao longe, muito longe, é como um chiado.
Uma janela fecha. Ou abre.
O chuveiro pinga e pinga e pinga.
E meus pensamentos apressados e barulhentos.

E minhas dores, e meu passado, e o medo do futuro.
Tudo emaranhado em nós, rodando na cabeça,
conforme me movo na cama, a tentar
o conforto pra dormir.
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29 de dezembro de 2015

Não se vive sem

Saudade não é algo que se sente. Tenho pensado a respeito. Saudade é algo que está em si. Nasce-se com ela, vive-se com ela e vai-se embora da vida carregando-a junto.

O tempo todo há uma saudade presente, quase ostensiva, e às vezes nem parece sentimento; há momentos em que parece mesmo orgânica, que faz parte do corpo. Chego a imaginar que se ficar sem saudade dentro de mim, estarei como de luto. Seria o luto de saudade da saudade.

Ou seja, ela não sai, não vai embora, não é retirável, não morre com a morte, não se mata nunca. A saudade não se mata; é eterna.

Interessante é saber que o sentido ampliado da palavra saudade só existe pra nós, que a expressamos e a ‘sentimos em Português’. Originada no Latim, está, sim, em outras línguas, ao contrário do que se costuma afirmar. Porém, quer dizer mais exatamente a falta do lar, uma vontade de voltar à casa, uma solidão por isso. Já na Língua Portuguesa saudade que dizer muito mais: é dor de toda ausência, uma dor que se pode dizer prazerosa. Tão prazerosa que foi, é e será para sempre em versos, canções e prosa. E a rima aqui é proposital.

Vinicius cantou: “Chega de saudade / A realidade é que sem ela / Não há paz / Não há beleza / É só tristeza / É só tristeza e a melancolia / Que não sai de mim.”. E Djavan também: “Era tanta saudade / É pra matar / Eu fiquei até doente / Eu fiquei até doente, menina / Se eu não mato a saudade / É, deixa estar / A saudade mata a gente.”. Clarice abusou: “Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença.”. E Fernando Pessoa foi mais longe: “Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida.”.

É incurável, pois que está sempre aqui dentro, a lembrar algo que não terá mais volta. Ou terá, mas de outra forma ou em outro tempo, quem saberá? A gente sente saudade até de não sei quê.

Uma brisa fresca ao fim da tarde... saudade; por do sol no outono... saudade; céu estrelado em noite clara... saudade; música, perfume, comida, filme, andar na rua... saudade; sonhar dormindo ou acordada... saudade. Um nome que nunca ouvi antes... saudade.


Publicada originalmente na Revista Volta Cultural - Dezembro/2015 
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19 de dezembro de 2015

Dois tempos

- Mãe, sobe aqui, rápido! Você precisa ver isso!
- Que é? Está me assustando!
- Sobe, depressa!

Ele me mostra, da janela do quarto, o céu roxo que adoro, prestes a desabar em chuva. É quase possível sentir o peso da água, que a força da gravidade empurra pra baixo. Esqueço o estava fazendo e paro. Fico estática, diante do espetáculo que vai transformando a paisagem rapidamente. Admiro o contraste com as copas das árvores, com os telhados, os muros. E me causa imenso respeito o silêncio da natureza, a prenunciar a tempestade que se aproxima. Nem um pio da passarinhada costumeira.

A ventania traz as folhas da árvore em frente pra dentro do quintal. Roupas voam na corda e pra fora dela também. Aos primeiros trovões, ainda ao longe, os bichos de casa pressentem que lá vem problema e caçam cantos pra se esconder. Ouvem-se vidraças que se fecham na vizinhança e a mãe que grita à filha: “Essa porta batendo aí!”. E o que há pouco era nuvem encorpada desaba sobre nós.

A casa é quietude. Do sofá, através do vidro que ainda escorre, vejo gotas remanescentes da chuvarada de há pouco. O tempo para; já não há mais vento. Agora é calmaria. Não há som ligado, nem TV; os bichos dormem em volta. Silêncio ruidoso: na rua, passarinhos celebram o cair da tarde. Brincam nos galhos úmidos, tomam banho nas poças das folhas, fazem algazarra na água que desce pela canaleta. Passa um carro, passa outro, e se vai distante o ronco do motor subindo a rua até sumir. Ora uma criança dá sinal de vida num apartamento, ora um cachorro late ali embaixo.

Vem da cozinha o recomeço após a chuva. O movimento que já conheço da leiteira no fogão, do acendedor, a tampa. A torneira aberta lavando a garrafa. A gaveta de talheres, o pote que é aberto e em seguida fechado. Canecas retiradas do armário. O aroma inconfundível.

- Mãe, tá rolando um café fresco, vem pra cá!
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