19 de fevereiro de 2009

Astrapofobia


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Há algumas semanas tivemos – porque não dizer – uma tempestade de raios e trovões em Volta Redonda. Não me lembrava da última vez que vi tantos relâmpagos, um atrás do outro. Antes, durante e depois da chuva o céu era um mar de clarões. Estava na cozinha, preparando uma salada, com um baita facão na mão. E foi um pequeno passo voltar à minha infância.

Lembro muito bem que quando começavam a pipocar os primeiros raios, minha mãe e meus irmãos mais velhos tratavam logo de cobrir os espelhos com panos e esconder os metais cortantes. “Porque atrai”, diziam. Uma conhecida nossa, um pouco mais desvairada, juntava os filhos embaixo da mesa da cozinha, ajoelhava-se e rezava até a chuva passar. E ainda tem a história da empregada de uma amiga que a obrigava a tirar os óculos!

Confesso que sempre participei desse ritual de medo, mas nunca entendi bem a lógica de tudo isso. Claro, porque não tem lógica nenhuma. É simplesmente medo, mesmo. Um pavor atávico, entranhado nos seres humanos desde a era primitiva, quando o homem, ainda meio animal, não conhecia a origem daquele fenômeno. Parecia mesmo fogo no céu e a providência mais acertada era se esconder nas cavernas, pois ele não entendia aquilo.

Mas esse mistério acabou quando a ciência nos explicou a origem desses tão assustadores clarões, sempre seguidos de um estrondo de estremecer o chão. Os relâmpagos não passam de descargas elétricas que ocorrem dentro de uma nuvem, entre duas nuvens, entre uma nuvem e a atmosfera, ou entre uma nuvem e o solo, que provocam um aquecimento local do ar. É esse aquecimento que vai causar a expansão explosiva do ar ao longo da descarga elétrica, e que vai resultar numa violenta onda de pressão. É nesse momento que os nossos ouvidos registram o trovão. É claro que não se deve facilitar com campos abertos, como os de futebol, água do mar e piscina, e nem com as instalações elétricas e telefônicas dentro de casa e no trabalho. Afinal, estamos lidando com descargas altíssimas. Mas, ajoelhar embaixo da mesa já é um pouco demais.
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Aliás, essa cena eu presenciei ao longo da vida, não só com a conhecida que tentava proteger os filhos, mas na minha casa, com minha própria irmã, que sofria dessa astrapofobia. Foram muitos os momentos tragicômicos proporcionados pelo pavor que ela sentia de relâmpagos, desde sair correndo na rua gritando “Fogo!”, até tirar as mãos do volante para cobrir o rosto. Ah! E claro, também encondia-se embaixo da mesa da cozinha com a cabeça enfiada entre os braços, deixando panela no fogo, fritura queimando...

Não tenho medo de raios e trovões, ao contrário, até gosto. Acho incrível aquele céu negro pronto pra chover e sempre que posso fico da janela acompanhando todo o fenômeno. A chuva, os relâmpagos se cruzando diante dos meus olhos, os trovões assustadores, a ventania. No dia em que aconteceu essa tempestade de raios, logo que parou a chuva fui ao quintal da minha casa para assistir, ao longe, o fim da festa, como costumo chamar. No horizonte, muitos clarões ainda iluminavam a noite, sem pausa, e assim permaneceram por muito tempo. Um tempo que faço questão de dedicar, pra me deliciar com cada detalhe.

Às vezes me lembro do filme Poltergeist - O Fenômeno, criado e produzido por Steven Spielberg, em1982. A menina Carol Anne (Heather O´Rouker) aprende a contar durante os intervalos dos trovões, esperando que a cada estrondo aumente o tempo entre um e outro até que eles não ocorram mais. A técnica é ensinada a Carol Anne para dissipar o medo, enquanto pra mim é diversão pura.
E o medo é mesmo algo irracional. Se for possível investigar minimamente o motivo, teremos respostas pelo menos engraçadas. Quando terminava de escrever esta crônica, conversava no MSN com uma grande amiga e perguntei:
- Você tem medo de raios e trovões?
- Eu tenho medo, sim! Mais de raios que de trovão.
- Por quê? O que você sente? Explica aí.
Ela tenta:
- O que me dá mais medo é porque sempre nessas horas acaba a luz e eu morro de medo de escuridão.
- Então o medo mesmo não é do relâmpago?!
- Não, o medo é do escuro!!!! rsrsrsrs!

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2 comentários:

elaine bertone disse...

Engraçado, sempre soube que o conceito de ASTROFOBIA é o medo exagerado de trovões e relâmpagos e também o medo de astros ou de outros componentes do espaço. A nossa língua portuguesa é mesmo uma caixinha de surpresas porque essa variante - astrapobobia - eu não conhecia...

cintia sibucs disse...

hahaha! então agora eu vou acrescentar essa palavra no meu vocabulário.
mas no meu caso, nem seria a astrofobia mas "escurofobia-pós-relâmpago"!!!!

bjs da "amiga" em questão