8 de maio de 2014

Bailinho de garagem

Os papos com o filho depois do lanche noturno são sempre muito pitorescos. Comentamos do dia, das aulas, do trabalho, das provas e quase sempre encerramos a conversa próximos à pia, na hora em que lavo a louça. Numa dessas noites, enquanto relatava fatos soltos sobre minha juventude, ele já virara aas costas para sair da cozinha, mas o que deveria passar apenas como uma nota trivial, tornou-se interessante pra ele, que voltou: “Mãe, e como vocês marcavam os eventos, os encontros? Não tinha celular, né?”.

Pois é. Durante a minha infância não tinha nem telefone fixo; as condições de temperatura e pressão não nos permitiam tal luxo. Então, quando combinava algum encontro com amigos, era pessoalmente, na escola, e a gente confiava no acerto. Se a festa fosse de amigo na mesma rua ou bairro, era mais legal: “Dona Cecíliaaaaaaaaaa! A Giovana pode ir no meu aniversário, sábado, às sete horas?”. E meu filho, surpreso: “E era só isso? Convidava e confiava?!”.

Sim, sem o aparato tecnológico de hoje, os programas eram combinados com um pouco mais de esforço. Se bem que não me lembro de tamanha agitação na minha adolescência, como a que vejo hoje. É festa toda hora, show todo fim de semana; a agenda da garotada é intensa. Sem contar que os horários também mudaram: nossos, digamos, eventos começavam e terminavam cedo, entre sete e oito, até, no máximo, meia-noite. Ficava muito p*, inclusive, porque minha mãe marcava “em casa às dez”, hora em que a festa ainda estava no auge.

O auge, neste caso, era aquele momento em que os casais se finalmente se juntavam na sequência de música lenta, enquanto os outros ficavam olhando, dando risinhos, invejosos, enciumados ou torcendo para que pais ou mães não chegassem de repente. Afinal, aos 12, 13, 14 anos, aqui por essas paragens, não era assim tão liberado namorar ou ficar. E o risco de adultos nos surpreenderem ficava restrito ao ambiente da festa, já que não havia celulares em punho, registrando os acontecimentos ao vivo e em cores.

O problema é que esses encontros eram realizados nas nossas próprias garagens, de frente para a rua. Com os pais do colega que promovia a festa comumente agarrados na cozinha, era a chegada da mãe ou pai de algum de nós que causava alvoroço. Normalmente isso acontecia mais cedo, antes do horário marcado pra buscar. E o corre-corre era geral: “Sua mãe tá no portão!!!”: descola, tira a mão, toma distância do garoto, dispara pro banheiro pra disfarçar a vermelhidão dos lábios e ajeitar a roupa. Em ritmo de messengers de todo tipo, essa galerinha quase ‘fica’ via whats app; isso só não acontece porque curte muuuito ficar de verdade. Pelo menos isso; nem tudo está perdido.

O que sei é que o papo me encheu de saudade da rua, das conversas sem fim sentada no meio-fio à noitinha, dos eventos que chamávamos de ‘bailinho’, daqueles meninos lindos de boca doce com quem a mãe mandava ter “cuidado, que homem não presta” e a gente ria, por dentro. Saudades da paquera ao longe, do bilhetinho na sala de aula, da cartinha jogada furtivamente na pasta escolar, das rodas de fofoquinhas na hora do recreio, do sem fim de coisas a fazer, em épocas sem tecnologia.

Não deu pra evitar que meu filho mergulhasse nessas novidades, que chegaram tão rápido pra nós. No caso da minha mãe, por exemplo, ao falar “no meu tempo”, sei que é coisa de sessenta ou setenta anos atrás. Já os meus tempos aconteceram na metade disso. E o tempo dele está voando. Quando nasceu, não tínhamos telefone celular e assistíamos a filmes no videocassete. Tanto quanto o vi crescer da noite para o dia, também o vi com o celular na mão de uma hora pra outra e se comunicando com deus-e-o-mundo por aplicativos. Ainda estava nessa viagem e ouvi o bip de notificação do meu telefone. Era ele, do andar de cima, com preguiça de descer: “Mãe, galera tá combinando cinema sexta; rola d’eu ir?”.
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2 comentários:

Jader Mattos disse...

"Marcar e confiar" é uma das coisas que não deveriam mudar com a tecnologia...

Carol Cunha disse...

Saudades disso... Na minha adolescência (ou pré-adolescência) estes "bailinhos" se chamavam "hi-fi". Mais moderninho o nome, mas com o mesmo esquema "escolar-cinema-clube-televisão". Havia mais gente encostada na parede e sem graça do que dançando juntinho. A hora mais legal era da dança coletiva mesmo. Cada um por si ao som da Legião: "Somos os filhos da revolução, somos foguetes sem religião, somos o futuro da nação... Geração Coca-Cola". O clima da minha casa, quando criança, era de filha de comunista. Só tinha homem barbudo, cigarro, livros e muito papo engajado. Daí me senti a própria "filha da revolução" e Renato Russo fazia muito sentido! Sem tecnologia a gente prestava mais atenção em tudo!! Desde as letras das músicas, até os acertos para uma festinha. A agenda social de um pré-adolescente nos anos 1980 era menos intensa e, por isso mesmo, marcavam tanto! A agonia começava no convite, passando pelo tenso momento de pedir a permissão dos pais, até a escolha da roupa e a entrada tímida. Mas depois que tocava Legião... Ahhh Tudo mudava! Adorei o texto! Bjs