6 de fevereiro de 2012

Ué, não são seus amigos?


Cheguei em casa afobada, coloquei as cervejas na geladeira, dei os últimos retoques na arrumação da mesa. Em poucos minutos receberia a visita de um grupo de amigos. Andava pra lá e pra cá na cozinha, ajeitando uma coisinha e outra, quando meu filho perguntou: “Mãe, você ainda vai se arrumar?”. Eu disse “Claro, meu filho! Acha que vou receber meus amigos assim?”. E ele: “Ué, não sei, mãe, não são seus amigos?”. Parei todos os meus pensamentos.

Usava short, camiseta, chinelos, arco no cabelo. Típico lay out caseiro ou para chegar no máximo à padaria ali da esquina. Claro que não receberia visitas vestida assim. Ainda tomaria um delicioso banho, usaria roupa condizente com a ocasião, perfume, acessórios e tal. Mas o questionamento do meu filho foi crucial. Na visão dele, se são meus amigos, pra quê armadura? Por que eles não poderiam me ver daquele jeito? Que problema haveria de me verem como normalmente fico em casa?

Ele já é um adolescente, mas ainda guarda no coração a pureza e a naturalidade de toda criança. Me vê como sou e diz o que pensa e o que sente com toda a verdade que conhece. Há sempre a obrigação de estar desse ou daquele jeito, escolhemos as máscaras que devemos usar de acordo com hora, local e companhia, nos preparamos diariamente para variadas encenações. Claro que no caso era o momento que exigia a roupa adequada, não os amigos. Mas, a gente nunca pensa realmente desta forma. E de repente uma perguntinha tão simples mexe fundo e traz a questão à tona.

Sinceramente não sei até onde deveria ir com esta conversa ou se deveria mesmo chegar a algum lugar. Sinto é que não posso me furtar à reflexão do que estou fazendo de minhas relações pessoais, se as vivo de coração aberto ou se apenas me mascaro e vou levando. Afinal, é meu filho quem me desperta e ele também se inclui no variado grupo com o qual me relaciono. Para muita gente, ouvir a observação que me foi feita renderia tão somente um “e daí?”, mas não é de tantos “e daí?” que tem se formado a convivência coletiva tão desrespeitosa que vemos atualmente? Todo mundo se lixa pra todo mundo e segue em frente. Não sei se é isso o que quero e é um garoto de 14 anos quem me abre os olhos.

Publicada originalmente no jornal Volta Cultural - Janeiro/2012
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2 comentários:

Genis disse...

Gi querida, fiquei arrepiada... como aprendemos com nossos pequenos... amei!
Beijo grande no nosso lindo e sábio Caio.
Amo vcs!
Genis

Carlucio Bicudo disse...

Seu filho, realmente tem razão!
Deveríamos ser o que somos diáriamente com as pessoas que nos conhecem.
Não precisamos usar máscaras, para receber os nossos amigos. A não ser, que estes não sejam realmente nossos legítimos amigos.

Giovana, escrevo poesias também e gosto muito de Haicais. Rsrs. Pelo menos acho que escrevo. Rsrs.
Abraços.