19 de outubro de 2016

Quem viver será

Fui convidada para compor a comissão julgadora de um desfile. Não de mulheres e homens lindos, jovens e sarados, candidatas à beleza disso ou daquilo, mas um desfile de idosos. Aceitei de bom grado. O evento reuniria internos das instituições da minha cidade, uma ação para elevar a autoestima, integrá-los, socializá-los. Era perto da minha casa e o convite veio da Bruna, pessoa que merece meu respeito, pelo trabalho que desenvolve com essas pessoas.

Confesso: não estava preparada para o que iria assistir. Não pensei, não avaliei, não imaginei nada antes de chegar ao local do encontro. Apenas cheguei. E da porta do salão, vi descerem das vans a vontade de ser, de estar, de desejar, de fazer. Caminhando devagar, ajudados por cuidadores ou apoiados em andadores, lá estavam o futuro de muitos de nós.

Não foi choque, tristeza ou pena. Foi constatação do que poderá vir a ser pra mim e pra tantos outros. A cada um que subia os degraus, pensava em alguém que conheço, na sua vez de ficar velho; via-me na minha vez. E questões de todas as grandezas pululavam na cabeça: como será comigo? Vou andar de muletas, de andador? Estarei saudável até quando? Perderei minha lucidez? Serei uma velhinha supimpa ou melancólica? Serei desejante?

A plateia foi se acomodando, enquanto os concorrentes aguardavam no fundo do salão. Os homens de um lado, silenciosos, e as mulheres entregues aos cuidados de uma equipe de maquiadoras, manicures e cabeleireiras. Era nítida a expectativa. Por outro lado estavam confiantes, prontas para enfrentar os olhos da comissão julgadora. Quem concebe tal cenário?

Quando falamos em idosos que vivem em asilos, logo pensamos em velhos doentes, decrépitos, abandonados pela vida, terminando seus dias na companhia amarga da solidão a que foram entregues. Digamos que não seja assim, invariavelmente. Há meios de fazer diferente, não que seja fácil, no entanto é possível. Fiz uma palestra anos atrás no Residencial Vila do Sol, e saí de lá surpresa e grata pelo que vi e experienciei com os hóspedes (como são chamados). Não são tratados como velhos inúteis, ao contrário, o objetivo das equipes é fazer com que se sintam em casa, de verdade. Podiam levar móveis e objetos de valor (uma senhora levou o piano!), um deles saía sozinho para ir ao mercado, padaria, farmácia... Havia festas, música, dança. Notei que eles desejavam e desejar é viver.

Um amigo se compadeceu daquelas pessoas presentes no evento. Cá com meus cachos tentei compreender. Estar num asilo nem sempre quer dizer que está abandonado. Há, sim, muita maldade humana envolvida, contudo há casos de precariedade tão descomunal, que a única solução para a família é internar seu idoso, pois somente desse modo pode ser bem assistido. Há ainda pais, mães, maridos despóticos que ganham em troca esse destino na velhice (ou são ignorados dentro de casa mesmo. Ou, ainda, exaurem seus companheiros e companheiras cuidadores e a saúde de todos é comprometida. Assisti a uma cena que retrata esse tipo de relação e relatei numa crônica um tempo atrás). Não se deve julgar.

E então eles desfilaram! Entravam pelo fundo do salão e percorriam o tapete vermelho, em direção à mesa da comissão julgadora. Uns tímidos, outros sorridentes, dançando, no andador (!), porém afirmando suas potências. Queixos erguidos, altivos, se apresentavam aos jurados e retornavam, ovacionados por amigos na plateia. E nós ali na mesa, meio abobalhados. Saí do chão várias vezes, a ponto de me perder e não ouvir o nome do próximo a desfilar. Era uma história inteira que se criava na minha mente, quando viravam as costas e retomavam o percurso de volta.

Não me satisfaço com definição alguma para a velhice, como também não tenho a minha. Encarada como o fim, poderia ser um recomeço. Por que não? Os desejos reprimidos são liberados (permitidos pela mesma sociedade que os reprimiu), há uma liberdade indizível e uma sabedoria que não chegam a alcançar o nível consciente. Mas estão ali: no sorriso, no brilho e na profundidade do olhar, na gratidão.

Esfregam na nossa cara que se chegarmos lá, o barco será o mesmo para os bonzinhos, os canalhas, os caridosos, os egoístas, os ricos, os pobres. Escancaram a realidade de que se tenta escapar com estratégias inúteis. E sorriem.
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Um comentário:

Jader Mattos disse...

Só quero sentar próximo ao portão de casa e ficar falando "oooopa!" pra tudo mundo que passar.