29 de março de 2012

Uma tarde no Detran


Escorchante - esta é a palavra

O horário agendado era 16 horas. Como sempre me esforço em fazer, cheguei às 15h20, para ter tempo de sobra antes da hora marcada e, quem sabe, ser atendida antes e sair mais cedo. Mas, o que se seguiu a partir daí foi uma saga, que só terminou quatro horas depois e, portanto, é digna de ser relatada, pelo menos por desabafo. Espero que você tenha paciência para ler; a mesma que tive para suportar o descaso.

Estou falando de uma tarde perdida na vistoria do carro no Detran/RJ, em Volta Redonda. Uma missão que exige paciência de Ghandi, não apenas pela demora, como também pelos péssimos humores do ambiente e lentidão do sistema que nós, contribuintes, pagamos para funcionar.

Ao chegar, meu primeiro susto. A fila do lado de fora já dava volta no galpão. Não consegui contar, mas pela distância analisada depois que consegui vencer a esquina e alcançar a rua principal, devia haver pelo menos uns vinte carros à minha frente. Quando finalmente pude entrar, incredulidade total. A mesma fila à minha frente, até a primeira cabine de atendimento e o local lotado. Ainda bem que a pessoa aqui, bem treinada a ouvir sua intuição, passara em casa antes pra pegar um livro, porque só para chegar ao portão de entrada foi uma hora de espera.

Do lado de fora a rapaziada que não sossega dentro dos carros já se exaltava: “Isso aqui é o absurdo de sempre”, “Alguém tem que fazer alguma coisa para acabar com esse desrespeito”, “Tá assim desde janeiro e ninguém faz nada; a gente vem aqui e obedece a tudo feito carneirinho”. Isso mesmo. Uma fila de carneirinhos cordatos, fingindo-se de calmos, atendendo a todas as ordens. Afinal, estávamos num setor de serviços públicos, o que quer dizer: “Não reclame. Pode ficar pior”.

Exatamente depois de 1h40 de fila, cheguei à cabine de atendimento, onde me esperava uma funcionária mais ou menos simpática. Foram poucos segundos de alívio, por imaginar que, enfim, resolveria minha vida e iria embora. Quando prestei a atenção no que rolava lá dentro, nas linhas de vistoria, perdi as esperanças de chegar pontualmente ao compromisso marcado para as 18h30. Eram 17 horas.

Fui encaminhada para a linha 5, onde um carro era vistoriado e outro aguardava. Sem exagero, o vistoriador era tão lento, mas tão lento, que, ou estava sentindo alguma dor muito forte, ou estava acionado seu botão slow. Cada movimento básico dele levava segundos; parava, pensava, tudo muito, muito devagar. E a pessoa aqui devorando sua coletânea de contos de Fernando Sabino, para evitar contar as horas. Até que chegou outro vistoriador para me atender.

Meu jisuisinho do céu!

Jovem, alto, ligeiramente obeso e mal humorado, ou melhor, mal educado mesmo. Parou na janela, não olhou na minha cara (boa tarde, nem pensar!): “Me dá o documento aí!”. Saiu:

- Acende lanterna, farol, farol baixo!! Seta esquerda!! Seta direita!! Pisca-alerta!! Buzina!! Limpador e esguicho!! Pisa no freio!! Marcha à ré!! Seta esquerda!! Seta direita!! Pisca-alerta!! Agora vem cá e abre o porta-malas que quero ver o pneu!! Pode fechar!!

Voltei para o carro e ele pediu para abrir o capô (aquilo tudo que quem tem carro sabe como é). Procedimento encerrado, o tal vem até a janela e diz: “Pode fechar o capô!!” . Hein?! “Não é só baixar?”. “É, sim, senhora!!”. Dito isso, virou-se e me deixou com cara de ‘como assim?’. Saí, baixei o capô, precisei de ajuda, chamei-o de volta, o mau humor bufou e enfim retornei ao carro, de novo. “Pode estacionar e aguardar na cabine A!!”. Olhei em volta e não havia como sair. “Pode estacionar e aguardar na cabine A!!”. Perguntei “De que jeito?” e foi o único momento em que ele abriu um sorrisinho, meio sem graça. Ajudou-me a sair por uma greta minúscula entre um carro e outro e pronto. Estava livre daquilo. Voltei a olhar o relógio. Passava das 18 horas.

Na cabine A, nova surpresa: sistema fora do ar. “Vamos aguardar pra ver se volta, senão, a senhora vai ter de retornar amanhã”. Num momento desse o que nos resta é rezar, até mesmo para não se deixar envolver pelo péssimo humor das funcionárias, os dos outros contribuintes cuspindo marimbondos, além de todas as janelas fechadas e o aparelho de ar condicionado só fazendo barulho. Tudo isso dentro de um container, ou seja, um cubículo.

Quase 19 horas, sistema ok, só faltava emplacamento. Eram 18h40 e ainda iria emplacar o carro. Fome. Vontade de ir ao banheiro. Lá fui eu ao container sanitário e putz, como é revoltante saber que se paga uma fortuna por um IPVA e mais um monte de Dudas para se deparar com banheiro sujo, fétido, sem papel, sem sabonete, sem nada para enxugar as mãos. Do lado de fora, mais uma inspirada bem funda: “Falta pouco”.

Foram 40 minutos esperando emplacamento e, finalmente, às 19h30 saí de lá. Como diz meu marido, escorchante. Esta é a palavra que define bem o serviço: paga-se caro, muito caro, para receber em troca o mínimo do mínimo que inoperância do Estado permite. O pior de tudo é o desânimo por saber que fui eu quem votei, que sempre escolhemos nossos governantes na esperança que mude. E nunca muda.

 Parece piada:

Com este me diverti:


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3 comentários:

Anagrama Publicidade disse...

Parabéns pelo texto.
Tente publicar nos jornais diários daqui. É sempre assim. Irrita.
E continuamos aceitando muta coisa.
Estranho isso né?

Anônimo disse...

Aff, eu ainda vou passar por isso... Ainda bem que também to com um livro pendente para ler... vai ser uma boa hora.

amei nosso encontro ontem!
bjosssssss

Carol Cunha disse...

Essa é uma das raras vezes em que não ter carro vale muito à pena!!!