21 de maio de 2016

Legados

Partiu de surpresa. Apesar da idade avançada, nunca se espera que alguém querido vá embora para sempre. Saúde em dia, uma cirurgia simples, sucesso no procedimento, previsão de alta, a pressão baixa, pneumonia, entra em choque, UTI, “Alô, o médico solicita a presença de alguém da família.”

Ainda o sentimento de frustração. E, de repente, o que dava sentido às vidas daquela família se vai. Deixa pra trás um legado de simplicidade, fé, religiosidade, liberdade, respeito ao outro (qualquer outro), educação, alegria de viver. Difícil descobrir sentidos novos a esta altura, no entanto, é o que se deve fazer agora.

A morte e o morrer sempre foram um sapo na garganta; decerto, não só pra mim. Desde sempre esse tema me cristaliza. Não tenho uma relação minimamente equilibrada com essa certeza, embora creia que haja um “lado de lá” e o prosseguimento da vida, de uma forma diferente. Acreditar faz muito bem, até que ela, a morte, resolve passar perto.

Não à toa os povoados antigos cresciam em torno de onde eram realizados os rituais fúnebres. Talvez tão marcante quanto o nascimento, a hora de se despedir de uma vida altera sentimentos e estados de consciência, cria e revolve dores. Ver inerte um corpo que foi tão próximo por 40, 50, 60 anos é mais que triste. Levanta uma série de questões nunca antes consideradas, que travam os dias, pois se emaranha com a saudade, a frustração, a angústia, a impotência. E tudo isso é luto. A hora de dormir é melancólica. A hora de acordar é confusa. As obrigações e compromissos da rotina exaurem além do que seria aceitável. A vontade de nada é imperiosa. “Chorar na cama, que é lugar quente” é o desejo tormentoso a cada hora da jornada que se recusa a passar. A espera é longa pelo tempo curador de todas as aflições.

No quarto dela há uma cômoda e sobre o móvel um modesto altar. Imagens de sua devoção católica e terços dispostos com zelo. Na parede, um espelho, e no canto do espelho, uma única foto, a minha, o meu rosto sorridente junto de suas fontes de força e graça. Nem eu mesma sei o quanto já chorei de emoção, alegria e gratidão por tanto amor, tanto carinho. A admiração que tinha por ela e que poucas vezes verbalizei, talvez por timidez, tem sua recíproca escancarada numa demonstração tão simples. Olhos molhados e nó na garganta a cada vez que me lembro daquele cenário.

O que a infalibilidade do destino espera de nós? Ou, o que devo esperar de mim, diante do inevitável? Posso dizer muito do que se repete por aí, sobre viver intensamente cada dia, comer melhor, valorizar a naturalidade, os pés no chão, desprender-me das exigências torpes da vida material, mandar esse capitalismo às favas e parar de correr atrás de sei lá o quê. Soa piegas, justo pelo tanto que se bate nesses temas a toda hora. Mas, olha, pode ser mesmo verdade. Viver mais de 90 anos com plena saúde, feliz, distribuindo sorrisos, e ir embora sem dever nada a si própria, é pra pouquíssimos. Penso que já esteja passando da hora de começar a correr atrás da concretude de uma vida rica de algo que possa deixar e também levar. Como ela soube fazer muito bem.
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Um comentário:

Katia Zanvettor disse...

Lindo, quanta emoção em suas palavras. Quanta verdade...Também sinto, cada vez mais, passou da hora!