17 de janeiro de 2011

Brinquinho de letra

A jornalista do setor de comunicação da empresa tenta publicar uma matéria no site, mas não consegue. Em todas as tentativas recebe retorno de erro. Ela confere o texto, a foto, tenta de novo. Não vai. A notícia já está ficando velha e ela entra em contato com o suporte:

- Não estou conseguindo postar uma notícia no site. Achei que era a foto, mas mesmo sem a foto não é possível.
- Ok. Vou verificar o problema e já dou um retorno.

Cinco minutos depois o funcionário do suporte telefona:

- Me diz uma coisa...
- Sim?
- Tem algum apóstrofo no texto?
- Hã?!
- Apóstrofo. Tem algum no seu texto?
- Tem sim, no título, por quê?
- Não pode. O sistema não aceita. Por isso o erro. Você deve tirar o apóstrofo, senão a matéria não entra.

Longe de se irritar, pois teria de tirar o apóstrofo do título da matéria - e fazer título não é algo simples assim -, a jornalista caiu na gargalhada. Como é que um sinalzinho, em princípio tão insignificante, um brinquinho na orelha da letra, poderia causar estrago tão grande? “É, mas não pode”, disse o rapaz do suporte. “É pequenininho, quase imperceptível, mas o sistema não o aceita”.

O apóstrofo é mais usado na língua inglesa, como indicativo de possessão. Já no Português é raramente visto, mas mesmo assim ainda ganhou tópico especial no Novo Acordo Ortográfico. Sua aplicação se dá em quatro situações:

a) Para fazer a cisão gráfica de uma contração ou aglutinação, a exemplo de: Ontem assisti pela centésima vez à exibição d’O Vento Levou;
b) Para cindir uma aglutinação ou contração do artigo com o pronome pessoal que se quer realçar. Ex: Acreditamos n’Ele;
c) Nas ligações das formas santo e santa quando há elisão das vogais finais a e o. Ex: Flor de Sant’Ana;
d) Para assinalar a elisão do e, e da preposição de combinada com substativos: “A estrela-d’alva no céu desponta e a lua anda tonta com tamanho esplendor”.

Porém, no uso corriqueiro da Língua, raríssimos são os operários do texto que se lembram do sinalzinho gráfico, cada vez menos visto. A jornalista queria usá-lo na contração “colunista d’O Globo”, mas foi obrigada a mudar o título para que sua matéria fosse pro ar.

A parte hilária de tudo isso, que levou minha colega às gargalhadas, foi a fragilidade de um sistema em não aceitar um sinalzinho quase imperceptível. O que haverá no apóstrofo de tão incômodo que empaca o sistema? Quando ouvi esta história me lembrei de um cisco no olho, que numa noite de sábado me levou a um pronto socorro e de lá, direto para casa, com um baita curativo. Um cisco. Invisível. E fez um estrago daqueles.

Por outro lado, há os que confundem Português com Inglês e saem jogando apóstrofo pra todo lado, principalmente em nomes de estabelecimentos comerciais do tipo botequim: bar do Joelson’s, cantina Morena’s, lanchonete Petisco’s. Pior que isso é ver gente letrada escrever CD’s, DVD’s e ONG's. Chega a dar arrepios. Neste caso, melhor mesmo é que o sistema bloqueie o injustiçado apóstrofo.
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8 comentários:

c i n t i a disse...

Hahahaha! Adorei!
Essa semana mesmo corrigi um material longo de uma empresa onde lia-se o tempo todo ONG's. Eu até ia corrigir, mas na dúvida, deixei como estava.
Mas depois dessa, acho que vou alterar caso o texto volte para novas alterações!

Calino disse...

Giovana é cultura pura...

Frávia, a dona do brog disse...

Genteeee! Eu faço assessoria de imprensa do prefeito José Laerte d'Elias e o que eu recebo de correspondência endereçada ao EXCELENTÍSSIMO SENHOR PREFEITO JOSÉ LAERTE DE APÓSTROFO ELIAS não ta escrito no gibi.
Verdade!!!!
Tem noção?

jussa disse...

Giovana!
Muita gente passa por isso, eu já passei várias vezes e finalmente descobri um programa que diz se seu texto tem alguma coisa que vai gerar esse tipo de spam. Assim já podemos usar um filtro que ajuda um pouco.
Beijos
JUSSARA

Loucas por Design disse...

Muito bom Giovana, fora o excelente texto, adorei o título! rsrs beijoks.

Rosemeire Ferraz disse...

Ainda não compreendi... mas tudo q ela escreve, eu gosto! Será porquê?

Thaissa Costa disse...

O problema não é do sistema, mas da ANTA que sistematizou.
aff!
Gostei...compartilhei no face. beijoooo

GIL ROSZA disse...

Mto duka, Gio. O brinquinho fora da norma, pode ser um fetiche gramatical, manja? Afinal ele deixa algumas palavras bonitinhas. Tem também a tara dos anglófilos que querem certas palavras com um “jeitão americano”. Pessoalmente adoro a expressão “d'água”, que vive na boca gente desde que Cabral pisou a cá e nunca tratou de virar “de água”. Tem tanta coisa em cima dela que fica parecendo até um cocar tupy ou seria guarani?