18 de maio de 2011

Os livro me dá preguiça

Abro meu MSN de manhã e uma amiga, revoltada, diz: “Você p-r-e-c-i-s-a escrever alguma coisa sobre aquele livro de Português que o MEC adotou. Não dá pra aceitar tamanho descalabro!” Dei um monte de desculpas, argumentei com um palavreado bonito, mas não dá para não dizer nada. Na verdade tenho mesmo é preguiça de emburacar em discursos indignados contra fatos que costumam dar em nada. Esta mesma mesmice de sempre me desanima, ao invés de me mobilizar.

Claro que de vez em quando grito, e grito alto. Porém, confesso que no caso da adoção pelo Ministério da Educação do livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, que ensina jovens e adultos a falarem os livro, me chocou, e muito. E em igual proporção me causou esta conhecida preguiça. Falar o quê? Reclamar a quem?

Houve manifestações de todos os lados. O primeiro portal da internet em que vi a notícia foi o IG, no dia 12. Depois acompanhei o desenrolar da história em outros sites. Na TV, a única matéria que vi foi no Jornal Nacional, mesmo assim na sexta-feira, 20, após o assunto já estar bombado há alguns dias.

Mas, infelizmente, problemas com a educação no Brasil não provocam a mesma repercussão que os assuntos que causam sensação, ou seja, os sensacionalistas. O casamento real, o Bin Laden assassinado, o estuprador, escândalos envolvendo celebridades costumam ter espaço privilegiado na imprensa. Escolas, alunos, educação e a importância que isso tem para a sociedade só são lembrados quando um louco entra num colégio e mata crianças impiedosamente.

Não ia mesmo escrever nada sobre isso (ainda continuo com preguiça), mas em seguida à minha conversa no MSN, eis que abro o IG e dou de cara com a manchete Apagão da mão de obra preocupa 86% dos executivos brasileiros, diz pesquisa. A matéria trata justamente da falta de qualificação profissional para ocupar inúmeras vagas de emprego à disposição no mercado. E pelo que sei, qualificação começa no falar e escrever corretamente. Já presenciei um diretor de hospital jogar um currículo de enfermeira (de formação superior!) no lixo por conter erros graves de Português. Considerando que o livro foi adotado por escolas que se inscrevem nos programas do governo federal que atendem estudantes jovens e adultos vindos da alfabetização ou que retornam à escola para concluir seus estudos, não precisa coçar muito a cabeça para avaliar o tamanho da encrenca.

E na contramão desta história, os autores fazem um experimento e dedicam parte de um livro didático a ensinar que na frase os livro ilustrado mais interessante estão emprestado, “o fato de haver a palavra os (plural) já indica que se trata de mais de um livro”. Bonito, né? O MEC, por sua vez, defendeu o uso do livro e sua manutenção, sob o argumento de que ensinando alunos a aceitarem que falar errado é certo poderá livrá-los do preconceito linguístico. Hã?! Será que nossos profissionais do Ministério da Educação se esqueceram, ou não sabem, que quem diz nós pega o peixe não passa numa entrevista de emprego? Ou sugerem eles, então, que os entrevistadores sejam processados por preconceito?

E a consequência acima, a do emprego, é apenas detalhe diante do tamanho do descaso claramente demonstrado com a educação. Tanto se precisa investir numa mudança estrutural radical no ensino no país e autores que se dizem vanguarda empurram nossos alunos pra trás. A Academia Brasileira de Letras foi uma das instituições que se manifestou contrariamente à adoção do livro, mas ao que tudo indica, vai ficar por isso mesmo. A imprensa também já fez seu dever de casa: noticiou e pronto. Qual será o próximo assunto? Quem casou com quem? Quem matou quem? Quem estuprou quem?
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12 comentários:

Anônimo disse...

A amiga revoltada, fica agradecida por ter deixado a preguiça de lado e ter resolvido escrever sobre o assunto. Falta de qualificação profissional, dificuldade de inserção no mercado de trabalho, penso que este é exatamente o ponto mais preocupante e que deve ser discutido.

POESIA EM VOLTA disse...

Giovana
A discussão é muita mais ampla é não é como a imprensa noticia. Leia em http://marcosbagno.com.br/site/ .
Converse com qualquer professor atualizado que ele vai te explicar o que é.
Beijo.

Giovana Damaceno disse...

Minha amiga Regina do Poesia em Volta, concordo em muito do que disse o Marcos no blog que você indicou. Porém, como você mesma disse, a questão a ser discutida é mesmo muuuito maior. Limitei-me a falar do comportamento da imprensa, exatamente porque ela faz o superficial, promove uma excitação aparente, depois se cala, quando na verdade deveria ser a principal colaboradora do debate em torno da mudança pela qual a educação brasileira precisa passar ontem.
Mas continuo discordando dos argumentos utilizados pelos autores do livro. Mostrar aos alunos que há diferenças linguísticas é uma coisa; já dizer que “o fato de haver a palavra os (plural) já indica que se trata de mais de um livro”, simplesmente não dá. Se o aluno aprende na escola que falar “nós vai” e “nós foi” pode ser considerado normal e que pode falar assim, se quiser, porque trata-se de uma variação linguística, alguém tem de avisar isso ao restante da sociedade, porque como eu disse, ele não sai aprovado numa entrevista de emprego falando desta forma.

Limara Lis - Editora: V Vitrine - Alinhavos de Moda disse...

Olá Giovana!

