26 de junho de 2012

A lição de um educomunicador

Raras são as oportunidades de estar frente a frente com jornalistas experientes para ouvir suas histórias. Por isso, sempre que surge uma chance, aproveito para aprender um pouco mais. Foi o que me levou a São Paulo dia 21, no Workshop Blogueiros Campeões de Audiência, realizado pelo Comunique-se. Lá estavam Guilherme Barros, Augusto Nunes e Gilberto Dimenstein, convidados para nos contar sobre a novidade que é escrever na internet, após anos de atuação na mídia impressa.
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Guilherme Barros, jornalista de economia, publica mais de vinte notas por dia em seu blog na IstoÉ Dinheiro. Augusto Nunes, hoje com um blog na Veja, alternou suas falas entre o dia a dia com a plataforma virtual e o ti-ti-ti político que suas notas costumam provocar. Mas foram as boas falas de Gilberto Dimenstein que me encantaram de verdade – quero crer que não só a mim. Cada um deles me disse algo novo, trouxe ares frescos a minha rotina, me atualizou. Porém, jamais imaginei ouvir de um jornalista o que ouvi de Dimenstein. E concordo com ele. Sempre concordei.
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Explico, com as palavras dele: “Não conheço jornalista no Brasil tão premiado quanto eu(...) Só que tudo isso me deixou confuso(...) Após fazer uma reportagem sobre prostituição infantil, pensei ‘não posso apenas escrever; também tenho que usar a comunicação para tentar mudar esse mundo’. O jornalista é treinado para ver trevas onde tem luz; o educador é o contrário. Por isso hoje me autodenomino um educomunicador.”
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Gilberto Dimenstein é o criador e coordenador do site Catraca Livre. Para quem não conhece, trata-se de um guia de convivência da cidade de São Paulo, que oferece informação e prestação de serviço. Cultura, diversão, gastronomia, saúde, educação, enfim, de tudo um pouco que seja gratuito ou de baixo custo. “Meu objetivo não é mais correr atrás do furo e, sim, melhorar o capital social.”
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Com voz sempre serena e tom de conversa ao pé do ouvido, Dimenstein me disse, aos meus 23 anos de profissão, que não devemos ter medo de “transmitir a cidade dizendo coisas legais”. Utopia? Palavrório de um jornalista que já realizou seus sonhos e agora resolveu fazer caridade? Nada disso.  Há muito tempo não ouvia algo tão pé no chão de alguém que claramente sabe o que está dizendo. Não é a toa que o Catraca foi escolhido como o melhor blog do mundo em Língua Portuguesa, numa premiação promovida pela Deustche Welle, emissora de TV pública da Alemanha. “Hoje temos até o privilégio de demitir patrocinadores que não se comportam ou que nos pedem coisas absurdas.”
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Criado em julho de 2009 por estudantes universitários, o site hoje conta com a colaboração externa de 15 mil pessoas no envio diário de informações e outras 25 na redação, entre jornalistas, contato comercial e pessoal de gestão. Sem contar o monitoramento das mídias sociais, como Twitter e Facebook. Mas não pense que é moleza montar e manter esta equipe. “É muito difícil encontrar quem pretenda ser jornalista comunitário. O perfil que procuramos é do profissional que no lugar de prêmios queira mudar a sociedade”.
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E o que me encantou não foi somente o projeto, o quão grandiosa se tornou a vontade de um homem de fazer algo em favor da sua comunidade. Não me tocou o jornalista famoso fazer uma palestra sobre uma proposta original e relevante. Quantas vezes ouvi de colegas que pobre só dá notícia quando desaba o barraco? Quantas foram as vezes em que tentei falar de pessoas consideradas comuns e fui demovida da ideia porque pessoas comuns não vendem jornal? Quantos narizes torcidos e olhares debochados tive de resposta quando me atrevi a dizer que é nosso compromisso fazer algo pra mudar nosso entorno? Perdi a conta do quanto fui chamada de alienada.
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Por isso foi pra mim uma felicidade enorme ouvir alguém como Gilberto Dimenstein me dizer que estava certa. Podemos, sim, ser mais, muito mais que relatores de tragédias, de tristezas, de violência, de roubalheira, de crueldade, de descaso político. É justamente para ser mais que meros escrevedores de más notícias que estudamos e lemos tanto. É para mudar o rumo desta prosa que serve a independência intelectual de um jornalista. Eu e Gilberto Dimenstein acreditamos nisso. E você?



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