2 de dezembro de 2010

Depois da chuva, o recomeço


Na varanda do casarão de fazenda onde trabalho vi a água da chuva ganhar todo o piso, lentamente, até chegar aos meus pés e me expulsar do banco onde admirava o aguaceiro cair do céu. Um único bueiro é responsável pelo escoamento e, claro, não consegue dar conta de tamanho volume. Pude admirar um pouco esta paisagem que adoro e em segundos me lembrar de um fato ocorrido na infância.

Morava num trecho da rua onde a água também escoava mal. Se a chuva fosse muito forte e durasse mais que 15 minutos, alagava a frente da minha casa e de mais alguns vizinhos. Meu quintal era longo, cerca de dez metros do portão à varanda. Uma grande distância para a água vencer, mesmo que chovesse muito e por muito tempo. Mas, um dia venceu.

Choveu pesado. Choveu muito. Era muita água descendo. E subindo. Chegou à calçada, passou pelo portão, rapidamente encheu o jardim. Da janela da sala acompanhávamos o trajeto dela chegando cada vez mais perto. A casa não ficava extamente no nível da rua; havia uma leve inclinação, o que aumentava ainda mais a nossa expectativa. "Será que vem até aqui?"

Por fim, aquela piscina enorme de água barrenta, se aproximou da varanda e ali pareceu ficar. Não subia e nem descia. Ficamos todos em suspense, tomando conta. A chuva estiou um pouco e logo voltou a cair tão forte quanto antes. Por poucos minutos pensamos que pararia novamente e a água, como sempre, retornaria à rua e tomaria o rumo dos precários bueiros.

Mas não contávamos com a participação especial de um caminhão naquela cena que não terminava nunca. Um basculante passou na rua, numa velocidade não esperada para a situação. E vimos a água tomar corpo numa volumosa onda e entrar pela sala, tomar o corredor, quartos e cozinha, deixando a todos com um olhar atônito e nenhuma noção do que fazer. A altura da cheia ficou pelos meus joelhos, o que na época correspondia às canelas de minha mãe. Sofás, camas, geladeira, fogão, armários tiveram pelo menos 30 centímetros afundados.

A água entrou, banhou a casa inteira, nos apavorou e em pouco tempo começou a baixar, juntamente com o estio da chuva. Tão rápido quanto entrou, foi voltando para a rua. A família, novamente na janela, olhava para fora – feliz – e para dentro – desolada. Hoje é engraçado recordar aqueles momentos, do quanto fiquei com medo ao ver a água cobrir metade das minhas pernas. E na varanda do casarão, me diverti com a chuva, seus trovões e relâmpagos, e com a água que insistia em alagar o piso e se aproximar dos meus pés.

Penso nas famílias que têm a casa inteira alagada, que perdem todos os seus pertences (às vezes quase não os têm) e que precisam começar de novo. No meu caso, lá na infância, este recomeço limitou-se a apenas um dia e meio de faxina intensa. E aqui no trabalho, retornei à mesa e reiniciei o computador, após a queda de energia.

A chuva de ontem me lembrou esta lição, a de retomar as rédeas da minha vida ao ponto de onde parei, seja qual for o motivo, recomeçando sempre, infinitamente, minuto a minuto. A vida nos ensina e nos exige isso.
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8 comentários:

Alden disse...

Caramba, Giovana, que lindo!
Nunca poderia imaginar tanta poesia e filosofia numa chuva!!!
Isso me fez refletir, sabe?Na outra ponta deste mesmo local onde você trabalha, eu estava conjurando esta mesma chuva por ter tido esta queda de energia e perder o trabalho todo que estava fazendo ao computador!Eu não poderia estar feliz, pensando em coisas boas?rsAo contrário, passei a maior parte do dia injuriado por causa deste incidente.
Escolhas, nada mais que isso.
Obrigado pelo seu texto.

Anônimo disse...

Gi,
Adorei o texto! Às vezes a chuva vem causando muitos estragos, é bem verdade, basta olharmos os noticiários, mas outras vezes ela também lava a nossa alma! Pode ser sinônimo de muita tristeza, mas de muita alegria também!
Absolutamente vital e necessária, assim como as lágrimas e os sorrisos...
Um grande abraço, Rita.

Carlucio Bicudo disse...

Prezada Giovana,

Adorei o seu texto sobre a chuva... Me fez relembrar o tempo de criança. Quando adorava ver e sentir a chuva cair nas tardes de verão...
Gostava muito de tomar banho na bica da chuva que caia do telhado.
Era tudo de bom...
Parabéns pelo texto.
Sou seu mais novo seguidor.
Quando vc puder,por favor, visite o meu blog também e se gostar. Deixe um pequeno comentário.

http://oliveirabicudo.blogspot.com/

Carolina disse...

Também cultivo inúmeras histórias de enchentes. Minha infância foi permeada por várias delas e em nenhuma delas tive medo, ao contrário, pois enchente significava bagunça, mudança na rotina, em outras palavras... Farra!! Mas este ano experimentei o gostinho de ver minha casa (a minha mesmo, não a dos meus pais) inundada por uma água horrível!! Vi baratas por todos os cantos da parede e até uma ratazana rondando. Claro que eu não estava lá e quando cheguei só vi o desastre. Meus seis gatos apavorados sem entender o que estava acontecendo. Entrei em desespero e mesmo sem ter meios de transporta-los comecei a pegá-los no colo a todo custo, mas... Nada feito. Tive que desistir da empreitada e rezar para que a água baixasse e nada os acontecesse. Naquela noite não dormi, só chorei, chorei e chorei. Vigiei a água da casa da minha irmã, onde ela não tinha chegado e quando o dia raiou botei uma galocha no pé e me pus a caminho de casa, para socorrer meus gatos e acalmar meu coração. A visão era horrível, só lama, muita lama, mas a alegria de ver meus bichinhos vivos e bem foi muito maior e fez a mega hiper ultra power faxina parecer fichinha!!!

artedodesenrolo disse...

É complicado esse negócio de alagamento, quem mora no bairro barreira cravo sabe bem como é isso.

Wellington Freitas disse...

Giovana, quem sou eu pra falar isso, mas você escreve muito bem, parabéns por retratar aqui o que muitos passam e sentem, apenas não o comentam. Parabéns, belo texto.

Beijos
Wellington

Fernando de Barros disse...

Gio
Demorei para postar não porque não tivesse lido, mas sim por esquecimento mesmo.
Esquecimento este que veio a tona graças a um comentário do atual galã que me falou sobre este seu texto, aliás um dos melhores por você já escrito.
A vida é isso mesmo um recomeço. Precisamos estar sempre recomeçando e de preferência corrigindo os nossos erros.
Se me permite vou citar um exemplo de recomeço meio estranho, mas real: corte o rabo da lagartixa. Vera que o animal não se abala e logo outro nasce em seu lugar.
Assim devemos agir em nossas vidas. Arrancar aquilo que está podre, que não presta e deixar nascer algo novo.
Beijos e mais uma vez parabéns.

c i n t i a disse...

Nunca passei por isso, mas conheço gente que já passou.
E acho imensamente interesante como vc consegue transformar isso é poesia!

Bjs!