24 de abril de 2012

Chato você; chata eu


É muito comum nas crônicas que leio por aí, os autores fazerem referências aos variados tipos de chatos com quem temos de conviver ou ao menos topar pela vida, incluindo nós mesmos. Afinal, quem é que não tem sua parcela de chatice no saco sem fundo que é a personalidade? De vez em quando penso nisso, até porque sou muito boca aberta, gosto de falar, contar minhas histórias em detalhes, bater aquele papo longo, explicar pormenores, ensinar, justificar. Porém, será mesmo que qualquer pessoa estaria interessada em ouvir tudo o que tenho a dizer, a qualquer hora, em qualquer lugar?

Foram inúmeras as vezes em que, após uma conversa com alguém, refleti “acho que falei demais.” E se há algo que me incomoda é incomodar os outros. Tenho verdadeiro horror a causar incômodos. Assim mesmo, repetindo a palavra pra ficar bem chata. Martha Medeiros foi autora de uma das crônicas sobre o assunto. Ela sugere, no resumo de todas as linhas, que se tiver que ser chato, se não houver como escapar de ser inconveniente, que o seja com as pessoas que você conhece pouco, porque os amigos e os familiares, por lhe devotarem apreço, vão ouvir atentamente e, com toda a paciência de Jó escutarão palavra a palavra, até o fim. Já os pouco amigos, ou levemente conhecidos, não se sentirão constrangidos em interromper a conversa e “puxa vida, estou atrasado para um compromisso; a gente continua este papo depois”.

Chego a sentir arrepios enquanto escrevo. O texto vai se desenhando, ao passo que a memória passeia por momentos em que desatei a tagarelar com alguém, sem me dar conta de que ultrapassara o limite do tempo e da tolerância do outro. Desato a rir com os versos de “O Chato”, de Oswaldo Montenegro, porque reconheço neles um monte de gente e eu no meio: “diz que inventou uma música/ e toca as seiscentas que fez/ e quando você abre a boca e boceja/ ele toca tudinho outra vez/ Ah, todo chato é gosmento”.

Fernando Sabino também me tira boas risadas na crônica em que analisa o comportamento excessivamente educado do povo inglês. Segundo ele, na despedida de um amigo ou conhecido pelas ruas de lá, se disser “a gente se vê”, o tal logo tira uma agendinha do bolso para marcar “quando?”.  Não que seja chato, mas a boa educação ordena o aceite de convites amigáveis. “(...) A cadernetinha de bolso de cada inglês é um rosário de encontros, visitas, jantares (...) Pessoas que mal conhecia atendiam logo à sugestão de nos vermos qualquer dia desses - e puxavam lápis e cadernetinha para anotar a data, hora e local. Foi assim que me vi tomando uma cerveja com o mensageiro da Western, foi assim que recebi em minha casa para um drinque o agente de automóveis que me vendeu um carro”. O próprio Sabino afirma que não se trata de idiotice ou chatice; é a simples arte de conviver. Pelas bandas de cá certamente daríamos outro nome, não?

A modernidade nos presenteou com chatos de todos os tipos ao alcance dos olhos ou da mão. Basta um clique e lá estamos no Facebook ou Twitter lendo e passando para a frente um monte de bobagens. Repito: incluindo eu mesma. Da mesma forma que não aproveito 80% do que leio nas time lines e feeds, há os que não veem a menor graça no que tenho a dizer nas redes. A internet nos dá este direito: de sermos incômodos e incomodados, críticos e criticados. Vale o bom senso, que para cada um também tem seu grau muito particular.
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4 comentários:

Luciano Neto disse...

Por isso que cada vez mais eu me torno misantropo, entenda como quiser mas aqui a tolerância é zero. Tanto pra minha chatice quanto pra chatice alheia. Beijos.

Carol Cunha disse...

A melhor definição de chato que conheço - e adotei - veio de Jô Soares: "Chato é aquele que vc pergunta 'como vai?' e ele responde!". Na maioria das vezes os chatooooos tradicionais são um bando de vaidosos, que em geral só falam de si mesmos!! Por isso nem sempre quem fala demais é chato (essa foi para nos aliviar, Giovana!), mas é sério, o chato pode ser o dramático, o hipocondríaco, o infeliz (esse é chato level extreme!!); em geral é aquele que só fala de si mesmo, de seus feitos ou defeitos, problemas, viagens... E por aí vai, vão... Claro que todos estamos sujeitos a um comportamento desses, num momento ou noutro, de euforia ou tragédia, o que não nos torna chatos, posto que o chato se define pela prática do ato contínuo - tipo crime continuado, manja? hahahah Bem, essa é minha teoria!!

Angel Cabeza disse...

A chatice é uma sinceridade sem convenções.

Lembra-se do personagem de Allen em "Tudo pode dar certo"? Ele era um chato convicto. E não é que tinha razão? Todos temos um pouco de Boris dentro de nós. (Se não viu, indico).

Bom diálogo e fluição.

Siga Solutions disse...

E no fim todos nós somos um pouco chatos. Uns mais que os outros. Acho que o melhor termômetro para isso é quando buscamos investigar a reação das pessoas para sabermos o quão chatos estamos sendo, tirando disso boas lições. Em outras palavras, isso é comumente conhecido como "chá de semancol". rsrsrsrrs

RAFAEL MOURA