15 de setembro de 2011

Sobre desejos contidos e realizações

O cara mal me conhece e me convida para mostrar suas roupas, as que está confeccionando para se apresentar em shows. Mal arranha um violão, decidiu que agora é compositor de música sertaneja, pretende encarar os palcos e ainda gravar um DVD. Não aparenta ter mais que 45 anos, é comerciante, casado, com filhos. Escutei – apenas escutei – toda a fala dele; não saberia mesmo o que dizer, tamanha a minha surpresa, ou incredulidade. Disse que a vida inteira sonhou ser cantor e que agora decidira pelo menos tentar e que estava muito feliz por ganhar coragem pra tentar. Contou do apoio da mulher e do resto da família e dizia tudo isso me mostrando as camisas coloridas que está confeccionando para brilhar como a mais nova voz sertaneja da região.

Em princípio achei aquilo tudo uma maluquice, claro. Por isso nem consegui emitir opinião ou qualquer comentário. O sujeito estava numa empolgação danada, me dando tanta importância, que não pude expressar reação. Apenas perguntei que material era aquele usado para decorar (?) as roupas. “Cola especial para tecidos”. “Ah, tá.” Saí da loja meio desconcertada e passei as horas seguintes pensando nele, claro. E da incredulidade passei à admiração, talvez certa inveja. Ele estava tentando concretizar um sonho, sentia-se vitorioso por decidir ao menos tentar, estava muito entusiasmado com a novidade que trouxera para sua rotina de comerciante de bairro. Ele estava feliz.

Que faço eu para ser feliz? Que faz você? O que realmente fazemos por nós? Alguma tentativa ao menos?

Escamoteamos nossos desejos mais profundos em nome de comportamentos, posicionamentos ou posturas impostas por educação familiar repressiva, além do que nos exige a convivência em sociedade. Ninguém quer pagar mico, chamar a atenção, se expor. Outros motivos são a preguiça, o orgulho, a timidez (filha do orgulho), falta de tempo (ou incapacidade de fazer tempo). E quando alguém toma a coragem de realizar algo extraordinário simplesmente porque está a fim, ouve no mínimo um ‘cruz credo, tá doido!”. Isso se chama interpelação. Não fazemos, não temos coragem, mas não gostamos que o outro faça, nos sentimos interpelados por isso.

O cara me interpelou. Não que tenha vontade de ser cantora, muito menos sertaneja, mas me perguntei o que estou fazendo por mim. Sem nenhuma ponta de egoísmo. Pergunto-me o que faço além de trabalhar e tocar a rotina doméstica. Faço terapia, frequento salão, tomo minha cerveja em casa, eu comigo. São coisas do dia a dia que faço por mim. E...

Minha prima faz teatro (acho que ainda faz). Deve estar com quase 70 anos e escolheu ser atriz na terceira idade, depois de se aposentar e ver sua filha adulta e independente. E a fala dela foi “agora vou fazer algo por mim, algo que não tive como fazer antes, vou realizar um sonho”. Já com mais de 50 anos entrou para uma escola de teatro e lá está, curtindo os palcos por aí. É atriz famosa? Não. Foi convidada para novelas na Globo? Também não. Mas está exultante. “Indescritível a sensação de estar num palco, incorporando um personagem, me emocionando e emocionando outras pessoas”. Quanto vale isso?

Penso muito nestes desejos que acompanham a gente a vida toda e que na maior parte dos casos ficam lá dentro, amarrados a diversos tipos de prisões às quais nos submetemos. Tenho o péssimo hábito de lamentar por tudo o que não fiz, as oportunidades que não aproveitei, as chances que não me foram dadas. Mas algumas pessoas despertam depois que levam certos sustos e o câncer curado ainda me sacode. Ter uma doença grave nos põe diretamente em contato com a realidade, a de que ali na frente há um fim, ou pelo menos uma transição, e que podemos, sim, fazer algo mais, sempre. E tenho pensado seriamente no que posso fazer a partir de agora.

O maridão foi ao Desfile Cívico no dia 7 de setembro. Em Volta Redonda, onde moro, há milhares de idosos atendidos pelos programas sociais da prefeitura. E estes idosos desfilam orgulhosamente, todos os anos. Não costumávamos dar a devida importância a isso, exceto por valorizar a inclusão. Mas, pensando bem, por maior que seja a interpelação que provocam, eles estão fora de casa, estão realizando, optaram por ser felizes, mesmo sabendo que pode lhes restar pouco tempo para curtir tudo o que gostariam. Porém curtem o que há. Escolheram viver. E estes mesmos idosos ainda participam do Bloco da Vida, que se apresenta anualmente no carnaval da cidade, com direito a carro alegórico, passistas, destaques, salto alto e perna de fora.

