4 de setembro de 2012

Cony e outros exemplos

Carlos Heitor Cony completou 86 anos, é vítima de um linfoma terminal há onze, se locomove por cadeira de rodas e está prestes a lançar um novo livro, "JK e a Ditadura". Impossível olhar para uma história assim e não ver ao menos as pessoas próximas. Parece meio piegas bater insistentemente na tecla da superação, mas a vida e os bons exemplos estão esmurrando nossas portas para, quem sabe, provocar um despertamento. E a minha própria história me chama à realidade todo o tempo.

Não sei se alcanço a idade de Cony. Também não foi o câncer, certamente, que o levou a ser o que é. Sempre foi brilhante e continua sendo, apesar das limitações recentes. Porém, são adversidades do tamanho de uma doença grave como essa que costumam fazer muita gente sair da obscuridade, do comodismo, da preguiça, da inutilidade. Seja no que for que creiam, há milhares de pessoas por aí que são acionadas por algo como um interruptor quando passam por experiência semelhante.

Divagações. O certo é que me encantei com a disposição de Cony a esta altura da vida e ainda lutando contra um linfoma. Encantamento pela trajetória do cidadão que sofreu as atrocidades da ditadura militar e com certeza ainda remói as consequências emocionais desses anos de vergonha para a memória nacional.

Em época de campanha eleitoral é muito comum o assolamento por desânimo, preguiça, vontade de virar ermitão, sumir do mundo, não esperar nada de ninguém ou de governos, deixar de sofrer com a ignorância que se alastra por aí. Ignorância cultural, comunitária, emocional, analfabetismo funcional.

Porém, são pessoas do porte intelectual de Carlos Heitor Cony que ainda me puxam pelos cabelos e me arrancam lá das profundezas do desalento. Gente como ele são capazes de me tornar crédula novamente na possibilidade real de mudar algo, mesmo que seja pouco, entre poucas pessoas. Ele fez e faz tanta diferença com o que escreveu e escreve, e agora com seu exemplo de força, remete-me a própria experiência com o câncer.

Mais divagações. É que às vezes é preciso dar de cara com as vidas das outras pessoas, com o que acontece nas vidas das outras pessoas, com as lutas das outras pessoas, para lembrar que a minha vai muito bem, obrigada, e que não é qualquer adversidade que joga no lixo o que se constrói com tanto esforço.
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2 comentários:

Amanda disse...

Texto perfeito, como sempre!

Beijos

Carol Cunha disse...

Admirável!! Bom poder compartilhar pessoas que sentem, sofrem, lutam, acreditam e seguem...

Bjs