2 de agosto de 2017

De ontem pra hoje

Há momentos específicos em que recordações de infância retornam aos borbotões. Se já não soubesse algo sobre as rasteiras do inconsciente, diria que me chegam do nada. Só que não. Com a idade próxima dos cinquenta, é inevitável o retorno no tempo, para devidas avaliações e revisões, mesmo sem fazer esforço. A cabeça vai lá, cada dia visita uma situação, traz pro agora, mistura tudo e com o resultado posso tentar saber o que fazer adiante. Muitas vezes não sai coisa boa. Mergulhar na memória é ação de alto risco: levanta remorsos, arrependimentos, dores, perdas. Reafirma a falta de coragem para enfrentamentos tantas vezes necessários. Mostra numa telinha o que não foi realizado. Aponta as oportunidades que passaram e sequer foram percebidas.

Não era a intenção o lamento. Cenas de infância têm me retornado com certa frequência, porém não me motivam a discorrer sobre dias felizes, brincadeiras sem fim, amigos de rua, brincar descalça na lama depois da chuva. Falo de desejos alimentados durante a existência e que não se tornam palpáveis. A gente quer ser tanta coisa, quer ir a tantos lugares, quer fazer de tudo um pouco e as horas voam e as obrigações são em maior número que a quantidade de dias que a vida proporciona pra criar, produzir, executar planos e projetos.

Lembro agora da última conversa sobre desejos que tive com minha irmã, dois meses antes dela morrer. Era como se fosse a mãe amiga, companheira, e desse lugar me cobrou um posicionamento mais seguro diante do mundo. Longe de ser ela mesma uma rocha, queria me ver de queixo pra cima, transformando meus desejos em realidade, pisando firme na terra, dona do meu nariz, independente, autônoma, bem sucedida, material e emocionalmente.

Ser mulher não ajuda. São inúmeros os mandatos impostos, muito peso colocado nas costas à saída do ventre, antes mesmo de ver a luz. Não pode isso, não pode aquilo, é feio, é pecado, obrigação com a casa, obrigação com a família, arte não dá sustança pra ninguém, tem que estudar pra ter emprego (nunca pelo conhecimento!), não pode rir alto, falar alto, opinar, questionar, não querer, não se obrigar, deve ser obediente, cordata, se submeter, vai casar, ter filhos, depender e se sujeitar ao marido e muitas etcéteras.

Antes de organizar a cabeça pra começar a fazer planos, é preciso brigar contra todos os encargos e ordenações, o que demanda tempo, paciência (às vezes nenhuma), rompimentos, solidão, medo, adiamentos, desistências, longas pausas, e muitas vezes parada definitiva. Quando vê, passou. A saúde não é mais a mesma, o vigor físico ficou lá atrás, os desejos têm de ser repensados, remanejados, substituídos. E agora? Qual o sentido disso?

Entendo quem vive de lembranças. Cumpre os compromissos da vida e passa o resto dos dias voltando atrás. Minhas próprias lembranças, penso que as bloqueei. Uma névoa encobre a maioria delas; quando parto em busca, vejo-me em meio à bruma densa. Diviso fragmentos, nada inteiro, nítido, completo. Dizem que me aproximo da idade em que a memória começa a criar. Talvez seja boa oportunidade de recriar o roteiro das cenas para encaixar nas partes soltas e compor narrativas inéditas. Seria perfeito se de um novo passado pudesse se desenhar um novo futuro.

Pelo menos nas madrugadas, enquanto o corpo repousa, o inconsciente – ou espírito – passeia bastante. É quando vou onde quero, encontro pessoas que nunca vi, vivo intensamente histórias originais, entabulo longas conversas, realizo. Mas, sobre minhas noites, já é outra a prosa. Depois eu conto.
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Um comentário:

José Huguenin disse...

Magnífico texto. Triste, talvez. Mas com uma poética que mexe com aquilo que tentamos esconder de nós mesmos.