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5 de janeiro de 2026

Com gentileza, na incontingência e nas palavras

Todo o tempo de que dispunha naquele período recente dediquei à leitura de dois livros da mesma autora: “Crônicas da incontingência da clausura – cotidianos da pandemia”, volumes 1 e 2, da Marlene de Fáveri. E foi a melhor coisa que fiz.

Conheci a autora no Encontro do Mulherio das Letras, em Florianópolis, e lá soube de suas publicações. Procurei para comprar na nossa mesa de livros à venda e não encontrei. Não satisfeita, fui atrás da própria Marlene.

Ao saber que os livros não estavam à venda e, sim, eram presenteados, fiz a minha melhor e mais simpática cara de pau e pedi. E ela, muito gentil, levou os exemplares no dia seguinte.

Essa é a Marlene que em 54 textos narra seus dias de isolamento durante a pandemia de Covid-19, quando deixou seu apartamento na capital para ficar com a mãe, no sul de Santa Catarina: uma alma gentil. Consigo mesma, com a mãe, com os bichos, com o jardim, com a horta, com sua própria história, resgatada nos longos papos com Dona Terezinha.

 “O cotidiano tem coisas que não se explica sem senti-las na pele e nas veias. Não existe realidade sem o cotidiano, este lugar do devir ou do vir a ser a partir das experiências. Do latim devenire, pode ser lido como tornar-se diferente do que era antes, movimentar-se. No sentido mais comum, cotidiano seria a esfera privada da vida, onde acontecem rupturas – como está sendo na pandemia – mas principalmente permanências de costumes, hábitos, gestos e práticas culturais.” 

Não foi nada fácil a clausura da pandemia para quem levou a sério o risco que corríamos. E Marlene não só abraçou a missão, como decidiu que escreveria sobre seus dias no campo, em suas idas e vindas a Florianópolis, a preocupação em proteger a mãe e ao mesmo tempo mantê-la feliz, satisfeita, tranquila. Para isso Marlene precisou calçar galochas e pegar na enxada, assumir as compras e a cozinha, tomar conta da rotina médica de Dona Terezinha e à noite sentar para escrever. Um grande aprendizado desenvolvido quase minuto a minuto, naquele tormento em que não víamos muita esperança.

 “No movimento da narrativa, o que me move vai tomando cursos do que emociona, seja para os enfeites que a vida dá, seja para a dor que aperta e abre feridas. Faz algum tempo, perguntei à amiga Urda Klueger como faz para escrever tão belas histórias? Me aconselhou a escrever o que vem do coração. Nestas últimas semanas, andei tendo disparos cardíacos de tantos sentidos que me apunhalaram, tive que lidar com isso, e na escrita encontro os silêncios que me acalmam.” 

Os relatos se alternam entre os afazeres do dia a dia, com detalhes da vida da mãe, da avó, das lutas das mulheres das famílias do campo, sua própria história, educação e trabalho, os desmandos do (des)governo da época. E muito sentimento: ausências, saudades, a falta de abraços, a filha longe, a distância dos irmãos e amigos, as notícias cada vez piores, amigos indo embora, mulheres sofrendo violência no isolamento doméstico. E também as pequenas alegrias diárias: os alimentos semeados e colhidos no próprio quintal, ovos colhidos no galinheiro, o roçar dos gatos, cantos de pássaros e chilreio de grilos e sapos, flores no jardim, silêncio.

Apesar de toda a tristeza em que se desenrolam os acontecimentos narrados, ler Marlene foi um presente, pela suavidade, pela honestidade, pela quantidade de informação que ela disponibiliza, pelo conhecimento que nos oferta, por tanto amor e por tamanha gentileza em tudo o que diz e faz.

Para quem puder ter acesso, recomendo que leia.

E meu muito obrigada à Marlene de Fáveri, por tudo isso.

 “Desde quando nos
queimaram nas fogueiras,
não paramos mais de arder.
Nossos úteros carregam a
Fúria de nossas cúmplices ancestrais.
Somos feitas do barro que as
limalhas não conseguiram romper.”

 

 


 

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