Ontem mais um amigo se foi. O tipo de amigo que a gente pensa que nunca vai morrer e quando morre, mais que tristes, nos deixa chocados. “Fulano, morto?” E a lembrança que tenho dele é a da alegria plena. Não posso afirmar que era feliz, mas nas ocasiões em que nos encontrávamos, sempre estava bem, alegre, pra cima e transmitia isso a quem estivesse por perto. Impossível estar com ele sem dar muitas risadas. E agora não sei se lamento sua partida ou se me conformo e digo “este viveu”, pois pra mim é assim que vale a pena viver. Sem alternativa.
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11 comentários:

joiva egalon disse...

cada dia que passa fico mais admirada com a sua pessoa.
a sua capacidade de fazer as pessoas pensarem e querer algo.
suas crônicas são excelentes.
e por falar nelas, com certeza melhora o meu dia, acho que é isso que vc faz por você e por todos que te acompanham.
mas depois de ler parei pra pensar...o que eu faço por mim?
???
bem, ainda estou pensando, mas sei que vou descobrir.

Wendel disse...

Aplausos... texto foda!! Sem mais...

lincoln disse...

...Valeu!

Kátia Almeida disse...

Giovana adorei o tema. tem tudo a ver com o que estou vivenciando. Na faculdade tinha o sonho do consultório, muitos pacientes e eu atendendo-os. Era o sonho não somente meu mas da minha querida amiga Simon. Lembrei dela lendo o seu artigo. Quantos sonhos ela realizou em um curto espaço de tempo! Antes dela perdi também um amigo muito brincalhão. Desde então venho pensando e resolvendo algumas mudanças.
Trabalho com idosos há seis anos. Algo que eu nem sonhava na faculdade. Aprendo muito com eles e passei a me permitir a fazer coisas que não faria. No entanto eles me dão a coragem de não ter vergonha, de me expor mais. Agora finalmente, tomei minha resolução final. Estou desmontando o consultório e vou continuar somente com atendimento dos idosso nos dois grupos em que trabalho. É um trabalho muito gratificante. Aprendo todos os dias com eles. Fico me questionando...por que esperar chegar a terceira idade para fazer o que te dá prazer (não acho a interrogação no teclado da minha filha...rsrsrsr)
Deixo aqui uma frase que ouvi essa semana, de uma de minhas "meninas" de setenta anos, que me tocou muito.
"Trabalhar, trabalhar muito...mas esteja atenta a hora de parar para fazer o que te dá prazer...para depois ter o que se recordar!"
Essa eu não esquecerei mais. Preciso correr em busca desse prazer...porque o tempo voa! Bjkas!

c i n t i a disse...

Muito bom!!!!!!!

Eu sempre penso nessas coisas e no final (quase) sempre escolho fazer as coisas que vão me trazer a sensação de alegria. Assim a gente vai construindo a felicidade diária e, no fim, é essa a grande felicidade que tantos querem alcançar.

Ana maria disse...

Assim como a Katia eu lembrei muito de minha grande amiga Simonete. Quando ela começou na faculdade disse certa vez que estava em busca de um sonho: queria se formar em psicóloga e havia esperado os filhos crescerem para poder estudar.Ela conseguiu e estava feliz......quanto orgulho sinto dessa amiga.
adorei o texto.

Carol Bentes disse...

Belo texto Gi!
Mesmo eu, com meus vinte e poucos anos parei pra pensar em quais são meus sonhos e desejos, e no que tenho feito por mim.
Afinal, pq deixar pra amanhã o que podemos realizar hoje?!

Drika disse...

Giovana, sempre gosto de seus textos e este está especial. Lembrei-me também de saudosos amigos...

A.Castell disse...

Gostei tanto do seu texto Giovana, que tomei a liberdade de postar no Facebook. http://www.facebook.com/note.php?created&&note_id=252466541458551

Anônimo disse...

Que coisa incrivel!!!
Tenho 46 anos e depois da minha última féria, fiquei chocada. Quando próximo ao dia da volta, senti uma angústia tremenda. Que aquilo tudo que fazia era adorável, sempre foi um grande combustível em minha vida. Mas faltava algo!?!?!?!?! E eu num sei o que é!! Sei que mereço algo melhor.
Filhos crescidos, independentes, longe de casa e realizados. (Síndrome do ninho vazio????) Essa fase já passou. É que descobri que falta algo na minha vida. Descobrir o quanto sonhei “viajar” e nunca realizei, descobrir um vazio, uma falta de opção, falta de adrenalina e outras coisas. Tudo que eu tive durante muito tempo. Talvez tenha vivido em função da família, em vê-los crescer com dignidade e preparados, acho que na verdade, faltou que eu continuasse. E agora????...tô procurando... é angustiante.
Obrigada pelo texto MARAVILHOSO.
Beijos...

Simone Couto Kaplan disse...

Lindo texto. Mas viver, amiga, é sempre uma escolha. uma alternativa para não viver.

bjs, simoe