A mim não parece um romance de
estreia, tamanha maturidade na temática e no desenvolvimento do drama. Talvez
pela experiência de ser mulher na Nigéria, da mesma forma que é difícil ser
mulher e negra no Brasil. O livro prende, agarra, surpreende. Quando penso que
já entendi o que está acontecendo, surpreende de novo.
Já chego rasgando elogios a “Fique
comigo”, da Ayòbámi Adébáyò, lançado em 2027, e que só agora chegou a minha
mão, por indicação de um contato de rede social. Aos poucos e cada vez mais vão
aparecendo por aqui essas maravilhas da literatura escrita por mulheres
africanas; uma leitura que dói, sacode, faz chorar de indignação, mas é muito
necessária pra compreender um ambiente tão distante do nosso.
Mulheres que sofrem submetidas a
costumes, história, cultura, religião, família, marido... parece lugar comum?
Não é, não. Ayòbámi fala de poligamia, famílias pluriparentais, obediência irrestrita
a todos e todas que vieram antes e aos mais velhos que chegaram depois. Fala de
uma personagem que é obrigada a responder a toda essa gente porque não consegue
engravidar. Além da pressão, ainda tem que aceitar uma segunda esposa do
marido, por imposição da sogra, na tentativa de fazer nascer uma criança
naquela casa. E muitos absurdos acontecem, um após outro, enquanto Yejidi tenta
a todo custo dar um filho a Akin, sem se dar conta do quanto é enredada por
mentiras.
“Fique comigo” também é uma
história de perdas, de cultos de feitiçaria, de como lidar (ou não) com a
anemia falciforme – doença que comumente acomete a população negra e de outras
origens com ancestralidade africana –, numa Nigéria da década de 80, com poucos
recursos, pouco entendimento dessa anomalia no sangue e poucas chances de
sobrevivência.

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