2 de abril de 2012

(sobre)Viver é superar


O bebê-símbolo da fome na Somália sobreviveu. Nascido num dos países mais miseráveis do mundo, Minhaj Gedi Farah, pesava 3,2 quilos aos sete meses de idade. Após noventa dias de tratamento, o menino já está com oito quilos e foi notícia por todos os cantos do planeta.

Ingo Fischer, 67 anos, é dono da Irmãos Fischer, em Brusque/SC. O empresário começou sua carreira aos 17 anos, com algumas ferramentas à mão e o desejo de consertar bicicletas. O garoto pobre deveria parar os estudos para ir à luta e ajudar a família. Só que ele fez diferente.

Foram duas reportagens que vi no mesmo dia e que me chamaram a atenção para a mesma coisa: superação. A certeza de que é possível, sim, mudar o rumo e alcançar outros patamares na vida, mesmo quando as adversidades parecem querer se impor. E não falo aqui de riqueza material, apesar de usar Ingo Fisher como exemplo. Falo de ousadia, coragem, altivez para vencer a si próprio e às intempéries do dia a dia.

Outro grande exemplo de superação que observo é o de famílias que (sobre)vivem com menos, muito menos do que se imagina ser o mínimo necessário. Você que me lê consegue, por acaso, viver sem celular, notebook, TV? Pode passar suas noites no chão, sem travesseiro, sem cobertas, sem ventilador ou ar condicionado? Como seria sua rotina se não soubesse se teria o que comer ou não? Pois saiba que tem gente que passa, até mais de um dia, sem nada no estômago além de água, e olhe lá.

Vi um rapaz apreçar uma receita médica no balcão da farmácia. Não ouvi os valores, mas observei a decepção no rosto dele ao sair. Tive remorso por não raciocinar rápido e me oferecer para ajudar. Só que com ou sem ajuda estas pessoas (sobre)vivem, e a gente nem se dá conta. E elas superam, e seguem em frente, e vivem, não sei como.

A fábrica de Ingo quase foi engolida pelas enchentes do Vale do Itajaí em 1984. Milhares de pessoas perderiam o emprego. Mas Ingo superou e está lá, firme e forte, com suas empresas funcionando e os postos de trabalho devidamente ocupados. Minhaj ainda não alcançou o peso ideal para sua idade, nem deixou de ser miserável, mas mostra ao mundo que é necessário muito pouco para sobreviver.

Do mais pobre ao mais rico, seres humanos têm dificuldades, limitações, deficiências, percalços, obstáculos, doenças, vícios. Levam tombos, sofrem por faltas ou por excessos, perdas e desenganos. Muitos preferem o caminho mais difícil, o da lamentação e da dor. Outros superam porque querem viver. Confesso que sinto certa vergonha ao visitar as histórias destas pessoas. De vez em quando me pego na insensatez de reclamar da vida. E ao ler sobre Minhaj lembro que também tenho um filho, analiso e avalio minha própria vida, minha família, minha saúde, meus afazeres. Paro, respiro fundo, olho pra dentro e digo “Não tenho problema”.

Crônica publicada originalmente na revista AlegriaAlegeria! - março/2012

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