19 de março de 2010

Crise capilar

Meu filho chegou em casa aborrecido. Foi à cabeleireira e, claro, com 12 anos quem é que sai do salão satisfeito com o corte? A mamãe aqui, claro também, tem que parar tudo o que está fazendo para um bate-papo conciliatório. Quem não tem filhos não faz a menor ideia do que seja isso. O cara fica triste, cabisbaixo, envergonhado, não sabe o que fazer para não ser debochado pelos amigos no dia seguinte. E a mamãe aqui, tenta fazer o milagre. Aliás, com filho nessa idade, é um milagre por dia.

Está na moda para essa garotada um corte de cabelo que acho estranho, mas que meu filho adorou e adotou, mesmo com um cabelo que teima em não se adaptar ao modelito. Pra mim é o tal de Emo, mas ele insiste que não é, porém não sabe dizer bem do que se trata. Vou tentar explicar: ele é curto bem rente à nuca; pode ter um pouco de volume; a franja é comprida e virada para um dos lados, ficando meio caída em cima dos olhos. Detalhe: ela não pode ficar acima da altura das sobrancelhas. Outro detalhe: quanto mais liso melhor.

A trabalheira que isso dá, todos os dias, chega a ser engraçada. Xampu, condicionador, modeladores e pomadas fazem parte de um arsenal que contam com a ajuda de secador e escova de cabelos. A mamãe tenta ajudar, com toda a boa vontade, mas não consegue pegar o jeito. Ele vira a cabeça, torce o pescoço, busca as madeixas lá atrás e puxa tudo para a frente de um lado só. E fica aquela franjinha incômoda em cima dos olhos. Sai satisfeito de casa, feliz da vida. De vez em quando tem que jogar a cabeça e parece que ela vai ser lançada longe; quando não é isso, é a ponta do dedo que passa pela ponta da franja pra tirar os fios dos olhos. Deus meu!

E a cabeleireira detonou tudo isso. O volume estava um pouco exagerado, uma ponta aqui, grande ali, marcou hora e lá foi. Voltou com o cabelo todo repicado, a franja desfiada e curta, não dá pra virar de lado, orelhas e sobrancelhas aparecem. Olhos cheios de lágrimas, revolta, reclamações, muitas reclamações. Passei o resto da tarde, entrei à noite e fui dormir com os lamentos.

No dia seguinte, tentei uma conversa de mãe pra filho, não mais conciliatória, mas de despertamento para a vida. Nunca fiz do meu cabelo um motivo de aprisionamento e sugeri que ele também não fizesse isso; faz mal à saúde da alma. Depois que perdi todas as minhas madeixas e fiquei seis meses sem elas, ficou ainda mais fácil desqualificar a importância de fios rebeldes. Adolescência é um momento de inadequação total e se a criatura para a vida por conta de uma adversidade que vai durar apenas alguns dias, é sofrimento que não vale a pena.

Bom mesmo é curtir a onda, seja ela qual for. E acho que deu certo. Ele aproveitou o novo corte para fazer um estilo despontado e arrepiado, e está feliz com isso. Espera a próxima ida a um salão para ver no que vai dar. E pra mim a vida ficou assim: se agora está desse jeito, vou desse jeito; amanhã vai estar diferente, então fico diferente também. Como diz Zeca Pagodinho a Zeca Baleiro em Samba do Aproach, “debaixo do céu, em cima do chão, qualquer prazer me diverte”.
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3 comentários:

Genis disse...

Fiquei imaginando cada cena narrada por vc... Amei esta postagem. Fiquei aqui viajando imaginando o José maiorzinho.Bjks, Genis.

Anônimo disse...

Tô amando essa fase. Minha filha tá vivendo a adolescência de um a meneira muito diferente de mim e é um delícia sentir o quanto ela faz ser melhor. Além do mais é muito engraçado rever questões que a gente pôde superar com a vida, né? Bjs. Auad

c i n t i a disse...

O Caio é emo!
:P