19 de novembro de 2012

Incredulidade.


Era o que sentia todo o tempo, naqueles dias em que a vida não deixa esquecer. Quando acordava e se dava conta da realidade, lá estava ela, de volta à mente, a torturar sem piedade. E pasmava: “Isso é inacreditável”.

Não porque não aceitasse, mas, creiam, era mesmo inacreditável. Assim, de repente, tudo aquilo, um furacão derrubando e destruindo tudo, deixando apenas um fio da corda para o sustento do corpo, um tênue fio de esperança, para um recomeço.

Um tênue fio que salvou tudo, um aceno, um alô. Um fiapo de perspectiva se mostrou como uma imagem divina, um deus, um santo, um ‘sim, você pode’. E com as mãos trêmulas segurou, num gesto delicado, quase fraco pela própria condição, porém resoluto de que ali estava tudo o que tinha. E teve.

A incredulidade permanece.

Olha no espelho e admira o que ficou - muito de antes está diante de si; outro tanto se foi naquela intempérie. “Você está bonita”, diz àquela que vê, ao passo em que enxerga outra em seu lugar. Quem está bonita, afinal? A do espelho ou quem? E mais uma vez se espanta: “Que inacreditável!”.

Para isso existem o inverno, os longos períodos de chuvas, as tempestades. É a natureza a interromper os ciclos para a reflexão. É um agrado da vida, um presente sutil para ser usado com inteligência. Aproveitar o recolhimento forçado e parar. Pra pensar. 
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2 comentários:

Wellington Morais disse...

Simplesmente, bom!

cintia sibucs disse...

Muitas vezes esses "invernos" nos são impostos. E aí sim, paramos e vamos analisar os estragos.