Quando, após de longos anos, eu achei que sabia escrever, veio a Reforma Ortográfica e acabou com a minha segurança: agora não sei mais escrever... (Risos!)

Este livro parece refletir, entre outras coisas gravíssimas deste nosso país, o descaso que existe em investir na evolução de seres humanos!

Abraços!

Calino disse...

Como jornalista, INFELIZMENTE voce bem sabe que jornal para vender tem de trazer notícias de estupros, roubos, assassinatos, casamentos de celebridades, BBBs, terremotos, etc., etc.
São pouquíssimos os brasileiros que comprariam na banca de jornal que na primeira página estampasse a chamada "O problema da educação no Brasil é o nosso maior problema".
Em nossa cidade, se criou o sinônimo de divertimento ser o mesmo que cultura. Pode?
E quanto a reforma ortográfica, comentada pela Limara, fico pensando é como ficam os semi-alfabetizados.
Calino

Elaine Bertone disse...

Sou formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Unesp de Bauru - mas sei que isso e nada é a mesma coisa, num país que extinguiu a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Então, quem sabe posso falar como uma simples cidadã, que paga seus impostos em dia e que concorda de A a Z com o texto postado pela Giovana. A imprensa tinha por obrigatoriedade ficar "martelando" na telinha esse assunto exaustivamente, até que alguém viesse a público pra tomar uma atitude de fato. A nossa Língua está sendo aviltada, alterada, descaracterizada e parece que ninguém se importa! Logo não conseguiremos mais nos entender e quem sabe mudaremos também a denominação do nosso sistema linguístico. Sim, porque do jeito que a coisa anda, esse nosso sistema não será reconhecido pelos que falam, escrevem e respeitam a Língua Portuguesa de verdade. É lamentável!

Limara Lis - Editora: V Vitrine - Alinhavos de Moda disse...

Olá, Giovana!

Muito obrigada pela alegria de sua visita!!! Acompanho seus textos; então leio sempre.

Desejo-lhe ainda mais sucesso!

Abração!

GIL ROSZA disse...

Quando um palhaço analfabeto se torna um dos parlamentares mais dos votados na última eleição e passa a atuar como membro da Comissão de Educação da Câmara, quando um ex-operário sem domínio gramatical clássico ou formação superior chega à presidência da república e se torna um dos lideres mais carismáticos e influentes do planeta, quando jogadores de futebol que não passaram do Ensino Fundamental entram na lista dos profissionais mais ricos do mundo segundo a revista Forbes, quando o casamento de celebridades com baixa escolaridade passa a aparecer em destaque nas primeiras páginas dos principais jornais do país, isso não abre um precedente para uma discussão séria sobre a real função da educação no país?
Quem acha que não deveria considerar um recente dado levantado pelo MEC e que indicou a realidade abaixo:

Magistério tem dificuldade de atrair jovens talentos para a carreira
Publicado em 15.10.2010, às 08h09
Quase 2 milhões de professores trabalham nas salas de aulas de escolas públicas e particulares de educação básica no país. Se a profissão já teve grande importância no passado, hoje é difícil atrair jovens talentos para a carreira. Os alunos que entram nos cursos de pedagogia são, em geral, aqueles com baixo desempenho no vestibular ou no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Uma análise dos inscritos para a edição do exame em 2007 mostra que entre os candidatos com pior nota, a probabilidade de um deles escolher o magistério é três vezes maior do que entre aqueles com melhores notas. Quem ingressa nos cursos de pedagogia, que formam os professores da educação infantil e do ensino fundamental, tem um perfil específico: baixo nível socioeconômico e pais com escolaridade baixa.

Fonte: http://ne10.uol.com.br/canal/cotidiano/nacional/noticia/2010/10/15/magisterio-tem-dificuldade-de-atrair-jovens-talentos-para-a-carreira-240056.php

Carol Cunha disse...

Ai como esse assunto me causa cólicas intestinais!!! É o famoso problema de junta!! Dá vontade de rasgar tudo e começar de novo, porque problema emendado - remendado é mais apropriado - dá uma sensação de bagunça, de que nada, nunca, será resolvido direito!! Por isso entendo e compartilho da sua preguiça. Dá preguiça mesmo militar quando o assunto é educação no Brasil. Se pensamos em contribuir de alguma forma, em nosso minúsculo metro quadrado, nos deparamos com tantos contras que chegamos a deacreditar. É corrupção, desvios, má alimentação, escolas em péssimo estado, professores semi alfabetizados... É tão "quebra-galho", "dá pra tapear", nossa educação!!!

Taís Santos disse...

Assisti ontem esse debate com o Senador Cristovam Buarque, gosto muito dele.
http://g1.globo.com/videos/globo-news/jornal-globo-news/v/v/1512976/

POESIA EM VOLTA disse...

Que bom que debate seja extendido. Que bom que mesmo que diga "menas" coisas ou "maiores" explicações, eu ainda assim serei entendida. Mas é bom que se leia muito ainda para as conclusões precipitadas. Ninguém quer tratar como normal, é para ser corrigido ao longo de muitas aulas e contextos variados. Beijo.

Anônimo disse...

Muito bom, Giovana! Vou compartilhar no facebook.
Minha irmã é professora e escritora. Hoje mesmo compartilhei o que ela escreveu no blog dela: nilzarezende.blogspot.com
Agora vai o seu. Precisamos fazer campanha para um português correto.
Um abraço
Valeria Rezende da Silva