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15 de janeiro de 2026

Tradições e sacrifícios

A mim não parece um romance de estreia, tamanha maturidade na temática e no desenvolvimento do drama. Talvez pela experiência de ser mulher na Nigéria, da mesma forma que é difícil ser mulher e negra no Brasil. O livro prende, agarra, surpreende. Quando penso que já entendi o que está acontecendo, surpreende de novo.

Já chego rasgando elogios a “Fique comigo”, da Ayòbámi Adébáyò, lançado em 2027, e que só agora chegou a minha mão, por indicação de um contato de rede social. Aos poucos e cada vez mais vão aparecendo por aqui essas maravilhas da literatura escrita por mulheres africanas; uma leitura que dói, sacode, faz chorar de indignação, mas é muito necessária pra compreender um ambiente tão distante do nosso.

Mulheres que sofrem submetidas a costumes, história, cultura, religião, família, marido... parece lugar comum? Não é, não. Ayòbámi fala de poligamia, famílias pluriparentais, obediência irrestrita a todos e todas que vieram antes e aos mais velhos que chegaram depois. Fala de uma personagem que é obrigada a responder a toda essa gente porque não consegue engravidar. Além da pressão, ainda tem que aceitar uma segunda esposa do marido, por imposição da sogra, na tentativa de fazer nascer uma criança naquela casa. E muitos absurdos acontecem, um após outro, enquanto Yejidi tenta a todo custo dar um filho a Akin, sem se dar conta do quanto é enredada por mentiras.

“Fique comigo” também é uma história de perdas, de cultos de feitiçaria, de como lidar (ou não) com a anemia falciforme – doença que comumente acomete a população negra e de outras origens com ancestralidade africana –, numa Nigéria da década de 80, com poucos recursos, pouco entendimento dessa anomalia no sangue e poucas chances de sobrevivência.

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