15 de outubro de 2010

Dor na alma

Uma mulher me parou na rua para perguntar sobre a minha experiência com o câncer de mama. Ela me conhece, sabe da minha história recente com a quimioterapia, cirurgia e radioterapia. E queria saber mais detalhadamente sobre a cirurgia de reconstituição da mama. E no mínimo detalhe mesmo, o que a incomoda é a possibilidade de sentir dor. Sério. Ela teve câncer na mama esquerda, sofreu mastectomia radical, perdeu toda a mama e agora está realmente com medo de sentir dor pós-cirúrgica.

O encontro com essa mulher coincidiu com um momento muito especial de dor intensa pelo qual estou passando. Não me lembro de ter sentido tão profunda dor em meus 41 anos. Mas minha dor é na alma e essa, ao mesmo tempo em que parece um tanto irracional, porque não dói no corpo físico, é a que realmente paralisa, porque dói em tudo ao mesmo tempo. Por fim, provoca dores lancinantes do fio de cabelo à ponta do dedão do pé, de verdade. E aí pode estar uma doença real começando.

Fiquei de ontem pra hoje pensando na preocupação daquela mulher, em como o ser humano pode ser simplório e isso é prefeitamente compreensível. Sem filhos, sem uma relação afetiva, sem grandes perspectivas profissionais, sem uma educação religiosa que a norteie, a possibilidade de dor é o que ela possui de mais pavoroso pela frente. Tive medo da morte, tão somente da morte. Não querer ir embora dessa existência e deixar meu filho ainda pequeno foi o que mais me mobilizou a vencer a doença. A força de vontade de ficar por ele era tanta que, juro, hoje preciso escarafunchar a memória para lembar em que momento senti dor.

E quando relatei àquela mulher o que e como foi a minha cirurgia – com preenchimento da mama com os músculos retroabdominais e gordura abdominal – ela arregalou os olhos e perguntou: “Como é que você não morreu de dor?”. Confesso que fiquei parada alguns segundos, olhando para ela, sem saber ao certo o que dizer. O motorzinho mental foi a mil, na tentativa de buscar um registro de dor pós-cirúrgica digno de ser citado naquele momento. Não deu. O que me veio à cabeça não era, nem de longe, o que ela gostaria de ouvir: “Nooossa, menina, senti dores horrorosas!”. Não, não senti mesmo. Ou não me dei tempo para prestar a atenção nisso.

Diferente de hoje, quando a dor que sinto é quase inexplicável. Como disse, me paralisa, me desnorteia, me tira da vida real. Vou ao céu e volto várias vezes ao dia, buscando encontrar lenitivo para tal sofrimento ou, talvez, no meu subconsciente – ou espiritualmente, como prefiro -, tento reencontrar aquela pessoa que se despediu da vida há pouco mais de um mês e sem a qual está difícil tocar a vida para a frente.

Essa dor, sim, amedronta. A dor física, por concreta que seja, tem local definido e analgésico específico. A dor da alma não. Ela fica, fica, fica. Como disse uma grande amiga ontem à noite, é preciso dar voz de comando à mente e dizer: “Basta! Não quero! Isso tem que acabar!” Vai acabar, sim, sei que vai. Mas o tempo... Ah o tempo... Este passa muito devagar para quem sente dor.
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9 comentários:

Edma Nogueira disse...

Oração ao tempo
Caetano Veloso

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...

Giovana Damaceno disse...

Do meu amigo, Alden:

"Sabemos que toda dor tem uma razão para existir, e que no processo evolutivo em que nos encontramos, perante a justa e infinita sabedoria de Deus, que não permite que nada de realmente mal nos sobrevenha, mas que permite que passemos por momentos que nos tornarão mais fortes e
completos, segundo seus desígnios.
Não existe nada de realmente mal na economia de Deus, todo mal é um
bem imperfeito ainda.E toda dor precisa ser entendida e vivida, pois que é um instrumento de crescimento para o nosso ser.
Por pior que seja sentir a dor, esta precisa desempenhar seu papel,
para que possamos aprender a lição, e assim ficarmos livres dela, de vez. Um amigo meu me disse uma vezque, quando sentimos dor, temos de ficar mais recolhidos em nós mesmos, nos tratando do melhor modo,
possível e imaginável, para que esta dor vá sumindo devagarinho, como se fosse um grande machucado: no primeiro momento dói o tempo todo, depois só dói quando mexemos com a parte afetada, vai depois passar a doer só se colocarmos a mão, até virar uma cicatriz, uma lembrança de algo que nos afligiu, mas depois passou.Que a experiência e o amadurecimento fiquem, como resultado deste processo, mas que a dor, depois de cumprido o seu papel, desapareça pra sempre.E se permita viver a dor, não há nada de anormal nisso.
Se cuide!"

Wellington Freitas disse...

Giovana, não sei o porque exatamente, mas me identifiquei com seu texto, as vezes sinto coisas ruins, sinto medo, dor, sinceramente, nem eu sei o motivo, acho que um pouco de preocupação com minha amada família, a pouco tempo perdi um tio que era um exemplo pra mim, deve ser por isso. Mas vai passar, sei que o tempo pra quem sente a dor, é demorado, mas... Enfim, tenho até uma tatuagem, não sei se tem conhecimento dela, e quando a fiz, foi nesse sentido, pensando que as coisas ruins vão passar...

Abraço
Wellington Freitas

POESIA EM VOLTA disse...

As dores da perda se multiplicam, e nos quebram ao meio. E nós, divididos, temos que seguir em frente. Viver e conviver com a dor. Viver é conviver com a dor. Beijo.

Anônimo disse...

A dor que doi dentro da gente, nem nós mesmos conseguimos narrar, explicar ou nominar o que é.
bjos

JAIR.

Cesar Romero disse...

O tempo se encarregará de amenizar "nossa" dor. É o maior aliado. Começo a sentir que seja o único.

Cesar Romero.

GIL ROSZA disse...

Certas dores dormem quando a gente adormece e despertam conosco na manhã seguinte, são dores que nos permitem esquecer delas em certos momentos. Já outras, acredito que da mesma espécie desta que menciona, não descansam, não comem e nem dormem, porque é da natureza delas nos tirar a paz.

Lucimara Souza disse...

As dores se amenizam quando se tem força para viver, força para vencer, força para querer ser sempre mais e mais ser feliz!
Felicidades, Giovana!
Você é luz... Não se permita apagar jamais.
Lu

Anônimo disse...

Sei muito bem o que é isso. E vc tem razão, dor na alma é algo que só conseguimos sentir, não tem como explicar. Eu imagino a barra que vc passou, os momentos que vc passou, mas creio que os amigos foram importantes pra vc. Digo amigos de verdade, pq gente podre a gente sabe que existe em todo lugar, infelizmente. Foi cruel, está sendo cruel, mas é um aprendizado. Deus escreve certo por linhas tortas, não é verdade? Eu vejo tanta gente sem graça, sem humildade, sem respeito com o próximo, querendo ser melhor do que o outro, pra quê? Agora, que meu curso está chegando ao fim, eu vejo tb que existem alguns profissionais que não são profissionais, mas esses eu esqueço, passo a borracha. Eu lembro de vc.
Um beijo e que meu velho Omulu te proteja. Agora e sempre.

Luciano Neto.