16 de maio de 2011

Animal tratado como animal

Pagava o pacote de ração da minha gata no balcão da loja, quando a balconista pediu a outro funcionário que retornasse com o cão, que acabara de tomar banho, pois a guardiã dele chegaria atrasada. “Tranca lá dentro; ele é muito bagunceiro”. E nós, quando vimos o animal, claro, ficamos encantados com a beleza dele. Branquinho, peludo, orelhas grandes, todo escovado e com cara de sapeca. “Trancar? Tadinho!” E a vendedora me contou que o cãozinho com cara de Totó era, na verdade, um furacão.

“Mas, como assim, um furacão?”, quisemos entender. E ela nos explicou que o Bud – esse é o nome do cão – passara uma temporada na casa dela durante uma viagem da dona e destruíra até o sofá. “O pobrezinho mora em apartamento e passa o dia inteiro trancado em um banheiro. Diz a guardiã dele que o leva a passear todos os dias, mas mesmo assim, acaba sendo pouco. Vai à rua, volta para o banheiro. Não vê nada, nem ninguém, nem pode brincar”, contou a balconista para a pequena plateia chocada em torno dela.

Minha pergunta é: por que quis ter um cachorro?

A resposta pode vir de diversas formas. A guardiã pode ter recebido o animal de presente, sem ter pedido ou se programado para isso; pode ter ficado com ele temporariamente, para colaborar com algum impedimento dentro da família e o bicho acabou ficando; morava numa casa e teve de se mudar para apartamento; ou comprou aquele filhotinho lindo, sem se dar conta de que filhote cresce, faz xixi, cocô, come sapatos, meias e, dependendo da raça e do tamanho, devora muitas outras coisas dentro de casa. Quem tem o mínimo conhecimento destes detalhes se organiza para ter um animal. Chamamos a isso de posse responsável.

E muita gente, mas muita mesmo, sequer tem noção do que é necessário saber para ter um animal em casa e praticar a posse responsável. E isso tem um motivo básico: a maioria das pessoas ainda pensa que animal é objeto, brinquedo. E dá no que dá. Compram-se bichos, presenteia-se com bichos, leva-se bichos pra casa como se fossem um pacote de biscoito. De repente, descobre-se que não era bem aquilo e a solução encontrada é descartá-lo, dando pra alguém, ou jogando fora mesmo. Uma cultura antiga, primitiva, ignorante, de que animais em casa são peças decorativas e pronto.

Ao lado da minha casa há um cão neurótico, quase como o Bud. Ele vive numa exígua varanda, no segundo piso de uma residência de dois andares. A guardiã o leva a passear, segundo meu filho, que já viu a cena algumas vezes. Mas na maior parte do tempo ele está trancafiado naquela varanda, sem ver ninguém além das pessoas da casa. E quem sofre mais com isso além dele mesmo? Eu, claro. Quando ele consegue enfiar a cabeça pela grade a única coisa que vê é meu quintal e as janelas do meu quarto e da minha cozinha. E basta ouvir vozes que late, late muito, sem parar, praticamente nem respira. E o latido dele é fino, agudo, intermitente, irritante. Um latido tão solitário e neurótico que até meus cães parecem ficar com pena. Enquanto ele late desesperadamente com a cabeça na grade, os meus bichos ficam olhando, sentados, calados.

Animais precisam de espaço, contato com pessoas – tanto as da casa, quanto de fora –, espaço suficiente para ter comida e água longe do local onde fazem xixi e cocô. E, de preferência, soltos. Tenho dois cachorros que vivem em um quintal com tamanho de sobra para que corram à vontade. Alimentação de um lado, excreções de outro. Possuem uma área protegida como também podem tomar sol quando querem. E não têm sequer coleira; vivem soltos, sempre. A coisa mais rara é ouvi-los latir.

Animais de estimação não devem ser tratados como gente mas, sim, como animais! Nisso já está embutido todo o respeito com que deveriam ser tratados todos os seres vivos. Simples.
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5 comentários:

Carol Bentes disse...

Simples.


(mas tem gnt q faltou a essas aulas)

Anônimo disse...

Perfeito. Animal tratado como animal, nem como gente, nem como objeto. Parabéns pelo texto.

GIL ROSZA disse...

Gosto muito da expressão “companheiros”. Além de ser uma verdade e tanto, ilustra bem que existe ali uma relação de cuidado, responsabilidade e afeto.
Pessoalmente prefiro substituir a palavra dono por companheiro, acho que é isso que somos. Nem acessório de moda, nem brinquedos, muito menos objeto de posse. Nós todos, seja em que espécie se esteja zoologicamente catalogado, pertencemos a natureza. Compartilhamos neste planeta o mesmo espaço bioativo que é de uso comunitário de todos os vivos (bactérias e vírus, inclusive estão aqui há muito mais tempo) sem distinção.

Giovana Damaceno disse...

Recebi por email:

"Li o seu texto e dá muita pena desses bichinhos, o do banheiro e o da sacada... e nao é raro ouvir histórias assim. Pena mesmo é esses "donos" não aproveitarem a oportunidade de terem um cachorro em casa para aprender lições diárias de fidelidade, amizade e companheirismo."

Carol Spostes

Taís Santos disse...

Excelente texto Giovana, Parabéns!
É muito triste a humanização a que muitas pessoas submetem seus bichos de estimação, achando que só banho toda semana e ração de qualidade já garante uma qualidade de vida à eles.
Cachorro feliz tem sim que ter boa alimentação e higiene mas precisa também de correr, brincar, passear por aí, encontrar com outros cães, interagir com o ambiente e não ficar trancafiado o dia todo em casa e só sair para "ir ao banheiro".
Eles sofrem e nós sofremos ... também tenho vizinhos que tratam seus cães como bibelôs e os fizeram se tornar latidores insuportáveis.
Depois ainda dizem que nós é que somos racionais. : (