26 de setembro de 2011

Página rasgada

A cena se passa na sala de espera do consultório do cirurgião plástico. Ambiente elegante, fino, silencioso, apenas duas mulheres aguardam no confortável sofá. Pela fama e tipo do serviço prestado imagina-se, claro, que as clientes são do que se chamaria boa família, educadas, certo? Errado. Ter dinheiro não nada tem a ver com ter educação.

Então, vamos à história. A cliente A folheava uma destas revistas de badalação de celebridades. A cliente B pegou um exemplar do mesmo tipo e ambas ficaram ali, lado a lado, em silêncio, até que a cliente B, quando resolveu abrir a boca, disse o seguinte:

- Você não vai falar nada pra ninguém se eu arrancar esta página, né? É que adorei este vestido!

A cliente A não só não conseguiu responder, como ficou atônita. Com certeza também enrubesceu, pois ela sofre de vergonha alheia crônica ainda não devidamente tratada. E a cliente B, tranquilamente, começou a puxar a página. A cliente A, curiosa, esticou o olhar para ver o tal vestido valeria a pena tamanho descaramento. “Bonitinho”, pensou.

E a cliente B foi puxando o papel, devagar, para não chamar a atenção:

- Nossa, está fazendo muito barulho. Será que alguém está ouvindo?

E a cliente A, mais uma vez, só olhou. Não conseguia reagir. Até que a cliente B finalmente terminou de rasgar a página, dobrá-la e colocá-la discretamente dentro da bolsa.

A cliente A perdeu a concentração; nem mesmo folhear a revista para ver a fotos foi possível. A cabeça ficou a mil. Como aquilo foi feio! A que ponto chega um ser humano ao se achar tão importante, tão acima do bem e do mal. Para aquela mulher, seu desejo poderia, sim, atropelar o dever de respeitar o espaço e o objeto alheios. O que se pode esperar de um mundo povoado por gente assim?

Nossa sociedade sofre de um mal vergonhoso chamado preconceito, que comumente leva o indivíduo a desconfiar de pessoas pobres, mal vestidas, “mal encaradas”, como costumo ouvir por aí. Quando há uma revista ou livro num local público com páginas arrancadas, nunca se imagina que uma loira vestida de grife da cabeça aos pés poderia ter cometido tal delito. Porém eram estas as características da cliente B, o que me leva a concluir que o ser humano pode ser podre em qualquer classe social.

Ouvia frequentemente nas reuniões da escola do meu filho que a maioria dos pais não se importam ou têm medo de ensinar e impor limites, dar noções de direitos e deveres, respeito ao próximo. E que as crianças chegam às salas de aula totalmente despreparadas para o convívio em grupo. São egoístas, individualistas e agressivos. Também tive a oportunidade de ver jovens com estas características chegarem às cadeiras da faculdade. E muitos vieram de escolas particulares. E aí eu penso: minha nossa, que será que a cliente B ensina aos filhos em casa? Que autoridade teria para orientar uma criança ou um jovem?

É sobre isso que penso sempre, principalmente quando me refiro ao total desânimo quanto à melhoria das condições ambientais do planeta, do convívio em sociedade, desde a paciência para aguardar numa fila sem exasperar todos à volta, até a elegância de não jogar um papel de bala no chão, ou se comportar como animal racional no trânsito.

Ao tomar conhecimento do que ocorreu com as clientes A e B concluí que ser servente ou doutor não dá oferece a exata noção de respeito, de direito, de educação. Muito se tem falado por aí sobre depressão ser o mal do século, mas pra mim o grande mal é o egoísmo, puro e simples. E não estou sendo piegas. Basta pensar em todas as atrocidades que são cometidas diariamente e chegaremos à origem de cada uma delas.

Posso ter ido longe demais com os exemplos, mas o delito da cliente B, ao pensar que tinha o direito de arrancar a página de uma revista que não era dela, é o mesmo do cidadão que no trânsito não espera sua vez, ultrapassa sinal, força passagem e acha que buzina tem pó de pirlimpimpim. É o mesmo do cliente do bar que reclama ao garçom do erro pra mais na conta, mas é incapaz de chamá-lo pra corrigir um erro pra menos. É o mesmo grave delito de um pai que tira seu filho da escola particular, onde corre o risco de ficar reprovado, e o transfere para a escola pública, porque lá tem certeza que o jovem vai passar de ano.

Que tipo de caráter ele espera do filho adulto?

