9 de abril de 2012

Dor prazerosa

Li hoje um texto da Carol Cunha no Prosopopeias Mirabolantes e resolvi pegar carona para outro lado. O papo me abocanhou de cheio, exatamente na hora em que discuto e rediscuto internamente este negócio de ‘o que sou?’, ‘quem de fato sou?’, sem nenhuma das pieguices comuns aos mesmos questionamentos lá na longínqua adolescência (pieguice agora, mas naquela época era muito significativo e doloroso). Um mergulho profundo nos resultados alcançados semanalmente nas sessões de terapia fazem os olhos arregalarem cada vez mais e enxergar cada vez melhor, para dentro. E como disse no comentário ao texto da Carol, o crescimento dói, mas é uma dor prazerosa.

Também hoje tive uma conversa com uma jovem aspirante à jornalista com quem tenho contato próximo. É caso de estudo como as histórias se assemelham, penso que de todo mundo. Ainda na faculdade, arrisca suas primeiras matérias, tímida, cheia de insegurança, julgando-se insuficiente, decepcionante, “deixando muito a desejar”. Não! A gente tenta demovê-los, todos, deste mal que lá na frente vai render frutos difíceis de jogar fora, mesmo que podres. Não! Não construa culpas, não construa paredes diante de você, não afirme aquilo que você nem sabe que é, porque talvez nunca saiba realmente. Quiçá possa minimamente chegar perto disso, se não destruir agora todas as chances que possui de apenas tentar ser melhor, aprender.

“Vivemos de estabelecer metas inatingíveis, porque a busca por algo que não seja o que somos nos faz parecer maiores, mais elevados, superiores...”, diz Carol, do alto da sabedoria de quem vive seu dia a dia milímetro a milímetro, segundo a segundo, sorvendo a doçura ou o amargor dos percalços daqui e dali. E acorda com medo hoje, com coragem amanhã, com desânimo agora, com desespero daqui a pouco, alegria acolá, e assim somos todos, com a diferença de que uns se veem, outros não.

Crescer dói prazerosamente, eu comentei. Sim, reafirmo isso, porque já é possível divisar ali na frente algo próximo de paz interior, um relaxamento ou tranquilidade que somente o autoconhecimento é capaz de proporcionar, por menores que sejam as vitórias, cada uma delas. Disse à jovem futura jornalista que saia do lugar onde está e vire a própria mesa, pois não vai conquistar agora o que só será possível com a experiência, com os anos que ainda tem pela frente. Que não queira ser como suas referências já, porque não será; que precisa, ainda, se permitir ser tão somente uma aprendiz. E se abrir. E se conhecer. Que consiga enxergar diante de si esta oportunidade para que não corra desesperadamente atrás dela daqui a trinta ou quarenta anos, pensando erroneamente que lhe falta pouco tempo.

Carol inicia o texto citando um trecho de Nietzsche: "Nós, que somos homens do conhecimento, não conhecemos a nós próprios; somos de nós mesmos desconhecidos e não sem ter motivo. Nunca nós nos procuramos: como poderia, então que nos encontrássemos algum dia?” Confesso que li pouco Nietzsche, mas do pouco que li, também pouco me agradou. Já encarei discussões intermináveis anos atrás sobre o filósofo, por não concordar com o excesso de empolgação de amigos que o leram na época. Porém não posso ficar indiferente à afirmação acima. O ser humano passou a ser humano quando incorreu na consciência e isso foi há milhares de anos. Já estamos no século 21 e se o assunto é autoconhecimento, digo que ainda andamos de quatro.


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5 comentários:

Luciano Neto disse...

Lindo texto! Profundo...

Eu parei de me preocupar um pouco com a dor. Acho que quem sofre muito deveria levantar as mãos ao céu e agradecer, é um abençoado pois tem chance de chegar mais rápido do que os outros. Não que os outros tb não sejam abençoados, mas vc entendeu. né? Tenho aprendido tanta coisa...a ouvir mais e falar menos, a não julgar e principalmente a admirar e respeitar a vida. A vida é muito bonita, é só a gente saber aproveitar. Antigamente eu vivia cabisbaixo, deprimido..bobagem, Isso é uma porta escancarada para todo tipo de malefícios. Não vou dizer que suporto meu sofrimento, que sou o He-man. Mas é como vc disse, é um crescimento e no fundo, realmente é prazeroso. Giovana, parabéns pelas sábias palavras. vc foi profunda e coerente em tudo o que disse. Beijos.

Carlucio Bicudo disse...

Seu texto é maravilhoso! Cada vez que leio seus textos, mas me impressiono com tamanha profundidade que nos faz refletir.

Duda Rangel disse...

Muito bom, Giovana!

Carol Cunha disse...

Agradeço a citação! Feliz em saber que o contágio de um pensamento contribuiu para uma reflexão bacana!! Não vejo nada mais valoroso do que isso!! Exercitamos nossa potência, dizendo um "sim" para a vida!! Lembrando sempre que a vida é o que a gente faz dela, pois tudo é uma questão de convenção!!!

Flavio disse...

Em termos de evolução, estamos ainda muito no início dessa estrada que podemos chamar de eternidade. A dor pode ser um dos meios para galgarmos o crescimento, desde que não joguemos fora essa chance. É um entendimento que muitos ainda não alcançaram e talvez, exatamente por isso, poucos entenderão o signficado de "o prazer da dor". A dor como parte de um processo expiação, a dor como um resgate de dívidas pretéritas, a depuração. Pensando sob esse ângulo, para os que acreditam, as coisas passam a fazer mais sentido.