12 de dezembro de 2008

Assombração

Em frente à minha casa, do outro lado da rua, há uma árvore grande, a qual chamo de assombração. Já falei sobre ela numa outra crônica, mas só de passagem. Noite dessas estava na janela, admirando o céu se preparar para desabar em chuva (adoro este momento em que o céu fica roxo e a gente quase vê a água pronta para cair). Ventava muito e a assombração produzia um ruído de terror. Não sei por que gosto de ver isso, quase ninguém gosta, por algum tipo de medo, mas sinto um prazer enorme com aquele vento forte na cara e a chuva prestes a cair.

E uma das imagens mais marcantes desse momento é o efeito que o vento produz na assombração. Para se ter uma idéia do que estou dizendo, dei esse nome à árvore porque ela possui vagens nas pontas dos galhos, (como muitas que vemos pela cidade, mas que nunca sei o nome) e quando há vento forte elas me lembram as mãos dos bailarinos de Michael Jackson no clip de Thriller. E o nome pegou. Sempre que nos referimos à árvore, a chamamos de assombração. Mas, ela não tem nada de aterrorizante, ao contrário, é linda.

Por essa e outras manias que tenho relacionadas a árvores, descobri que sou dendrólatra. Nem precisa perguntar “O que é isso?”. Explico: é a adoração ou culto às árvores. E eu adoooro árvores. Vamos combinar que não realizo nenhum tipo de estudo sobre elas, poucas são as que conheço por nome, mas admiro todas. Quem me ensinou que faço parte dessa turma foi Rubem Fonseca, em duas de suas crônicas do livro O romance morreu – “Sou um dendrólatra incorrigível”.

Na crônica intitulada Pensamentos imperfeitos, o escritor afirma que é impossível alguém que não goste de árvores. “Não falo do sujeito, índio ou não, que faz a queimada para plantar mandioca, soja, cana-de-açúcar ou lá o que for. Esse vai direto para o inferno, mesmo jurando para São Pedro que fazia isso para conseguir o leite das crianças. Falo das pessoas que me cercam, que vivem na minha cidade e não têm qualquer razão para destruir, desprezar, ou até mesmo ignorar a existência das árvores.”

Nesse texto, Rubem Fonseca relata seu esforço junto à Fundação Parques e Jardins para salvar uma muda de árvore na praça em frente a sua casa, e que termina com a contratação, por ele mesmo, de um tratador para não deixar a muda morrer. “Sei que existe quem diga que é uma coisa idiota fazer esse estardalhaço por causa de uma árvore. É devido a esse tipo de pensamento que uma, duas, três, milhões de árvores são incessantemente destruídas em nosso país. E isso me preocupa, quer seja um milhão de árvores, quer seja apenas uma.”

Minha assombração é mal cuidada. Fica na calçada de um prédio público. Só é podada – mal e porcamente – pela empresa de energia elétrica, quando seus galhos começam a oferecer risco à fiação. Quase não difere dos milhares de outras, citadas por Rubem Fonseca, para as quais ninguém olha. “É só uma árvore”, costumo ouvir. Mas os prazeres da vida residem exatamente aí. Em poder chegar à janela e assistir ao belíssimo balé de galhos balançando ao sabor do vento, sentir cheiro de mato molhado, ver folhas rodopiando no ar. É simples, pode parecer pouco, mas quem não pára uns minutos de sua vida para ver esse espetáculo não sabe o que está perdendo.

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3 comentários:

cintia sibucs disse...

perfeito!

POESIA EM VOLTA disse...

Um ótimo texto para sexta. Chuva, janela e árvores. Lindo mesmo! E convidativo para sentarmos à sombra da "assombração"! rsrsrs

Thayra Azevedo disse...

Ler este texto, desperta sede pela natureza. Vontade de apreciar as árvores.
Eu costumo ouvir que o espetáculo da natureza são aplausos ao criador, que de graça nos oferece alívio à alma.