9 de junho de 2013

Crença é algo pessoal; o corpo também

Vou falar como uma pessoa religiosa. Sou espírita, estudiosa da doutrina codificada por Allan Kardec. De acordo com os ensinamentos do espiritismo, que tem base no Evangelho de Jesus Cristo, nós somos espíritos, que temporariamente habitamos um corpo, e este mesmo espírito reencarna quantas vezes forem necessárias no tempo, para que se purifique e encontre a perfeição. Para os espíritas, a partir do momento em que um óvulo é fecundado, existe, sim, ali, uma vida pulsante, posto que há um processo reencarnatório em curso, com um espírito se preparando para renascer.

Crente nesta doutrina, posso dizer que sou contra o aborto. Sou contra porque na minha religião aprendi assim, e acredito nisso, e me faz bem crer nisso, e me faz bem ser espírita, é reconfortante pra mim a minha crença. Esta afirmação deve ficar bem clara, portanto repito: a minha crença é reconfortante pra mim.

O que quero dizer? Que não posso, não é meu direito exigir que o outro reze pela minha cartilha, que um país inteiro seja regido pela minha crença pessoal (sim, pessoal, porque a crença de cada um é individual, pessoalíssima) porque mesmo a minha religião defende que o espírito, seja ele encarnado ou não, detém algo que se chama livre arbítrio e por ele faz suas escolhas, pelas quais será o único responsável pela eternidade afora.

Onde quero chegar? Na mais nova tentativa de tolher o direito de escolha da mulher, de ter autonomia sobre seu corpo, algo pelo qual se luta há séculos. Quantos e quantos anos se passaram em que a mulher sequer podia ser dona do seu próprio hímen, cuja propriedade era transferida do pai para o marido? Agora, por força das pressões da bancada evangélica da Câmara dos Deputados, estamos prestes a assistir a um dos maiores retrocessos da legislação brasileira, no que tange aos direitos das mulheres: o Estatuto do Nascituro.

Por meio dele, a mulher violentada é simplesmente ignorada, e todos os direitos reservados ao embrião, inclusive o de receber pensão do ‘pai’. Caso ele não seja identificado ou não possa arcar com tal despesa, o Estado garante uma “Bolsa Estupro” até a futura criança completar dezoito anos. A mãe, ‘se’ não desejar o filho gerado em estupro, pode encaminhá-lo para adoção, o que é muito fácil no país, todos sabem. Tudo pressão para a mulher não abortar, pois no Brasil, em caso de estupro, o aborto não é considerado crime.

Ponto aqui.

Não quero discutir sobre o aborto em si. O que defendo é que minha crença religiosa ou a de quem quer que seja não deve pautar o debate. Está faltando cabeça pensante na questão. O que se deve pensar é no direito de escolha da mulher! Sejam quais forem as consequências do ato, se Deus castiga, se vai queimar no fogo eterno, se vai arder no mármore do inferno, se terá de voltar em outra encarnação para resgatar o erro, é uma opção dela, o risco é dela, a responsabilidade é dela, o livre arbítrio é dela; não cabe a governo, legislador, pastor, padre ou qualquer pessoa de qualquer instância decidir isso por ela.

Outro ponto esquecido é o problema se saúde pública criado com tanta estupidez. Se a mulher não pode ter autonomia sobre seu corpo legalmente, vai tê-la ilegalmente, como vem fazendo desde sempre, recorrendo a meios arriscados de interrupção da gravidez – os tradicionais talos de couve, espetos de churrasco, chás tóxicos, remédios vários. As ricas pagam caríssimo; as pobres morrem durante o procedimento em clínicas clandestinas imundas ou dias depois, por infecção ou hemorragia. Vamos cair na real: tais práticas vão continuar existindo, todos continuaremos fazendo cara de paisagem, até que se abra uma discussão clara neste país, sem hipocrisia.

Mais: haverá casos de mulheres pobres e desorientadas que, pressionadas pela família, aceitarão a gravidez e o ‘filho’ para não perder a pensão. Alguém duvida do que vai sofrer esta criança rejeitada e odiada, mantida na família apenas por causa do dinheiro?

Crença não é algo que se enfia goela abaixo de ninguém. Crença é escolha. E é justamente o direito de escolha que se defende para a mulher. Pode parecer complicado porque ainda vivemos numa cultura em que a se tenta manter a mulher sob controle em diversos aspectos. Mas para descomplicar basta estudar, pensar, ganhar consciência, entender. Não é difícil. Não como sofrer um estupro.
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