19 de maio de 2013

A mastectomia preventiva de La Jolie

Recebi um bocado de emails e mensagens in box no Facebook me chamando a atenção sobre a cirurgia da Angelina Jolie. Como a maioria dos meus leitores e amigos sabe, passei por um câncer de mama há quatro anos e a partir daí acompanho mais de perto tudo o que rola sobre o assunto. Pelo mesmo motivo, quem me procurou queria saber o que penso a respeito, se concordo ou não, se em minha opinião Angelina Jolie exagerou e agiu precipitadamente.

Em princípio, fiquei sem saber o que responder, pois não me surpreendi com a decisão da atriz; ela é apenas mais uma que lançou mão do recurso na tentativa de se prevenir contra o câncer de mama. Este rebuliço todo só aconteceu porque ela é ela. Outras celebridades internacionais, como Sharon Osbourne, mulher do Ozzy Osbourne, e as atrizes Christina Applegate e Wanda Sykes não titubearam: ante a possibilidade de desenvolver o câncer, optaram pela mastectomia preventiva.

Aqui no Brasil, entre as famosas temos a temos a Rita Lee, que em 2010 se submeteu à cirurgia de retirada radical das mamas, após constatação de alto risco detectada por pesquisa genética. “Minha ginecologista aconselhou a retirada das mamas, algo que não fez muita diferença, uma vez que as minhas já eram pequenas. Prefiro ficar sem peitos e tranquila a ficar com eles e paranoica”, afirmou.

Descobri um nódulo aos 39 anos e, poucos meses depois, já com 40, vim a saber que na verdade carregava um tumor de quatro centímetros na mama esquerda. Era e ainda sou muito nova. Meu filho estava com 11 anos. Não poderia dizer hoje se me submeteria ao mesmo procedimento de Angelina Jolie, mas ao analisar minha situação na época, penso que não descartaria a possibilidade, caso fosse alertada sobre o percentual de risco. Assisti a entrevistas de mulheres nas ruas afirmando que não tomariam uma ‘decisão tão precipitada’. É nítido nestas mulheres o medo de perder a mama, a feminilidade, sofrer com uma drástica alteração estética. Compreensível, claro. No meu caso, entretanto, como já vivi o problema, posso dizer que a perda dói, sim, no fundo da alma, mas estar viva e saudável é realmente o que importa.

Por tudo isso é preciso, antes de qualquer coisa, muita coragem. É o que penso de Angelina Jolie. Uma mulher corajosa, mãe de seis filhos, que aos 37 anos preferiu radicalizar a deixar que o câncer radicalizasse com sua vida tão cedo. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse em entrevista que além de várias outras consequências da cirurgia, há também o impacto psicológico. Mais um motivo para reforçar minha opinião quanto à firmeza da decisão da atriz. A mãe dela teve câncer de mama e morreu de câncer no ovário e a avó também enfrentou a doença. Eram fortes as evidências do risco genético, estimado em 87% e reduzido para 5% após a cirurgia, segundo a médica, Kristi Funk, que tratou a atriz.

Nem de longe concordaria com bobagens que ouvi, do tipo: “Será que não está criando um fato pra chamar a atenção?”. Não creio que mulher alguma se mutilaria com este objetivo e, pior, com uma equipe de médicos irresponsáveis a concordar com tamanha maluquice. Câncer é assunto muito sério, o de mama é o que mais mata mulheres no mundo, e mulheres cada vez mais jovens. La Jolie tem apenas 37 anos e, pra mim, tem toda razão em reduzir seus riscos, já que esta oportunidade lhe foi dada.

Por outro lado, é necessário colocar os pés no chão e analisar as chances da maioria das pacientes quanto ao acesso a este tipo de procedimento. Poucas têm condição de fazer pesquisa genética e a maior parte nem é informada sobre isso. A cirurgia é cara, não é oferecida pelo poder público, ou seja, esta opção ainda é para poucas, pouquíssimas. Portanto, vamos lá, mulherada, assegurar a prevenção pelos meios difundidos maciçamente: autoexame periódico, mamografia anual, visitas frequentes ao ginecologista. Com diagnóstico precoce, a cura é possível. Garanto.
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3 comentários:

Katia Almeida disse...

Texto perfeito, assim como as colocações! Vamos nos cuidar! Prevenir é sempre o melhor remédio! Com os recursos que temos!

Kitty disse...

Não tinha atinado para a ideia da mutilação. Estão olhando para a questão estética, mas uma decisão dessas é no mínimo um ato de coragem! Me surpeendi com a chamada no jornal, assim que o fato ocorreu, e pela linguagem empregada, parecia "mais um capricho". Sei de vários casos de mulheres que fazem estereoctomia e que, após isso, passam por questões psicológicas seríssimas! Apoio Jolie e apoio muito mais você, Giovana... que em meio aquilo tudo que passou, ainda mantinha seu bom humor e bom senso. Capricho ou não, Jolie foi corajosa por mutilar sim, suas mamas e reconstruí-las em seguida. Mas que ninguém mutile o bom senso das pessoas, sobretudo o dos jornalistas.

Wellington Freitas disse...

Belo texto! Ela é linda, minha musa!