11 de maio de 2011

Nunca havia visto alguém morrer

Ouvi esta frase quando zapeava no controle remoto e passei rapidamente por um diálogo entre as personagens de Nicole Kidman e George Clooney. Não me interessei pelo filme e continuei procurando outra coisa. Mas a frase não me saiu da cabeça. Não saiu porque vivi esta experiência aos 16 anos e posso afirmar que é, sim, inesquecível. Não só por ter sido a primeira vez, mas ver alguém morrer é algo único, pra não dizer estranho.

Fazia o último ano do curso técnico em enfermagem e minha estreia  no estágio seria na UTI. Nunca tive problemas de sensibilidade ao ver sangue ou nojo de vômitos e outras excreções. Considerava-me preparada para encarar as práticas da assistência a pacientes de todo tipo no dia a dia, após dois anos de muita teoria absorvida na sala de aula, principalmente as ministradas pela rígida e competentíssima professora Idalina.

E eis que no dia em que começaria a provar meus conhecimentos, entro na UTI super animada, com meu uniforme impecável, cabelos presos num rabo de cavalo, e sou recebida pela enfermeira chefe do setor já me estendendo a mão me pedindo para pegar algo em cima de um dos carrinhos de reanimação. E me dei conta de que toda a equipe estava em torno de um leito, onde uma paciente sofrera parada cardiorrespiratória. Tudo o que aprendi na teoria sobre aquele momento foi em vão. Pelo menos em parte. Diante do desespero que é tentar reanimar alguém morrendo, não consegui prestar muito a atenção às técnicas utilizadas; somente assisti, assustada, à correria dos profissionais, que se entendiam praticamente por pensamento.

Havia cerca de meia dúzia de pessoas em volta do leito, entre médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem. E eu na fila de trás, olhando. Com exceção da ajuda que me foi solicitada logo que cheguei, ninguém notou minha presença. Minha apresentação à chefe ficaria pra depois. A paciente era uma mulata grande (quando estamos deitados em decúbito dorsal ficamos mais espalhados na cama e parecemos mais largos), tinha pés e mãos inchados e estava toda conectada em aparelhos. Também não esqueço de ter visto alguém tirar o esmalte vermelho dela com éter.

Foram realizados todos os procedimentos de reanimação: massagem cardíaca, desfribilação elétrica, injeção de adrenalina direto no coração com uma agulha enorme. Nada. A mulher não voltou. Já estava parada há muito tempo e o médico não tinha mais o que fazer, a não ser olhar o relógio para determinar o horário do óbito. E eu, quando soube de mim, estava acordando de um desmaio, alguns minutos depois, na sala de descanso da enfermagem.

Até hoje não sei ao certo porque resolvi fazer este curso; talvez por algum tipo de pressão externa, afinal, muitos jovens passam por situação semelhante. Digo isso porque nunca tive uma relação muito amistosa com o tema morte. E a partir do momento em que me dispus a trabalhar em hospital, lá estava eu, bem pertinho dela o tempo todo. Atuei relativamente pouco na profissão, mas pude, digamos, participar da morte de um bocado de gente neste pouco tempo. E, como disse lá no começo deste papo, é sempre desagradável, triste, frustrante para quem está ali ao lado tentando impedir a perda e, claro, estranho. Há alguns minutos a pessoa estava; de repente, não está mais.

Fiz amizade com uma paciente de UTI, na qual eu transfundia sangue. Em todas as vezes que subi ao setor para fazer o procedimento, conversamos um bocado. Eu a achava a cara da atriz Laura Cardoso e cheguei a dizer isso a ela. Tínhamos a orientação de não nos aproximar muito, não nos deixar envolver ou emocionar, mas nunca consegui obedecer a estas regras; pra mim não dá. Como espetar uma agulha numa paciente, colocar sangue pra correr em sua veia, e não bater um papo, não ouvi-la? Talvez por me dispor a oferecer atenção e carinho, recebia o mesmo em troca e creio que poucas vezes na vida experimentei algo tão gratificante.

E esta paciente foi uma das que vi morrer. Ela não respondeu ao tratamento; foi definhando aos poucos, sendo tomada dia a dia pela doença que a levou devagarinho. Jamais imaginei que um dia seria capaz, mas não só assisti sua partida, como ajudei em toda a preparação do corpo. Papo chato esse, né? São lembranças. E nem sempre temos lembranças boas, tampouco sabemos onde fica o botão da positividade do pensamento. Uma simples frase ouvida de passagem num canal que nem me lembro, de um filme que não conheço, me levou a esta viagem desagradável, mas muito reflexiva.
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7 comentários:

GIL ROSZA disse...

Alguns vêem nisso um processo natural que vale pra uma estrela, uma galáxia, uma mosca, uma margarida ou uma ameba. Vale pra gente também, só que no nosso caso, o que complica é que há uma consciência que quer organizar o fato. Acho que é por isso que fazemos muitas perguntas e procuramos algumas respostas, nem tanto para tentar entender, mas para tentar aliviar a dor.

Gabriel Araujo disse...

Até hoje não esqueço a primeira vez que vi o corpo de um homem que havia sido assassinado. Era um primeiro teste para um jornalista foca na redação de um jornal em barra mansa. Sempre me achei forte e encarei... Mas depois ficou aquela imagem martelando e perguntas como: "Esse cara tinha família?" "Como a vida pode ser tão descartável?"... Ossos do ofício

elaine bertone disse...

Não achei o seu post nada parecido com um "papo chato", muito pelo contrário. A morte é a coisa mais certa nesta vida e precisamos pensar nela de vez em quando, sim,. mas da maneira como você pensou, quase sem querer. Por quê? Talvez para nos policiar. Será que estamos valorizando a vida como ela merece? Será que não poderíamos nos melhorar um bocadinho mais, enquanto estamos por aqui? Apesar da gravidade do tema, você ainda me vez rir, quando contou do seu desmaio. Esse bom humor que você tem é algo que muito admiro e acredito só as pessoas inteligentes possuem. Gostei!

Giovana Damaceno disse...

Recebi por email:

"Sempre que tento postar um comentário esbarro em alguma dificuldade e acabo desistindo (tenho que confessar que, nesse caso, não me esforço muito, ou seja desisto logo e nem tento romper com os obstáculos), mas não posso deixar de registrar sua incrível capacidade de me fazer viajar no tempo, espaço... Realmente escrever não é pra todos, então obrigada por compartilhar comigo seus textos, me fazem muito bem."

Calino disse...

"A morte está tão segura de sua vitória que nos dá uma vida inteira de vantagem. Melhor começar a desfutá-la"
Desconheço o autor.
Parabéns pelo belo texto inserido no blog.

Giovana Damaceno disse...

Recebi por email:

"Giovana... simplesmente não consigo deixar um comentário no seu blog, porque a página fecha, antes que eu o faça. Deve ser algum problema de configuração do meu not.
Mas, gostei muito do seu último texto. Me identifiquei com ele, porque falar baixo também é o meu maior desafio. Sou filha de italianos que cotidianamente falam alto, quando se reúnem.
Confesso que também me policio com relação às situações mais diversas, seja no telefone, no restaurante ou num bate-papo informal com alguém..."

Giovana Damaceno disse...

Do meu amigo Calino, que fez o comentário, mas a pane do Blogger apagou:

""A morte está tão segura de sua vitória que nos dá uma vida inteira de vantagem. Melhor começar a desfutá-la"
Desconheço o autor.
Parabéns pelo belo texto inserido no blog."