22 de maio de 2012

Resistência ao novo


Um jovem me contou dia desses que um dos professores dele, na sala de aula, bastante exasperado, disse que o Facebook é uma m* e que serve pra nada. Este mesmo rapaz tem uma pessoa da família que se recusa radicalmente a se relacionar pela internet, embora tenha duas graduações no currículo e seja profissional liberal, portanto, não se trata de um ignorante. Passei um bocado de tempo pensando nisso. Acabara de chegar do Seminário de Redes Sociais do Comunique-se, em São Paulo, quando soube desta história, tão igual a tantas outras atualmente. Inclusive, no próprio evento, pelo menos dois jornalistas se manifestaram dizendo-se avessos à comunicação via mídia social.

Onze anos atrás, trabalhava como assessora de imprensa em um hospital que faz parte de uma rede sediada em SP. Era primordial que nos habituássemos aos envios de email para lá e para cá, pois eles facilitariam todo trabalho de troca de documentos anexados, peças de publicidade, apresentação de relatórios e muitas etecéteras. Pois lá naquele início dos anos 2000, com a internet já bombando no mundo inteiro, tivemos muitos impasses por causa dos resistentes, com os quais o diretor da instituição sempre dizia “Hoje em dia quem não é ponto com é ponto morto!”, frase, aliás, que adotei e uso até hoje (e já escrevi sobre isso).

Algum tempo depois experimentei entraves no trabalho diário de assessoria de imprensa, porque no órgão em que prestava serviços não havia conta de email. Ainda enviavam releases por fax. Foi uma demora de quase um ano para um processo que começou no convencimento da direção, passou por todo um planejamento de como seria a absorção da nova realidade, até a implantação da ferramenta, que ainda sofreu muitos ajustes antes de funcionar corretamente.

Cito aqui apenas os recursos de internet que me vêm à memória neste momento, os quais aprendi a fazer uso no dia a dia profissional. Como o MSN, que mantenho permanentemente aberto enquanto estou no computador (ou o bate-papo do Facebook). Além de prático, pois me permite chamar qualquer pessoa conectada a qualquer momento, para sanar dúvidas ou pedir informações, é também um meio de economia de ligações telefônicas. Resolvo uma série de questões por conversas on line; se fosse depender do telefone gastaria uma pequena fortuna por mês. E ainda ouço gente a minha volta a dizer “Não gosto deste troço; prefiro a conversa ao vivo e a cores”. Também prefiro, mas no dia a dia de trabalho é muito mais fácil, rápido e dinâmico.

Hoje temos as mídias sociais e toda a facilidade de relacionamento pessoal e profissional que nos proporcionam. Trabalho com elas diariamente na instituição de ensino superior em que atuo como jornalista e posso afirmar que sem Twitter e Facebook, pelo menos, as campanhas publicitárias e planos de assessoria de imprensa seriam capengas. “Elas oferecem milhares de outras possibilidades que ainda estamos descobrindo, mas ainda teimamos em manter o formato antigo, pois não aceitamos as mudanças, há uma resistência em aceitar o novo. Há muito medo de apostar. É urgente que se pensem nas campanhas exclusivamente focadas nas mídias digitais”, alertou uma das palestrantes do seminário do Comunique-se, Ana Bertelli.

Faz-se e fala-se muita bobagem nas redes sociais, sim, claro! Só que ocorre o mesmo – ainda – com os envios de emails. Abra sua caixa de entrada agora e verifique a quantidade de lixo que você recebeu só hoje de manhã. E você continua usando, porque precisa, porque é prático, porque necessita desta ferramenta pessoal e profissionalmente (e também manda um monte de lixo para seus contatos, como aquelas apresentações em PPS). Porém, que não se enganem novamente os resistentes: não há retorno. É uma nova realidade, um novo meio de comunicação que caiu em nossas vidas e do qual não há como escapar. Ou você tem perfil, ou você não existe. “O Facebook é uma internet dentro da internet. Temos acesso a tudo dentro dele, trocamos mensagens, nos relacionamos socialmente. Não dá para não prestar a atenção nisso”, disse o jornalista Thiago Cordeiro, num curso de redes sociais do qual participei.

E, cá pra nós, bem ao pé do ouvido: o que quer um professor que fala tamanha besteira para dezenas de jovens que utilizam as redes sociais e se beneficiam delas? Como um profissional de ensino está numa sala de aula falando pra jovens alunos, se não se atualiza, não se adapta ao novo? O quê e como pretende ensinar, passar informações?

Esta semana meu filho me comunicou que sua sessão com a terapeuta seria antecipada para um dia antes. “Tudo bem, filho, você foi avisado disso na consulta da semana passada?”. “Não, mãe, a terapeuta falou comigo há pouco pelo Facebook”.

É. O tal professor está precisando mesmo de uma reciclagem urgente. Se já não for ponto morto.
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Um comentário:

Anônimo disse...

Este seu post me lembrou aquela fábula sobre o professor: Um professor, vindo do século XVI, "caiu" nesse mundo e ficou apavorado ao ver os automóveis que circulavam pelas ruas; as próprias ruas; lojas; as roupas que as pessoas usavam; os enormes prédios e toda a tecnologia disponível... Daí foi visitar uma escola e ao entrar em uma delas, se sentiu "em casa" e respirou aliviado: "Enfim um lugar onde nada mudou!"