12 de setembro de 2011

Cheiro de cinzeiro

Fumar é gostoso, é uma delícia. Quem já fumou ou fuma sabe o quanto é prazeroso acender um cigarro após uma refeição, um cafezinho ou acompanhando a cerveja, de preferência numa roda de amigos, com um bom bate-papo. Ou à noite, em casa, depois de um dia cansativo, é muito relaxante.

Parei de fumar há nove anos. Após minha irmã mais velha morrer de câncer e de uma grande amiga ser diagnosticada com o mesmo problema, desisti deste troço. Em questão de minutos, puxar fumaça, tragá-la e soltá-la já não fazia mais sentido (quando faz?). Guardei o último cigarro para após o almoço, fumei-o com bastante prazer e disse: foi o último. E foi mesmo. Tive alucinações durante uma semana, mas ainda bem que não desanimei.

Já fazia uso de cigarros regularmente há muitos anos. Era um maço por dia, em dias normais, fora festas e outros encontros regados à cerveja. Comecei bem jovem, por volta dos 16 anos, com uma amiga da mesma idade que já fumava na época. Achava aquilo bonito, charmoso e quis fazer parte do time. Em casa, meu pai, minha mãe e duas irmãs também fumavam. Inicialmente foi uma brincadeira, mas não demorou muito e o maço de cigarros estava na bolsa.

Hoje, quase dez anos depois, não chego a ser a ex-fumante chata de quem todo fumante reclama. Mas, sem colocar cigarro na boca há tanto tempo posso sentir de longe os efeitos do vício e dizer do meu incômodo quando há alguém fumando por perto. Às vezes a pessoa nem precisa estar com um cigarro aceso, como o fato que ocorreu minutos antes de eu me sentar para escrever esta crônica.

Saí do restaurante logo depois do almoço e passei por uma mulher. Ela fedia. Isso mesmo, fedia. Só de passar por mim pude sentir o odor forte de quem fuma e fuma muito. É aquele típico cheiro de cinzeiro lotado de guimbas, de que tantas pessoas não fumantes reclamavam quando estavam perto de mim. E elas estavam cobertas de razão, argh!

Infelizmente ou felizmente não consigo mais estar no mesmo ambiente que um fumante; é impossível suportar o (mal) cheiro. O cabelo fede, a roupa fede, a pele fede, o ambiente inteiro fica contaminado. Sem contar os que tentam caprichar no perfume e tornam a situação ainda mais insuportável com a mistura de odores que criam. E a maioria dos fumantes, sinceramente, sem ofensas, é mal educada; o vício torna o ser humano egoísta, pois satisfazer a vontade de fumar torna-se prioridade, acima de qualquer noção de direitos e deveres, bom comportamento, elegância ou respeito ao espaço do outro. Lembro que também já fui assim e ao mesmo tempo em que me odeio por isso, fico feliz por não provocar mal estar em mais ninguém. Não por isso.

Frequentar bares e restaurantes onde o fumo era permitido era um martírio. Chegava em casa e arrancava a roupa imediatamente. Até peças íntimas cheiravam a cigarro. E a cada vez que isso acontecia, o estabelecimento era retirado do meu roteiro de diversão. Depois que foi sancionada a Lei Estadual que proíbe o fumo em ambientes total ou parcialmente fechados de uso coletivo, gradualmente os não fumantes voltaram a ter ambientes respiráveis. Claro que nem todo mundo respeita ou faz a lei ser respeitada. Já saí de bar em Volta Redonda ou mudei de lugar por causa de fumantes e os garçons e respectivas gerências sem se tocar para o problema. E isso foi recente.

Fumar é um vício e como tal deve ser tratado como doença. Há nove anos não fumo, não gosto de cheiro de cigarro, a fumaça me incomoda demais. Porém, não se fica livre assim tão fácil. Há momentos em que ainda me lembro do cigarro como sinônimo de prazer, sem contar as inúmeras noites em que sonho estar tragando um recém-tirado do maço. Mas prefiro assim, com a saúde em perfeitas condições, hálito fresco, sempre perfumada e muito importante: sem causar enjoos a ninguém.
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8 comentários:

Rafael Moura disse...

Muito bom texto. Não bastasse o incômodo natural que um fumante causa só de passar pela gente, ainda há o fato de que o seu egoísmo em prol do vício tornar tudo ainda mais desagradável. Parabéns por não mais fazer parte desse time.

Cynara disse...

Olá.
Sou fumante a 25 anos.Fumo quando bebo,só que minha vida social é intensa..rsr
Já enviei e-mail para vários programas 'Pare de fumar'.Fico triste pq não tenho resposta,ou quando tenho a resposta é "Largue o que te leva a fumar"...pô :(
Queria muito parar principalmente que é difícil frequentar qualquer ambiente bacana pois não aceitam fumantes:(

Rafael Cigano disse...

Oi Giovana.
Compartilho contigo essa experiência. Fumei 15 anos dos trinta que tenho, coloquei o 50/50 como meta. Estou encarando o problema/doença com auxílio de tratamento e está dando certo. Também não entrei nessa de ex-fumante chato, mas sempre faço o mesmo comentário quando algum conhecido fumante se aproxima (ou não): "eu cheirava como você" rs
Ótima semana
Rafael

joiva egalon disse...

adorei giovana
minha mãe é fumante e eu sinto tuuudo isso mesmo. Já tentamos, meus irmãos e eu, convence-la a parar, mas sei que é muito difícil.
Vou mostrar pra ela o seu blog, quem sabe não serve de incentivo?
bjim pra ti

Rick Fire disse...

Lido!! (Senti um exporro indireto)

São 12h22, 8 min para o almoço e depois um cafézinho... +um cigarrinho (em tua homenagem) ou não. heheh

Ósculos e Bons Fluidos

Carlucio Bicudo disse...

Que texto maravilhoso!
Como sempre, você dando um toque especial num assunto de grande importância.
Suas sábias palavras, mostram vibração. Realmente o cigarro é vilão perigoso e esperto.
Primeiro ele chega de mansinho. Aproxima-se do indivíduo. Faz de bonito e charmoso. Depois... vicia, sem dó... E deixa a pessoa totalmente embrigada por seu coquetel de produtos nocivos.
Parabéns!

Luciano Neto disse...

Fumei durante cinco anos que equivaleram a uns dez, eu fumava quase 1 maço por dia. Comecei com 13 anos, por influência de uma amiga do colégio. Hoje eu não fumo mais. Realmente é um vício terrível, só quem fuma sabe como é difícil largar o cigarro, mas para mim é algo totalmente psicológico, não adianta usar adesivos, sucos, comprimidos, nada disso. Tem que ter muita força de vontade, eu por exemplo, parei de fumar no peito e na raça!

Beijos.

Josephina Carneiro disse...

Valeu Giovana!
Você manda sempre muito bem! Um talento! Fumei muito, mas em função da flauta parei de repente.
Adoro sua forma singular de escrever com sutileza.
beijos,

Jô.