1 de agosto de 2012

Esse jeito mineiro de ser


Há apenas quatro dias em Minas e já encantada com a capacidade do mineiro de ser educado, acolhedor, preocupado em atender bem, solícito até não poder mais. Comportamentos tão inacreditáveis que nos levam a exclamar a todo momento: “O Brasil não conhece o Brasil”.

Foram várias as vezes em que precisamos parar para pedir informações. O mineiro não só informa, como complementa o que se quer saber. “A estrada para São Thomé é por aqui?” “É, sim. O senhor sobe toda vida, lá na frente tem um sinal, o senhor vira a direita e vai embora”. Foi assim, todas as vezes.

Em Três Corações, paramos numa padaria no centro e perguntamos como fazer para chegar à saída da cidade. Dois funcionários praticamente disputaram a melhor forma de me ensinar como fazer o caminho. Um falava, o outro completava, discutiam a melhor forma, falavam comigo de novo, até entrarem em acordo sobre o trajeto que eu entenderia mais facilmente. Nunca vi isso em lugar nenhum.

Em todos os postos de gasolina que paramos, aproveitamos para saber se estamos no rumo certo, se a estrada está em boas condições ou onde há um lugar próximo para comer. Em Minduri, perguntamos ao frentista onde poderíamos almoçar rapidamente, comida simples. “A senhora passa por Minduri, vai reto toda vida, na saída da cidade tem um restaurante pequeno, à direita, restaurante da Célia; tem uma comidinha muito boa mesmo. A senhora vai gostar.” Meu marido não acreditou muito e acabou mordendo a língua, ou melhor, saboreou uma comida mineira da melhor qualidade.

A melhor história aconteceu em São João Del Rei. Fomos de ônibus, de Tiradentes, e em São João o ponto final era muito longe do centro histórico. Quando nos demos conta de que íamos andar muito, perguntamos numa loja onde poderíamos pegar um táxi. O balconista saiu da loja justamente quando vimos um táxi, que estava ocupado. Desistimos, claro, mas ele parou o carro mesmo assim, foi correndo até lá, “pois ele pode passar aqui na volta!”. E nós, assistindo aquela cena, pasmos. O vendedor da loja não só parou o táxi, como conseguiu que nos levasse. “Pode vir, pode vir, ele não está levando passageiro, é o filho dele; pode levar vocês também!”. Entramos os três no banco de trás, incrédulos. Porém, o mais inacreditável foi o taxista nos dizer que não era de São João e, sim, de Prados, e que estava na cidade apenas para depositar um dinheiro no banco. Engoli em seco. Ao final da corrida, quanto é? “Quatro reais”. Até agora não compreendo tamanha solicitude.

No mesmo dia, já de volta a Tiradentes, fomos a uma pequena padaria no centro histórico. Era fim de tarde, estava frio e eu precisava ir ao banheiro. Ao entrar, olhei para todos os lados e não vi nenhuma portinha. “Não tem banheiro?” “Ah, não temos!” “Gente, aqui não tem banheiro, e agora?”. No mesmo instante ouvi uma voz lá de fora, da calçada: “A senhora quer ir ao banheiro? Vem comigo, eu levo a senhora, vem cá, pode vir, me segue aqui”. E lá fui eu atrás daquele homem. Descemos a rua, viramos à esquerda, descemos mais alguns metros, entramos numa pousada, “vou levar esta senhora ao banheiro, tá bom?”, atravessamos todo o saguão, alcançamos a sala de refeições, onde ficava o banheiro. Ele ainda abriu a porta e acendeu a luz pra mim. “A senhora fica à vontade, sim?”. Só não fiquei muda, de tão pasma, porque precisava agradecer a gentileza.

No dia seguinte, já em Ouro Preto, terminamos de jantar num restaurante num subterrâneo da cidade. Pedimos o cardápio ao garçom para escolher uma sobremesa e ele: “Não tenho sobremesa, mas vocês podem ir à doceria aqui ao lado, escolher o que quiserem e trazer para comer aqui. Tomem, levem dinheiro, paguem lá e depois eu cobro na conta. Mas vão rápido que já vai fechar”.

Creia: a todo momento vivemos uma história semelhante. É algo que faz pare da cultura dos mineiros, pelo menos nas bandas por onde passa a Estrada Real, que é nosso roteiro nestas férias. Todos se comportam da mesma forma, é muito impressionante, pois não estamos acostumados a tamanha educação e generosidade. Estamos conhecendo e revendo lugares, mas também nos surpreendendo com pessoas que são capazes de parar o que fazem para ajudar, acolher, informar. E não ficam satisfeitos enquanto não têm certeza de que cooperaram mesmo com o outro.

Minha amiga Andrea Auad disse ontem num comentário no Facebook que os mineiros são pessoas especiais. Acho que é algo mais que isso, mas ainda tenho alguns dias para descobrir o que é.
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2 comentários:

Jader Moraes disse...

Que legal! Conheço pouquíssimo Minas. Esse seu relato me deu vontade de fazer um roteiro mineiro também em minhas próximas viagens.

Agora... choque vai ser quando voltar à nossa Cidade Cinza! rs

Débora Martins disse...

Giovana, é assim mesmo. Mineiro é um povo muito educado e solicito. Embora eu não seja mineira, sou filha de mineiros que falam desde "dendapia" até "esse trem é bom demais". E falando de Prados, é um lugar maravilhoso que ainda preserva características de cidade pequena apesar de já receber muitos turistas.