15 de dezembro de 2011

Dois meses antes do Natal


Os afazeres da vida urbana nos empurram à correria diária atrás de um tempo de relógio que na verdade é nada. O tanto que isso me incomoda cresce na mesma medida em que as horas passam rápido demais para quem tem muita coisa a fazer.

Há poucos dias meu amigo Jader Moraes disse no Twitter que gostaria de ganhar hoje, de presente, “dois meses antes do Natal”. Adorei a dica e quis pra mim também. É de se estudar o quanto é impressionante a quantidade de compromissos e obrigações que surgem na agenda quando o calendário de novembro vira para o de dezembro. Tudo passa a acontecer dobrado, ou triplicado, e com a impressão de que se tem horas a menos para dar conta.

Se para a pessoa que nem curte Natal já está difícil, imagino, já ofegante, o afã dos que cumprem à risca os rituais de fim de ano, dão presentes para amigos e familiares e ainda aceitam ser amigos ocultos em todos os grupos dos quais participa – do trabalho, da igreja, da terapia de grupo, da academia, do curso de inglês, da faculdade, da galera que se junta todo ano para a excursão de navio, dos vizinhos da rua, do condomínio, do clube de carteado, do boteco ali da esquina, da fila do supermercado aos sábados, dos pacientes do mesmo psiquiatra. O que acho estranho é que embora a maioria afirme que é tempo de alegria e de paz, observo as pessoas no comércio comprando e comprando com a expressão ranzinza, de tensão, ansiedade e mau humor. É isso o Natal?

E fazem listas de compras e as próprias compras ao mesmo tempo em que brigam em família para resolver onde será o Natal (normalmente passam onde não queriam), depois levam dias para decidir o que será servido e quem levará cada um dos pratos (em geral, na mesma ceia encontram-se: peru, macarronada, peixe assado, chester, arroz branco, arroz colorido, maionese, pernil, saladas, mousses, frango, farofa, frutas quentes, vinho, cervejas de marcas variadas, refrigerantes). E quando chega bem pertinho do famigerado dia 24, topam a aventura de enfrentar supermercados lotados para comprar tudo fresquinho. Já encarei uma fila de caixa numa véspera de Natal para nunca mais. Mesmo.

Agora, juntem-se a isso os compromissos de trabalho. Todos os clientes precisam que seus pedidos sejam atendidos até dia 15, no máximo 20, porque depois entram em recesso, Natal todo mundo para, sabe como é, né? Sim, sei. Mal começa o mês e já se sabe que será necessário comprar varinha de condão para terminá-lo na segunda quinzena, com ok em todas as marcações da agenda.

E ainda inclui-se nesta confusão a parte legal, claro: as confraternizações várias em que é entregue o presente de amigo-oculto, aquele momento em que o indivíduo espera receber uma das 12 alternativas que listou e é presenteado com uma 13ª. Ou seja, sempre uma desagradável surpresa, como um CD de padre pop star, um DVD da Ana Carolina (argh!), um livro de autoajuda (credo!), uma caneca da loja de 1,99 com a frase “amigo nota dez!” (“achei que era a sua cara!”).

Como chegamos a estes eventos? Atrasados, é lógico. Quem cumpre os rituais natalinos bota o carro na rua e entope a cidade. E se a opção é não ficar parado no trânsito, prefere-se estacionar bem longe do tumulto e andar a pé. Então, se atrasa de um jeito ou de outro. A não ser que saia de casa com antecedência, o que é praticamente impossível com a agenda transbordando letrinhas.

Além dos compromissos extras - os que são trazidos no saco do bom (ou mau?) velhinho - há a rotina diária que não pode parar. Respirar, dormir (ah, tá), comer, beber água, tomar banho, tirar e vestir roupa, fazer sexo (hã?!). Há os filhos, marido ou esposa, médico, arrumar alguém pra consertar o encanamento, terapia, caminhada, manicure, dentista, pagar contas, marcar depilação. E no meu caso, pensar no próprio aniversário, no do marido, no do filho, onde e como será o Réveillon. Arrrfff, cansei. Portanto, meu amigo Jader, se hoje, dia 15, você conseguir dois meses antes do Natal, me diga o que preciso fazer pra conseguir também. Estou na fila.
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4 comentários:

Marcia Fortuna disse...

Excelente Giovana...é isso mesmo...a minha reflexão é a seguinte: tudo isso para 2 finais de semana...Natal e Ano Novo.
Sem qq conotação religiosa, alguém consegue lembrar por que celebramos o Natal??? Será que alguém " para" ( de parar..tiraram o acento agudo) um ou 2 minutos na noite de Natal para agradecer " a quem quer que seja", por tudo ( inclusive os problemas... a força recebida, o colo, o sorriso e o abraço na hora que precisamos??? alguém lembra de agradecer pelo menos ao anjo da guarda ???? rs, durante o ano...sei não...) ou o " negócio é ficar na histeria " que vc descreveu muito bem...e no dia 02/01/12 uma "gloriosa SEGUNDA-FEIRA" dia útil, surtar por conta das pilhas de contas chegando, e que terão que pagar...ou seja voltar a vida REAL.
Parabéns! Adorei!
Bjsss

Jader Moraes disse...

Ufa! É tanta coisa que dá um cansaço só de ler. Mentira: não cansa ler nada que você escreve. É tudo ótimo!!

E, pode deixar, se arrumar dois meses até o Natal, te empresto uma semaninha, rs.

Fabiana Alvarez disse...

Natal? O que é isso? De onve vem? Pra onde vai?
Bom, lá em casa, por incrível que pareça estamos calmos... Por acaso esse ano nem montei a tal árvore, mas estou tão feliz com a chegada da Andanda, minha neta, que meu "natal", está acontecendo desde o dia 27 de outubro. E que bom, foi quase 2 meses antes. Acho que realizei o sonho do Jader e da Giovana, rsrs. Não se estressem, nem entrem nessa de comprar, comer, desejar, correr, estacionar e empaturrar-se de comida, façam de conta que nada está acontecendo. E boa sorte, porque precisamos é de amor, compaixão e muita luz, pro ano que vem. Aliás, o que é isso, ano que vem????
rsrs

Genis disse...

Gi, vc me descreveu em tudo aí! kkkkkkkk
Mas este ano será diferente...
Não entrei em amigos ocultos (apenas um e virtual, o das Mães Blogueiras e gostei do presente, ainda bem...)
E dessa vez não ficaremos no mesmo dilema de todos os anos de escolher onde será a Ceia de Natal!
Marido e eu decidimos: Ceia cedo, uma janta especial pra nós três!!
E sabe, tô cansada de tanta falsidade e promessas de gente que não quer mudar para o próximo ano...
Bjus, Genis ♥