13 de junho de 2011

Homoafetivas

Amor pra vida toda

Caroline e Venera estão juntas há 70 anos. Apaixonaram-se em 1939, decidiram unir suas vidas e desde então vivem um casamento homossexual. Na maior parte do tempo, a relação ficou protegida dos olhares preconceituosos da sociedade. Uns pensavam que eram irmãs; outros, amigas solteironas que moravam na mesma casa. No entanto, elas são um exemplo de que quando o assunto é homoafetividade, há de ser tratado com respeito.

Venera tem 97 anos e Carol 96. Iniciaram a vida a duas com apenas poucas pessoas da família e alguns amigos a par de sua opção. Uma era professora e a outra era operadora de telégrafo. Moraram numa casa simples durante quase toda a vida. Há alguns anos estão na Flórida, onde já manifestam suas escolhas, revelam seu casamento ao mundo e declaram apoio às atividades da comunidade LGBT.

Aos mais velhos, pergunto: quantas duplas de senhoras solteironas, que moravam sozinhas na mesma casa já conhecemos ou ouvimos falar? Quantas destas solteironas se apresentavam como primas, irmãs ou simplesmente amigas? Quantas delas não poderiam, sim, tratar-se de um casal?

A homossexualidade não é algo novo, dos tempos modernos. A prática do homoerotismo está presente na sociedade humana desde sempre. Na Grécia antiga, os meninos atenienses eram educados por mentores, com quem praticavam sexo passivo dos 12 aos 18 anos. Era uma obrigação social para um homem adulto adotar um jovem e se responsabilizar por sua educação filosófica e sexual, sob risco de ser considerado omisso em seus deveres. Depois dos 18 anos, o jovem passava a ser praticante ativo e deveria, por sua vez, educar meninos. E só se casava em torno dos 25 anos; porém, muitos continuavam praticando sexo homossexual, pois consideravam que a relação com os homens era para o prazer, e com as mulheres, apenas para a procriação. Enfim, a bissexualidade era encarada como prova de virilidade.

No caso do sexo entre mulheres a história nos leva à poetisa Safo, no século VI antes de Cristo, cuja produção artística foi quase toda destruída por ordem do Papa Gregório VII. Neste período tivemos ainda a filósofa Filênis, e também as Amazonas, que formavam uma tribo de mulheres que se relacionavam sexualmente; com homens, apenas eventualmente, com objetivo único de procriar.

Se é assim desde que o mundo é mundo, condenado ou não pelo cristianismo - que estabelece a relação sexual apenas para a multiplicação da espécie -, a homossexualidade não deveria ser novidade para ninguém, muito menos motivo de espanto, medo, pânico ou fobia. Se pecado ou perversão, dependendo da forma que se pratica, é problema de cada um. O preconceito entra justamente na pretensão do homem ou da sociedade em julgar, atirar a milionésima pedra. Quem duvidará que existiu e existe amor entre Carol e Venera? Quantos casais héteros se toleram por tanto tempo? “Olhe para os casais heterossexuais. Você tem sorte se ainda permanece casado após sete anos. Esta é uma história de amor incrível”, disse um dos amigos do casal, numa das dezenas de reportagens que pipocaram na internet na última semana.

Tenho alguns amigos e amigas homossexuais devidamente casados, ou melhor, unidos pelo desejo de estarem juntos, com amor, carinho, respeito, amizade, cumplicidade. Uns têm filhos ou assumem os filhos do outro como seus, dividem as tarefas domésticas normalmente, trabalham, estudam, viajam em família, professam e praticam suas religiões. Onde estaria o erro, a deficiência, ou a doença como muitos afirmam estar a origem da homossexualidade? Carol e Venera, com quase 100 anos cada uma, provam que nunca foram doentes por amar alguém do mesmo sexo. E  sempre quiseram contar às pessoas sobre seu amor, mas demoraram muito para poder viver esta liberdade, ainda capenga, é certo.

Quando dei de cara com a notícia sobre este casal, pensei “nossa, conheço a homossexualidade há apenas trinta e poucos anos. Antes disso, estas mulheres já sofriam para se amar”. E, mesmo batendo no peito para dizer que sou intolerante com a intolerância, me dei conta do quanto ainda preciso caminhar para aprender com o caminho.
.

5 comentários:

Carol Bentes disse...

Belo texto Giovana!
É incrível como a humanidade oscila: Num momento aprova e incentiva. No outro discrimina e censura.
Podia ao menos se manter no respeito...

Kika Monnteiro disse...

Damaceno e suas sensibilidades...A cada encontro te percebo mais gente, sabia? É bom te conhecer mais a cada texto...minha Martha Medeiros de estimação...vc está cada dia mais atual em suas idéias!

Anônimo disse...

Bacana, Giovana. Vou encaminhar agora mesmo a uma casal de amigas que se casarma recentemente. Bjs, AUAD.

c i n t i a disse...

Na minha família tinha uma dupla dessas que conheço desde que nasci. Nunca sofreram preconceito em casa. Sempre foram tratadas normalmente, sem preconceito. Porém, nunca as vi trocando carinhos em público. Eram discretíssimas.
Recentemente, uma delas se foi, mas a amizade com a que ficou continua! Sempre com muito respeito!

Rildo Barros disse...

Que história! Coisa rara nos dias de hoje. Que fantastico vc destacar aqui no blog. Excelente! Parabéns!