22 de janeiro de 2008

O futuro do presente

Marco Antônio voltou à cidade depois de 15 anos no exterior, entre os estudos e muito trabalho. Sentiu saudades do Brasil e da família, em Volta Redonda. Não ficou rico por lá, mas ganhou dinheiro suficiente para retornar e tentar refazer a vida mais perto da mãe e dos irmãos. O último Natal foi crucial para a decisão. Fizeram falta os bate-papos com amigos na padaria da esquina no dia 24 de dezembro, as despedidas do ano velho entre os vizinhos, que sempre viajavam, e o encontro de Natal na única boate da cidade.

Ele chegou na madrugada de uma terça-feira. Cidade parada, vazia. A avenida onde sempre morou com a família estava silenciosa. Ninguém na rua. Desceu as malas do táxi, olhou para a rua de um lado a outro, tentando reconhecer o lugar, sentir-se finalmente em casa. Mas algo estava diferente e pelo adiantado da hora, pensaria nisso mais tarde. Teria muito tempo. Abriu o portão e a família se manifestou dentro da casa, pois já o esperava. Luzes foram acesas, ouviram-se gritos, suspiros, o choro da mãe. Abraços, carinhos, todos tinham muito o que dizer.

Quando acordou de manhã e abriu a janela, a surpresa. Sua rua não existia mais, ou pior, os vizinhos não existiam mais, ou pior ainda, a avenida onde morou desde a infância, era em toda a sua extensão formada por agências de vendas de automóveis. A única casa ainda era a de sua mãe, que resistiu durante todos esses anos a sair do lugar onde viveu desde quando se casou com o pai de Marco Antônio.

Vestiu-se rapidamente e foi andar, ver de perto o que ainda se recusava a crer. A padaria da esquina, uma agência, o boteco na rua ao lado, outra agência, a casa do melhor amigo da infância, mais outra. A academia, a pizzaria, a clínica, não existia mais nada. Sem contar as vagas de estacionamento de toda a avenida, totalmente ocupadas por veículos à venda. Pegou as chaves do carro do irmão e saiu pela cidade. O que era aquilo? O que aconteceu com Volta Redonda? Pouca coisa do comércio que reconhecia ainda sobrava. O antigo clube, virou agência; a boate, também vendendo carro; um dos maiores supermercados da cidade agora tinha seu enorme galpão ocupado com dezenas de automóveis à venda. Avenidas e avenidas com carros enfileirados à venda. Até igrejas deram lugar a agências.

Já em casa, percebeu que o ânimo que o trouxera de volta havia desaparecido, junto com o que recordava da cidade. Não veria a maioria dos amigos, que foram saindo aos poucos, atrás de vida em outros lugares. Da família, somente a mãe, dois dos cinco irmãos, e sobrinhos. Muito do que viu e viveu na sua cidade natal já não existia mais. Ninguém sabia explicar o que teria ocasionado aquele boom de agências de automóveis em Volta Redonda. Nunca ouvira dizer que havia mercado para tantos carros à venda, nem em nível regional.

Dias depois era convidado para prestar serviço numa usina siderúrgica em fase de expansão na Colômbia. Decidiu arriscar, conhecer novos meios de vida. Deixou outra vez Volta Redonda, imaginando como estaria a cidade quando retornasse, sabe Deus quando. Uma vaga idéia passou por sua imaginação, quando, ao sair no táxi rumo ao aeroporto, viu três viaturas da Polícia Federal passando por sua rua, bem devagar.

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