6 de novembro de 2007

E eu com isso?

Há três rolos de papel higiênico em cima da caixa de descarga, para nunca faltar. Mas o suporte na parede está sempre vazio. As funcionárias da empresa entram, usam o banheiro durante todo o dia, se contorcem para pegar o papel atrás delas, porém não se dão a um trabalho menor, que é repor novo rolo no suporte.

Na pizzaria, oito pessoas de uma mesma família se refestelam. Uma criança joga a tampinha da garrafa no chão. Nada acontece. Ninguém sequer olha para baixo. Todos comem, bebem, riem, vão embora e a tampinha fica lá, até que o garçom se abaixe e a recolha.

Mãe e dois filhos estão na sala de espera do consultório pediátrico. Uma babá cuida do filho menor. Ele anda pra lá e pra cá com um copo de plástico vazio na mão. Quando cansa do brinquedinho, joga-o fora. Ali mesmo, no meio da sala de espera. Nem mãe nem babá se manifestam. O copo permanece no mesmo lugar e uma outra criança o pega e o põe no lixo.

Essas pessoas são as mesmas que reclamam do governo, seja ele do PT, PSDB, DEM, PDT ou PQP; são elas que se lamentam de preços altos, da falta de educação do motorista ou indiferença do garçom; falam mal do som alto na casa do vizinho, do prefeito que não manda limpar a praça e da copeira que trouxe o cafezinho frio.

Pessoas que exigem todos os seus direitos, querem seus desejos satisfeitos “porque sou um cidadão que paga seus impostos”. Mas, infelizmente só se lembram disso na hora de cobrar. Cobrar sim, do dono do bar, quando recebe a conta errada para mais, e é incapaz de solicitar a correção do erro, quando a mesma conta vem cobrando menos do que foi consumido. Com a maior cara de pau o ‘cidadão’ sai de fininho, com ar vitorioso.

Eu pergunto: são essas pessoas que vão salvar o planeta? São esses exemplos de falta de educação e cultura que vão se unir para reverter os efeitos do aquecimento global?

Quando vejo cenas como essas acontecerem à minha frente, não sei se fico irritada, indignada ou triste. Estamos no século 21, vivemos uma hipermodernidade que nos obriga a prestar atenção no mundo a nossa volta. Todas as informações estão aí, ao alcance de todos: na televisão, nos jornais, nas rádios, na internet, nas escolas, nas faculdades, nas ruas. Não dá mais para fazer ouvidos moucos, fingir que “não é comigo” e continuar parando o carro em cima da faixa de pedestres. É inconcebível varrer a sujeira do meu quintal e jogar tudo na calçada do vizinho.

A mulher que entra no banheiro e não perde 15 segundos do seu tempo para pendurar o rolo de papel higiênico se comporta como se não pertencesse ao mesmo mundo das outras pessoas. É o que ocorre com o pai ou a mãe que vêem o filho jogar lixo no chão e não reagem. Pensam, provavelmente, que o espaço público não pertence a eles, justamente por ser público. “Ah..! Deixa pra lá que depois vem alguém e limpa”.

Tudo o que é público é nosso; não pertence ao governo, ao dono da empresa ou da pizzaria e nem é de responsabilidade única do servente que faz a limpeza. Esse hábito de empurrar o dever para o outro é que fez o nosso planeta ficar como está. Falta civilidade, falta senso de urbanidade, falta apropriação do que é de todos. Cuidar, proteger, fazer a própria parte. É disso que o planeta, o país, a cidade, o bairro precisam. Para ser cidadão é preciso ter educação, caráter mesmo.

Uma amiga ansiosa está iniciando um projeto ambiental, que prevê várias ações no âmbito acadêmico. E fala que é preciso “andar rápido, pois a conscientização de alunos e professores não pode mais demorar”. Eu pergunto, de novo: conscientizar? De que jeito? Ninguém conscientiza ninguém. O sujeito é que se conscientiza, a partir de um processo de conhecimento, de um movimento reflexivo próprio. E como um indivíduo que sequer recebeu educação básica – por favor, muito obrigada, com licença, bom dia, boa tarde – consegue adquirir consciência? Tem estudante de medicina por aí, jogando latinha de cerveja na estrada, pela janela do carro, a caminho da faculdade. O que se faz com alguém assim? Bate na bunda?

Antes de mais nada é necessário aprender o que é respeito e em seguida colocar em prática. Considerar que o outro tem os mesmos direitos e desejos, que a água que deixo exposta no meu quintal vai levar dengue para a casa ao lado. E que todos ficaremos doentes juntos, sejamos pobres, ricos, negros, velhos, crianças, se não exercermos nossa cidadania em favor da coletividade. É o mínimo que se pode exigir de um cidadão.

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4 comentários:

Anônimo disse...

Interessante perceber que n�o sou a �nica a sentir solid�o no meio da multid�o.

bjs

zan

cintia sibucs disse...

pois é, incrivel como isso acontece mesmo. eu ñ sou perfeita, mas se atiro um papelzinho sequer no lixo, mesmo q seja no banheiro, e ele cai no chão eu vou lá, pego e devolvo pro lixo.
penso que pode ser assim essa conscientização, através do exemplo.

bjs

POESIA EM VOLTA disse...

Nossa! Eu também fico indignada com coisas assim. Realmente, ninguém vai "tomar" consciência nem na faculdade, nem na farmácia, nem sei por onde mais... Certa vez quanse batemos de carro, porque o que ia na frente jogou um côco na estrada... será que é preciso coragem para continuar a ser o que aprendemos na infância: com licença, por favor, muito obrigado... e outras mais. Beijos e "vamos precisar de todo mundo!"

Mari disse...

Moça, esse artigo está perfeito.
Gosto da indignação que você transmite, mostra uma vontade muito grande de fazer algo, mas aí você se pergunta: "como é que pode dar certo nadar contra a corrente?".

Me lembro de uma frase do Renato Russo: "A humanidade é desumana, mas ainda temos chance".

Parabéns!!!!! Teu blog tem mt conteúdo, não é apenas mais uma página de futilidades (graças a Deus!!!!!)

Sou aluna do curso de Com. Social...Futura jornalista!!!!!