31 de março de 2014

Nasci e cresci nos anos de escuridão

Quando criança, uma das frases que mais ouvia em casa era “Não diga isso, que pode ser preso!”. Talvez mamãe exagerasse um pouco, na tentativa de nos amedrontar e nos fazer calar. Não podíamos nem pensar palavrão, que lá vinha ameaça. Como muitos outros personagens inventados para garantir obediência – o velho do saco, o barriga d’água, o lobo mau, o vampiro – havia também o personagem oculto, aquele que levava pra prisão.

O que me bota a pensar, hoje, era a opressão em que vivíamos e que para meus pais e o restante da família parecia coisa normal. Repito: é a forma que vejo hoje, ao lembrar tudo o que vivi na infância.

Cresci nos anos de chumbo da ditadura militar. Nasci vinte e dois dias após a edição do famigerado AI-5, em Volta Redonda, na época área de segurança nacional, por causa da CSN. Na minha casa nunca se falou nada em oposição ao regime. Ao contrário, ganhei idade sempre escutando maravilhas dos militares, de lindos e sensacionais a “meu sonho é ver um filho fardado!”.

Estudei na escola pública municipal daqueles tempos em que pouco se ensinava além de muita disciplina. Como uma das alunas de melhores notas da classe, na primeira fase do ensino fundamental, fui selecionada para compor o grupo que por duas vezes esteve diante de generais-presidentes, uniformizada, engomada, de maria chiquinha nos longos cabelos, amarrada com enormes laços de fita rosa. Aplaudi, sorri. Devidamente calada.

Nas aulas de artes (!), nós, as meninas, aprendíamos a criar capas para cadernos de receitas, decorar potes com tecidos floridos e bordas rendadas, fazer ventarolas e pintar leques. Nas aulas de OSBP/Moral e Cívica, um professor carrancudo entrava quieto na sala, não cumprimentava ninguém, mandava um dos alunos passar no quadro um questionário de quase cinquenta itens, cujas perguntas e respostas deveríamos decorar “para a prova e para a vida”. Não nos era permitido aplaudir (até hoje, não) o nosso Hino.

Fui levada por minha mãe e irmãos aos desfiles cívicos (?) do Sete de Setembro. Não sabia bem o motivo, mas sempre me senti um tanto incomodada naqueles eventos. Em tenra idade, não identificava por que. É possível que percebesse, intuitivamente, a imposição, o estranhamento daquelas crianças, que até passavam mal. Eram disciplinadas aos gritos, passavam horas com fome. Esquisito como se consideravam importantes por estarem na avenida, ao mesmo tempo em que tremiam de medo.

Eu cresci.

E fiz questão de estudar muito, de ler, de conhecer e entender a história que não me foi contada em casa. O que era intuição se tornou certeza. O medo da prisão foi compreendido, mas não o encantamento com os ditadores que impunham sua vontade com mãos assassinas. Quem sabe o próprio temor não tenha gerado uma admiração imposta pelo inconsciente. Vai saber.

Por outro lado, é desanimador constatar o quanto ainda há de precariedade no nosso ensino, na nossa educação formal, que não promove a construção de conhecimento, mesmo hoje, em regime democrático. Entra e sai gente das escolas, formam-se profissionais em grau superior, e me vejo boquiaberta diante de asneiras como as berradas nas ruas naquela marcha infame: “Um, dois, três, quatro, cinco, mil, queremos os militares no controle do Brasil!” ou “A ditadura não existiu; isso é uma invenção!”. Minha vergonha alheia chegou ao ápice e quase sofri uma crise convulsiva. Parar para refletir no que foi o golpe civil militar e suas consequências é imprescindível para que pensemos e ajudemos a criar uma nova sociedade, um novo pensamento.


Não consegui mudar de assunto, como sempre faço ao escrever minhas crônicas. A data é marcante demais e senti necessidade de dar minha contribuição, mesmo mínima, do jeito que sei fazer. Deixo aqui meu repúdio a tudo o que se relacionou ou ainda se relacione com aqueles vinte e um anos de escuridão na história do Brasil, ao mesmo tempo em que reverencio todos os que lutaram na oposição, que foram calados, presos, torturados e mortos, por desejarem uma sociedade justa, igualitária e de paz.
.
.
.

6 comentários:

Elyane Lacerdda disse...

Anos de muita escuridão mesmo,amiga!
texto claro,conciso e verdadeiro!
Bjus
http://www.elianedelaceda.com

cintia sibucs disse...

Excelente texto!
Bjs
Cintia

Katia Almeida disse...

Excelente texto. Imagine eu filha de militar? Ele morria de medo que eu e meu irmão abrissemos a boca para dar opinião. Tinha medo do que liamos na escola. Lembro bem quando cheguei em casa dizendo que meu professor mandara a turma ler Metamorfose de Kafka. O medo era do professor ser um "subversivo" e estar tentando fazer a cabeça dos alunos.

Katia Almeida disse...

Adorei o texto.Mt bom como sempre.

Valdinei Pereira Januario disse...

Parabéns pelo texto prima!!!
Através dessa pequena narrativa tive a oportunidade de conhecer um pouco da história da sua infância. Um abraço!

Pedro Barbosa disse...

Excelente texto. Pude me enxergar em muitos aspectos.