Conheci a autora no Encontro do Mulherio das Letras, em
Florianópolis, e lá soube de suas publicações. Procurei para comprar na nossa
mesa de livros à venda e não encontrei. Não satisfeita, fui atrás da própria
Marlene.
Ao saber que os livros não estavam à venda e, sim, eram
presenteados, fiz a minha melhor e mais simpática cara de pau e pedi. E ela,
muito gentil, levou os exemplares no dia seguinte.
Essa é a Marlene que em 54 textos narra seus dias de
isolamento durante a pandemia de Covid-19, quando deixou seu apartamento na
capital para ficar com a mãe, no sul de Santa Catarina: uma alma gentil. Consigo
mesma, com a mãe, com os bichos, com o jardim, com a horta, com sua própria
história, resgatada nos longos papos com Dona Terezinha.
Não foi nada fácil a clausura da pandemia para quem levou a
sério o risco que corríamos. E Marlene não só abraçou a missão, como decidiu
que escreveria sobre seus dias no campo, em suas idas e vindas a Florianópolis,
a preocupação em proteger a mãe e ao mesmo tempo mantê-la feliz, satisfeita, tranquila.
Para isso Marlene precisou calçar galochas e pegar na enxada, assumir as
compras e a cozinha, tomar conta da rotina médica de Dona Terezinha e à noite
sentar para escrever. Um grande aprendizado desenvolvido quase minuto a minuto,
naquele tormento em que não víamos muita esperança.
Os relatos se alternam entre os afazeres do dia a dia, com
detalhes da vida da mãe, da avó, das lutas das mulheres das famílias do campo, sua
própria história, educação e trabalho, os desmandos do (des)governo da época. E
muito sentimento: ausências, saudades, a falta de abraços, a filha longe, a
distância dos irmãos e amigos, as notícias cada vez piores, amigos indo embora,
mulheres sofrendo violência no isolamento doméstico. E também as pequenas
alegrias diárias: os alimentos semeados e colhidos no próprio quintal, ovos
colhidos no galinheiro, o roçar dos gatos, cantos de pássaros e chilreio de
grilos e sapos, flores no jardim, silêncio.
Apesar de toda a tristeza em que se desenrolam os acontecimentos
narrados, ler Marlene foi um presente, pela suavidade, pela honestidade, pela
quantidade de informação que ela disponibiliza, pelo conhecimento que nos oferta,
por tanto amor e por tamanha gentileza em tudo o que diz e faz.
Para quem puder ter acesso, recomendo que leia.
E meu muito obrigada à Marlene de Fáveri, por tudo isso.

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