Egoísmo, tudo egoísmo. Eu sou importante, eu sou melhor, eu não posso esperar, você está me atrapalhando, eu estou pagando, eu mando, eu, eu, eu. E para pessoas assim, infelizmente, não adiantam campanhas bonitinhas de preservação da natureza, destas que chamam de conscientização – aff, que palavrinha horrorosa. Como costumo dizer, educação é artigo de luxo e o preço que se paga é desprendimento. O outro, sim, é tão importante quanto eu e portanto, devo tratá-lo como gostaria que me tratasse. Difícil, né?
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10 comentários:

c i n t i a disse...

Giovana, vc fez um retrato da sociedade de hoje. Egoísta autosuficiente.
Só faltou uma palavrinha aí, que muda tudo em alguns casos: o BOM EXEMPLO. Esse sim educa os filhos e faz uma sociedade mais gentil.

Thayra Azevedo ♥ disse...

Diante deste texto não tenho palavras para dizer o que sinto, mas só parabenizar por, como já disse a Cintia, ter feito um retrato da sociedade de hoje. O amor de muitos se esfriarão... infelizmente estamos vivenciando isso. =/

GiovaniMiguez.com disse...

Giovana, diante disso só nos resta o lamento. É o que sempre digo: não adianta mudar sistemas e modelos sociais se o ser humano continuar sendo egoísta. O egoísmo é sem dúvida o pai de muitos males. Só ele alimenta a corrupção, a miséria, a invasão da privacidade. Quando nos colocamos no centro de tudo, danem-se os outros.

Joiva Egalon disse...

nossa Giovana, cada dia que passa espero ansiosamente pelos seus textos. Retratar o nosso cotidiano dessa forma é maravilhoso, isso lembra como será o futuro dos nossos filhos se não mudarmos agora. Quando cresecr que ser igual a você.

Anônimo disse...

Gigi,
essas atitudes comportamentais (leia-se faltas de educação), dia desses me obrigou a chamar um grupo de alunas de magistério (tava identificado no uniforme que usavam) pois uma delas acabando de chupar um picolé, simplesmente jogou o lixo na calçada, isso nas imediações do CecisaI. Imediatamente bradei: - professora!!!... E como não chamei pelo nome, todas olharam e na maior "cara de páu" perguntei: esse é o exemplo que você irá dar a seus futuros alunos? LUGAR DE LIXO É NO LIXO, mas não se preocupe, eu me encarrego de recolher a sujeira e jogá-la na lixeira que você não teve o cuidado de procurar. O que devem tem pensado de mim acho que seria impublicável.
Calino.

Carol Bentes disse...

Não tá dando nem pra digitar.
Minhas mãos estão ocupadas aplaudindo o texto!

Sério, mto bom mesmo! =)


Espero q um dias essas pessoas aprendam a abaixar o narizinho q tanto anda em pé. E é como dizem, se não for pelo amor, aprendem pela dor...

POESIA EM VOLTA disse...

Uma amiga me disse uma vez que isso é criação, ou seja, exemplo que se passa de geração em geração. O Caio é um menino de DNA do bem. Parabéns pelo texto, sempre.

Jaqueline Evelin disse...

Hoje pela manha me fiz a mesma pergunta: - "Em que o mundo está se transformando? Até que ponto perdemos a noção do certo e errado?"
Hoje antes de vir trabalhar,aconteceu algo inusitado no ponto de onibus, o posto de saude fica muito perto. Tinha uma grávida no ponto e ela começou a passar mal ao meu lado, eu fui ampara-la e pedi para que uma das outras sete pessoas que estava no ponto buscar uma enfermeira no posto, e quando percebi que nenhuma delas se mexia fiquei perplexa, tive que pedir a um menino que estava vindo de bicicleta que me ajudasse, um carro parou e a levou para o posto de saude. Confesso que essa será uma das cenas que ficara marcada na minha vida para sempre. Até que ponto o coração humano está congelado? beijos e adoro você DD..rsrsrs

Carol Cunha disse...

Thomas Hobbes, filósofo inglês do séc. XVII, entendia que a condição humana, seu estado natural, é da guerra de todos contra todos: "o homem é o lobo do próprio homem".

É, talvez ele tivesse razão!! Controlemos mais os "nossos lobos" e pratiquemos mais o saudável - e sustentável - reconhecimento do outro e dos seus direitos.

Kátia Almeida disse...

Oi! Li o texto sobre idoso estragados antes desse e a imagem que me veio a mente foi: robos (caras plastificadas) não possuem sentimentos. Esse conjunto de constatações dá um medo. Onde vamos parar? E o mais triste...em que mundo viverão as próximas gerações? Bjkas!