19 de maio de 2014

Meu encontro com ele

Ele estava o tempo todo ali. E pra mim, foi uma grata surpresa encontrá-lo logo cedo. Mesmo com a expressão contida e sóbria de sempre, permaneceu em seu lugar de honra na grandiosa festa em sua homenagem. Foi fotografado, abraçado, admirado.

Ele viu todas as equipes de trabalho chegarem junto com o sol, para abrir e arrumar a casa para os visitantes da Bienal Rubem Braga. Por ele passaram bonequeiros, escritores, contadores de histórias, artistas circenses, músicos, oficineiros. Não ficaram de fora de seu olhar os motoristas, livreiros, faxineiros, artesãos, pipoqueiros, operadores de áudio e vídeo, organizadores de todas as atividades realizadas na Praça de Fátima.

Ele viu as crianças, muitas crianças, motivo principal daquele encontro existir. Em nome dele, olhos ávidos e curiosos foram presenteados com o melhor da arte literária, a magia e a fantasia, pelas vozes e expressões de gente que trabalha com o encanto. Ele, que tempos atrás elogiou a transformação de sua casa em biblioteca pública, frequentada diariamente por estudantes, deve ter se orgulhado em assistir àquela algazarra literária.

Ele viu seu cão Zig renascer das raízes do pé de fruta pão e, correndo de um lado a outro, ser motivo a mais de alegria para a garotada: “Senta!”, “Deita!”, “Rola!”, “Finge de morto!”.

Ele viu, de seu posto de destaque, diante do Rio Itapemirim, o amanhecer. E viu o sol nos brindar com dias claros e lindos. Viu o céu azul e sentiu, como nós, a farsante brisa de outono no fim da tarde. Viu também a minha cara de desagrado com o calor, ao me abanar freneticamente, enquanto o povo dali afirmava estar fresco em Cachoeiro.

Ele me viu e eu o vi. Cruzamos nossos olhares durante aqueles segundos em que, como criança, entreguei-me à ilusão de que ele me sorria timidamente e me dizia “Bom dia! Seja bem-vinda à minha terra!”.

Ele me viu e eu o vi. Falei-lhe com meu silêncio de admiração. Como em prece, confessei-me sua seguidora fiel e pedi proteção e inspiração para a arte que abracei - a mesma que fez dele meu eterno mestre. Pedi permissão para, humildemente, ensinar às crianças e jovens o que ele fez melhor que todos os outros. A ele prestei minhas reverências. Fui simplesmente tiete, ao fotografá-lo cada vez que passei. Olhei-o com respeito, sempre. Dele me despedi no domingo, com gratidão e saudade.
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Um comentário:

Elyane Lacerdda disse...

Com certeza, a festa foi linda!!!
Ele estava ali mesmo....vibrando, aplaudindo, abraçando, feliz por ainda estar vivo!!!!
http://www.elianedelacerda.com