25 de março de 2012

Que é isso, menina, fecha este bico


Lembro-me que levei muito tempo para aprender a assobiar. Adorava ver meus irmãos tirarem todo o tipo de canção em assovios afinadíssimos e muito cedo insisti para que me ensinassem. Não foi tarefa fácil. A técnica de apoiar a língua atrás dos dentes inferiores, juntar os lábios e soprar, emitindo um som, parece simples para quem já pratica sem pensar. Mas, para os neófitos, é arte que depende de muito exercício. Pelo menos o foi para mim.

Soprava, soprava, e nada. Chegava a doer os lábios e os ossos da face, tamanho o esforço para que saísse ao menos um ruído qualquer. Nada. Os lábios ressecavam, dava uma sensação de vazio no estômago, causada pelo movimento muscular repetitivo, e eu não parava de tentar. Até que um dia, ao inspirar profundamente de desânimo, por não alcançar progresso algum, assobiei. Pra dentro.

Minha irmã mais velha riu um bocado.  “Não é assim, você tem que tentar pra fora. Continue tentando, que consegue.” Só que acabei me empolgando por fazer daquele jeito e por muito tempo não voltei aos exercícios. Assobiava pra dentro e fazia (quase) perfeitamente qualquer som, inclusive tirava algumas músicas. O controle total dos meus movimentos labiais veio com os anos e, aí sim, descobri que poderia assobiar para fora, como qualquer ser normal e passei a fazê-lo com gosto, como faço até hoje. Adoraria também ter aprendido aqueles assobios altos, que se fazem posicionando um ou mais dedos nos lábios, de forma que produzam som. Cada pessoa que sabe fazer isso tem sua própria técnica.

Relatei esta história até aqui para justificar meu protesto por algo que somente fui saber já adulta, trabalhando. Meus irmãos levaram tempo a me ensinar a técnica do perfeito assobio, conquistei autonomia após anos de tentativas frustradas, para chegar aos mais de vinte anos de idade e levar uma bronca sem precedentes no local de trabalho, por assobiar em público. “Que é isso, menina, fecha este bico. Falta de educação assobiar assim, perto dos outros.” O passa-fora foi tão grotesco que me senti pega no flagra em pleno ato libidinoso. Ui!

O quê? Como assim? Falta de educação? Como ninguém me disse isso antes? Por que assobiar é deselegante? Como pode algo tão agradável e bonito ser proibido aos outros? Quer dizer que só posso assobiar em casa, sozinha e ainda assim trancada no banheiro? (Ih... olha aí o ato libidinoso de novo...).

Impressionante como a repressão bate na gente e encontra eco (aliás, manjo bem disso). Não me recordo de ter voltado a assoviar com toda a vontade e prazer de antes. Fiquei entupida. E já me esqueci de quantos anos passei sem curtir um assoviozinho musical. Há pouco tempo, num momento de extremo entusiasmo, tirei uma canção num assobio em pleno supermercado e imediatamente fui repreendida pelo marido, o mesmo que anos atrás elogiara minha afinação ao assoviar um rif de um pop rock, devidamente escondida do mundo, dentro do carro, em viagem.

Meu amigo Fernando de Barros comentou algo a respeito. Perguntou-me “por que será que ouvimos tão poucas pessoas assoviarem ultimamente? Tinha um tio cujo assobio ecoava dentro do apartamento e era uma delícia ouvi-lo. Bons tempos!”. Falta de educação, meu amigo, entre tantas coisas realmente deseducadas e deselegantes praticadas sociedade afora, o assobio, sim, é sumariamente reprimido.

Penso que até minha gata Zoraide sabe disso. No fim de semana arrisquei uma canção enquanto escrevia e ela desatou a miar, um miado reclamante, irritado. Como não parei, ela se levantou e quase subiu à mesa, coisa que nunca faz.

Estranho como os costumes sempre impuseram proibições às demonstrações de felicidade. Gargalhar é feio, cantar na rua parece coisa de doido, dançar, então, é caso de internar. Se o indivíduo curte uma música em seu fone de ouvido e canta, ou tamborila os dedos, quem está em volta ri, debocha. Beijo na boca, apaixonadamente, dependendo da hora e local é excesso de exposição. Rir sozinha, à vontade, em público, provoca olhares atravessados e narizes torcidos. Assobiar, que para mim revela alegria, paz de espírito, coração leve, caraca, é falta de educação. Existe até concurso de assovio pelos quatro cantos do mundo, mas não pode. Continuo querendo entender por que. Alguém me explique, por favor.

Ah, e para quem ainda tem dúvida quanto a forma correta de escrever: assobio ou assovio. Tanto faz.


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5 comentários:

nancy disse...

conheço um senhor que vivi assobiando,Cleber gerente do club comercial,sempre alegre,mas eu tinha uma tia que cantarolava em resmungos qd criança riamos muito dela kkk ,mas ela só felicidades, tenho muita saudades dela. gostei da cronica. bjs

Carol Cunha disse...

Os pregadores da moral estão aí! Vivemos mergulhados nisso, ou melhor, enlameados disso, dessa lama pegajosa da moral, da regra, do método "de como se deve viver". Esse poder - menor grau de potência, vide texto Poder e Potência no meu blog - é negação da saúde, do que nos faz viver!

Cante, dance, seja plena!!!
Bjs

cintia sibucs disse...

Hahaha! Muito boa a parte da Zoraide!
Adorei o texto.

POESIA EM VOLTA disse...

O professor Eduardo, que era meu vizinho, passava todas as manhãs assoviando e era a marca dele. Todos o sabiam por ali, quando era ouvido o seu dom musical. Eu assovio muito e alto. hahah. Beijo.

Anônimo disse...

Assobiar faz bem e deve sim ser feito!!!

Foi assobiando que minha preparadora vocal descobriu que eu era afinada, só precisaria treino.

viva os assobios!!!!!

bjosssss
Leslie