13 de agosto de 2012

O que São Tomé diria de São Thomé



Sabe aquele dito popular “só acredito vendo”? Pois é. Pra quem não sabe, ele ficou conhecido por causa de São Tomé, um dos doze discípulos de Jesus Cristo, que após a morte do Mestre não acreditou em sua aparição aos amigos: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos, se eu não puser a mão no seu lado, não acreditarei (João, 20:25)”.

Embora seja espírita, sempre me custou crer na exaltação dos que passaram pela cidade mineira de São Thomé das Letras e de lá trouxeram um não sei quê diferente. Uns dizem que rola uma tal energia, outros garantem se tratar de frequentes visitas de extraterrestres.

E lá fui eu, durante minhas férias, dar uma passadinha em São Thomé das Letras, com aquele outro São Tomé aqui no pé dou ouvido me lembrando para não crer em bobagens. Queria apenas conhecer, curtir um lugar pequeno e sossegado, descansar a cabeça.

O impacto das primeiras imagens teve nada de transcendental. Causa estranhamento, a quilômetros de distância, antes de chegar à cidade, divisá-la no topo da montanha de pedras. Uma montanha branca, com pequenos pontinhos também brilhantes à luz do sol e em contraste com o céu azul límpido. Sim, uma cidade plantada em cima de pedra. Quanto mais perto, maior o impacto. Difícil absorver aquilo.

Sem nenhuma ilusão com a tal energia, segui meu roteiro: check in na pousada, mochila nas costas e, subir a ladeira para chegar à praça central, onde está a Matriz de São Thomé das Letras e a gruta ao lado, local em que, segundo a lenda, se escondeu o escravo fugido João Antão. Ele teria recebido a visita de um homem de vestes brancas, que lhe deu um bilhete e disse que, se ele o entregasse ao seu senhor, capitão João Francisco Junqueira, este o perdoaria. Ao ler o bilhete, o capitão lhe ordenou que o levasse até a gruta, onde encontraram uma imagem de São Tomé entalhada em madeira. João Francisco teria recolhido a imagem na fazenda, mas ela sumiu e reapareceu por várias vezes na mesma gruta. Por acreditar em um milagre, o capitão mandou erguer uma capela em 1785, hoje a Matriz.

Ao sair a pé para minha primeira caminhada na cidade, outro impacto. Nunca vi tanta pedra São Thomé num só lugar. Praticamente todas as casas, calçadas, lojas, tudo foi erguido com pedra empilhada, sem argamassa, ou ao menos teve parede revestida. A extração da pedra, na verdade o quartzito, responde por 60% da economia local, e é exportada para vários países da Europa.

O estranhamento permaneceu ao olhar para tudo aquilo. Mas, até então, nada de energia diferente, até que entrei na igreja e, sem uma ponta sequer de misticismo, digo que aconteceu algo esquisito. Como qualquer pessoa que já me falou sobre São Thomé, comigo não será de outro jeito: não dá pra explicar. Um arrepio, uma vertigem, certa confusão mental, um calafrio ao tocar num balcão. Do lado de fora, o azul do céu ofuscava, em contraste com o amarelo forte da igreja. A sensação que ficou foi de pasmo, sei lá. A partir daquele momento vivi São Thomé como se estivesse fora do chão.

Fomos à gruta do escravo fugido, logo ao lado. Nada de extraordinário, é bem pequena, guarda uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Foto, foto, foto. E atrás dela, sobe-se uma escada para vencer as pedras e chegar a um mirante. A vista de lá foi apenas um aperitivo do que me esperava na manhã seguinte.

Como disse, São Thomé das Letras é encravada no alto de uma montanha, e está a 1444 metros de altitude. Por meio de uma trilha no meio das pedras, é possível chegar a um outro mirante, de onde não só podemos ver a cidade de cima, como entrar em êxtase com a “vista a perder de vista”. Dá vontade de gritar, de chorar, orar, dançar. Creia, fiz tudo isso. Impossível não se achar especial naquele lugar, com vento forte e fresco cantando nos ouvidos, sol pleno e céu limpo. Impossível enjoar de ficar ali, escutando o silêncio. Impossível ter vontade de ir embora.

Quando contei a uma pessoa da família que estive em São Thomé, ouvi a seguinte pergunta: “Você teve a impressão de estar em outro mundo?” Tive. Mas num mundo que não é deste mundo. Com exceção do povo mineiro, bem conhecido, e da comida mineira, saborosíssima como sempre, São Thomé das Letras não está aqui, nem logo ali.

São Tomé, o apóstolo, diria “só vendo”. Eu diria “só sentindo”.
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2 comentários:

Anônimo disse...

"Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa fã filosofia".

Luciano Neto disse...

Alguns amigos já me chamaram para ir a São Tomé, o local me atrai um pouco por causa do Raul Seixas e também por causa dessa "aura mística" que o cerca. Beijos.