28 de julho de 2008

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O alcoolismo na visão da imprensa

Fui convidada para fazer uma visita a um grupo de Alcoólicos Anônimos, na Igreja Nossa Senhora das Graças, em Volta Redonda. Na verdade, o convite veio após uma crônica publicada no jornal Volta Cultural, intitulada “Vitórias”, na qual falo sobre o grupo Céu Aberto, que se reúne todos os domingos em frente à minha casa, no bairro Vila Rica. No texto, relato o pouco do que vejo semanalmente, quando os membros do grupo chegam ou saem, os aplausos que ouço, alguns risos às vezes e o burburinho das conversas. Falo sobre a vitória de cada um sobre si mesmo.

Recebi em minha casa um dos coordenadores do AA na cidade, que me convidou para falar um pouquinho ao grupo Nossa Senhora das Graças. O tema era “O alcoolismo na visão da imprensa” e durante cerca de 15 minutos eu deveria discorrer sobre o assunto. Confesso que tive praticamente um mês inteiro para preparar a melhor das apresentações para aquele público ávido, mas não consegui. Nada do que me vinha à mente parecia suficiente para dizer àquelas pessoas; tudo me soava falso, superficial. Afinal, pensava, por quanto sofrimento já passaram e vou dizer o quê?

No dia anterior à visita, finalmente meu coração falou mais alto (aliás, sempre o deixo gritar). Vou falar o que sinto, o que penso sobre as atividades do grupo, assim, de corpo e alma, porque é assim que eles merecem, com toda a minha honestidade. E não errei na decisão. Fui recebida por um grupo de 15 pessoas, entre homens e mulheres, alcoólicos em recuperação e familiares que também freqüentam as reuniões. Fui devidamente apresentada e fiz ali o meu papel, cumprindo meu compromisso.

Mas, meu programa para aquela sexta-feira previa muito mais que uma simples palestra (se é que posso chamar assim). De Marias, Pedros, Joanas e Antônios, ouvi histórias duras, dolorosas, deprimentes, iguais. Todos, sem exceção, antes de chegarem ali, lamberam o chão, como dizia um amigo meu. Pude comprovar, olho no olho, que eles são mesmo vitoriosos. Sinceramente, sabemos que quando chegamos ao fundo do poço sempre encontramos uma mola que nos impulsiona pra cima novamente. Nunca sabemos de onde vem tanta força para retomar a vida. O problema é que o fundo do poço de um alcoólatra é fundo demais. E aquelas 15 pessoas toparam o difícil desafio de vencer-se. Quase aplaudi de pé.

Mesmo jornalista, sempre estive muito distante desta realidade, apenas sabendo da existência do AA e que a irmandade era responsável pela recuperação de milhares de alcoólicos ao longo de sua história. Mas, estar ali, junto deles, conhecendo-os, participando de toda a programação de reunião, me deu uma visão real de como tudo funciona. Por isso resolvi escrever sobre minha visita ao grupo, para dizer que eles, os membros, são anônimos, mas a irmandade não é e não pode ser. Nós, profissionais de comunicação, formadores de opinião, temos o dever de ajudar na divulgação de Alcoólicos Anônimos.

Só no Brasil, segundo dados do Relatório Anual para a XXXII Conferência de Serviços Gerais, em São Paulo/2008, são mais de 4.700 grupos de AA, com mais de 120 mil participantes. O Estado do Rio conta com 400 grupos, sendo 140 na região sul fluminense. No mundo todo são 95.142 grupos. É muita gente se dedicando à própria cura e não podemos ignorar que mais milhares de pessoas à nossa volta precisam de ajuda urgente. Sem preconceito, sem ignorância, com muita informação, podemos, sim, ajudar pessoas divulgando os serviços de AA. Faz parte do nosso compromisso de prestadores de serviço à sociedade.


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