29 de maio de 2012

A convivência com meus bichos


Aquele outro lado que a gente não gosta

A vida inteira tive bichos em casa. Desde criança me acostumei a ter um cão por perto, ainda que me revoltasse em silêncio ao ver a forma com que cachorros eram criados pela família - acorrentados. Nunca aprovei isso. Mas criança e caçula não tem voz, né?

Tenho hoje meus cachorros e mais duas gatas: Barak e Bernadete; Flora e Zoraide.

Não crio animais feito gente. As gatas são livres, entram e saem de dentro de casa para comer e beber água. Os cães vivem soltos pelo quintal, não usam sequer coleiras e não entram em casa. Todos são muito bem tratados, mas como bichos que são. Comem ração de boa qualidade, têm sempre água fresca por perto, vacinas, remédios quando necessário, banhos sem exageros, área de permanência sempre limpa.

Mesmo sendo criados como animais que são, acabam fazendo parte da família. A rotina da casa inclui o manejo diário. Chego do trabalho e confiro um a um, como estão, onde estão, se têm água, comida, se está tudo bem com cada um deles. Mais complicado é saber onde está a Flora, a gata mais rueira.

Esse é o resumo do lado prático do meu dia a dia com bichos. O lado emocional é que é f*. A gente desenvolve um amor por estas criaturas, um amor incondicional, como o que eles têm por seus guardiões. Impossível não me derreter diante de olhares tão carentes. São tão apegados, que se acostumaram a enfiar a cabeça por baixo da minha mão, para ganhar carinho.

Portanto, o que quero falar aqui é da minha dificuldade – como deve ser a de muitos por aí – em ver um de meus animais ferido ou doente. Esta semana estou desconcertada porque Barak apresenta sintomas de uma disfunção neurológica. Confesso que isso me tira o equilíbrio e escrever a respeito me tira um pouco a tristeza por vê-lo com os movimentos trêmulos e limitados e a sensação de impotência por poder fazer tão pouco.

Já disse em outras ocasiões semelhantes que nunca mais teria cachorro em casa, mas também não sei ter apenas um cão, solitário. Sempre tive dois para que tivessem companhia permanente. Um morre, adoto outro. E assim faço há anos, sem conseguir parar de tê-los. É triste, muito triste assistir à degeneração do Barak, porém fica a certeza de que quando o tirei da rua, dei tudo o que precisava para ter uma vida confortável. Ele era esquálido e assustado; hoje é ainda saudável e festeiro, apesar da limitação que começa a se manifestar.

Enfim, faz parte. Quem não quer ver estrelas, que não olhe para o céu. Quem quer viver sem se doar, sem trocar, sem se entristecer pra crescer, que vá para uma montanha e seja um ermitão. Eu escolhi ter cães, então, que me alegre e me entristeça, aqui e acolá, aprendendo com eles a dar e receber amor e a oferecer o melhor de mim, mesmo sabendo que haverá um fim logo ali à frente. Parece até que eles sabem disso, pois é o que deixam quando se vão.
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3 comentários:

Luciano Neto disse...

Perdi o Nero, meu cachorro, há seis meses. Ele estava muito velho, teve um problema nas patas e não conseguiu mais levantar. Ficou cerca de 15 dias deitado e morreu. Chorei muito e ainda sinto falta dele. Falei pra minha mãe que não quero mais cachorro, nem gato, nem papagaio, nem nada. Quando eles sofrem, sofremos juntos. Quando eles morrem, morre um pouquinho de nós. Admiro a sua atitude para com eles, mas admito que não tenho o mesmo amor, se é que você me entende.

"Quem não quer ver estrelas, que não olhe para o céu"

Puro lirismo, só alguém sensível como tu seria capaz de escrever tão belas palavras! Fique com Deus.

Anônimo disse...

Oi Gigi,
qualquer comentário seria desnecessário, uma vez que você muito bem (como sempre) soube descrever as várias sensações que os animais domésticos nos proporcionam, quando vivos e alegres, quando adoecem ou quando nos deixam de vez. Também não sei ficar sem um animal em casa, mas sempre cães.
Tive de várias raças. Hoje meu "filhote" de 4 patas é o Vincent, que você já conhece a história.
Beijocas virtuais do
Calino.

Cláudia Cardoso Semeghini Feitosa disse...

Querida Giovana,
Amar já nos torna completos! Amar os bichos, principalmente os cães, é uma aventura em ritmo acelerado, pois em suas curtas vidas vivenciamos intensamente com eles as estripulias da infância, as alegrias da juventude, a independência da maturidade e a calmaria da velhice. Em meio a lambidas, batidas de rabos, latidos, nos entregamos a esse amor incondicional que eles nos devotam. A prova é que sempre nos recebem à porta como se estivéssemos voltando de longíngua viagem! Nos entendem quando estamos tristes, nos acompanham silenciosos, seguem nossos passos... Por isso ocupam tanto espaço nos nossos corações! Desejo força para vivenciar com seu cãozinho esta fase dolorosa. Bj Cláudia Cardoso.