29 de abril de 2012

A humanidade se derrete

Atendendo a pedidos, um pouco do que vi e ouvi no Seminário do Comunique-se

Uma ex-aluna da faculdade de jornalismo me perguntou no Facebook “Será que rola um post no blog sobre o conteúdo do seminário?! Eu quero!!!”. Eu estava em São Paulo, no 1º Seminário de Redes Sociais do Comunique-se e a galerinha acompanhava pelo Face e também pelo Twitter algumas observações que ia soltando ao longo do dia, sobre as boas falas dos palestrantes. “... podia rolar um seminário sobre o seminário com a Giovana Damaceno!”, disse outra ex-aluna.

Ainda não nos encontramos para trocar ideias sobre o encontro e este texto nem é um relato do que rolou em Sampa. O tonel de informação quase transbordou e até agora ainda estou decantando tudo o que ouvi por lá. Afinal, assisti a uma discussão de nível acadêmico sobre uma transformação pela qual todos estamos passando e que muitos de nós ainda não prestou a devida atenção.

Fala-se em rede social como se tal tema fosse água de beber. Comenta-se, compartilha-se, curte-se. Eu, você e aquele outro nos encontramos a todo instante entre posts, time lines, feeds, fotos marcadas e links trocados. Mas, afinal, quem tem a real noção do que tudo isso significa? Embora pense nesta reviravolta com maior profundidade, ainda não havia visto ou ouvido nada além de opiniões curtas sobre os efeitos desta modernidade líquida de que tanto fala Zygmunt Bauman, sociólogo polonês citado algumas vezes durante o encontro.

Ana Bertelli e Sérgio Inácio (Foto: Comunique-se)
“Tudo – pessoas, conceitos, mundo – está se derretendo, para se transformar em algo que a gente ainda não sabe no que vai dar. Estamos num modelo de transição em que cabe tudo. O mundo hoje é múltiplo, deixou de ser cartesiano, deixou de ser linear”, disse o jornalista Rodrigo Padron, ao iniciar o painel sobre “Uma nova proposta de comunicação: das massas para a rede”. Também não deixou por menos a engenheira Ana Bertelli, da aScope. “Não adianta os mais resistentes insistirem em dizer que vão esperar que tudo volte ao normal, porque não vai voltar. Daqui para a frente será apenas a evolução do que vemos e vivemos agora”.

Tal posicionamento resistente causou até constrangimento numa das palestras mais esperadas do dia, a de Ricardo Sangion, gerente do Facebook no Brasil. Um dos participantes do seminário, que fez questão de dizer em alto e bom som que não tem perfil em rede social, utilizou seu tempo para pergunta para dizer ao palestrante algo mais ou menos como “me recuso a viver aprisionado em uma jaula feito macaco. Todos somos macacos presos... blá-blá-blá...”. Confesso que não escutei tudo o que ele disse porque minha vergonha alheia crônica me fechou os ouvidos. Aprendi numa matéria da revista Piauí que a estas figuras chamamos 'loucos de palestras’. Aquele cidadão que está, às vezes não sabe porque está, pede a palavra e não acrescenta nada, só atrapalha, e sempre paga aquele mico básico. Como ele havia outros no encontro (aff!), mas não vou desperdiçar minhas falas.

Também me fizeram efeito as palavras de André Rosa, que abriu os trabalhos pela manhã. De cara ele me pôs os pés no chão ao nos apresentar a mais nova função entre as várias do leque de um jornalista: editor de redes sociais. Creio que para nós, do interior, isso ainda não está devidamente definido. Cuidamos das mídias de nossas empresas, instituições e clientes, inventamos algumas denominações para a atividade, mas ainda não vi ninguém se assumir editor de redes sociais. Outra afirmação que ecoa insistentemente por todo canto é a da importância do conteúdo. Quem estiver realmente a fim de ser interessante ao invés de interessado deve se preocupar com isso. “Conteúdo é e sempre vai ser fundamental, independente das redes que ainda serão criadas pela frente”. Gostei tanto que postei na hora. quem também bateu nesta tecla foi Rodrigo Padron, afirmando que deve-se ter uma causa, uma bandeira, um valor. "Pessoas se conectam com outras motivadas por ideias".

No fim das contas, saí de lá com a sensação de que ainda há muito a rever. Ter um perfil em uma ou mais redes sociais não é apena estar, existir, postar, comentar, se expor. Ou passar os meus dias pensando e planejando as ações nas redes da instituição em que trabalho. É ser protagonista de um elenco destacado nesta humanidade que se derrete e se transforma em velocidade vertiginosa.
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2 comentários:

Carol Cunha disse...

Bauman é o cara para estas discussões! Venho bebendo dessa água faz um tempinho e suas obras seguem bem nessa linha. Suas metáforas sobre este estado 'líquido' da modernidade, sobre a fluidez das relações, do amor, caem como luva principalmente nas discussões acerca do universo virtual!! Muito bom!! Tenho alguns exemplares em casa. Caso te interesse...

Siga Solutions disse...

Há cerca de 14 anos participei de um workshop no Rio de Janeiro e o palestrante falava dessa revolução tecnológica que permitiria, num futuro próximo, que a comunicação fosse integrada por vários agentes e em diversas direções. Até então estávamos acostumados com os veículos de comunicação como os protagonistas e as pessoas comuns como simples receptores. Como aquele palestrante (Marco Aurélio, grande estudioso da comunicação de massa) havia cravado, realmente essa revolução aconteceu. Mas ela ainda não está concluída. O mundo da comunicação virtual, que encontra nas redes sociais o seu maior trunfo, ainda está em fase de adaptação pois ainda não sabemos como utiliza-la da melhor forma. Afinal é tudo muito novo. Se compararmos as coisas do mundo real com o virtual encontramos situações curiosas como, por exemplo, escrever em caixa alta é como se estivéssemos gritando. Assim como quando compartilhamos mensagens ou fotos a esmo com qualquer um dos nossos "amigos" virtuais, estamos impondo nossas idéias como se fossemos aqueles crentes fanáticos com seus megafones pregando o fim do mundo ou coisa parecida.
Outro fator peculiar dos "feicebuqueiros" brasileiros é que geralmente transformamos nossos perfis em verdadeiros palcos adicionando as pessoas sem qualquer critério de afinidade. Alguns o fazem por motivos profissionais, já outros pela simples necessidade de estarem em evidência.
É preciso que mais seminários sobre essas importantes ferramentas de comunicação sejam realizados para que agentes da comunicação como nós, radialistas, publicitários, jornalistas, RPs e demais, possamos extrair boas idéias e ajudar a direcionar os tais "macaquinhos" (rsrsrsrs) para que essa comunicação de mão múltipla, seja feita de forma coesa e organizada (ou pelo menos próximo disso).

RAFAEL MOURA.