20 de junho de 2011

Síndrome do Pequeno Poder

Aprendi sobre a SPP anos atrás, com uma amiga muito espirituosa. Convivíamos em um ambiente onde qualquer oportunidade era aproveitada avidamente por quem busca o poder a todo custo. Nós, que pouco ligávamos para as disputas medíocres, sempre ríamos das situações ridículas em que pessoas se metiam, mergulhadas no desespero que provoca a simples vontade de mandar. E ela um dia disse que se tratavam de pessoas que sofriam da Síndrome do Pequeno Poder. E a partir do momento em que criamos definição para comportamento tão desprezível, notamos que o número de indivíduos a nossa volta que sofriam deste problema era bem maior do que podíamos imaginar.

A SPP atinge a desavisados ambiciosos e faz inúmeros doentes sociedade afora, desde as relações familiares, quando todos os irmãos submetem o caçula às suas ordens, até uma competição entre dois feirantes da mesma barraca, que querem mandar no vendedor recém-chegado. Da multinacional à economia informal, em qualquer carreira ou equipe de trabalho, a SPP ronda a todos, e pode pegar de tropeço quem menos espera. Até mesmo os seres considerados de ótimo caráter, éticos e altamente profissionais podem, sim, ser contaminados com o vírus da SPP, bastando que para isso descubram uma chance ímpar de aparecer, dar ordens, ser o rei da cocada de qualquer cor. É importante frisar que os portadores da SPP estão sempre disputando as pequenezas; daí o nome.

E então, salve-se quem puder. Nós, que assistimos a virada no comportamento do tal indivíduo, sabendo exatamente o que estamos vendo, podemos apenas rir de suas trapalhadas, ou ficar revoltados com o monte de m* que espalha ao redor e ainda prejudica pessoas até pouco tempo consideradas amigas. É como desastre ambiental de grandes proporções, tipo queimada de floresta: beleza, saúde, ar puro, vira tudo cinza; e pode demorar décadas e décadas para voltar a ser como antes. Ou não.

Há pouco tempo escrevi uma crônica sobre os Aspectos da Infelicidade que, a propósito, também cabe muito bem no tema de hoje. Pessoas infelizes podem descambar para a mediocridade e quererem tornar todos a sua volta infelizes. Não chegam a lugar algum e investem uma vida para barrar quem tem capacidade e competência para trilhar seus caminhos. E quando exercitam sua infelicidade sob o efeito do vírus da SPP ficam piores, pois se tornam semelhantes aos vilões dos folhetins, citados na crônica passada. Risíveis. Revoltantes. Dignos de pena.

São a prova palpável do quanto a falta de educação, de informação e de cultura são prejudiciais ao ser humano. Um indivíduo assim pode ganhar espaço, vencer pequenas causas, abocanhar sempre a melhor parte do bolo (“Farinha pouca, meu pirão primeiro.”), sem o menor senso ético. Mas deixam claro que não têm a mínima noção de futuro, pois trilha seu caminho deixando um rastro de poeira que a ele mesmo deixará cego lá na frente, pois quando olhar para trás, verá que ficou sozinho no seu egoísmo. Há muitas histórias de portadores da SPP que terminaram suas vidas em completa solidão, com suas carreiras destruídas por causa de um comportamento doentio em favor de si próprios.

A Síndrome do Pequeno Poder não perdoa ninguém. Nenhum ser humano está livre de ser acometido pelo vírus. Mas podemos facilmente identificar quando se está vulnerável e predisposto à mediocridade. E nunca é tarde para fazer um tratamento preventivo. A sociedade agradece.
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9 comentários:

Anônimo disse...

adorei o texto. arrasou.

Giovani Miguez disse...

Brilante!!!! Aliás, não se pode esperar mernos de você. Vou até colocar um trecho no meu blog. Parabéns!!!

Albucacys disse...

Um artigo que leva a reflexões interessantes sobre nós e nossas companhias.
Quem sabe você escreva informando-nos as características da SPP, para que não haja dúvidas o quanto nos encontramos inseridos nela, pelo orgulho, vaidade egoísmo e, principalmente, apego a tudo o que é transitório e não está sob nosso controle?

Sheilimar Silva disse...

Li e reli. Adorei!!Parabéns!

Sheilimar Silva disse...

Li e reli. Adorei!! Parabéns!

Magali Nogueira disse...

Falar da sua capacidade de ir fundo naquilo que realmente se faz necessário discutir, repensar e reagir...dispensa comentários.
Parabéns!!!
Obrigada por nos fazer ouvir!!!
Vc é o máximo!!!

Pietro Schimith disse...

Sempre reparei nessa síndrome em meus locais de trabalho e já tinha ouvido falar. Mas é a primeira vez que leio um texto tão bom sobre o assunto.
Mas como o Giovani Miguez disse:
-Não dá pra esperar menos de você!
Você é um espetáculo.

Renata Araújo disse...

Texto muito bom!

Renata Araújo disse...

Texto muito bom!